segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Esta terra tem dono

 

           

As Missões estão ali há cerca de 300 anos, vivo no Rio Grande do Sul há 70 anos e só agora consegui visitá-las. Mergulhar na história daquela parte do Estado, visitando as ruínas de S. Miguel, foi uma experiência de resgate do que nunca deveríamos esquecer. E esquecemos.

Séculos depois, o que permanece das reduções jesuíticas pode ser fonte de inspiração para quem não se conforma com os rumos que a sociedade tomou ao longo dos séculos. No mínimo para lembrar que outro modo de viver foi possível próximo de nós, baseado no trabalho solidário e na relação sustentável com a natureza. Infelizmente, a perseguição continua feroz, como naquela época, contra os habitantes nativos deste país. Se o modo de viver hodierno é capaz de cegar e entorpecer os que lutam cotidianamente por sua sobrevivência, voltar àquela história é lembrar do que é capaz o poder econômico predador sem limites para sua expansão desde sempre.

Tradicionalmente, os currículos escolares reproduzem a história dos vencedores. As lutas de diferentes povos ou segmentos sociais são esquecidos, ou omitidos, ou retorcidos intencionalmente, faz parte da lógica do poder. É o que acontece com a história das Missões Jesuíticas, não só no nosso Estado, mas em outras partes da América Latina. Algumas brechas surgem através de lutas individuais ou de organizações que não sucumbem à pasteurização da história. Daí a importância do testemunho das ruínas, no caso, do que foram as reduções jesuíticas. Um alento é terem sido reconhecidas pela ONU como Patrimônio Cultural da Humanidade. Graças a isto, o poder público está presente. Sente-se a ação da universidade nas pesquisas locais, na formação de funcionários e guias de S. Miguel, os quais se expressam com orgulho sobre a experiência jesuítica. Mesmo assim, quem visita o local percebe que muito mais poderia ser feito para dar a visibilidade à fantástica experiência ali realizada.

                A visitação do sítio arqueológico com seu show noturno já causa impacto no espectador. A existência de benzedeiras que continuam a preservar rituais daquela época, e a conservação de locais externos que faziam parte da comunidade  também contribuem para a memória daquela experiência. No entanto, um conjunto de medidas para facilitar a ida ao local e a adoção de novos recursos tecnológicos para levar os visitantes a vivenciar a maravilhosa experiência de organização social e econômica ali realizada, poderia contribuir de forma mais efetiva na formação cultural do público. Hoje, a cultura está sendo mais atacada do que incentivada no país.

            Voltei ao filme A Missão com Robert de Niro e música de Ennio Morricone. Nele pude relembrar as consequências no Novo Mundo das disputas territoriais entre Portugal e Espanha, das disputas entre  poder monárquico e poder religioso, tendo como fundamento, como causa seminal, o fator econômico a exigir o término da experiência jesuítica, que protegia os índios da escravização pelos bandeirantes.

Voltei a rever a história com Voltaire que enaltecia a experiência naquela região da América do Sul. Voltei ao livro Sepé Tiarajú do escritor Alcy Cheuíche e comprovei mais uma vez que a literatura é aliada da preservação da memória.

No entanto, embora o passado tenha mostrado a possibilidade de uma maneira diversa de relação entre indígenas, europeus e natureza, prevaleceu a obsessão exploratória e predatória do território sul-americano. Hoje, a tragédia daquela exploração segue com os mesmos princípios em todo o território nacional. Jamais foi interrompida.  Os indígenas brasileiros continuam a ser exterminados, bem como a devastação acelerada de seus territórios. Permanecem as palavras em guarani no pórtico de entrada de S. Miguel das Missões: Co yvy oguereco yara, Esta terra tem dono.

Apesar de tudo o que aconteceu e continua acontecendo atualmente, ver diante de mim o que já tinha visto na tela, e o que já tinha lido e ouvido há muito tempo, foi uma conversa com a esperança que anda encolhida.

terça-feira, 19 de outubro de 2021

É preciso falar de muros

 


Há pouco tempo ouvi num programa da televisão italiana o jornalista Nello Scalvo afirmar que 65 países, dos 193 que a ONU reconhece, decidiram construir muros para impedir a entrada de imigrantes. Este fato é tanto mais grave, porque metade deles começou a erigi-los a partir do ano 2000 disse ele.

            Vale lembrar que o mundo festejou a queda do muro de Berlim em 1989. Então proclamou-se o advento da liberdade e o fim do regime autoritário da antiga URSS. As nações do leste europeu livraram-se da besta do comunismo e entraram felizes no mundo prometido pelo capitalismo. Em algumas delas, hoje, há governos eleitos que se tornaram de extrema direita e defendem o nacionalismo contra ideias de solidariedade entre nações como rege a Comunidade Europeia à qual pertencem. Elas levantam a bandeira contra os imigrantes que fogem da guerra.

            O ódio ao imigrante desesperado está ligado a outros fatos, o ressurgimento de grupos nazifascistas e o recuo das ideias de um estado voltado para o bem estar social que provê a educação, a saúde e os direitos dos trabalhadores em boa parte do mundo. Embora jamais realizada plenamente, a ideia de estado como provedor constituiu durante muito tempo a bússola a guiar boa parte da política. Com o recuo destes ideais,  parece ter brotado o negacionismo na ciência, na cultura, na política e em toda narrativa que implique olhar o outro como seu semelhante. Neste contexto são discutidos os paradoxos do viver em sociedade e defender o conceito de liberdade como o poder do indivíduo acima de tudo. É o individualismo exacerbado que destrói as relações sociais, criando muros físicos e virtuais com a grande dificuldade de se reconhecer no outro.

 

            Particularmente, no recorte de minha cidade, Porto Alegre, além de muros físicos, pode-se ver grades de todo o tipo. Num retrospecto desde final da década de 1970 e início de 1980, dou o exemplo da rua onde moro, em bairro não muito distante do centro. Quando me mudei com a família, as crianças da vizinhança se reuniam e brincavam na rua. A hora de voltar estava marcada para as 21h. Já na década de noventa as brincadeiras passaram a ser nos espaços dos edifícios, quando começaram a receber grades e, pouco a pouco todos os edifícios antigos que tinham livre acesso à rua, passaram a ser isolados. Interfones, portarias e centrais de atendimento começaram a aparecer e intermediar o contato dos moradores com visitantes e entregadores. O contato com alguém que podia nos alcançar para pedir alguma coisa foi terceirizado. Diversos tipos de barreiras preservam o sossego dos que podem morar de forma digna num espaço particular.

            A organização habitacional e social das cidades em geral tem lembrado a dos feudos da Idade Média. Não temos castelos, mas temos agrupamentos de casas e de edifícios em condomínios com sistema de proteção e de serviços que dispensam boa parte da dependência do exterior. Em zonas residenciais, os movimentos que prevalecem são a saída e entrada de carros das garagens, pessoas que levam seu cachorro de estimação para passear, prestadores de serviços, empregados e zeladores.

