quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Infância negada

 

        Nós estamos em guerra, não uma guerra com bombas e drones assassinos. Vivemos a guerra da indiferença e da cegueira diante dos problemas sociais, do sofrimento das pessoas que apesar de trabalharem durante todo o dia não conseguem chegar ao fim do mês com seu dinheiro. Para quem tem seu sustento garantido, sua casa confortável, seu plano de saúde e seus filhos num bom colégio não imaginam o quer dizer faltar dinheiro até para comer. Tudo isso me vem à cabeça ao ler o recente levantamento do Observatório de Políticas Públicas com a População de Rua.

            Existem atualmente, agosto de 2026, 36 crianças em situação de rua em Porto Alegre e sua idade varia de zero a 17 anos.

Não consigo imaginar como possam sobreviver na rua, muito menos nesta época de inverno na nossa cidade. A primeira coisa que me vem à mente é que alguma criança com um pouco mais idade esteja cuidando daquela que nem completou seu primeiro ano de vida. Será levada no colo quase caindo, porque os pequenos braços que a amparam mal conseguem suportar seu peso, como já tive a tristeza de testemunhar. O primeiro pensamento é que uma criança tenha escapado arrastando seu irmão ou irmã menor, para fugir de maus tratos por parte dos quem deveria protegê-los. É sempre o lar tóxico que a expulsa de casa. Mas não consigo julgar nem os adultos que não conseguem cumprir sua primária obrigação de prover e proteger, a miséria humana (não apenas a física, mas a psicológica e a moral) tem múltiplas causas geradas pelo modo de vida da sociedade capitalista, semente cancerígena da exclusão, da injustiça, do individualismo e do egoísmo autofágicos. Uns são atacados já ao nascer, na raiz da própria sobrevivência, outros desenvolvem outras doenças mesmo na abundância.

A indignação por saber que há crianças desamparadas na rua aperta minha garganta, ainda mais quando vejo políticos de direita serem contra a eliminação da escala 6X1, uma migalha para melhorar a situação de enormidade dos trabalhadores, os que ainda estão tendo um lugar protegido por lei para trabalhar. Muitos nem fazem parte desta rede. São indecentes aqueles que esbravejam contra o aumento do salário mínimo, valor que nem consegue prover as necessidades mínimas de um só pessoa, quanto menos de uma família como diz a nossa Constituição. Quantas crianças estão dependendo destes trabalhadores para que sejam minimamente protegidos das ruas? Nem falo no direito a uma boa alimentação, a uma boa escola, a divertimentos, enfim, a serem crianças em condições necessárias para que se desenvolvam plenamente.

Que sociedade é esta que defende a família, mas nega direitos para que as famílias de trabalhadores tenham o suficiente para cuidar de seus filhos e convive com crianças sobrevivendo na rua. Como a visão destas crianças não gera indignação coletiva, não provoca uma reação imediata do poder público para tirá-las de imediato daquela situação!

Como crescer como cidadão, quando os direitos básicos de sobrevivência lhe são negados, como evitar que uma criança desamparada na rua não morra ou não acabe fazendo algum delito e seja trancafiada numa instituição para delinquentes juvenis antes que alguma providência ande nos caminhos da burocracia?

E ainda há quem diga que só é pobre quem quer, quem não quer trabalhar e quem só quer viver dos programas sociais. As estatísticas mostram que o bolsa-família, cuja exigência é a manutenção dos filhos na escola, salva-os da rua e lhes possibilita outro caminho, respeita o direito de serem crianças. As da rua não sabem o que é ser criança.

No entanto, um programa social é um paliativo a uma sociedade que necessita ser transformada, onde os direitos de todo cidadão fossem respeitados e cada um pudesse prover com dignidade a sua subsistência.

terça-feira, 16 de junho de 2026

As sementes foram preservadas


 

Ler o livro M – La fine e il Principio de Antonio Scurati é ter uma tela aberta para ampliar o entendimento sobre o tempo presente vivido no Brasil enraizado no papel e privilégios das Forças Armadas, na existência de forças políticas de direita e extrema-direita durante a ditadura civil militar.

