quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Paradoxos

 

O tempo passa devagar quando somos jovens Às vezes, muito, muito devagar. Mas quanto mais velhos ficamos, mais depressa ele anda. Estas ideias alimentam muitas conversas. Também fazem lembrar teorias de cientistas e filósofos. A questão do tempo é um desafio para todos, teóricos ou não.

Para ficar apenas no círculo cotidiano, quem não  lembra de ter dito ou ouvido: Deixa o tempo fazer seu trabalho. Com o tempo tudo passa. O tempo cura qualquer ferida. É como se pudéssemos deixar alguém nos inocular um remédio muito poderoso, e bastasse ficar à espera. No entanto, o tempo é uma abstração tão enigmática que fica difícil entender até uma simples experiência de Einstein quando nos explica a sua relatividade através da observação de um objeto no interior de um trem em movimento. Ou então, viajar pela galáxia retardaria o envelhecimento do ser humano. O tempo no espaço não seria o mesmo da Terra. Questões que nos dizem ser o tempo uma categoria com múltiplas explicações.

Permanecendo na análise do que acontece na nossa sociedade, podemos afirmar que temos a percepção do tempo como em contínua aceleração. Fazemos mais atividades num dia do que faziam nossos antepassados. Conseguimos transpor em poucas horas distâncias inimagináveis há algumas dezenas de anos. Conseguimos saber o que acontece do outro lado do mundo em questão de minutos. Mesmo assim, as diferentes sociedades continuam obrigando grande parte do povo à imobilidade social, com acesso restrito à escola, à cultura, a viagens, ao consumo. Um tempo de espera e de não realização. Por outro lado, a escassez e as guerras obrigam aglomerações inteiras ao êxodo, movimento involuntário e predador.

Eis que, neste ano, a pandemia obrigou todos à imobilidade e distanciamento, todos foram igualados. E o tempo mudou de figura violentamente. No entanto, tempo e movimento continuam sentidos de forma desigual, desta vez, conforme as condições do distanciamento/isolamento. Ficar em casa, para quem mora precariamente, é duplamente punitivo. Sair para o trabalho ou simplesmente andar por aí, pode oferecer um tempo de estar num lugar melhor. Um exemplo visível é um passeio pelo shopping num dia escaldante. É o paraíso para quem não tem sequer um ventilador. Para quem pode armazenar comida e para quem tem que providenciá-la dia a dia, um fazer tremendamente diverso. Para quem tem condições de se proteger, pode ser apenas um tempo duro que vai passar.

Li, não sei quando, nem em que contexto, que não podemos estar distraídos. Hoje, penso que não distrair-se é dar atenção para o que faz, ou não, a vida valer a pena. Não sei se esta era a ideia de quem escreveu a frase, mas encaixa-se com harmonia neste tempo em que nossos movimentos foram cerceados bruscamente. Instalou-se um tempo de espera, um tempo de balanço sobre as reais necessidades para se ter uma vida digna. Um tempo de muita atenção.

Não distrair-se, ou prestar atenção, pode ter o sentido de desacelerar o tempo e inverter a rota. Ao menos para quem tem a sobrevivência garantida. Mesmo para estes, a garantia é ilusória na perspectiva histórica, porque nosso planeta está pedindo socorro, está sendo destruído de forma acelerada. E, de alguma maneira, todos sentem seus efeitos. Os avisos têm sido repetidos por cientistas de vários países, mas ignorados por quem detém poder econômico e o poder político. Talvez, o maior paradoxo do nosso tempo seja termos a capacidade de produzir tanta riqueza e tanta destruição simultâneas. Talvez nem seja um paradoxo. Há quem afirme ser uma equação necessária.

Na verdade, micromundos formam-se com novas alternativas de consumo e de relações sociais capilares. O modo de viver a natureza, e de usufrui-la com gratidão como muitos ancestrais, está sendo recuperada. Um tempo fora dos eixos vai se conectando à margem da exploração destrutiva da terra e do poder que continua a explorá-la. Um tempo cuja medida não é a aceleração, mas a solidariedade e a resistência, que desafia a ordem estabelecida. Talvez sejam estes micromundos a salvação do planeta. Não há tempo a perder. Tempo de acordar, de não se distrair.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Esquecimento é derrota

 


Chega ao fim mais um ano, um ano de pandemia, um ano letivo. Como serão as férias?