Voltando a Porto Alegre, existem alguns parques e espaços da orla que podem ser usufruídos  com alguma segurança. Sem esquecer que grande parte da população da periferia nem chega até eles. No entanto, muitas praças deixaram de ser frequentadas porque inseguras. Ou, tornaram-se inseguras, porque não frequentadas? A rua de uma forma geral, deixou de ser um lugar de socialização, transformou-se no lugar de trânsito e, conforme o bairro, um lugar  mais ou menos temido, e que só usamos por necessidade de locomoção. São muros invisíveis que todos sabem de sua existência e do condicionamento que eles impõem.

As notícias que lemos todos os dias, ao menos no nosso país, não nos dão esperança de que caminhamos para a derrubada de algum desses muros. Por isso mesmo temos que continuar a falar sobre isso. Como disse alguém, as palavras são o farol que ajuda na noite escura no meio da tempestade. Continuamos no meio dela.

 

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Para quem é este livro?


 

Ninguém segura quem percebe e rompe as barreiras da exclusão,

quem venceu a fome e tornou a maior estigma social

em sua principal identidade.

 

Alexsandro Cardoso

 

Acabei de ler o livro. Demorei, eu o li devagar, porque me fez pensar muito.

Pensei em colocar aqui alguns dos trechos, mas desisti. Vale ler sua narrativa, em seu jeito próprio, nas suas reafirmações sobre o próprio processo para chegar a compreender o lugar que ocupa na sociedade. Uma história de enormes limitações e enormes entraves para conquistar um lugar melhor para si e para os outros.

Vou escrever apenas sobre uns poucos pontos.

O Alexsandro produziu sua visão de mundo através de trajetória individual, mas repete incansavelmente que conseguiu o que conseguiu graças ao coletivo e não a mérito pessoal. Agradece muitas vezes os companheiros de luta. A partir disso, afirma que nossas ações devam ser ancoradas no tripé solidariedade, empatia e amor. Narra inúmeras situações desde sua infância  para comprovar sua afirmação.

Ele mostra através de diferentes momentos vividos como os seus conhecimentos eram fundamentais para compreender os conhecimentos veiculados na escola e na universidade. Com suas próprias palavras e raciocínios mostrou a conexão entre teoria e prática. Não esquece quanto a escola é importante para as classes menos favorecidas da sociedade, dando-lhe lugar de primazia para poder ter um trabalho melhor e para encontrar oportunidades melhores no convívio em sociedade. Mas alertou para a necessidade de pensar coletivamente sem o qual estudar não valeria nada.

Contou várias passagens de sua história, de sua família e de sua comunidade. A narrativa reafirma muitas vezes a importância do núcleo familiar e do estudo para  constituir-se como sujeito que é atualmente. Então ele convida os leitores a lutar e a encontrar forças para estudar e se sacrificar para vencer os desafios que a vida de miséria lhes oferece cada minuto da vida. Ele, no entanto, repete ao longo de sua narrativa que ele é uma exceção dentro do sistema em que vive. A regra para a maioria é a derrota.

A experiência da fome que ele conta é terrível. Embora não desconheça a miséria que existe no mundo e no país. Embora tenha lido muitas histórias sobre situações onde seres humanos foram privados de algo tão básico como ter um mínimo de comida, o depoimento de Alexsandro foi devastador. Ele criança falou da fome, da dor física por passar fome, da incompreensão do que estava acontecendo com ele por causa da fome. Não há palavras que possam descrever a indignação com este quadro que, infelizmente, não consegue mudar a organização social para que isso não possa mais acontecer. Para quem nunca passou fome como a maioria dos que vão ler este livro, muitas perguntas vão surgir acompanhadas de indignação. Uma sacudida para fazer mais alguma coisa, além do que já se faz.

E, por último, perguntei-me ao longo da leitura, para quem Alexsandro estaria escrevendo este livro. Claro que há um público que o compra. No entanto, quantos deveriam ler esta história não têm dinheiro para comprar um livro, mesmo que tenham vontade. Disso todos nós sabemos. A resposta veio no final da narrativa.

Após este período de pandemia, espero encontrar o Alexsandro e poder abraçá-lo. Por enquanto desejo que a sua história seja compartilhada por muita gente. Ela é um grito de inconformidade com a miséria existente e um convite à reflexão. E também à ação.  Ela é, igualmente, um abraço solidário e amoroso do meio de tantas injustiças.

 

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

Quem perdeu conhece


Hoje é véspera de 7 de setembro. Dia de apreensão. Em apreensão estamos vivendo há alguns anos,  porque o governo perverso que se apossou do país não desiste de provocar e fazer crueldades.

Hoje, no entanto, eu não quero ceder à chantagem da turma do mal que mais dia, menos dia, cairá no lixo da história. Nem quero pensar nos estragos já feitos. Nem quero perder energia em me angustiar com tudo o que tem acontecido diuturnamente, ou no que poderá acontecer amanhã. Não chamarei más energias, como costumamos dizer entre nós, os amigos mais próximos.

Quero, sim,  relembrar algumas das letras que fazem a alegria de quem as ouve. Quero mergulhar nas palavras que falam de tudo o que de melhor existe no ser humano.  São muitas as canções que falam da alegria de viver, do querer bem, do estar junto do outro, da esperança de um novo dia. É nisto que quero mergulhar. De tudo o que já ouvi, pincei apenas alguns versos, uma pequena amostra da beleza criada, mas suficiente para embalar nosso desejo de que o mundo seja um berço amoroso, não precisa ser esplêndido.

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver /Quero a primeira estrela que vier /Para enfeitar a noite do meu bem. Caminhando contra o vento /Sem lenço e sem documento. Apesar de você /Amanhã há de ser /Outro dia. Se mi guardi con gli occhi dell'amore /Non ci lasceremo più. A paz invadiu o meu coração /De repente, me encheu de paz. Vedi caro amico cosa si deve inventare /Per poter riderci sopra /Per continuare a sperare.

De qualquer maneira, aconteça o que acontecer (que a maldade encontre obstáculos, que prevaleça a razão e a justiça), continuemos a defender as artes, a ciência, a filosofia, para seguir adiante e avançar para um mundo melhor.

                Por isto deixei para o final os versos de uma música que os brasileiros que viveram na ditadura, perderam alguém próximo naquele tempo, ou se solidarizaram com quem perdeu conhece, ouviu e cantou em algum momento:

A esperança equilibrista

Sabe que o show de todo artista

            Tem que continuar. 

sábado, 7 de agosto de 2021

A cultura nos diferencia


 

Descarto muitas  das informações diárias (já separadas das falsas notícias). Fico com aquelas que me ajudam a exorcizar a sensação de impotência. Sempre tem alguma coisa que se pode fazer sem esperar resultado, apenas por uma questão de ética, como já escrevi em outro texto, inspirada em palavras da jornalista Eliane Brum. Mesmo assim, nem sempre consigo responder à pergunta: O que posso fazer?

Então, lembro uma entrevista do Lázaro Ramos, por quem tenho uma enorme admiração e respeito: Apesar de tudo, não se pode cansar – disse ele. Antes disso, havia escrito  Na Minha Pele, um retrato do que acontece na sociedade brasileira em relação ao racismo. Em nenhum momento, há comiseração ou sentimento de derrota. Há a palavra de um homem digno que sabe o que ele e os de sua origem sofrem no país. Continua sua luta e resistência em diferentes frentes.  Procuro livrar-me do cansaço.

