sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O medo no cotidiano


                Ouço o historiador italiano Mauro Canali dizer que foi o medo a mola propulsora para Mussolini ascender ao poder. Fragmentos de notícias de hoje colam-se ao que ouço por aqui.
A economia em frangalhos depois da Primeira Grande Guerra e a população passando enormes dificuldades. Mais uma vez uma analogia com o país: desemprego em alta, direitos sociais eliminados, milhões de brasileiros voltando ao mapa da fome.
Havia então um desejo de salvação dos desafortunados e um líder que a prometia. Aqui também foram feitas promessas de salvação, mas não havia uma liderança promissora, apenas um subproduto da política e um complô para derrubar o governo constituído.
Mussolini juntou as promessas de arrumar o país com a construção da mídia a seu favor e a censura de quem estivesse contra para consolidar o poder. Até a imprensa estrangeira se embeveceu com sua retórica e custou a entender seus reais propósitos. No Brasil, a mídia já existia e sempre esteve ao lado do poder. Só não conseguiu barrar um governo voltado para a maioria excluída por alguns anos. Retomou com fúria seu papel de desinformar e mentir durantes as últimas eleições, continuando com o apoio ao golpe e a sustentação da turma golpista.
Mussolini tinha um sonho de engrandecimento da Itália e ele seu líder máximo que o realizaria. Aqui param as analogias. O grupo que se apossou do poder está se lixando para a terra natal, vende o país às multinacionais sem nenhuma vergonha. Promove o retrocesso a um Brasil Colônia, não mais de Portugal, mas do poder econômico e financeiro.
O entrevistador pergunta se a Itália estaria vivendo em momentos iguais e ele responde “Não”. Os desafios são outros, hoje a Itália vive outra realidade. Apenas o medo é que volta a assumir um forte papel para a tomada de decisões. Voltamos às semelhanças. O medo está contaminando a população brasileira. Embora aqui sejam sempre desenterrados velhos fantasmas que fariam rir o mundo lá fora. É chamado de comunista aquele que se manifesta por justiça social. Pesquisadores das áreas das humanidades em universidades estão sendo ameaçados. Um obscurantismo de Idade Média.
O problema maior é que a mídia vem alimentando o medo, desfocando os reais problemas do país. Apresenta consequências como causas, remexe a superfície e escolhe sempre os mesmos alvos, os pobres e qualquer diferença que dificulte seus intentos. Neste momento, se alinha ao invés de se contrapor a um discurso e ação moralizadores de grupelhos atuantes em constranger a sociedade civil, como os que apoiaram Mussolini. Neste tsunami contra direitos sociais, até o mundo artístico está sendo violentado como durante o fascismo. Todos os sistemas ditatoriais buscaram “disciplinar” a arte. Mais uma forma de ampliar o medo.
Um esforço gigantesco precisa ser feito por quem compreende a história e os mecanismos de sua produção e reprodução. Felizmente, existem inumeráveis micromovimentos espalhados pelo tecido social como anticorpos à destruição do país: intelectuais, professores, artistas, advogados, pequenos produtores rurais, políticos (nem todos fazem parte da corja dominante), sindicatos, pessoas comuns que lutam pela sobrevivência, uns poucos estados que caminham na contramão do desmando federal. Falta-lhes a visibilidade da grande mídia. Ela os ignora como sempre fez.  Que os golpes diários contra a maioria da população não nos imobilize. É preciso alimentar esses anticorpos, é preciso não desistir.
O fascismo necessitou de uma guerra mundial para ser derrubado. Temos que encontrar outro caminho por aqui.