Tenho acompanhado com uma tristeza sem fim o que está acontecendo com o sistema de ensino no país e, especificamente, com a escola pública estadual onde fiz minha carreira. Só depois, fui para o ensino universitário. Outras notícias são igualmente avassaladoras, mas as referentes à escola pública estadual e municipal – responsáveis pela entrada das crianças e jovens que não podem ir para uma escola particular –, são angustiantes. Não são poucos os estudos que comprovam a importância da escola para as camadas excluídas da sociedade. Além do seu papel central de oferecer e construir conhecimentos, para muitos alunos, ela foi e continua sendo o único lugar de socialização protegida fora de casa. Mas há mais. Para muitos, é garantia de uma refeição decente. Apesar de todos os limites que sabemos existirem, ela é fundamental na vida de boa parte da população.

            A escola particular para a camada da população que pode pagar, procura conectar-se às mudanças que têm acontecido de forma acelerada na sociedade nos últimos cinquenta anos. A escola pública segue aos trancos. Encontramos desinteresse e omissão do poder público e esforços cada vez mais extenuantes por parte dos profissionais dentro da escola para aproximar-se desta atualização. São atos de heroísmo de alguns de seus professores e funcionários.

A ideia de escola para todos, da escola como alicerce para o futuro do país, da escola como prioridade para uma sociedade mais equânime são todos princípios abandonados há muito tempo. A diferença está em que, agora, foram abandonados até nos discursos oficiais. O descaso com ela está escancarado. Sem a mínima vergonha. Com esse abandono, vê-se morrer a esperança de que novas gerações consigam superar-se e tenham condições de vida dignas. A escola pública tem sido tratada, nos últimos anos, apenas como um problema a gerenciar diante da “falta de “verbas”. Mantra para a venda do patrimônio público nos três níveis da administração pública. Argumento que encobre interesses de grupos  particulares.

Na primeira década deste século, tivemos um período em que sonhamos e vimos melhoras acontecerem. O Ministério da Educação foi reconfigurando a legislação a favor de uma escola básica plural e com recursos. Projetos para bibliotecas, infraestrutura, laboratórios, salários dos professores. Enfim, cuidados com a escola como um todo, como era necessários fazê-lo. Muito ainda havia a ser feito. Eis que o sonho ampliou-se. A descoberta de enormes jazidas de petróleo, o pré-sal, permitiu prever uma enorme fonte de recursos para a educação. Enfim, o país destinaria parte de sua arrecadação a um projeto grandioso. O país distribuiria ganhos para por em prática o que nações, hoje desenvolvidas, haviam feito para tornar-se o que são atualmente. Seriam recursos maciços no sistema educacional. Todo professor deve se lembrar do slogan adotado na época: Pátria Educadora.

O poder econômico daqui e de além fronteiras não permitiu, com a conivência da parte podre da política nativa. Foi dado um golpe na política, destituída a Presidenta eleita e em poucos anos os direitos sociais foram sendo retirados num retrocesso de décadas. A educação foi atropelada sem piedade, os ataques ao sistema de ensino da base às universidades se espalharam de forma tão virulenta que deixou todos atônitos e incrédulos. O pesadelo continua e a sanha da “Casa grande”, para usar a expressão de Gilberto Freire, continua feroz e não dá trégua. Leva de roldão toda manifestação das ciências e das artes, invadindo grosseiramente as instituições e tomando de assalto os cargos de comando para garantir a sua devastação.

Chegamos em 2020. Todos sabem, ou deveriam saber, que as camadas desprotegidas sofrem muito mais com o que está acontecendo. A escola pública também. Sem condições de atender adequadamente seus alunos on-line, também não lhe são destinados recursos para receber com segurança seus alunos em sistema presencial. E mais, uma guerra de informações do governo, seu gestor, coloca dúvidas sobre o desejo de trabalhar dos próprios professores e dirigentes escolares. Mais uma vez, resta a rua para muitas crianças e jovens.

O que transmite a força para continuar a acreditar na mudança de rota, por longínquo que seja o dia, são as ações de gente lutadora, que não aceita os desmandos e as injustiças. Algumas são visíveis, outras não. Para quem não está mais em linha de frente, uma das formas de continuar junto, de se solidarizar,  é  servir-se da palavra para que nada seja esquecido. Registrar e denunciar são uma das formas de enfrentar a impunidade hoje robusta. É preciso fazê-lo sem descanso. É preciso lembrar. A lembrança fortalece outras formas de lutas.

