Um retrato do
país pode ser visto em poucas dezenas de metros da rua da Praia. Onde
antigamente passeavam os abastados, esparramam-se pelo chão panos estendidos com
as mais variadas quinquilharias: brinquedos baratos, objetos eletrônicos, relógios, CDs e uma colorida
espécie de roupas e tênis de marca. Arrisca-se afirmar que sua procedência é o
sudeste asiático pelas vias eternas das margens do sistema fiscal.
As lojas que
margeiam esta fileira central da rua também mudaram. Não existem mais aquelas
que fizeram sucesso e atraíam a parcela da população próspera. Sobram uma ou
outra, mas tudo se popularizou.
O comércio da
rua lembra o apinhado de bancas da Mal. Floriano junto à Praça XV antes de ser
varrido para o horrendo camelódromo suspenso sobre o terminal de ônibus entre a
Voluntários da Pátria e a Júlio de Castilhos. Prédio que parece ser antigo, e ser
necessária a sua demolição para dar lugar a algo melhor para o centro da cidade
e para os trabalhadores que diuturnamente passam por ali. No entanto tem poucos
anos de vida e uma história escusa para a sua construção.
Este comércio
informal é desobediente, porque em poucos segundos desaparece com a chegada de
uma van da fiscalização municipal. Deve existir algum código de aviso
antecipatório. Tudo é muito rápido. Um tempo para a rua ficar à disposição só
dos pedestres, de algum artesão autorizado e do grupo de indígenas com seus
produtos. Mas volta depois, conforme os hábitos já conhecidos do surgimento e
saída dos homens da lei. Parece um movimento pendular arbitrário de um relógio
invisível e desconjuntado.
Um
incessante caminhar acontece pelos lados destas mercadorias expostas.
Quem
compra ali?, pergunto. Já sei a resposta, são aqueles que dificilmente ou nunca
teriam acesso a brinquedos dentro das normas de segurança e a produtos com
controle de qualidade. No entanto, a origem das mercadorias em qualquer loja
pode ser a mesma, e as mãos que os fabricam podem sofrer a mesma exploração. O
que une tudo isso é a invisibilidade da produção.
Cada
vez mais, este tipo de comércio é uma saída para quem está na ponta mais
exposta do desarranjo do mundo do trabalho, da perda de direitos sociais, de
abandono das políticas públicas de inclusão social. É um termômetro do que
sucede no país em nível macro, mesmo que a população envolvida nem sempre
entenda porque está ali. E a temperatura da exclusão continua subindo. Como se
desdobrará esta história?
Excelente!! Trata de uma "subcondição banalizada", uma subcondição tornada condição! Texto muito conveniente aos dias atuais! :)
ResponderExcluirÓtimas e sensíveis reflexões!
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