            Então, assisto a aulas sobre História da Arte com o André Dorigo, sua mensagem forte sobre o poder da arte para aceitar diferenças. A arte como criação de tantos estilos ao longo de toda a história da humanidade. Tantas expressões artísticas, em tantos lugares da Terra, sob as mais diversas situações. O ser humano é diferença, produz diferença, encanta na diferença. Reforça minha crença no poder da arte.

Então, participo de encontros sobre literatura com Rodrigo Barreto. O vasto e profundo conhecimento, que ele transmite com paixão, nos envolve no mundo de Machado de Assis, de Clarice Lispector e de tantos outros escritores brasileiros. A literatura como meio para compreender a produção da subjetividade. Um bom texto, uma boa história, nos faz compreender o ser humano em suas contradições. Esta é uma fonte inesgotável de elementos que contribuem para a aceitação do outro, para derrubar preconceitos. Continuo a desmascarar meus preconceitos disfarçados.

Então, ouço Guto Leite que me leva a passear dentro de uma obra para olhar as raízes entrelaçadas com outras obras e outros pensamentos. É como seguir por uma trilha onde podemos desvendar mistérios a todo momento. Um mundo de encantamento povoado por narradores de histórias com as quais podemos nos cotejar e aprender. A paixão pelo que sabe, e compartilha, é contagiante. Recupero minha crença no poder da palavra.

Então, assisto os encontros com Gustavo Czekster. Sinto-me levada pela mão para entranhar nos contos de tantos escritores, alguns conhecidos, em horas de deleite com a criação de narrativas as mais diversas. Um mundo que se mostra nas mais diferentes formas. Um mundo de criação que me distancia do arbítrio, da pequenez, do supérfluo. Confirmo minha paixão pela leitura e seu poder sobre mim.

Então, ouço Thiago Rodrigues que fala sobre a Mitologia Grega e os diferentes filósofos, sua importância e suas ramificações no pensamento contemporâneo. Os questionamentos que eles propiciam sobre os acontecimentos hodiernos, o peso que eles têm na formação de um pensamento crítico e independente, apesar das barreiras que o modo de viver consumista e alienado ergue ao redor de nós. A Filosofia há de voltar aos currículos escolares. Sabe-se porque foi retirada.

Fico por aqui, com uma amostra dos acessos on-line em período de distanciamento. Comprovei que milhares de pessoas, muitas delas jovens, fazem o mesmo. Há um mundo fervilhando com pensamentos e energias vitais que disputam palmo a palmo o território que começou a ser tomado por ondas de ódio e de destruição.  No início, a maioria parece ter sido tomada de surpresa. Pouco a pouco, as reações se fizeram presentes e continuam a se multiplicar em diferentes frentes: política, movimentos sociais, imprensa alternativa, manifestações nas ruas, denúncias internacionais. Quero acreditar que nem tudo está dado, apesar de vivermos numa montanha russa sem descanso.

O fascismo nunca deixou de existir lá fora e aqui, dissemina mentiras e ódio, demoniza a política como instrumento de representação, nega a ciência e mata a cultura. Mas os exemplos acima me fazem seguir, lembrando Pedro Serrano “O fascismo ganha, quando ele consegue fazer-nos iguais a ele”. A cultura nos diferencia, ela é que vai atuar como um poderoso antibiótico contra a infecção virulenta que acometeu o Brasil. É preciso um coquetel de medicamentos para curar o país neste momento. A cultura usa o seu.

 

 

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Coisas

 

A cada texto que leio, descubro algo que se encaixa num todo já apreendido, mas cheio de buracos. Os buracos vão sendo preenchidos. Mas, à medida que alguns somem, outros aparecem e o espaço de conhecimento produzido transforma-se, as cores tornam-se mais vivas em algumas partes, caem sombras em outras, num movimento ininterrupto que nunca se completa.

Li 1984 de Orwell anos antes daquele premonitório. Foi um susto. Não lembro de pensar, no entanto, quanto o que estava acontecendo naquele momento e que estaria servindo para construir o futuro ali descrito. Então, eu punha em dúvida que o autor quisesse falar somente das sociedades sob o jugo dos totalitarismos  “comunistas” como alguns críticos escreviam. Eu era jovem e não era militante de qualquer movimento de resistência à ditadura dos anos sessenta e início dos setenta. Por circunstâncias familiares, na juventude, não convivi com análises e compartilhamentos de informações políticas no círculo de amizades no interior onde vivia.

Posteriormente, na capital do Estado, vivi o cotidiano de jovem professora em escola pública, onde a Moral e Cívica e o OSPB substituíram a História. Filosofia e  Sociologia haviam sido excluídas. Criticava-se, mas sabia que não devíamos falar “certas coisas”. O ufanismo da transamazônica só fui desmascará-lo mais tarde, bem como o uso da vitória do futebol em 1970 para dissipar as sombras do terror exercido pelo governo. Sabia o que estávamos vivendo, mas como algo do qual, de certa forma, eu não fazia parte. Eu não estava sendo atingida diretamente pela repressão, assim eu me dizia na época, apesar do cerceamento de informações na escola. Eu sabia e não sabia, não percebia o que se estava construindo, e que poderia explodir no futuro.

Hoje, depois de ter analisado, discutido, duvidado, questionado os diferentes tempos vividos, encontro-me de regresso àquele temor. Mas é uma angústia por algo ainda mais temível do que 1984 nos apontava. A cada manhã, quando leio as notícias do país. Pergunto-me se o caminho de uma distopia não estará traçado.  Lembro do nazismo, do fascismo, da última ditadura aqui vivida. Todos esses ismos deram amplos sinais de nascimento e crescimento. E grande parte da sociedade negou todos eles mesmo que gritando diante de seus olhos e ouvidos.  

“Sociedade do espetáculo”,  “sociedade líquida”, “política como espetáculo”, “pós-modernidade”, “pós-verdade”, “fakenews”  e outras narrativas permitem explicar e como a subjetividade se produz nos diferentes lugares sociais. Nada, no entanto, ajuda a suportar atos individuais que nos agridem no cotidiano.

Detenho-me no último que testemunhei. Uma senhora da alta sociedade, tratando-se num salão de beleza - onde entrei depois de meses - comenta exultante que irá prestigiar a motociata do presidente junto à imprensa credenciada, no dia seguinte. Afinal, disse, “tivemos 3 milhões de doses de vacinas ministradas no dia anterior” e, também, “milhões já foram curados”. Este era seu mundo. Não falou de centenas de milhares de mortos, nem de apenas pouco mais de 10% da população brasileira imunizada com duas doses de vacina. Ponto. E seguiu a conversa com futilidades.

Aquela mulher estava feliz. O que mais me atingiu não foi o conteúdo distorcido, foi o tom jocoso, alegre, despreocupado de uma adolescente despreocupada que vai a uma festa com amigos. Continuou assim, quando sussurrou que o filho não gostava que ela se metesse “nestas coisas”, com uma expressão de alguém que faz uma arte, desobedece, mas sem grande importância. “Nestas coisas”  estaria um possível prejuízo para os negócios, mas nada atrapalhava a leveza e descontração dela.