O esquecimento seria a maior derrota.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Cactos

 

            Uma manta espessa sobre o solo pedregoso entremeada de ramos secos, arbustos e árvores baixas, tudo da mesma cor bege amarelada a perder de vista ao redor do estreito caminho. Vi Riobaldo e Diadorim rastejando no solo protegidos apenas pelo couro de suas roupas, desvencilhando-se das espetadas inevitáveis, rosto quase tocando a poeira a dificultar a respiração que também deveria ser silenciosa, cena de páginas lidas muito tempo atrás. Esta primeira visão ao vivo do sertão do Nordeste se sobrepôs às imagens da literatura e permanece intacta. Fiquei estupefata quando o guia nos perguntou: “Vocês acham que tudo isso está morto?”. Sem esperar resposta, ele seguiu: “Olhem aqui” e nos mostrou minúsculas folhas verdes esparsas, despontando nas junções dos galhos secos, invisíveis a olhos desacostumados. “Está tudo vivo” disse, enquanto falava da chuva abundante e extensa de uma semana atrás. “A natureza é paciente e renasce sempre”.

Continuou contando com paixão como ela era generosa, jamais deixava de gerar vida, atendia os que permaneciam teimosos ali, e não tardava em recompensá-los após qualquer água que recebesse. “Brotar era a resposta daquela vegetação áspera, seca, sem brilho, espinhosa e arisca ao contato humano” disse. Consegui aproximar-me do sentido das palavras de Guimarães Rosa, do que deveriam ser “vidas secas” de Graciliano Ramos, das pinturas de Portinari e Tarsila do Amaral. O tom apaixonado do guia ligou-me  àquela terra muitas vezes incompreendida. Ele desfiou histórias de vida de um povo que ama sua terra e seu modo de ser é lutar por ela. Mesmo quando tem que se distanciar dali.

            Outra visão nos esperava junto a um local hoje preservado. Uma pequena encosta, um arranjo de enormes pedras e o testemunho de uma antiga passagem de indígenas por aquela região. Andou-se entre um conjunto de cactos e vegetação de pequeno porte cuja serventia era explicada com encanto e reverência. Tudo ali tinha uma história e não podia ser arrancado sem razão. Nada de carregar uma lembrança dali. Só a necessidade de cura permitia retirar alguma folha ou ramo. A natureza era reverenciada.

Estas lembranças vêm em meu socorro porque tenho buscado motivos para continuar a ter esperanças, continuar a acalentar meus sonhos,  continuar a acreditar que um mundo melhor é possível. Continuar a acreditar.  Palavras amigas, doses de sabedoria ancestral, experiências vividas e compartilhadas, um arsenal de imagens e palavras já chegaram até mim. No entanto, os sistemáticos, ininterruptos e cruéis acontecimentos que ceifam vidas sem piedade têm abalado minhas esperanças sobre o futuro. Dói muito presenciar tudo isso. Posso fazer pouco agora. Faço. Várias vezes, pensei em desistir. Apresenta-se o vazio.

Eis que voltei a prestar atenção num vaso com alguns exemplares de cactos. Sua beleza espinhosa trouxe-me o Sertão de volta. Senti-me insignificante e covarde. Minha condição de isolamento físico criou o hábito de acercar-me daquelas pequenas plantas toda vez que desanimo. Elas me conectam a uma resistência distante, mas também próxima, tramada pelo país afora em lugares que conheço e que desconheço, onde a palavra desistir não existe, porque ocupada por resistir. Desejo espelhar-me nos pequenos cactos. Leio neles a mensagem: resiste.   

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

O que fazer?

 

 

    O que fazer? Uma pergunta feita muito tempo atrás continua sempre atual.

            Um político, cuja história o coloca em posição indefensável por já ter estado no poder, com acusações sérias a serem esclarecidas sobre sua forma de gerenciar a cidade, com um discurso de ódio e de mentiras e com comportamentos vulgares, mereceu a maioria dos votos válidos. Votos dos ricos, da classe média e das periferias que sofreram sob a sua administração. Havia uma alternativa. Uma mulher que buscou a alegria, o diálogo, o resgate de uma cidade que privilegiava a cultura, a educação, a ampliação da infraestrutura para a periferia, com diversas políticas sociais, enfim um governo de inclusão. Havia um programa que contemplava tudo isso. A história política da candidata e de seu vice permitia acreditar no que propunham. O fanatismo venceu a razão, a beleza, o entusiasmo e a esperança.  Neste momento, não quero voltar às inumeráveis análises.