Ao final da guerra, com a vitória das forças antifascistas, a morte do fascismo e o estabelecimento de um estado democrático através de um governo com representantes das grandes forças que lutaram na resistência, o comunismo, o socialismo e a democracia cristã, a sociedade italiana acreditou que o passado fora vencido e o futuro era uma estrada a ser percorrida com sua capacidade de trabalho e sem obstáculos. Mesmo assim, muitos italianos emigraram por medo de nova guerra mundial, quando eclodiu a guerra na Coréia poucos anos depois e boatos de novo perigo para a Europa.

No entanto, o fascismo na Itália não fora exterminado, mesmo com a morte de Mussolini e de alguns de seus comparsas, porque muitas sementes sobreviveram. Alguns dos fascistas mais próximos a Mussolini fugiram para a Argentina, Brasil e outros países. E outros não foram devidamente responsabilizados e punidos pelo novo governo. Foi o grande erro na história do país. E eles frutificaram e se infiltraram nas instituições do país e reapareceram legalmente em partidos, alguns se elegeram e hoje governam o país. É o que nos conta Scurati em cinco volumes sobre o fascismo, mas mais especificamente os últimos meses da República de Salò, no livro citado, com governo fantoche de Mussolini no norte do país e mantido pelos nazistas em retirada. Este foi o período menos descrito pelos historiadores, segundo o escritor, mas o mais cruel, onde atrocidades foram cometidas pelos sequazes do ditador, que culminaram com o seu justiçamento numa praça de Milão.

No Brasil, o fim da ditadura ocorreu com atos do próprio governo Figueiredo, que aprovou a Lei da Anistia em 1979, concedendo relativo perdão político a opositores do regime entre 1961 até aquele mesmo ano, mas, em contrapartida, a medida também protegia militares envolvidos em assassinatos e torturas. Este perdão aos torturadores foi a preservação das sementes que frutificam até hoje dentro de uma ordem institucional continuamente solapada. Foi o nosso erro, ou apenas o que foi possível na época.

Nem uma nova Constituição em 1988 conseguiu livrar o país do ressurgimento das mesmas forças autoritárias vencedoras em 1964, com o agravante de se apresentarem com novas roupagens, com novas formas de poder, mas com o mesmo apoio da imprensa tradicional que sustentou o golpe naquele ano, e num contexto mundial de reorganização da extrema-direita.

O livro de Scurati conecta-se com as análises sobre a história brasileira e amplia as lentes para compreender o que se passou e o que precisa ser feito para enfrentar o que ocorre em nossos dias. É ainda necessário falar sobre o que aconteceu, não podemos esquecer.

Obs. - Este quinto volume ainda não foi traduzido para o português, mas acredito que logo o será.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Stella Stellina

 

Tomo café enquanto vejo as notícias que seleciono no youtube. É sábado, e não tenho compromissos, uma boa manhã para escrever, fui dormir pensando nisso.

Tempo de rever o passado, fazer um balanço, ser grata à caminhada que me trouxe até aqui. Grata pelos filhos e netos. Tempo de desacelerar, de espera.

Primeira notícia que aparece no meu celular “os EUA atacam o Irã”.

Perdi as esperanças cultivadas ao longo da vida, mas ando procurando-as com teimosia, com obsessão, em toda forma de resistência que existe para que o mundo não se autodestrua. E as notícias que me chegam são um choque.

Antes de dormir eu havia escutado uma linda entrevista de Ermal Meta sobre a música Stella Stellina em Sanremo. Escutei-a não só com os ouvidos, mas principalmente para o coração. O cantor disse que era uma música distópica, porque convida a mover o corpo, mas a letra fala do horror do assassinato das crianças em Gaza. Dançar sobre a tragédia seria impossível. Ele tinha optado por usar sua arte para falar do que tinha que ser falado. Suas palavras foram uma carícia.

Este ano eu decidi não assistir Sanremo como fiz nos últimos anos. Cansei-me das futilidades, da censura imposta aos discursos políticos, ao cinismo que o atual governo italiano impõe à RAI, que é instrumento do estado e transmite o festival. Desde o início deste governo, diferentes profissionais foram demitidos, programas foram reestruturados e censura foi imposta a qualquer discurso de esquerda. O jornalismo foi o mais decepado. Sanremo não poderia escapar a esta poda.