Infelizmente, o comportamento desta mulher não é uma exceção. Perdi a conta de quantos já presenciei. As notícias diárias o atestam, mas procuro não pensar nelas para não adoecer. É o comportamento recorrente de quem acha que ter acesso a tudo, e em excesso, é um direito natural, ou, mais do que isto, é uma questão de mérito. Diante da miséria que atinge milhões de seres humanos no país, ver esta mulher é enxergar nossa sociedade falida, é desesperar-se diante da tarefa de mudá-la. É voltar às perguntas para as quais não tenho resposta, é acessar uma dor que já se tornou insuportável e trato de silenciá-la para poder seguir.

Como tenho continuamente feito, no entanto, depois de mais um choque, volto a lembrar todas as vozes que se levantam contra o que está ocorrendo. Volto a me conectar com as muitas formas de resistência que têm sido geradas pela indignação e pelo não conformismo. Esforço-me.

Apesar de meu esforço, os antigos temores me falam: ainda haverá tempo para compreender e realizar o que é preciso para evitar as inúmeras antecipações que a literatura produziu? Aquela mulher seria um dos sinais da sociedade distópica se expandindo? Dentro de mim a dúvida agarra-se ao não.

domingo, 20 de junho de 2021

Nossas papoulas

 

 

Recebo o vídeo com o depoimento de um agricultor. Não planta mais a terra que cultivou por dezenas de anos no interior do Estado. É um remanescente da região que foi sendo tomada aos poucos pela monocultura de eucaliptos para a celulose. O país é um grande exportador de celulose. A terra, que aquele agricultor ama e não quis abandonar, foi esgotada, sacrificada, exaurida de seus nutrientes, não pode mais ser cultivada.

Essa realidade é a de qualquer região que tenha trocado seus diversos cultivos pela monocultura de eucaliptos. Depois de esgotada, vão-se também os eucaliptos. Resta o nada. Há anos foi denunciado processo de desertificação no interior com o desmatamento acelerado.

Leio sobre o próximo acordo entre EU e Mercosul, ao qual o Brasil pertence, e que resultará em venda no país de mais agrotóxicos proibidos na Europa. Ainda consigo ficar estupefata diante do crime contra a população brasileira. Nem todos poderão se mudar para Miami.

            Uma forma de resistência a tudo isto está no cultivo de orgânicos liderado pelo MST e por pequenos agricultores. À margem das monoculturas direcionadas mais ao mercado externo, conseguem sobreviver apesar dos ataques sofridos desde sempre.

            Há poucas semanas, incursões de aviões despejando nuvens de agrotóxicos sobre um assentamento do MST no interior do Estado mostraram a que ponto está chegando  a ousadia dos ataques. Atingiram diretamente plantios, pessoas e animais. Um crime contra a vida sem nenhum disfarce, porque quem o pratica aposta na impunidade. É provocar doenças que matam. É assassinato programado. O mal está feito, mas torço para que o processo na justiça resulte em medidas de proteção eficiente para quem manda produtos saudáveis para a mesa do cidadão. Torço por justiça, apesar de saber que essas ousadias sentem-se autorizadas pelos horrores praticados pelo próprio presidente do país que continua sua cruzada genocida sem que ninguém o detenha.

Por um lado, exaurimos a terra. Por outro, a envenenamos. E, ainda, lideranças que fazem frente a tudo isso são assassinadas com frequência. Esta é uma história antiga que se atualiza sempre.

Apesar de tudo, no dia do trabalhador houve entrega de produtos orgânicos do MST para quem tem fome em várias cidades. Fome que recrudesceu em tempos de pandemia. Imagens de distribuição de alimentos deram uma mensagem forte de que os agricultores, além de não se renderem, ajudam quem mais precisa.

Isto me faz lembrar uma afirmação ouvida numa viagem ao interior da Itália. “Onde existem papoulas não há agrotóxicos”. Pude ver muitos campos de trigo enfeitados de corolas vermelhas. Alguns eram uniformemente amarelos. As cores estavam denunciando que a terra estava sendo tratada de forma, no mínimo, diferente.

Aqui, nossas papoulas são os assentados e pequenos agricultores. Minha gratidão a eles manifesta-se em ter presente sua história e contá-la para que não seja esquecida, comprar seus produtos e em me aliar às suas lutas por justiça. Tenho amigos entre eles e me comovo com sua capacidade de trabalho que acompanho há cerca de trinta anos.

O trabalho na terra, cuidando para que não seja contaminada, para que permaneça fonte de alimentos orgânicos é um dos bastiões para salvar, não só o país, mas o planeta, da voracidade autodestrutiva de quem só vê o lucro diante de seu nariz. Este argumento deve ser suficiente para que procuremos saber onde estão “nossas papoulas” e os alimentos saudáveis. Além de ser em nosso benefício, as gerações futuras agradecerão.

terça-feira, 8 de junho de 2021

O começo é este


 

Inacreditável, obsceno, intolerável são algumas das palavras que me ocorrem ao ler a notícia acerca da publicação da foto da filha de cinco anos de Manuela D’Ávila nas redes sociais. O sentimento de horror foi tão forte que precisei afastar-me do acontecido por alguns dias para poder escrever.

            Manuela é uma figura pública, dedicada à política desde jovem, fez sua opção por um partido, foi eleita para diversos cargos e possui grande quantidade de eleitores que a acompanham. Tudo isso é passível de discutir, aceitar, elogiar ou criticar. Tudo isso pode ser feito de forma ética. Não tem sido assim, infelizmente. Para falar apenas sobre a última eleição à Prefeitura de Porto Alegre, sofreu ataques e baixarias misturados a mentiras tão estapafúrdias e aviltantes que só a ignorância mais absoluta e a maldade mais inimaginável poderiam produzir. E saltou dos adversários, especialmente de quem venceu a eleição.

Manuela, no entanto, é mulher e mãe antes de tudo. Ela já sofreu ataques mesquinhos também na sua vida privada. E graves. E com mentiras também. A mentira parece ser o nutriente fundamental desta fatia da população que só sabe se manifestar com ódio. Já se viu que para esta gente a palavra limite não existe. Mas o último ataque ultrapassou toda e qualquer noção de civilidade. É a barbárie em sua potência devastadora. E a origem partiu de outra mulher, de outra mãe. Mulher e mãe que se pressupõe tenha boas condições de vida, acesso a informações,  e pertencente ao mesmo grupo de mães da escola da filha de Manuela.

A pergunta que grita é POR QUÊ? Como pode uma mulher nestas condições valer-se da proximidade que uma escola infantil propicia e e iniciar a distribuição de uma foto nas redes sociais? E repeti-la. Que sentimentos estão por trás disto? Raiva? Com que propósito? A mulher que usou desta artimanha previu a onda de ataques que mãe e filha sofreriam? Se não previu, ela tem que ter suas condições cognitivas e psíquicas avaliadas. Se, sim, confirma uma maldade que não dá para ignorar. De qualquer modo, deve ser responsabilizada pelos seus atos e sofrer as medidas legais existentes.

Nem vou entrar no que aconteceu nas redes sociais por pudor.