sábado, 18 de novembro de 2017

Ruídos da Praça 2



            Sento ao lado da senhora. Ela me sorri e eu retribuo. Ela logo puxa conversa, dizendo-me:
- Vim pra Feira só pra comprar esse livro (A Arte de ser Infeliz), dizem que o psicanalista é muito bom. Aí aproveitei e comprei este livro sobre D. Pedro II, gosto muito de história.
- Eu também, queria prestigiar uma pessoa conhecida.
- Consegui trocar o horário de um trabalho com o outro e deu tudo certo.
- Que bom, quando a gente consegue resolver tudo, não é?
- A senhora sabe que eu sou monarquista?
- Ah! Como é ser monarquista hoje aqui no Brasil?
- É um sistema de governo, como o presidencialismo, o parlamentarismo. A gente voltaria pelo parlamentarismo.
- Sei, mas como implantar uma monarquia. Quem assumiria o cargo de rei?
- Tem os descendentes que moram quase todos em São Paulo. Seria pelo parlamentarismo como na Espanha, Inglaterra, Suécia. A gente não quer partidos.
            A senhora retira uma publicação de várias páginas e dentro dele um folheto com a imagem de D. Luiz Gastão de Orleans e Bragança. Ela me mostra e declara:
- Seria ele, mas não anda bem de saúde, então poderia ser... Não entendi o nome, mas não lhe pedi para repetir.
- Por que voltar à monarquia?
- A senhora sabe que nos países com monarquia não têm corrupção? É pra mudar e gastar muito menos. O Congresso que está aí é muito caro.
- Eu ouvi que houve escândalo recente com os reis da Espanha.
- Mas, aí a gente tira. Olhe o que aconteceu na Arábia Saudita, teve um deles que se corrompeu e eles tiraram.
- Mas os reis também são caros pra sustentar.
- Mas é menos, o povo gosta, quer que continuem onde eles existem, porque tem mais transparência.
            A senhora, a quem não lembrei de pedir o nome, se levantou ao chagar perto de sua parada. Enquanto saía foi dizendo que a monarquia seria nossa salvação, ela estava trabalhando para isso.
            Fui olhando o material que continuou nas minhas mãos. Não o devolvi para ser gentil. Afinal, fiquei sabendo de mais um movimento que existe por aí. No alto da capa há uma bandeira do Brasil com um sinal de tráfego indicando curva à direita. Abaixo, outra bandeira que substitui o globo azul por um globo vermelho com a foice  e o martelo, tendo ao lado o sinal à esquerda. Abaixo das duas, em tamanho maior a bandeira verde e o emblema da monarquia substituindo o globo azul. Acima dela um sinal para cima e as palavras “Para frente!”. Na contracapa: “MONARQUIA: um sonho que pode se transformar em realidade”. Invocando o desejo de se transformar como os países do primeiro mundo com monarquia.
            Fico me perguntando que informações, que vínculos e que desejos se mesclam para produzir um pensamento fragmentado como o que acabo de ouvir. Ainda bem que a senhora desceu do ônibus logo. Se tivéssemos continuado a conversa, quase um monólogo dela, teria eu alguma informação ou pergunta com potência para fazê-la pensar além do círculo que mostrou ter construído ao redor?
Há momentos em que a palavra não vem em minha ajuda.

                

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Mão direita




Um olhar carinhoso diante de mim e eu feliz. Peguei a caneta, sorri e curvei a cabeça para escrever uma dedicatória. A mão começou a tremer e meu corpo acusou lembranças de momentos semelhantes. Forcei a escrita. Minha letra não apareceu, traços irregulares desenharam as palavras ditadas pelo cérebro. Respirei fundo, nada. Distonia em meus movimentos e a vontade amarrada. Momentos significativos de minha vida se apresentaram, enquanto lutava pelo controle de mim mesma. Pânico por não conseguir assinar meu nome, angústia que me fez segurar a mão direita com a esquerda para terminar um texto enquanto o tempo se extinguia, aceitar oferta para preencher pequeno formulário. De alguma maneira, situações ligadas por uma mesma carga emotiva que escapava pela mão direita, aquela que escreve desde pequena, que produziu as primeiras frases, que me levou a um mundo de histórias e reconstrução de mim mesma através das palavras. Ela é que deixava escapar o que estava muito bem escondido em mim a ponto de ficar surpresa com a reação. Desculpei-me de alguma forma com a dona do olhar, suspirei, respirei fundo, não lembro o que escrevi. Ordenei a mim mesma para não dar vexame, havia muitas pessoas esperando. Estavam ali para confirmar seu afeto e compartilhar alegria comigo. Não sei quantas amigas e amigos levaram a prova de meu alterado estado emotivo. Não sei se consegui expressar meu contentamento e minha gratidão por aqueles momentos. Não pude contar o tempo que levei para controlar minha emoção. Por que era tão importante fazê-lo? Por timidez? Por pudor?  Talvez sejam esses sentimentos que me fizeram produzir o livro. Talvez eles também quisessem se mostrar. Minha única certeza é o desejo de emocionar quem for ler o livro que autografei.