            Sei que não vou desistir de lutar do jeito que puder. Sempre. Mas, neste instante, preciso me recolher, ficar quieta, juntar e aquietar meus pensamentos, dizer a mim mesma que haverá outro dia luminoso e precisa ter paciência. Talvez eu não tenha tempo para ela, já vivi a maior parte da minha vida. Agora necessito ficar no meu canto em silêncio sem negar a tristeza

Nada de teorias, nada de explicações, nada de lamentos. Apenas a gratidão por poder isolar-me e desejar que cada um dos que sofrem por não termos conseguido realizar o sonho, que nos parecia tão próximo, consigam se recuperar. Que os mais desfavorecidos socialmente consigam ser protegidos. É preciso, porque o caminho para transformar o que está aí será muito longo. E eu sei que estarei apenas no começo.

Vou lembrar dos meus filhos, dos meus netos, dos meus amigos – próximos e distantes – e me colocarei num grande e confortador abraço.

Preciso de uma trégua para que não me faltem as palavras.

sábado, 28 de novembro de 2020

Fica a aposta

 

Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil,

mas a escolha é um imperativo necessário.”

Luigi Pirandello

 

O homem é capaz das atitudes mais extremas para o bem e para o mal. Sem me aprofundar em teorias que o comprovam, poderia elencar inumeráveis exemplos ao longo da história. Qualquer um pode fazer isso. Mesmo assim, ou justamente por isso, fico estarrecida com a frequência dos comportamentos destrutivos de hoje. A explosão de tais manifestações nos mais distantes cantos do país e em todas as classes sociais, alerta para um período particular e assustador. Tudo isso estava submerso? A complexidade do que acontece é explicada de diferentes formas, mas um modo de estar no mundo martela meu pensamento: o individualismo.

            O que se sobressai, mais do que eu tenha ouvido durante a minha vida, são opiniões sem argumentos e carregadas de emoção que cega e ensurdece. Certamente algumas sempre existiram, mas às vezes eram rechaçadas, outras, com pouca receptividade ou com reciprocidade disfarçada. Lembro que dificilmente alguém assumia publicamente ser de direita, ou ser racista, ou ser odioso. Hoje, os limites se esfumaçaram, existe orgulho de sê-lo. Estas pessoas não se sentem com algum freio, antes, encontram eco e aplausos. Assemelham-se a bolhas que circulam sozinhas, manuseadas por fios invisíveis a agrupá-las aqui e ali para um estardalhaço maior. Ignoram vozes divergentes.  Eu poderoso, eu que está acima de regras sociais, eu que se lixa para o outro, eu sem limites.

            Para contrapor, volto-me aos exemplos da natureza antes da existência do ser humano. Desde a formação da primeira célula, a vida só conseguiu  ser criada porque houve trocas e combinações de moléculas e, quando se formou a película para a sobrevivência da primeira unidade, o intercâmbio entre o dentro e o fora  precisou continuar. Sem trocas, não haveria a produção e a reprodução da vida.  Acelerando a história chegamos ao ser humano com um cérebro fantástico capaz de maravilhas. Um órgão composto de bilhões de células que se comunicam, se entendem, colaboram entre si.  O cientista e professor Miguel Nicolelis, em seu livro O Verdadeiro Criador de Tudo, nos conta como o cérebro humano foi aumentando à medida que o ser humano necessitou criar novas relações com o ambiente e com os semelhantes para a sua sobrevivência. O homem e seu cérebro foram se formando e modificando  até os dias. Ele não tem uma natureza dada.

            Então volto a pensar em como os sujeitos se produzem e reproduzem na contemporânea sociedade capitalista. Nela, o consumo é a medida, a meritocracia é defendida como a verdade, vencer o outro a qualquer custo é a regra. Nesta sociedade, nunca houve, nem haverá lugar digno para todos, porque a premissa é a desigualdade social. A pobreza e a exclusão não são erros de percurso, elas são necessariamente decorrentes do sistema. É ele que produz esta diferença entre seres humanos que podem usufruir dos benefícios do progresso, e outros não. É assim que se constrói o individualismo, que se destrói a rede de colaboração necessária à preservação da vida. E todas as nefastas consequências.