Eis que escuto Stella Stellina no youtube. E a entrevista com o autor. Ajudou-me a encontrar o sono e dormir razoavelmente bem. Ele furou o bloqueio com sua arte.

Mas a manhã não me poupou. Como viver o cotidiano, sabendo que os EUA estão lançando bombas sobre mais um país? Não basta o que está acontecendo na região, para falar somente numa parte do mundo? Genocídio na Palestina, começado há setenta anos. Líbano, Iraque, Cisjordânia, Síria. EUA e Israel lançando o horror ao redor no Oriente Médio, e o mundo cúmplice, não apenas indiferente. A parte do mundo horrorizada está impotente.  

Nunca imaginei ser testemunha de um tempo tão terrível. No século passado demonizaram a URSS, mas boa parte da humanidade tinha esperança de um mundo melhor, restava-nos a promessa do bem viver ocidental. Vivemos na obscuridade, a União Soviética foi uma barreira ao imperialismo americano, apesar de seus fracassos internos. Os EUA nos venderam a ilusão de um bem estar que nunca chegou para a maioria do ocidente, mas nos ofereceram guerras intermináveis.

 

Segunda-feira. A guerra que EUA e Israel começaram contra o Irã recrudesceu. Aqueles países sempre usaram a morte para continuar a existir.

Leio as notícias rapidamente, porque meu coração disparou. Passo para a entrevista do filósofo Franco Berardi, nem ele me poupa, fala sobre a juventude que desistiu e vive a solidão: “Agora, a verdadeira novidade é que a nova geração está consciente do fato de que o genocídio é a regra do mundo em que vivemos hoje”.  Diante de todas as guerras que estão em curso e da cooptação da mente da geração que nasceu no mundo digital e não conhece outra forma de ser, Berardi não vê possibilidade de esperança para a humanidade: “E o que compreendo é isto: a espécie humana não sobreviverá a este século. Temos de criar as condições para a alegria e a solidariedade durante a agonia.

Apesar de tudo, volto a Stella, Stellina e as todas as vozes que dizem ao mundo que ainda há tempo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Meu cotidiano diante do belicismo de Trump

 

Os EUA atacaram a Venezuela e sequestraram Maduro.
O que significa este fato para mim individualmente? Se eu vivesse parcialmente informada, poderia espantar-me com a agressão perpetrada contra um país sul-americano; ou, ficaria indignada, porque não compactuo com a arrogância dos governos norte-americanos?; ou ficaria perplexa, sem entender tanta ousadia por parte daquele país?; ou, ficaria chocada com a audácia de Trump, considerado um maluco por parte de alguns noticiários?; ou aplaudiria?
Só quem vive em bolhas de fakenews pode festejar.
Acompanho o que acontece no mundo cada vez mais assiduamente. Conheço as invasões realizadas pelos EUA ao longo da história e as consequências catastróficas para os países onde ocorreram. Todas elas por motivos diferentes dos invocados, ou seja, por interesses ocultos (nem tanto), econômicos e estratégicos deles próprios.
Não me cabe analisar a situação para a qual há jornalistas e pesquisadores excelentes e com conhecimentos para isso. A minha indignação e temores são de uma cidadã comum que está atenta aos acontecimentos do mundo, que viveu a história desde a segunda guerra mundial, que sonhou com um mundo melhor, quando havia narrativas para esta utopia no século passado. Infelizmente, o século atual mostrou-se desde o início um desastre e, ano após ano, as ameaças à própria sobrevivência da humanidade aumentam e não nos deixam viver o cotidiano com tranquilidade.
Tenho consciência de que, no Brasil, fomos salvos com a eleição de Lula. Éramos governados por um bando que promoveu o saque do país, e nem quis imaginar o que teria acontecido se o governo anterior tivesse continuado. A sensação é de viver num oásis, apesar de todas as ameaças e perigos que continuam ativos, um deles dentro das nossas trincheiras e se mostra através do regozijo de políticos brasileiros.
Neste contexto, vejo os perigos desta ação dos EUA representa para o meu cotidiano, como o veem todos os brasileiros que acompanham os acontecimentos dentro do nosso país. O que aconteceu na Venezuela não é problema apenas daquele país. Porque sempre tivemos intervenções americanas, que reverberaram no cotidiano através do estrangulamento dos nossos movimentos socias e da nossa imprensa com posteriores mudanças nas nossas diretrizes educacionais, na nossa cultura e na construção de nosso imaginário, ou seja, na produção de nossa subjetividade. Tudo através de ações gradativas e ignoradas pelo grande público. Um saldo, sempre atualizado, sinalizado com a reverência que boa parte da população tem pela língua, pela cultura e pelo modo de viver daquele país, a ponto de se sentir inferior e desprezar o lugar onde vive. Isto chama-se colonialismo, do qual nunca nos libertamos.
Acompanho analistas com diferentes formas de ver os acontecimentos, eles são unânimes em sentir o perigo para o Brasil neste ano de eleições. Não há limites para os EUA com Trump, não há leis internacionais que eles respeitem, mostraram que estão pondo em prática o plano de recompor seu império nas Américas. O Brasil e as posições do Governo Lula são um empecilho, e eles estão se mostrando vorazes sem qualquer barreira que os limite. Um dos analistas mais bem informados e lúcidos reconheceu que não foi capaz de prever a ousadia de um sequestro do presidente venezuelano.
O ataque à Venezuela reforça a certeza e o tom de um cotidiano muito conturbado com guerra de informações e todas as consequências. Meus votos são de que algum acontecimento esteja em gestação e possa mudar os rumos previstos neste início de ano.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