domingo, 5 de novembro de 2017

Ruídos da praça



- Boa tarde, preciso ir para a rua...
- Qual o caminho que a senhora prefere?
- Pode seguir à esquerda e lá adiante tomar a avenida principal. Obrigada.
- Certo, a senhora manda.
- Parece-me que a Feira está fraca este ano, não é?
- É. O movimento pra gente também está fraco. E deveriam boicotar, cada vez menor, este prefeito está acabando com a feira e com a cidade.
- É verdade, a cidade está abandonada. E já não tem bancas no cais do porto, só aqui concentradas na praça. Mas um boicote prejudicaria os escritores, as editoras, todo mundo.
- Odeio esse cara está nos prejudicando como nenhum outro.
- Os dois prefeitos anteriores foram omissos realmente e desconstruíram o que feito anteriormente. O atual, então, está sendo pior ainda.
- Este prefeito é um guri mimado, o que sabe ele do que passa um trabalhador? Sou profissional há 37 anos e nunca vi coisa como agora.
- O senhor...
- Nunca passei dificuldades como agora. Nunca. Tenho mulher, filhos, netos e nunca passei as necessidades que estou passando agora.
- E...
- O Uber, o Cabify, tudo solto, fazendo o que querem. Os motoristas de Gravataí vêm para cá, porque o prefeito de lá é macho, não deixa eles dominarem, não. Aqui tem motorista com tornozeleira, tem ladrão, tem bandido na direção. Eu nunca tive problema com a EPTC, com os azuizinhos, mas gora sim, porque eu dou neles se vierem se atravessar.
- Eu não tenho aplicativos pra pedir esses carros, continuo a chamar um motorista que conheço há muito tempo, então nem sei o que acontece.
- A gente conhece a cidade, tem muitas regras pra obedecer, eles não, qualquer um pode pegar um carro e se meter a taxista.
- Eu fui professora, meu trabalho foi outro, então...
- A senhora sabe que eu tenho o maior respeito pelas professoras, lhe digo que devo tudo o que eu sou às professoras que eu tive, o que eu sou agora. Este país tinha que pagar muito bem às professoras. Como no tempo do Brizola, ele sim que valorizava a educação. Este país tinha que botar dinheiro é na educação.
- Lembro, o senhor tem razão. A educação é fundamental para qualquer país, mas...
- Ele foi um grande governador.
- O senhor pode parar em frente àquele prédio à esquerda.
- Gostei da senhora, gostei mesmo. A senhora sabe que sou diabético, tenho quatro tipos de câncer, pressão alta, isto é saúde? Trabalho desde manhã cedo, depois daqui acho que vou pra casa, mas antes quero lhe dizer uma coisa: a senhora não fique braba comigo, mas o que iria melhorar tudo isso é voltar a ditadura.
- Não precisa me dar o troco, não. Tenha um resto de dia tranquilo, boa noite.

- A senhora pode ter certeza, a ditadura é a única solução. Boa noite.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Descobrindo o silêncio



Para que serve a literatura? Interrogação vinda de vozes díspares. Desta vez eu a pesquei ao terminar o livro A ponta do silêncio de Valesca de Assis. O livro é uma resposta à pergunta.
Um livro denso. As palavras pesam um peso necessário para compreender o silêncio que precisa ser agarrado pela ponta e descoberto para que haja a redenção de quem não tem palavras para a sua dor.
Um livro que dói. Não podemos deixar de nos identificar em algum momento com a personagem principal, no desvelamento de seus silêncios. Talvez, não tenhamos vivido situações com a gravidade das quais ela enfrentou. Silenciar, no entanto, é um exercício que as mulheres têm exercitado continuamente ao longo da história. Levantar a pesada coberta que esconde esta contenção é um ato corajoso nem sempre possível. Por isso, contar a história de alguém ajuda a olhar e a escutar as múltiplas histórias. Olhar e escutar o que está mais distante é um dos caminhos para fazer o mesmo com o mais próximo. Ajuda a compreender. Ajuda a encorajar-se.
A forma como as frases contam pouco a pouco o que foi vivido dentro da história prendeu-me, mesmo depois de ter terminado a leitura. Foi como descobrir  bilhetes recolhidos de uma mesma vida e de outras, interligadas. Continuei a lembrar passagens por vários dias. Os interstícios entre um afazer e outro traziam de volta trechos do livro. Com eles vinham as dores, as esperanças e as limitações de seres humanos. Revivi as emoções que o livro transmitiu o tempo todo.