            O que estaremos deixando para as gerações futuras? A nossa singular individualidade só existe num sistema universal. Somos únicos na relação com o outro. Fico torcendo para que as manifestações de solidariedade e cooperação consigam ser bem mais potentes, só assim a humanidade será capaz de preservar a vida terrestre. Espero que minha geração ainda consiga ver sinais desta escolha. Fica a aposta.

segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Ontem, hoje

 

Isto eu escrevi ontem.

Este é um momento dos mais difíceis para ficar em casa sozinha. Mesmo estando ao início das votações, gostaria de compartilhar o efeito  de  votar na esperança. Conheci vários e muito bons candidatos a vereador, eu teria escolhido alguns deles. Minha opção este ano foi uma candidatura coletiva de uma mulher negra, batalhadora, forte e com ideias que compartilho. A soma de tudo isso me deixa agitada e com vontade de conversar ao vivo. Abraçar quem também está torcendo por uma cidade melhor.

            Espero com toda a força a concretização das previsões. Todos os que continuam resistindo de diferentes formas precisam de uma vitória. Penso que os ideais resgatados nesta campanha foram os que tornaram Porto Alegre mais alegre, mais justa, mais culta, mais humana, no sentido melhor desta palavra algumas legislaturas passadas. Depois se perderam com administrações contrárias ao desejo de um mundo melhor.

            Voltamos a ter esperança. Esta palavra colou em mim. Ela me faz feliz. Ela está espalhada em milhares de toques nas urnas eletrônicas.. Imagino que o mar é a soma de gotas. Também os rios, as nuvens, os lagos. Então, a esperança não é uma formação sólida, mas uma teia formada por pontos localizados nas mãos de tanta gente, que vão tocando as mesmas indicações das teclas em instantes diferentes ao longo do domingo. Imagino uma música que vai tocando devagar e se espalhando, saindo das salas de votação, alcançando os corações de quem sente os mesmos anseios, os mesmos temores, as mesmas tristezas e, agora, a mesma esperança. Uma música que deverá ser bem mais forte que os ruídos opositores que existem ainda.

Hoje, digo que a música não foi tão potente quanto eu desejava, mas ela ecoou em cantos dispersos, manifestaram-se vários sinais de recomeço, por isso continuo a apoiar a voz de quem não se cala. Voz que representa também quem não é ouvido. Orgulho-me de quem continua a lutar pela recuperação de uma cidade que foi alegre e culta, apesar de todos os obstáculos. Recuso-me a desistir.

 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Através das cidades

 

Depois de muito tempo (estou perdida nele) sinto um fiozinho, ou uma pequena chama, ou um pequeno sussurro de esperança agitando-se no entorno. Ele está sendo suficiente para espantar, ao menos momentaneamente, as ondas de más notícias que continuam sendo lançadas a cada dia. A diferença está que elas não dominam o espaço como há algum tempo.

            É como se estivesse saindo do lodo onde fui jogada depois de ter sido enroscada em cipós. O mundo volta a ser sentido aos poucos, uma aragem, uma nesga de luz, um som. E isso tudo ocupando novamente o ar em volta, delineado com o movimento de um pincel mágico. Algo de muito bom está crescendo em diferentes lugares.

            Passei os últimos tempos gerenciando um turbamento produzido pela saturação da insensatez, da ignorância, do ódio, da negação da vida perto e longe de mim. Incapaz de encontrar um antídoto potente para restabelecer meu equilíbrio, alimentava-me de outras notícias com reações, às vezes vigorosas, mas esparsas. Grupos de gente guerreira: mulheres, gays, negros, trabalhadores, sem teto, professores, motoboys, motoristas de aplicativos, intelectuais, artistas, servidores públicos, aposentados dando voz e contraposição ao poder instituído e destruidor de direitos e da economia do país. Meu corpo recebia tudo isso e procurava se conectar. É como se estivesse recebendo o remédio certo, mas em doses muito pequenas para recuperar a saúde. Era necessária uma terapia maciça para destruir o vírus que estava acometendo o organismo combalido do país e eu dentro dele. Muitas vezes, a sensação era de que a sociedade ainda estivesse em fase de pesquisa para a medicação certa, não era apenas questão de dose.