Importa-me o que Manuela D’Ávila escreveu para esta mãe. As palavras e sentimentos expressos confirmam sua superioridade moral e ética. Sem despejar rancor, deseja que não aconteça o mesmo com o filho dela e que frequenta a mesma escola infantil. As palavras de Manuela refletem sua longa caminhada na denúncia da violência política de gênero no Brasil e em defesa do amor e da liberdade. Sem falar no seu protagonismo enquanto vereadora, deputada estadual e deputada federal, quero destacar os dois últimos livros: Sempre Foi sobre Nós (organizado por ela)  e Por Que Lutamos? de sua autoria. Os textos nos levam a refletir sobre nossa inserção social, nossas responsabilidades e apontam caminhos para a construção de uma sociedade em que haja respeito ao outro para que possam florescer os sentimentos mais dignos. Caminho difícil em função de tantas experiências e tantas histórias denunciadas. Ali não há lugar para agressões ou ódio. Ali há denúncia e a opção por outro caminho.

Manuela D’Ávila me representa e agradeço por ela não desistir. Como eu, há incontáveis mulheres junto a ela, mesmo que, às vezes, suas vozes sejam um sussurro e venham de lugares distantes. O desejo de um mundo melhor prevalecerá, enquanto mulheres como Manuela e tantas outras se aliarem nas mesmas lutas e se empoderarem solidariamente para penetrar em todo o tecido social.

Como mulher e como mãe, também uno-me à Manuela no desejo de que aquela mãe reflita sobre o mal que ela causou. Tomara. O começo é este.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Fazer sem acreditar, o caminho deve sempre recomeçar

 

 

Neste período de distanciamento (ao menos para quem se sente responsável por si e pelos outros), algumas palavras chegam com mais potência e se reproduzem, e se espalham como marolas na beira de um lago, como agitação das folhas nos galhos sobre as árvores no desvario do vento, como ecos entre montanhas. Em incontáveis momentos qualquer um de nós pôde comprovar que a palavra é movimento, é força, é fonte de impulsos contra a estagnação e o desânimo. Infelizmente, há também quem a prostitua.

Em diferentes situações dos últimos anos, bem antes da pandemia, quando começaram a arrastar o país para o atraso e o negacionismo com a deposição da presidenta eleita democraticamente, meu coração  quis se desfazer e não mais pulsar como na poesia de Eugenio Montale em 1919. Mas, também, como na poesia: E sentes então, / mesmo se te repetem que podes / parar em meio do caminho ou em alto mar, / que não há pausa para nós, / mas estrada, ainda estrada, e que o caminho deve sempre recomeçar.*

Então volto a pensar que os infortúnios são companheiros na longa ou curta passagem pela vida de todos nós. Cada um tem sua própria medida de resistência diante deles, seu próprio tempo de elaboração. Os efeitos também são únicos como cada sujeito é único, porque não há uma vida sequer igual à outra. A vida é diferença e produz-se na diferença.

Lembro também do antídoto ao esmorecimento, a busca da similitude no outro, a dos amigos que vibram nas mesmas alegrias e sofrem as mesmas tristezas. O convívio com quem confiamos e podemos falar de nossos temores e angústias é suporte fundamental para pensar, repensar, construir alternativas, encontrar pontos de apoio como numa escalada que damos por impossível. De novo o poder da palavra, seja ela escrita, ou dita, ou sussurrada. Ela é ar puro que limpa nossos pulmões das desistências.

Os amigos que nos socorrem nem sempre são as pessoas que conhecemos e convivemos há mais ou menos tempo. Às vezes é o poeta cujos versos sorvemos com ânsia, como escrito acima. Outras vezes é um jornalista que está em linha de frente, onde nós não podemos estar, mesmo que tivéssemos vontade de estar. Muitas leituras tiveram a força de me impedir da desistência e fui agradecida por isso como se agradece a um amigo próximo. São todos amigos do mundo em defesa da vida.

Sei que continuam a existir outras e muitas narrativas que permitem não soçobrar. Felizmente. É imprescindível que assim seja. Agora, quero destacar um pequeno trecho de Eliane Brum, mulher e jornalista que admiro muito e, através dela, quero homenagear todos aqueles que continuam a usar sua palavra para que o país volte ao caminho da construção de uma sociedade mais igualitária: Talvez tenha chegado o momento de compreender que, diante de tal conjuntura, é preciso fazer o muito mais difícil: criar/lutar mesmo sem esperança. Teremos que enfrentar os conflitos mesmo quando sabemos que vamos perder. Ou lutar mesmo quando já está perdido. Fazer sem acreditar. Fazer como imperativo ético.** Isto foi escrito em 2015 e houve momentos em que hoje é mais necessário, se é que se pode afirmar um mais.

Muita coisa tem acontecido nos últimos meses. Sem querer iludir-me, talvez possamos escrever que o enfrentamento que se dá no país hoje fez alterar a correlação de forças e fez nascer uma tímida e frágil esperança. De qualquer forma, é preciso continuar a fazer mesmo sem acreditar, porque o caminho deve sempre recomeçar.

 

* E senti allora,

se pure ti ripetono che puoi

fermarti a mezza via o in alto mare,

che non c’è sosta per noi,

mas strada, ancora strada,

 

e che il cammino è sempre da ricominciare.

 

Trecho de A galla – Eugenio Montale in Poesie Scelte (poesia escrita em 1919)

 

** Eliane Brum em El País, dezembro de 2015 e citado por ela no livro Brasil Construtor de Ruínas em 2019

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Titubeio

 

E enquanto marchavas com a alma nos ombros

Viste um homem no fundo da vala

Que tinha o teu mesmo, idêntico, humor

Mas a farda de uma outra cor

 

Fabrizio De Andrè

(Letra completa ao final do texto)

 

            Esta música de De Andrè emociona-me toda vez que a ouço, como se fosse a primeira. É um lamento e uma homenagem ao soldado que tomba, símbolo dos milhões que foram sacrificados e continuarão a sê-lo em inaceitáveis e odiosas guerras.

            Faz-me pensar na morte em sua infinidade de manifestações, principalmente nos dias de hoje. O soldado titubeou, porque, mesmo na guerra viu outro homem como ele, embora a farda fosse do inimigo. Este instante, em que sua humanidade impediu-o de disparar, custou-lhe a vida. Mas ganhou não ver o olhar de um homem que morre por suas mãos. Não há titubeios nos que decidem as guerras e seus fornecedores de armas.

            A imagem de seu repouso sob a terra onde cresceram papoulas vermelhas faz pensar em gratidão da natureza. Não sei se esta foi a intenção do autor. Não importa. Importa os sentimentos que ela transmite. Sentimentos que não são de rancor ou de vingança porque o outro executou a ordem recebida. Sentimento de tristeza por uma jovem vida interrompida, tristeza de quem o esperava de volta, tristeza pela inutilidade daquela guerra. De qualquer guerra. Gratidão por não se render ao embrutecimento do ato de matar o outro, mesmo que lhe custe a própria vida.

