Releio um Canto da Divina Comédia de Dante Alighieri todas
as manhãs. Encontrei esta forma de começar o dia há algum tempo, e sem
premeditação. Assim como em certo momento a gente decide que vai caminhar três
vezes por semana, ou que vai tomar água antes de dormir, ou quaisquer outras
resoluções. Nestas últimas, no entanto, há sempre algo consciente que foi
elaborado em doses preliminares e convergem com alguns fundamentos
inconscientes.
No caso da leitura,
no entanto, parecia ter sido acidental. Se acreditarmos nesta palavra.
Arrumando uma pilha de livros fora de lugar, encontrei o volume Purgatório. Não o guardei, deixei-o
sobre a mesa da cozinha onde tomo café de manhã. Havia um marcador no Canto
XXII. Na manhã seguinte, enquanto sorvia o primeiro gole, folheei o livro,
observei alguns trechos sublinhados, mas não lembrava de havê-lo lido. Então
fui ao início, como sempre faço. Li as “orelhas”, iniciei o prefácio e o
encanto aconteceu. Não me dei conta de ter terminado o café. Eu tinha que sair
naquela manhã e devia interromper o
momento prazeroso, embora tendo despertado para a realidade no trecho “E se
pensarmos que a Europa, e a Itália em especial, já desde o século XI se
encaminhava para uma vida de dinamismo burguês que deixara para trás a
imobilidade da vida feudal, chegando por volta do final do século XIII e início
do século XIV, na época pois de Dante, a uma explosão de costumes e de modos de
vida e a contrastes de interesses sociais capazes de abalar os alicerces de
toda a sociedade...”.
Então fui pensando
no que estava acontecendo no país, sete séculos depois Um golpe contra uma
Presidenta eleita democraticamente, e no lugar um grupo de políticos com um
passado nebuloso, e em cujas mãos o país está sendo vendido a troco de bananas
para grupos internacionais. Um sistema judiciário onde pesam suspeitas de
partidarização e outras acusações mais sérias. Um congresso onde leis as mais
retrógradas e contra os interesses da maioria da população, a que trabalha sob
condições opressoras, estão sendo votadas cinicamente.
No mundo, as
guerras continuam tão ou mais cruéis do que sempre foram. Milhões de pessoas
massacradas e expulsas de suas casas em nome de religiões e dos mais variados
motivos, sem terem o acolhimento devido nos lugares para onde são empurradas
pelo desespero.
Um tempo em que
parecem ser mais fortes o individualismo e a incapacidade de se colocar no
lugar do outro. Então detenho-me na dúvida sobre se realmente
evoluímos ou se apenas atualizamos nossos erros com o auxílio dos avanços das
ciências, das tecnologias, da comunicação que alcança todos os cantos do
planeta.
Dante visava a salvação moral da humanidade repassando
séculos de história. A cada manhã, procuro nos seus Cantos uma inspiração. Se
não encontro respostas como gostaria, e sei que não as vou encontrar, começo o
dia com a delícia de uma leitura que me convida a sair da pequenez da lamúria e
a viajar na grandeza da arte pela palavra.
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