Por tudo isso e por algo mais que, talvez, nem consiga acessar, encantei-me com a leitura. O encanto que reafirma o poder da literatura tal como é oferecida em A ponta do silêncio.

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

A árvore



Ela começou a perder suas folhas. Sei que as primeiras a cair são poucas. Depois, a quantidade vai aumentando e, em alguns dias, o chão fica coberto de pequenos corpos amarelos quase o tempo todo. Não adianta varrer. Não guardei quanto tempo isso demora. No final, a árvore fica totalmente desnuda com seus galhos espetados para o alto e para os lados.
Não sei o nome da árvore, a que espécie ela pertence.
Mas sei bem o que ela me faz pensar. No país, estamos perdendo aceleradamente milhões de pessoas. São aqueles que ficam sem emprego, ou passam a um trabalho informal. São os que não conseguem ser atendidos por um médico e, muitas vezes, morrem por banalidades. São as crianças e jovens que ficam sem pais em condições de protegê-los, e o futuro interrompido. São os velhos aos quais lhe roubam o direito de serem cuidados após terem trabalhado toda a sua vida. São as folhas na ponta de um sistema corrompido e cruel.
As folhas que caem adubarão o solo onde se enraíza a árvore e outras reaparecerão tenras e vivas até completarem um novo ciclo. Diferentemente, as mulheres e homens que caem no sofrimento e na injustiça não terão outra vez. Há uma só vida para ser vivida. Para esse, há uma só varredura.
Há pessoas que pensam jamais cair, porque o país não é uma árvore. Enganam-se. De alguma forma todos caem, mesmo aqueles que se fecham nas máscaras e entre os antolhos do egoísmo e da indiferença por terem acesso a bens materiais. A estes, no mínimo, é reservada a impossibilidade de se tornarem na parte melhor de si mesmos, a de completarem o primeiro mandamento de uma grande religião. Ou preceitos de outras tantas crenças. Aquelas às quais muitos dizem pertencer. A indiferença e ódio também ressecam e provocam caídas, talvez, não reconhecidas.

A diferença está na existência de um destino para a árvore e na possibilidade de não se realizar para os humanos. Esta é a tragédia. Poderia ser evitada.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Recorte

Um retrato do país pode ser visto em poucas dezenas de metros da rua da Praia. Onde antigamente passeavam os abastados, esparramam-se pelo chão panos estendidos com as mais variadas quinquilharias: brinquedos baratos,  objetos eletrônicos, relógios, CDs e uma colorida espécie de roupas e tênis de marca. Arrisca-se afirmar que sua procedência é o sudeste asiático pelas vias eternas das margens do sistema fiscal.
As lojas que margeiam esta fileira central da rua também mudaram. Não existem mais aquelas que fizeram sucesso e atraíam a parcela da população próspera. Sobram uma ou outra, mas tudo se popularizou.
O comércio da rua lembra o apinhado de bancas da Mal. Floriano junto à Praça XV antes de ser varrido para o horrendo camelódromo suspenso sobre o terminal de ônibus entre a Voluntários da Pátria e a Júlio de Castilhos. Prédio que parece ser antigo, e ser necessária a sua demolição para dar lugar a algo melhor para o centro da cidade e para os trabalhadores que diuturnamente passam por ali. No entanto tem poucos anos de vida e uma história escusa para a sua construção.
Este comércio informal é desobediente, porque em poucos segundos desaparece com a chegada de uma van da fiscalização municipal. Deve existir algum código de aviso antecipatório. Tudo é muito rápido. Um tempo para a rua ficar à disposição só dos pedestres, de algum artesão autorizado e do grupo de indígenas com seus produtos. Mas volta depois, conforme os hábitos já conhecidos do surgimento e saída dos homens da lei. Parece um movimento pendular arbitrário de um relógio invisível e desconjuntado.
            Um incessante caminhar acontece pelos lados destas mercadorias expostas.
          Quem compra ali?, pergunto. Já sei a resposta, são aqueles que dificilmente ou nunca teriam acesso a brinquedos dentro das normas de segurança e a produtos com controle de qualidade. No entanto, a origem das mercadorias em qualquer loja pode ser a mesma, e as mãos que os fabricam podem sofrer a mesma exploração. O que une tudo isso é a invisibilidade da produção.

