Sento ao lado da
senhora. Ela me sorri e eu retribuo. Ela logo puxa conversa, dizendo-me:
- Vim pra Feira só pra comprar
esse livro (A Arte de ser Infeliz), dizem que o psicanalista é muito bom. Aí
aproveitei e comprei este livro sobre D. Pedro II, gosto muito de história.
- Eu também, queria prestigiar
uma pessoa conhecida.
- Consegui trocar o horário de um
trabalho com o outro e deu tudo certo.
- Que bom, quando a gente
consegue resolver tudo, não é?
- A senhora sabe que eu sou
monarquista?
- Ah! Como é ser monarquista hoje
aqui no Brasil?
- É um sistema de governo, como o
presidencialismo, o parlamentarismo. A gente voltaria pelo parlamentarismo.
- Sei, mas como implantar uma
monarquia. Quem assumiria o cargo de rei?
- Tem os descendentes que moram
quase todos em São Paulo. Seria pelo parlamentarismo como na Espanha,
Inglaterra, Suécia. A gente não quer partidos.
A senhora retira
uma publicação de várias páginas e dentro dele um folheto com a imagem de D.
Luiz Gastão de Orleans e Bragança. Ela me mostra e declara:
- Seria ele, mas não anda bem de
saúde, então poderia ser... Não entendi o nome, mas não lhe pedi para repetir.
- Por que voltar à monarquia?
- A senhora sabe que nos países com
monarquia não têm corrupção? É pra mudar e gastar muito menos. O Congresso que
está aí é muito caro.
- Eu ouvi que houve escândalo
recente com os reis da Espanha.
- Mas, aí a gente tira. Olhe o
que aconteceu na Arábia Saudita, teve um deles que se corrompeu e eles tiraram.
- Mas os reis também são caros
pra sustentar.
- Mas é menos, o povo gosta, quer
que continuem onde eles existem, porque tem mais transparência.
A senhora, a quem
não lembrei de pedir o nome, se levantou ao chagar perto de sua parada.
Enquanto saía foi dizendo que a monarquia seria nossa salvação, ela estava
trabalhando para isso.
Fui olhando o
material que continuou nas minhas mãos. Não o devolvi para ser gentil. Afinal,
fiquei sabendo de mais um movimento que existe por aí. No alto da capa há uma
bandeira do Brasil com um sinal de tráfego indicando curva à direita. Abaixo, outra
bandeira que substitui o globo azul por um globo vermelho com a foice e o martelo, tendo ao lado o sinal à esquerda.
Abaixo das duas, em tamanho maior a bandeira verde e o emblema da monarquia
substituindo o globo azul. Acima dela um sinal para cima e as palavras “Para frente!”.
Na contracapa: “MONARQUIA: um sonho que pode se transformar em realidade”.
Invocando o desejo de se transformar como os países do primeiro mundo com
monarquia.
Fico me
perguntando que informações, que vínculos e que desejos se mesclam para
produzir um pensamento fragmentado como o que acabo de ouvir. Ainda bem que a senhora
desceu do ônibus logo. Se tivéssemos continuado a conversa, quase um monólogo
dela, teria eu alguma informação ou pergunta com potência para fazê-la pensar além
do círculo que mostrou ter construído ao redor?
Há momentos em que a palavra não
vem em minha ajuda.
Tive uma experiência semelhante no 7 de setembro. Fiquei pasma com a veemência da indicação da volta à monarquia como uma saída anti-corrupção.
ResponderExcluirComentei que essa perspectiva está na contramão da história, que no Reino Unido, por exemplo, o movimento anti-monarquia cresce e se fortalece, sugerindo que a monarquia está com os dias contados.
Não se convenceram. "Imagina, eles têm é muito lucro com o turismo quê a monarquia movimenta" . E o custo, pergunto? " Mas o quê eles fazem é trabalho"!
Pode?