Ler o livro M – La fine e il
Principio de Antonio Scurati é ter uma tela aberta para ampliar o entendimento sobre o tempo
presente vivido no Brasil enraizado no papel e privilégios das Forças Armadas, na
existência de forças políticas de direita e extrema-direita durante a ditadura
civil militar.
Ao final da guerra, com a vitória
das forças antifascistas, a morte do fascismo e o estabelecimento de um estado
democrático através de um governo com representantes das grandes forças que
lutaram na resistência, o comunismo, o socialismo e a democracia cristã, a
sociedade italiana acreditou que o passado fora vencido e o futuro era uma
estrada a ser percorrida com sua capacidade de trabalho e sem obstáculos. Mesmo
assim, muitos italianos emigraram por medo de nova guerra mundial, quando
eclodiu a guerra na Coréia poucos anos depois e boatos de novo perigo para a
Europa.
No entanto, o fascismo na Itália não
fora exterminado, mesmo com a morte de Mussolini e de alguns de seus comparsas,
porque muitas sementes sobreviveram. Alguns dos fascistas mais próximos a
Mussolini fugiram para a Argentina, Brasil e outros países. E outros não foram
devidamente responsabilizados e punidos pelo novo governo. Foi o grande erro na
história do país. E eles frutificaram e se infiltraram nas instituições do país
e reapareceram legalmente em partidos, alguns se elegeram e hoje governam o
país. É o que nos conta Scurati em cinco volumes sobre o fascismo, mas mais especificamente
os últimos meses da República de Salò, no livro citado, com governo fantoche de
Mussolini no norte do país e mantido pelos nazistas em retirada. Este foi o
período menos descrito pelos historiadores, segundo o escritor, mas o mais
cruel, onde atrocidades foram cometidas pelos sequazes do ditador, que culminaram
com o seu justiçamento numa praça de Milão.
No Brasil, o fim da ditadura ocorreu
com atos do próprio governo Figueiredo, que aprovou a Lei da Anistia em 1979, concedendo
relativo perdão político a opositores do regime entre 1961 até aquele
mesmo ano, mas, em contrapartida, a medida também protegia militares envolvidos
em assassinatos e torturas. Este perdão aos torturadores foi a preservação das
sementes que frutificam até hoje dentro de uma ordem institucional
continuamente solapada. Foi o nosso erro, ou apenas o que foi possível na
época.
Nem uma nova Constituição em 1988
conseguiu livrar o país do ressurgimento das mesmas forças autoritárias
vencedoras em 1964, com o agravante de se apresentarem com novas roupagens, com
novas formas de poder, mas com o mesmo apoio da imprensa tradicional que sustentou o golpe naquele ano, e num contexto mundial de reorganização da
extrema-direita.
O livro de Scurati conecta-se com
as análises sobre a história brasileira e amplia as lentes para compreender o
que se passou e o que precisa ser feito para enfrentar o que ocorre em nossos
dias. É ainda necessário falar sobre o que aconteceu, não podemos esquecer.
Obs. - Este quinto volume ainda não foi traduzido para o português, mas acredito que logo o será.