sexta-feira, 25 de agosto de 2017

É preciso lembrar




Desta vez foi uma amiga muito próxima a ser assaltada. Ontem, foi uma pessoa apenas conhecida. Anteontem foi uma pessoa desconhecida. Voltando no tempo, poderia fazer uma lista interminável.
Não se trata, no entanto, de saber se conhecemos ou não quem sobre a violência pronta a saltar de cada canto da cidade. Trata-se de comprovar nossa vulnerabilidade e de podermos ser a próxima pessoa. Mesmo assim, não é uma questão individual, mas a constatação de que vivemos num tecido social esgarçado. Pior ainda, sem perspectivas de melhorar. Ao contrário, confirmando a cada manhã o desmonte da rede de proteção cuja responsabilidade é do Estado. Isto em nível municipal, estadual e federal.
Com a constatação do terremoto a solapar nossa economia via entrega de nossas riquezas às multinacionais por um governo ilegítimo, só temos perspectivas aterradoras. Terremoto acompanhado da destruição de leis que garantem um mínimo de direitos sociais.
Tudo isso com a continuidade de uma grande imprensa que mascara a realidade e faz um trabalho competente de alienação do povo do que realmente está acontecendo.
Então, o problema da violência sobre uma amiga ultrapassa as fronteiras do individual, da solidariedade para com quem conhecemos, mas nos chama mais uma vez para o quadro de descalabro em que estamos mergulhando há tempos. E com perspectivas péssimas.
Tudo isso reforça a tese de não aceitarmos o derrotismo de que na política é tudo igual. Há exemplos de bravura na luta contra uma maioria podre, e são estes que é preciso identificar. Há lideranças no meio estudantil, nos sindicatos, no campo, nas universidades que lutam e se põem a risco. É com eles que precisamos nos alinhar.

O que não cabe é o derrotismo, só serve para dar lugar aos espertos. Não podemos nos encolher na indiferença e no cuidado apenas do próprio quintal. É legítimo sermos tomados pela tristeza e pela sensação de impotência, mas não podemos desistir. Antes, resistir.

O que fazemos hoje é parte da história que deixamos aos nossos filhos e netos. E aos filhos e netos de todos. É preciso lembrar.

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