sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O medo no cotidiano


                Ouço o historiador italiano Mauro Canali dizer que foi o medo a mola propulsora para Mussolini ascender ao poder. Fragmentos de notícias de hoje colam-se ao que ouço por aqui.
A economia em frangalhos depois da Primeira Grande Guerra e a população passando enormes dificuldades. Mais uma vez uma analogia com o país: desemprego em alta, direitos sociais eliminados, milhões de brasileiros voltando ao mapa da fome.
Havia então um desejo de salvação dos desafortunados e um líder que a prometia. Aqui também foram feitas promessas de salvação, mas não havia uma liderança promissora, apenas um subproduto da política e um complô para derrubar o governo constituído.
Mussolini juntou as promessas de arrumar o país com a construção da mídia a seu favor e a censura de quem estivesse contra para consolidar o poder. Até a imprensa estrangeira se embeveceu com sua retórica e custou a entender seus reais propósitos. No Brasil, a mídia já existia e sempre esteve ao lado do poder. Só não conseguiu barrar um governo voltado para a maioria excluída por alguns anos. Retomou com fúria seu papel de desinformar e mentir durantes as últimas eleições, continuando com o apoio ao golpe e a sustentação da turma golpista.
Mussolini tinha um sonho de engrandecimento da Itália e ele seu líder máximo que o realizaria. Aqui param as analogias. O grupo que se apossou do poder está se lixando para a terra natal, vende o país às multinacionais sem nenhuma vergonha. Promove o retrocesso a um Brasil Colônia, não mais de Portugal, mas do poder econômico e financeiro.
O entrevistador pergunta se a Itália estaria vivendo em momentos iguais e ele responde “Não”. Os desafios são outros, hoje a Itália vive outra realidade. Apenas o medo é que volta a assumir um forte papel para a tomada de decisões. Voltamos às semelhanças. O medo está contaminando a população brasileira. Embora aqui sejam sempre desenterrados velhos fantasmas que fariam rir o mundo lá fora. É chamado de comunista aquele que se manifesta por justiça social. Pesquisadores das áreas das humanidades em universidades estão sendo ameaçados. Um obscurantismo de Idade Média.
O problema maior é que a mídia vem alimentando o medo, desfocando os reais problemas do país. Apresenta consequências como causas, remexe a superfície e escolhe sempre os mesmos alvos, os pobres e qualquer diferença que dificulte seus intentos. Neste momento, se alinha ao invés de se contrapor a um discurso e ação moralizadores de grupelhos atuantes em constranger a sociedade civil, como os que apoiaram Mussolini. Neste tsunami contra direitos sociais, até o mundo artístico está sendo violentado como durante o fascismo. Todos os sistemas ditatoriais buscaram “disciplinar” a arte. Mais uma forma de ampliar o medo.
Um esforço gigantesco precisa ser feito por quem compreende a história e os mecanismos de sua produção e reprodução. Felizmente, existem inumeráveis micromovimentos espalhados pelo tecido social como anticorpos à destruição do país: intelectuais, professores, artistas, advogados, pequenos produtores rurais, políticos (nem todos fazem parte da corja dominante), sindicatos, pessoas comuns que lutam pela sobrevivência, uns poucos estados que caminham na contramão do desmando federal. Falta-lhes a visibilidade da grande mídia. Ela os ignora como sempre fez.  Que os golpes diários contra a maioria da população não nos imobilize. É preciso alimentar esses anticorpos, é preciso não desistir.
O fascismo necessitou de uma guerra mundial para ser derrubado. Temos que encontrar outro caminho por aqui.


3 comentários:

  1. Li com atenção tua cronica narrativa. Que parabenizar-te pela capacidade de não perderes o fio condutor fazendo analogias longas e retornando depois de outras ao mesmo tempo. É um trabalho coesivo muito bem interligados por idéias que não se perdem. Um texto assim é um texto de fôlego e um convite a que tomemos acento entre os que pretendem fazer algo. De fato, esses pequenos Cesares sempre existirão e o perigo permanente é deles se manterem no poder a qualquer custo, mesmo que seja esmagando aqueles que lhe sustentam: a classe trabalhadora. No Brasil, a maior parte do bolo econômico fica com o poder Legislativo e o Poder Judiciário com salários astronômicos, enquanto o trabalhador recebe um salario mínimo (70% da população).
    Jorge Du Barbosa

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  2. Maria Rosa, compartilho com tuas ideias e escreveste bem para ajudar a nos situar. Incrível o que estamos vivendo no Brasil. Por isso, estarei em Porto Alegre a partir de 22 de janeiro

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