            Hoje sinto como se todas aquelas reações espalhadas pelo território imenso que é esta terra começassem a frutificar e a se unir como a limalha aproximando-se de um ímã.

            Os deuses do mal continuam agitados e fazendo estragos. Mas, em países vizinhos, o ódio e a ignorância estão sendo derrubados em fortes batalhas.  E, mais ao norte, a facção insana está no escanteio. Na minha cidade, a vilania continua eriçada, mas o desejo de ter de volta políticas sociais e culturais que a fizeram conhecida no mundo todo está crescendo e se espraiando. Ventos cheios de palavras resgatam histórias perdidas onde outro mundo foi possível.

            Acredito que o corpo doído deste país está reagindo e todo o remédio inoculado aqui e ali está conseguindo entrar em circulação e poderá curar as feridas provocadas até agora. Ele está em UTI, evito pensar no tempo que será necessário, mas vejo trilhas abrindo-se através das cidades que poderão se empoderar de nova política. Porto Alegre merece recuperar sua história e fazer parte desta caminhada. Falta pouco.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Onde estão nossas façanhas?


 

Gratidão é o sentimento que me toma cada vez que vejo meus netos menores voltando à escola com todas as regras de proteção exigidas pelo ainda presente vírus. Um deles, em semana alternada. A outra, em horário reduzido. Estão em escolas particulares com todos os recursos necessários. Ambos também com atendimento on-line.

            Tristeza infinita é o que me toma a cada notícia que recebo sobre a situação da escola pública, a qual foi meu local de trabalho com orgulho por décadas.

            Num longínquo 1965, ingressei no Magistério Público Estadual, após concurso. Eu ficava feliz quando me perguntavam sobre o que fazia: Sou professora do Estado. Nesta resposta eu frisava Estado, porque eu sentia orgulho do lugar que ocupava. Nem todos passavam no concurso, eu me sentia empoderada pelo que havia conseguido. Sim, tinha orgulho. Era preciso ter conhecimento de seu campo de trabalho e titulação. A carga horária permitia fôlego e o salário razoável. Não poderia prever a longa e inexorável decadência que a situação sofreria. O orgulho de ter sido professora do Estado permanece, apesar das declarações de menosprezo que o governador (minúsculo) expressou pela categoria. Uma delas: O aposentado não melhora a educação.

            Os anos de trabalho em diferentes escolas estaduais, no interior e na capital, fizeram-me viver intensamente o cotidiano do ensino e da aprendizagem e as lutas que foram necessárias para defender a educação pública. Foram anos de experiências, projetos, disputas de narrativas e de ideias para que a sala de aula oferecesse o melhor para os alunos. No entanto, foram impostas reformas nas leis, atingindo os currículos e o regime de trabalho. A escola foi laboratório de ideias desastradas durante a ditadura e, a cada vez, foi se perdendo a identidade daquela escola pública respeitada e admirada. Algo foi recuperado depois, mas insuficiente. Ainda existem testemunhos nos prédios de algumas delas em numerosas cidades do estado. Como aluna e, no início, como professora, a escola do Estado era mais qualificada que a privada.

            A desqualificação da escola deu-se em três grandes linhas: currículo, recursos para manutenção e aprimoramento dos espaços físicos e salários de professores e funcionários. A história é longa, os currículos foram depauperados (começou em 1971) – depois, em parte reconstruídos com muitos esforços -, os recursos minguados lentamente e, com relação aos professores, destaco o ano de 1974 com a imposição do Plano de Carreira. Foi um brutal arrocho salarial, mas foi o que protegeu a categoria de novas investidas ao longo dos anos posteriores. Nem os governos da ditadura trataram com tal menosprezo a voz dos professores como está fazendo o atual.

            Eis que chegamos ao ano da pandemia. A escola pública é mais um exemplo de como o coronavírus atinge a todos, mas não da mesma forma. Os mais frágeis são mais atingidos e as desigualdades se acentuam. A escola pública em geral não tem os recursos físicos e humanos para poder atender adequadamente, e com os menores riscos possíveis, os seus alunos. Boa parte de seus alunos também não têm recursos adequados em casa para se proteger, nem para receber aulas on-line. Os professores com salários achatados que não lhes permite sequer sobreviver dignamente. E o governo do estado (minúsculo) faz de conta que esta realidade inexiste, embora tenha todos os dados necessários para saber. E sabe.