           Cada vez mais, este tipo de comércio é uma saída para quem está na ponta mais exposta do desarranjo do mundo do trabalho, da perda de direitos sociais, de abandono das políticas públicas de inclusão social. É um termômetro do que sucede no país em nível macro, mesmo que a população envolvida nem sempre entenda porque está ali. E a temperatura da exclusão continua subindo. Como se desdobrará esta história?

sábado, 2 de setembro de 2017

Mutação


Rosa pálido,
e às vezes branco
 entre o verde,
rosa brilhante e também amarelo
em espaços só seus.
Atrás vem o lilás, que goteja no chão,
o fúcsia e o vermelho despontam,
se derramam.
Outros tons,  amarelo e alaranjado
se misturam.
É o arco-íris que um dia
se entristeceu,
e se despedaçou,
e se derramou
sobre a cidade.
Reaparece aos poucos
de jeito atrapalhado
pelas ruas
em cada estação.


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

É preciso lembrar




Desta vez foi uma amiga muito próxima a ser assaltada. Ontem, foi uma pessoa apenas conhecida. Anteontem foi uma pessoa desconhecida. Voltando no tempo, poderia fazer uma lista interminável.
Não se trata, no entanto, de saber se conhecemos ou não quem sobre a violência pronta a saltar de cada canto da cidade. Trata-se de comprovar nossa vulnerabilidade e de podermos ser a próxima pessoa. Mesmo assim, não é uma questão individual, mas a constatação de que vivemos num tecido social esgarçado. Pior ainda, sem perspectivas de melhorar. Ao contrário, confirmando a cada manhã o desmonte da rede de proteção cuja responsabilidade é do Estado. Isto em nível municipal, estadual e federal.
Com a constatação do terremoto a solapar nossa economia via entrega de nossas riquezas às multinacionais por um governo ilegítimo, só temos perspectivas aterradoras. Terremoto acompanhado da destruição de leis que garantem um mínimo de direitos sociais.
Tudo isso com a continuidade de uma grande imprensa que mascara a realidade e faz um trabalho competente de alienação do povo do que realmente está acontecendo.
Então, o problema da violência sobre uma amiga ultrapassa as fronteiras do individual, da solidariedade para com quem conhecemos, mas nos chama mais uma vez para o quadro de descalabro em que estamos mergulhando há tempos. E com perspectivas péssimas.
Tudo isso reforça a tese de não aceitarmos o derrotismo de que na política é tudo igual. Há exemplos de bravura na luta contra uma maioria podre, e são estes que é preciso identificar. Há lideranças no meio estudantil, nos sindicatos, no campo, nas universidades que lutam e se põem a risco. É com eles que precisamos nos alinhar.

O que não cabe é o derrotismo, só serve para dar lugar aos espertos. Não podemos nos encolher na indiferença e no cuidado apenas do próprio quintal. É legítimo sermos tomados pela tristeza e pela sensação de impotência, mas não podemos desistir. Antes, resistir.

O que fazemos hoje é parte da história que deixamos aos nossos filhos e netos. E aos filhos e netos de todos. É preciso lembrar.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Fuga



Busco proteção depois da ponte
uma língua de lama me persegue
cobre minhas pegadas
destrói tudo às minhas costas
um derrame de lixo cai ao meu lado
caminho mais depressa e alcanço outra ponte
desmorona esta também
minhas pernas correm, meus pés tropeçam
mal atravesso a terceira ponte
ela explode no ar
vejo outra lá adiante, tão longe
estou sem fôlego, deslizo num chorume
é impossível seguir
uma mão se estende
me ajuda a correr
alguém grita que ainda há tempo.