As palavras têm peso

 

As palavras têm peso, cor e tamanho. Algumas caem mais fundo em nós

            “A dor da mãe do policial é a mesma dor que a minha”. Estas foram as palavras de uma mulher jovem negra diante das câmeras no complexo da Penha. Ela disse mais, não apoiava o que seu filho de vinte anos fazia, mas ela era mãe e não podia dar-lhe as costas, mas que o Estado tinha que ver o modo em que eles viviam, ela trabalhava duro para sustentar o filho morto e mais uma menina, ela era solteira, e o que mais via era falta de oportunidades para trabalhar e viver melhor, era isto que precisava ter, oportunidades. Não adiantava sair matando como fizeram.

            Eu ouvi as palavras desta mulher e me emocionei pela sua dor, mas também pela dignidade com que as pronunciava. O que ela expressou em primeiro lugar foi sua empatia por outra mãe do lado oposto ao seu na escala social. Não reivindicava pena pela sua situação, nem ódio, mas indignação sobre as causas da situação em que ela se encontrava. Na dor da perda, ela conseguia extrair o que deveria ser pensado para o dia seguinte, para a vida que continuava ali, no mesmo lugar da irrupção policial que havia se retirado. Ela e a população do lugar não teriam para onde ir, não podiam sair dali como havia feito a polícia. Ela apontou para o dever do Estado de se tornar presente para que as ações policiais daquela natureza sejam repensadas.

            Como mãe pude rever os meus esforços para criar meus filhos da melhor forma que eu podia. E não pude deixar de fazer comparações. A distância enorme entre o lugar em que eu nasci e o dela, ponto de partida para nossas caminhadas. Ponto de partida para nossas escolhas, se é que podemos falar em escolhas. Desde a própria presença desde o nascimento, com direito a licença maternidade, o acompanhamento do pediatra, a orientação para alimentação, os amigos, a escola (os livros para gostar de ler), aula extra para o inglês, o clube para fazer um esporte, tudo com enormes dificuldades, mas foi possível. O que não teve aquela mãe? E tantas outras na mesma situação? Eu sei através da literatura, de reportagens da imprensa que se interessa em dar voz a quem é invisível socialmente, ao depoimento de mães em meus contatos com movimentos sociais. Há um fosso muito grande em “ouvir” e “viver” uma realidade, embora a dor seja a mesma como disse aquela mãe. Há, no entanto, diferença também em como cada mãe pode receber amparo na sua dor.