            Hoje, impera um sentimento de banalização da vida. Há uma potência de morte tão generalizada no país – embora com núcleos de concentração em vários espaços do planeta –, que faz questionar as crenças sobre tudo o que se aprendeu até agora sobre o gênero humano.

            As imagens de mortes que poderiam ser evitadas são continuamente veiculadas contaminam e emporcalham o olhar. E o coração. Não há titubeio, não há dúvida, não há pesar, há apenas o desejo de morte por parte de quem nos governa.

Imagens e notícias em tempo real nos colocam a todo o momento numa realidade que se está tornando cada vez mais insuportável. Se é que existem graus de insuportabilidade. E, no entanto, acabamos apagando-as, mesmo que temporariamente para alguns. E continuamos a comer, a fazer exercícios na academia, a dormir, a acordar e a repetir a rotina diária. Afinal, para que nascemos e vivemos? Cuidamos dos nossos filhos e netos. Agradecemos poder fazê-lo. E os filhos e netos dos que não podem ser cuidados? E os filhos e netos que são assassinados nas periferias porque nasceram ali e não noutro lugar? A impotência diante desta realidade acaba gerando um isolamento dolorido, extenuante, autopunitivo, mas aceito para poder sobreviver. As mentes são exigidas a justificar as próprias escolhas, a buscar sentido para o que ocorre, a encontrar motivos para os fatos jogados na cara a todo o momento. Estas exigências comparecem nas doenças do corpo impotente para fazer outra coisa, seguir outro caminho, ser capaz de interferir, mudar os rumos. Um corpo impotente adoece.

            A impotência recebe um contínuo adubo no conhecimento das crueldades dos que governam nosso país, e dos que continuam a apoiá-los, cujo resultado são centenas de milhares de mortos durante a pandemia. Muitas delas evitáveis, se a equipe do (des)governo tivesse tomado medidas adequadas a tempo. E não o fizeram por opção, não por desconhecimento. São mortes que cobram um preço impagável enquanto sociedade composta por boa parte de apoiadores insanos, boa parte de indiferentes, boa parte de omissos e uma parte que se contrapõe, mas com algumas vozes que querem a primazia de seu modo de ver e combater a situação e não encontram uma forma de se unir. Juntas, seriam uma força poderosa.

            É uma pena que aqui exista o titubeio em reconhecer que o desejo de morte do outro é o real inimigo comum. Tomara que o egocentrismo murche e aqueles que veem e sofrem a dor do outro se unam o mais rápido possível. Não queremos campos de flores a nos lembrar mortes inúteis. Enquanto isso, repetiremos à exaustão. Basta de genocídio.

           

A Guerra De Piero – Fabrizio De Andrè

 

Dormes sepultado em um campo de trigo

Não é a rosa, não é a tulipa

Que te velam da sombra dos fossos

Mas são mil papoulas vermelhas

 

Ao longo das margens do meu rio

Quero que desçam os peixes prateados

E não mais os cadáveres dos soldados

Levados pelos braços da corrente

 

Assim dizias e era inverno

E como os outros, na direção do inferno

Tu vais triste como quem deve

E o vento te cospe, na face, a neve

 

Para Piero! Para agora!

Deixa que o vento passe um pouco por você

Dos mortos em batalha, te levas a voz

Quem deu a vida ganhou em troca uma cruz

 

Mas você não o ouviu e o tempo passava

Com as estações a passo de Java

Até que chegaste a atravessar a fronteira

Em um belo dia de primavera

 

E enquanto marchavas com a alma nos ombros

Viste um homem no fundo da vala

Que tinha o teu mesmo, idêntico, humor

Mas a farda de uma outra cor

 

Dispara-lhe Piero! Dispara-lhe agora!

E depois de atingi-lo, dispara-lhe novamente!

Até que tu não o vejas, exausto

Cair na terra a cobrir o seu próprio sangue

 

E se dispara-lhe na fronte ou no coração

Possuirá apenas o tempo para morrer

Mas restará, para mim, o tempo para ver

Ver os olhos de um homem que morre

 

E enquanto lhe dedica esta atenção

Aquele volta-se, te vê e tem medo

E abraçado à artilharia

Não te retribui a cortesia

 

Caíste por terra sem um só lamento

E te dás conta em um só momento

Que o tempo não te havia bastado

Para pedir perdão por cada pecado

 

Caíste por terra sem um só lamento

E te dás conta em um só momento

Que a tua vida terminava aquele dia

E não haveria retorno

 

Ninetta minha, morrer em Maio (na primavera)

Requer tanta, coragem demais

Ninetta bela, direto para o inferno

Haveria preferido partir no inverno

 

E enquanto o trigo te estava a ouvir

Com as mãos apertavas um fuzil

Dentro da boca apertavas palavras

Geladas de mais para derreterem-se ao Sol

 

Dormes sepultado em um campo de trigo

Não é a rosa, não é a tulipa

Que te velam da sombra dos fossos

Mas são mil papoulas vermelhas

 

 

 

sexta-feira, 26 de março de 2021

Chega de silêncios

 

O navio saiu de Gênova e fez algumas paradas antes do desembarque no porto de Santos onde meu pai estaria nos esperando. Ele havia emigrado meses antes.  Os passageiros costumavam aproveitar e descer para visitar o local onde o navio atracava. Não lembro de muita coisa destas paradas, mas, sim, da penúltima no Rio de Janeiro. Ouço minha mãe dizer algo como: “Cheguei até aqui com dois filhos (eu e meu irmão), não quero que me aconteça nada, não vou descer, tem muitos negros aqui.” Foi meu primeiro registro da existência destas pessoas diferentes de nós. E a relação com o medo. Nunca soube, nem nunca conversamos a respeito disto, do motivo ou motivos de seus temores.

Em Caxias do Sul há poucos meses, como fazia na pequena cidade de onde eu tinha vindo, saí para brincar na rua, então com muito pouco movimento. Eu, curiosa e ainda sem ter começado a ir para a escola, acostumada a brincar no pátio existente nos fundos da casa onde nasci, agora, andava nas vizinhanças pela calçada. Seguia os conselhos de minha mãe, ficava por perto, afinal, estávamos numa terra ainda estranha. Procurava alguma pedrinha ou folha, olhava as casas muito diversas das que eu conhecia, saltitava nos retângulos de pedra sem pisar nas linhas que as delimitavam – mais tarde aprenderia o jogo de bidra ou amarelinha –, vivia num mundo despreocupado. Era um tempo feliz. Num daqueles saltos, concentrada no cálculo para o próximo pulo, torci um pé ao tentar me equilibrar. Ao erguer os olhos, paralisei por uns instantes, depois girei sobre mim e voltei correndo para dentro de casa, ignorando a dor e gritando por minha mãe. Ofegante, consegui dizer que tinha visto um homem muito escuro, preto, os olhos grandes, vermelhos.

Esta cena me acompanha até hoje. Foi meu primeiro contato com um negro. Na Itália daquela época não havia negros, ao menos onde eu vivia. Não lembro o que minha mãe me disse, imagino que nada esclarecedor, mas esta lembrança sempre vem junto àquele fato ocorrido na viagem.