Tradução de sentimentos que me afligem diante do descalabro no país.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Reverso

As manifestações de ódio lidas no face me deixavam muito mal até pouco tempo atrás. Bloqueei muitos dos que as escreviam nos comentários, porque não queria que contaminassem a minha página. E continuo não querendo. Alguns dos meus “amigos” também foram excluídos, nem tanto por manifestações de ódio, mas pela reprodução de mentiras sem critério de sites criados para alimentar um clima permanente contra PT, Lula, Dilma e suas políticas sociais.
Horrorizava-me com a impunidade que beneficiava políticos homofóbicos, defensores da ditadura e de torturadores, racistas e machistas. O que eu considerava de pior no cenário político do país me deixava sempre conectada e me fez literalmente adoecer mais de uma vez.
Mudou alguma coisa, hoje? Infelizmente, não. Mas, aceitei o convite da Mafalda e fui tomar a vacina contra o ódio com ela. Porque não deixo de me indignar com tudo o que continua acontecendo no país, mas procuro não conectar com a impotência diante dos fatos que estão acontecendo. Gasto o mínimo de meu tempo para tomar conhecimento deles. Antes, procuro reproduzir as manifestações contrárias, as ações que continuamente são feitas para enfrentá-las. E há muitas, espalhadas pelos mais diversos cantos do tecido social. Intelectuais, movimentos sociais, grupos de mulheres, estudantes, para citar apenas alguns exemplos, registram a história, movem ações na justiça, vão às ruas e erguem sua voz. O PIG (partido da Imprensa Golpista, como diz Paulo Henrique Amorim) é que teima em ignorá-las ou diminuí-las.
Constatamos num grupo de amigos que perdemos a batalha cultural desencadeada pelo poder das multinacionais para se apossar das riquezas do país com a cumplicidade de canalhas nacionais. Grande parte da população foi inoculada com inverdades que as deixaram cegas e surdas. Mas a história não se imobiliza, o que vale é continuar junto às forças que querem um mundo melhor. É com a consciência deste momento da história que temos que lidar. Não acredito que vá ver as mudanças desejadas, mas estarão aqui meus filhos e netos. E os filhos e netos de todos dos meus amigos e dos que não o são, que não têm culpa dos desmandos da geração que está depredando o país.

Reconhecer uma derrota não é ter sido vencido. É necessário para compreender como continuar lutando.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Cantos

Releio um Canto da Divina Comédia de Dante Alighieri todas as manhãs. Encontrei esta forma de começar o dia há algum tempo, e sem premeditação. Assim como em certo momento a gente decide que vai caminhar três vezes por semana, ou que vai tomar água antes de dormir, ou quaisquer outras resoluções. Nestas últimas, no entanto, há sempre algo consciente que foi elaborado em doses preliminares e convergem com alguns fundamentos inconscientes.
No caso da leitura, no entanto, parecia ter sido acidental. Se acreditarmos nesta palavra. Arrumando uma pilha de livros fora de lugar, encontrei o volume Purgatório. Não o guardei, deixei-o sobre a mesa da cozinha onde tomo café de manhã. Havia um marcador no Canto XXII. Na manhã seguinte, enquanto sorvia o primeiro gole, folheei o livro, observei alguns trechos sublinhados, mas não lembrava de havê-lo lido. Então fui ao início, como sempre faço. Li as “orelhas”, iniciei o prefácio e o encanto aconteceu. Não me dei conta de ter terminado o café. Eu tinha que sair naquela manhã e  devia interromper o momento prazeroso, embora tendo despertado para a realidade no trecho “E se pensarmos que a Europa, e a Itália em especial, já desde o século XI se encaminhava para uma vida de dinamismo burguês que deixara para trás a imobilidade da vida feudal, chegando por volta do final do século XIII e início do século XIV, na época pois de Dante, a uma explosão de costumes e de modos de vida e a contrastes de interesses sociais capazes de abalar os alicerces de toda a sociedade...”.
Então fui pensando no que estava acontecendo no país, sete séculos depois Um golpe contra uma Presidenta eleita democraticamente, e no lugar um grupo de políticos com um passado nebuloso, e em cujas mãos o país está sendo vendido a troco de bananas para grupos internacionais. Um sistema judiciário onde pesam suspeitas de partidarização e outras acusações mais sérias. Um congresso onde leis as mais retrógradas e contra os interesses da maioria da população, a que trabalha sob condições opressoras, estão sendo votadas cinicamente.
No mundo, as guerras continuam tão ou mais cruéis do que sempre foram. Milhões de pessoas massacradas e expulsas de suas casas em nome de religiões e dos mais variados motivos, sem terem o acolhimento devido nos lugares para onde são empurradas pelo desespero.
Um tempo em que parecem ser mais fortes o individualismo e a incapacidade de se colocar no lugar do outro. Então detenho-me na dúvida sobre se realmente evoluímos ou se apenas atualizamos nossos erros com o auxílio dos avanços das ciências, das tecnologias, da comunicação que alcança todos os cantos do planeta.