            A empatia que todas as mulheres merecem, ao perder um filho daquela maneira, necessita continuar. Uma forma é cobrar a presença do Estado nas periferias das cidades, não só daquelas em evidência agora, através de participação popular em qualquer lugar do país. A primeira, no entanto, é não esquecer.

sábado, 6 de setembro de 2025

Prêmio em dinheiro


Olho a foto que mostra o governador no palco com microfone na mão, diante de mil e cem gestores no Teatro da Feevale em Novo Hamburgo. Só depois, leio a notícia de que o Governo do Estado lança um Programa de Reconhecimento da Educação Gaúcha. Vou ao texto, leio e releio. Confiro que está se tratando mesmo do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Deveria estar no mínimo curiosa e entusiasmada, tenho a escola estadual no meu coração. O Governo do Estado está preocupado com a Educação. Não consigo, acompanho a lenta e degradante depauperização do sistema estadual de educação há muitos anos, especialmente na última década, especialmente no governo dele. Eu fui professora na escola pública, aposentei-me como professora estadual.

            Ano de 1965, eu chamaria o ano da virada na minha vida. Fiz concurso para o Magistério Estadual, para lecionar Geografia no 1º e 2º Graus.

            Lembro dos primeiros meses em que comecei a lecionar como professora de Geografia e me perguntavam o que eu fazia, eu adorava que me perguntassem, e eu respondia com orgulho “sou professora do Estado”. Revendo aquele tempo, vejo que não era um status privilegiado, com salário extraordinário (embora bem melhor do que eu recebia no emprego anterior), mas minha resposta estava ancorada no sentimento de respeito e valorização que eu recebia pelo cargo exercido.

            Hoje, as notícias veiculadas pelo sindicato de professores e outras fontes dão conta da precariedade estrutural de numerosas escolas, tanto físicas como de salários e ausência de incentivos ao aprimoramento profissional. Este governo conseguiu extinguir um plano de carreira que protegia minimamente os professores de políticas arbitrárias. Por outro lado, as notícias veiculadas nos sites governamentais são de realização de centenas de obras e com um atendimento fantástico à rede. Há uma guerra de informações que não mascara a grande percentagem de professores que adoecem, outros que abandonam a profissão, e mesmo o movimento de diminuição de alunos da rede estadual e o acréscimo na rede particular.

            Se não bastasse, os problemas estão também nos ataques à questão curricular e as tentativas do governo de colocar sob a orientação de grupos empresariais a condução do trabalho pedagógico. É a privatização da educação subsidiada por dinheiro público. Uma trama de consequências nefastas para a formação dos alunos.

            Vejo tudo isto e lembro quantas lutas fez a minha geração por uma escola pública e de qualidade. Esta expressão me soa tão atávica, de um passado tão remoto que soa inverossímil.

            Por Outro lado, o governo se arvora de sucesso com o tratamento dado à educação, utilizando os dados do ENEM, onde o Rio Grande do Sul teria se saído bem. Segundo a deputada estadual Sofia Cavedon, o Estado sempre foi bem no ENEM, e os resultados de agora se sustentam a partir de escolas de municípios pequenos onde as condições de vida e de cuidados da escola são melhores. O ENEM não avalia a aprendizagem do Ensino Médio. O indicador oficial para isso é o IDEB. Em 2023, o Estado perdeu posições e ficou em 10° lugar no ranking nacional. E o RS tem um dos maiores índices de jovens fora da escola no Brasil. 44% dos jovens de 15 a 29 anos trabalham sem estudar.

            Por último, a grande alternativa oferecida pelo governo para melhorar a qualidade do ensino é um prêmio em dinheiro para os professores e escolas que forem mais eficientes. Um incentivo à disputa e à meritocracia num quadro como o descrito acima. O que podemos esperar disto tudo???

 

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Sem palavras

 

A notícia de hoje (11.08.2025), sob o título Está Encerrada a Cobertura,  é a morte dos cinco jornalistas da Al Jazeera que ainda estavam em Gaza. A tenda para os jornalistas foi bombardeada por Israel.