Em minha formação escolar e universitária, nada conservo de muito significativo com relação à questão racial. Especialmente na formação superior, muitos intelectuais foram banidos. E muitas obras também. Era a época da ditadura. Numa sociedade predominantemente branca com origens europeias, a superioridade sobre o povo negro era uma questão dada. Eu me sentia italiana no meio de uma sociedade de descendentes de italianos que se diziam também italianos. Nas décadas de 1950/1960 havia poucos sobrenomes na cidade que não fossem italianos. Tínhamos a influência cultural dos meios de comunicação, principalmente a televisão, com todos os seus estereótipos. Então, fui formando uma crença de superioridade não só sobre o povo negro, mais por omissão (pouco estudamos e os escravos negros e mesmo sobre os índios nativos da região) do que por afirmação. Os preconceitos foram sendo interiorizados silenciosamente. Foram se tornando uma questão muitos anos mais tarde, quando já professora em outra cidade.

Lembro que me surpreendi quando um colega chamou a atenção sobre nosso racismo em afirmações do tipo “negrinho educado”, “apesar de negro, ele é...” e várias outras opiniões que emitíamos cotidianamente sem questionar. Aos poucos, fomos encarando também os preconceitos a outras etnias, a grupos minoritários e com diferenças daquilo que aceitávamos como o “normal” e o “certo”. O caminho para a construção de novos conceitos, e da coerência entre o discurso e a prática, foi longo e continua a exigir minha atenção.

A lembrança desta parte de minha história vem num momento em que estão emergindo no país reações de intolerância e de ódio numa intensidade assustadora. Conceitos privados de qualquer embasamento racional nos suscitam incredulidade e assombro. Felizmente, são veiculadas inumeráveis análises e teorias, mas que chegam àqueles que têm olhos e ouvidos para pensar sobre os outros e sobre si mesmos. No entanto, grande parte da população reage imune ao discurso da ciência e da razão e mostra uma identidade amorfa, sem raízes com a sua terra e sem orgulho por sua história, facilmente cooptada por discursos ilusórios e modelos aberrantes.

Diferentemente da época em que cheguei aqui e da época em que me formei como professora no interior, os silêncios estão sendo preenchidos há muito tempo. Talvez, a balbúrdia de muitas vozes de hoje possa até confundir, mas é no confronto entre elas que deverá surgir outro mundo. E torço para que vençam aquelas que gritam por um mundo onde seja reconhecida a história dos indígenas que aqui existiam, e seu contínuo extermínio; a dos negros escravizados e depois abandonados na sua dita libertação. E que as outras vozes parem de se espelhar apenas nos europeus, recebidos por uma terra generosa e nem sempre respeitada. E, mais hodiernamente, parem de mimetizar os americanos no norte. Encarar a história da formação do país cujas belezas culturais e tudo o que conseguimos produzir são resultado da potência da miscigenação é o caminho contra a ignorância e o enfrentamento de privilégios.

No entanto, é preciso continuar, continuar, continuar a gritar tudo isso, porque no meio de tantas vozes há a tentativa cíclica de instaurar novos silêncios.

 

 

sábado, 6 de março de 2021

Guiado por um poeta


Desde muito longe no tempo, a leitura tem sido um refúgio para serenar-me, ou, ao menos, para ter um tempo de suspensão das inquietudes que me atormentavam. Ela continua a ser a companheira que não me deixa desesperar.

Li todos os gibis da época de minha infância. Não eram muitas as publicações, conhecia-as todas, ao menos aquelas que chegavam ao interior onde morava. As histórias dos personagens da Disney povoaram minha cabeça e alimentaram meu desejo de outros lugares. As aventuras de Fantasma, Roy Rogers, Rin tin tin, Mandrake, Rocky Lane, Superman, Tarzan e vários outros foram minha literatura constante. Claro, posteriores e paralelas às fábulas tradicionais. A minha preferida era a de Branca de Neve. Talvez tenha sido porque foi o primeiro filme colorido que assisti, ao qual se seguiu o primeiro álbum de figurinhas. Até hoje revejo mentalmente algumas cenas e, embora com um olhar atualizado e crítico, ainda gosto delas. Até meus netos sabem de minha preferência, e serviu sempre de cumplicidade entre nós. Três deles já estão crescidos, então, este vínculo é  lembrado mais com a neta de quatro anos. Seus olhos brilham quando conta qual história a avó mais gosta.

Depois, na adolescência, vieram os romances nas fotonovelas: Capricho, Noturno, Você. Vivi muitas histórias de amor naquelas esperadas revistas semanais e nos romances ditos cor de rosa. Eram os primeiros anos da televisão, ainda sem as telenovelas nacionais. Existiam as radionovelas no começo da noite, antes da janta.

            Agradeço à diversidade de leituras pelo gosto por permanecer horas a fio concentrada em milhares de palavras que me levaram a tantos e diversos mundos. Agradeço também às leituras desde criança, que foram um tempo preparatório para a descoberta dos clássicos. Assim, até hoje, viajo aos lugares mais distantes pela mão de muitos e maravilhosos escritores, apesar da pandemia. Ou melhor, apesar dela. Ou, ainda, também por causa dela.

            Reafirmo que foi pelos degraus dos primeiros textos simples, que fiquei presa à necessidade de ler e de escrever. Eles me viciaram no sabor de um livro ao me aventurar no meio de suas páginas. Aventura não significava apenas prazer e leveza, muitas vezes, os temas foram pesados e doloridos. De qualquer forma, o mundo foi me invadindo em sua complexidade e com as suas diferenças. Tenho certeza de que isso contribui substancialmente para que não me detenha diante de uma informação sem cotejá-la com outras informações, sem que o conhecimento adquirido ao longo da vida venha em auxílio para meu próprio juízo.

            É claro que o conhecimento não depende apenas da leitura da palavra. Existem as condições de vida e uma leitura de mundo que a precede. Elas se entrelaçam. Por isso, a angústia me chega toda vez que vejo disseminadas tantas idiotices, tantos rancores, tantas distorções e milhões de frases desconexas e preconceituosas nas redes sociais. Ininterruptamente. Elas mostram a inexistência de uma trajetória de busca de conhecimento acumulado pela humanidade que nos é dado pelos livros, pelo estudo, sejam eles em papel ou, hoje, num suporte virtual. Sejam eles científicos ou literários. Porque a leitura conduz necessariamente a trocas e à expansão do que somos. E, com esta expansão, teremos boas chances de separar o joio do trigo, de ter ferramentas para derrubar barreiras de preconceito e de injustiça.

            Então, se não houvesse fome no país, a cesta básica poderia incluir um livro. Se os fabricantes de armas passassem a produzir livros e se fosse obrigatória uma livraria junto a cada farmácia. Se à educação fosse reservado lugar fundamental de verdade, com bibliotecas cheias de livros. Teorias diversas, pontos de vista diversos, histórias diversas, temas diversos. Com certeza não estaríamos na situação atual.

Estamos na travessia de um inferno. Quem pode procure a companhia de um bom livro, enquanto une esperanças e esforços na luta para salvar o que não foi ainda destruído no país. Hoje, tornou-se mais urgente ainda salvar vidas.

Dante foi guiado pelo poeta Virgílio para chegar ao paraíso. Deixemos nos levar por tantos e maravilhosos escritores que podem nos ajudar a resistir.