Dante visava a salvação moral da humanidade repassando séculos de história. A cada manhã, procuro nos seus Cantos uma inspiração. Se não encontro respostas como gostaria, e sei que não as vou encontrar, começo o dia com a delícia de uma leitura que me convida a sair da pequenez da lamúria e a viajar na grandeza da arte pela palavra.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Em busca de harmonia

                Foi na crônica Era uma Vez o Parque da Menina Má de Moisés Mendes que tomei conhecimento do desparecimento do Parque Salazar em Lima no ano de 1998 para dar lugar a um centro comercial a céu aberto. Por sua vez, Mendes tomou conhecimento do acontecido por um artigo de Vargas Llosa, no qual lamentava que o lugar mágico frequentado por ele nos anos 1950 tivesse sido transformado em lugar de consumo. A falésia que abrigara palmeiras e canteiros de gerânios havia sido escavada com um buraco enorme e o empreendimento ficou encravado no paredão. Tudo isso mereceu comparações de Mendes com as possibilidades de empreendimentos na orla no nosso rio Guaíba (alinho-me com os estudiosos que defendem essa nomenclatura).
            Relembro, então, as manifestações que têm ocorrido em Porto Alegre para que projetos insanos não progridam, para que não prevaleçam interesse imobiliários, e para que a revitalização da orla mereça ser feita à base dos interesses de toda a cidade com o cuidado de não lhe levar ordas de veículos e concentração de massa construída num lugar com uma já grande densidade populacional. Isto, além de tudo, alteraria o microclima do centro e dos entornos, com todas as consequências para uma pior qualidade de vida, direta ou indiretamente, de toda população.
            Não é por falta de estudos que Porto Alegre deve aceitar um projeto com centro comercial, hotéis, prédios de dezenas de andares a fazer cortina para a brisa que suaviza o calor nas ruas já emparedadas de grandes edifícios e onde circulam milhares de pessoas todos os dias. Quem se beneficiaria com isso? Esta é a pergunta a ser respondida com honestidade.
            Não é por falta de conhecimento e de exemplos pelo mundo afora que não possamos escolher um projeto que harmonize um menor impacto nas margens de nosso rio com a sua modernização para que mais e mais pessoas usufruam do que ali for feito.
        Sem entrar no mérito do quanto cada império destruiu e saqueou o território conquistado ao longo da história, ficou-me a lembrança especial de um lugar na Sicília, o teatro greco-romano de Taormina. Foi erguido pelos gregos possivelmente no século III a.C. e, posteriormente, recebeu intervenções dos romanos no século II d.C. É possível ainda hoje, ver as marcas dos dois povos, a degradação do tempo e a conservação feita nos dias de hoje. Um testemunho da história milenar que por ali se desenrolou e sobre ele, a partir dos anos 1950, a recuperação do indispensável para a realização de espetáculo teatrais ao aberto, concertos, cerimônias de premiação do David di Donatello, concertos sinfônicos, óperas e balé. Estes são alguns dos exemplos do que ocorre ali.
            Não temos aqui testemunhos da grandeza de uma estrutura greco-romana, mas temos as instalações do cais, a usina do gasômetro,  a beleza das margens, das águas, das cores e da brisa de um lugar que pode e deve ser apreciado e usufruído por todos. Sem escavações e centro comercial é possível remodelar e preservar nossa história.

Então o que se fizer ali não pode se render à lógica dos negócios e dos rendimentos que dizem respeito a apenas uma parte dos habitantes da cidade e à custa de alguma perda para todos.