Quantas vezes escrevi “sem palavras” sob cada imagem terrível dos corpos e edifícios destroçados em Gaza veiculada nas redes sociais? Minha impossibilidade fez eco ao texto de Agualusa onde está sua afirmação de que nossa língua não tem palavras para nomear os horrores que testemunhamos em tempo real em várias partes do mundo, mas especialmente em Gaza. As palavras que conhecemos não mais dão conta dos sentimentos que aqueles horrores nos provocam. Igualmente para descrever o que vemos já não há palavras.

Há muito tempo já não consigo nomear o que sinto quando vou verificar as notícias. Alguma coisa trancada no peito quer sair, mas fica lá dificultando a respiração, ou fazendo o coração acelerar. Pergunto-me se são o pudor e o medo que não a deixam sair, aqui também faltam as palavras para nomear o que não vejo, apenas sinto o que nunca senti.

Precede-me uma teimosa e incontrolável esperança de que a manhã seguinte traga a notícia do término do genocídio. E toda manhã esmoreço. Não neste dia. Ainda não. Ainda estão lá mais destroços, mais rostos desesperados, mais crianças que choram, mais gente amontoada com panelas estendidas, mais corpos espalhados ou amontoados. Ainda está lá a máquina destruidora de um país que se tornou o exportador de inferno para uma população indefesa que está sendo estraçalhada ou morta de fome aos poucos. Tudo isso passa por meus olhos em instantes toda manhã. E só consigo deixar de olhar, quando meu mal estar está tão forte que me obriga a saltar umas horas sem acessar as notícias daquele pedaço de mundo.

Eu, testemunha disto tudo e continuo a comprar na feira semanal de orgânicos, a limpar a casa a cada semana, a regar minhas plantas, a ir um show musical, a ver minhas séries na tv, a tomar um café com minhas amigas, a fazer exercícios de musculação três vezes por semana. Sei que não pode ser diferente, mas isto não me consola. A recomendação que recebemos antes de iniciar um voo é de que, em caso de despressurização, cai uma máscara e devo colocá-la em mim antes de ajudar quem precisa. Este pensamento vem em minha ajuda para lidar com o sofrimento que presencio como se estivesse ao alcance de minha mão ajudar alguém. E vivo meus dias, esqueço. Não consigo alcançar a máscara a quem precisa.

Fico me perguntando se sinto raiva e não sei responder. É algo diferente que não sei nomear. Sinto raiva daqueles rostos que pronunciam atrocidades, daqueles rostos que sei terem mandado matar, daquelas bocas que mentem, daqueles olhos de gente corrupta? Sinto raiva de toda esta maldade? Não sei responder. Talvez, porque sei que o que vejo é apenas a ponta do mal que está disseminado não só neste grupo que nestes últimos meses tem disseminado o horror do inferno. Sei que a origem está difusa pelo mundo que alimenta o que está acontecendo por lá. Uma máquina cujos tentáculos são os do sistema financeiro, da produção de armas, de agrotóxicos, de pedófilos, de ilusões disseminadas pelas redes sociais e conquistam as mentes dos próprios escravizados.

Quando vejo o que está acontecendo em Gaza, vejo o restante do mundo responsável pelo que está acontecendo lá. E continua a acontecer, apesar das multidões que estão saindo às ruas pra protestar. Milhões de pessoas desejam e gritam para que este genocídio termine, que a Palestina seja livre e reconstruída. No entanto, as instituições que poderiam fazê-lo estão contaminadas e são surdas a esses gritos.

Então, para onde dirigir minha raiva? Ou, ódio?

No século passado tínhamos inimigos visíveis, nazismo e fascismo.

            Lembro da segunda guerra mundial do século passado, volto a ela constantemente, mas nada se compara àquilo que testemunho hoje. Embora a maior parte dos que estão ainda vivos da minha geração não imaginassem testemunhar o genocídio em Gaza, existiram vozes que anunciaram um futuro de permanente conflito na região. No entanto, aquelas vozes não anteciparam os mesmos horrores sobre os palestinos, pelos próprios judeus.