 

 

 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Não dá para fechar

 

             

Vivo no mesmo endereço há quarenta e dois anos. O bairro passou por muitas mudanças, existe uma que pode passar despercebida para quem apenas passa por ele. Ou morou por pouco tempo. É o fechamento de pequenos negócios.

Lembro quando começaram a construir grandes centros comerciais. Alguns duvidavam que poderiam dar certo. O Iguatemi, por exemplo, foi construído em área afastada. Uma das perguntas de então: “Quem irá até lá para comprar alguma coisa?”. No entanto, novos hábitos foram sendo construídos pouco a pouco e a população foi redirecionada. Com novos atrativos, muitos pequenos negócios de calçada minguaram e foram obrigados a fechar. As aglomerações de lojas sob o mesmo teto prosperaram e continuam a prosperar. Um lento, irracional e inexorável fluxo para um comércio mais longe de casa. São chamados de grandes templos do consumo. Pode-se comprar e consumir de tudo naqueles nichos requintados de mercadorias, ao abrigo das intempéries e com segurança. Tudo brilha, tudo é limpo, os aromas das lojas de perfumaria e cosméticos envolvem quem transita pelos corredores ladeados de vitrines com mil tentações para quem pode e não pode comprar. Tudo aberto em horários estendidos, até à noite, até nos finais de semana.  Um convite sedutor que faz confundir desejo com utilidade. Lugar fértil para a impotência e a inveja de quem não tem dinheiro.

Eu gostava de passar pelo mercadinho na volta da academia. Havia sempre frutas da estação compradas de fornecedores próximos. Lembro também da padaria onde ofereciam um bufê de comidas para levar. Na volta de meu trabalho, passava por ali e levava para casa a refeição. Um alívio diante da impossibilidade de cozinhar todo dia para a família. Muito mais longe no tempo, lembro de uma loja de tecidos e de todo tipo de artigos para costura e bordados. Encontrava-se de tudo, não precisava ir ao centro, na matriz. E, uns cinquenta metros distante, uma bela e sortida loja de artigos para presente, encontrava-se algo de todo preço e tudo era muito bonito. Esta, não fechou, mas transferiu-se para um espaço menor e próximo, e nunca mais foi a mesma. Foi substituindo a mercadoria por uma miríade de quinquilharias vindas da China. A senhora mais velha e sua filha continuaram a atender até venderem o negócio para alguém de fora.

E o caso da loja de chás! Encontrava-se a espécie mais inusitada, oferecida com uma encantadora explicação de sua origem e de suas propriedades pela senhora dona do negócio. Em embalagens especiais, vendido em gramas, levava-se junto um aroma saboroso. Entrar ali era um encanto, era viver um ritual que nos envolvia em momentos de estar num outro mundo. Esta loja fez o movimento inverso, saiu de centro comercial para aquela loja de calçada. Mas não sobreviveu. O afã do mundo de hoje foi mais forte que os atrativos do ritmo e prazer que ela oferecia.

Os locais fechados reabrem com novos negócios, duram algum tempo e depois fecham de novo.

Há alguns anos, havia um dia da semana, penso que era terça-feira,  no qual uma fila se formava junto à sala na lateral da igreja e se estendia até a calçada. Era o dia do sopão para os sem teto, predominância de homens, alguns velhos, todos maltratados pelas ruas, sujos, roupas gastas, deixando um cheiro desagradável no entorno. A atividade era exercida por paroquianos voluntários. Algumas vozes se manifestavam contra aquele espetáculo no bairro de classe média alta. O pároco exercia suas funções há muitos anos e sua autoridade prevalecia, mas aposentou-se. Outro sacerdote ouviu os clamores dos que frequentavam a missa dominical. Fechou o espaço. Aqueles serem humanos desprezados devem ter encontrado outro local para saciar a fome um dia por semana. Ou não.   

Na mesma época, a algumas quadras daquela paróquia, a prefeitura tentou utilizar um pequeno sobrado como local de acolhimento de sem teto. Desta vez não havia nem o velho pároco a defender a ideia. A experiência durou poucas semanas. Mendigos não foram bem vindos. Enfeavam as ruas bem cuidadas e ladeadas de verde. O local fechou. As mesmas vozes vigilantes deram a sugestão de algum bairro  distante, afinal, não dava para misturar os problemas deles com as necessidades da região.

Então chegou o tempo da pandemia.

E chegou a vez dela. No outro dia, passei por ali e estava tudo escuro, mas os móveis estavam dentro. Pensei que abririam mais tarde, afinal, era fevereiro e o movimento é tradicionalmente mais escasso. A padaria tinha começado a funcionar cerca de um ano antes. Eu gostava dos seus pães, dos sonhos, do bolo de iogurte.

Antes, fechou a pequena livraria do bairro, fechou a pequena lavanderia, fechou a pequena loja de roupas, fechou a pequena farmácia (até a farmácia, lugar mais procurado hoje em dia), fechou a pequena loja, antigamente chamada de 1,99. Fechou. Fechou. Fechou. Palavra pesada, vestida de fracasso. Quando tantos pequenos negócios fecham, a questão do mérito ou demérito individual não se sustenta. A gravidade está na falta de reservas do pequeno empreendedor, da situação limite em que ele logo vai se encontrar, da dificuldade de sustento, da dificuldade de recuperação e de novas oportunidades. Aí entra o papel do Estado, que, atualmente, está encolhendo cada vez mais e deixa ao desabrigo os que mais necessitam que ele cumpra seu papel.

Há outro movimento mais trágico que ultrapassa o bairro e a maioria da população não toma conhecimento. Ele é provocado pelo Senado, pela Câmara de deputados, pelas Assembleias estaduais e municipais. Não freiam o “presidente” da República, nem os governadores aliados no lamaçal de promiscuidade em que jogaram o país. Estes que deveriam ser os representantes de toda a sociedade, estão acabando com direitos dos trabalhadores, das minorias, das verbas para a educação, para a cultura, para a saúde. Desmontam uma rede de proteção social construída ao longo dos anos e com muitas lutas. Defendem portas abertas para interesses de poucos. Continuam a fechar portas para quem mais precisa, mas toda a população sente de alguma forma. A ponta do iceberg são as crianças, as mulheres e os homens que voltaram para as sinaleiras, junto aos supermercados ou outros pontos onde imaginam conseguir algum auxílio.

Desta forma, longe dos olhos da maioria, o Estado está desobrigando-se cada vez mais de suas funções, com a cumplicidade de políticos a serviço de particulares e de grandes grupos econômicos.  Só porque o Estado é sempre necessário para que uns poucos continuem no poder é que ele não “fecha”.

O desafio para quem tem a visão do que está acontecendo é furar as barreiras da desinformação e da cooptação por falsos profetas. Uma disputa que continuará árdua e longa. Cabe a cada sujeito consciente da situação fazer o que pode, mesmo que se veja como uma formiga no meio da imundície.  A mídia alternativa é quem continua a manter as portas abertas para a resistência das instituições e quem dentro delas continua a lutar.

            Não dá para fechar os olhos, os ouvidos e a boca para a tragédia de nosso país.