            Pouco antes de iniciar a pandemia, o governo do estado (minúsculo) massacrou o magistério que lutou com todas as forças de que dispunha para que não tivesse novas perdas. No, entanto, a dignidade das pessoas que lutaram na greve será sempre maior que a pequenez de um governador egocêntrico e cruel que recusa ouvir além do que ele e sua equipe determinam. Dignidade que não impede a tristeza, o desânimo, o estresse e as doenças decorrentes deste estado de coisas permanente.

Onde se perdeu o discurso de educação para todos como fundamental para o desenvolvimento do país? Onde se perdeu a história da escola pública de qualidade do Rio Grande do Sul? Quais são nossas façanhas, hoje, para que sirvam “de modelo a toda Terra”? A memória deste Estado está soterrada para quem está no poder hoje. O tempo se encarregará de julgar este período tenebroso para a educação.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

Palavras de Nico


 

O ministro do Meio-Ambiente reunido em Fernando de Noronha com o Ministro do Turismo e empresários num restaurante. O que poderá ser? Diante do que tem acontecido no país, só podemos temer por mais medidas que permitam a destruição do que ainda existe de natureza preservada.

As outras notícias sobre a destruição da Amazônia, o Pantanal incendiado, o fim de direitos civis, um novo escândalo envolvendo integrantes do atual governo do país, decisões arbitrárias da justiça, arquivamento de processos que deveriam ir adiante, abertura de novos processos contra quem se opõe aos horrores que estão acontecendo, tudo isto é prato renovado todo o dia. Pior ainda, denúncias sobre os horrores praticados pelo sistema judiciário através da Lava Jato são feitas no país há mais de um ano e nada acontece contra quem os praticou. Mas é preciso continuar a denunciar. É preciso saber que a palavra contra as injustiças continue a ser dita.

            Tudo isso, enquanto continua ativa uma vertente das mais dolorosas do que acontece no país: a repressão a grupos de pessoas em situação das mais vulneráveis. Um destes grupos é dos que não conseguem ter uma moradia digna, não conseguem pagar um aluguel, não conseguem estar no conforto da proteção de um teto. São milhões em diferentes cidades. Só por escrever esta situação sinto-me num mundo irreal e impossível de aceitar. Mas existe e está mais ou menos próximo de qualquer um de nós. E sua palavra não é ouvida.

No outro dia, assisti um vídeo onde um candidato falava de sua primeira experiência ao morar numa ocupação junto a dezenas de famílias sem moradia. Uma manhã bem cedo, sem aviso, sem ordem de despejo, foram abalroados pelas “forças da ordem” do Estado. Falar em truculência é redundância. Quem ainda estava em casa conseguiu a duras penas salvar alguns pertences. Quem já tinha saído para o trabalho, perdeu tudo. Homens, mulheres, crianças e velhos tratados como lixo. Bombas, cassetetes, máquinas para destruir o que encontrasse pela frente, em poucos minutos o terreno foi desocupado e a propriedade particular preservada. Uma propriedade sem qualquer proveito há muitos anos e de um dono que devia cifras enormes em impostos. A palavra dele foi ouvida.

O fato narrado não é algo isolado, é coisa triste que faz parte de nossa história. O que pensar diante da indiferença de tantos? Diante da incapacidade de barrar crueldades contra pessoas? Diante do crescente sentimento de que caminhamos cada vez mais para um individualismo corrosivo, cada um cuidando do que é seu? Mil perguntas surgem sobre o que mais poderá acontecer. Poucas respostas sobre a capacidade da sociedade de reverter este caminho neste momento.

A constatação de “perderam o pudor” afirmada por Chico Buarque e “a verdade não interessa, é assustador” dito por Wagner Moura reforçam o que vemos acontecer ao nosso redor. Se dois artistas chegam a essas conclusões, eles que são capazes de produzir obras que ajudam a elevar nossa capacidade de compreender o mundo, sentimos ainda mais o peso da brutalidade exercida em nome do Estado.

Então, é mais necessário do que nunca resistir com a forma de que se é capaz. A palavra continua necessária e é através dela que muitos continuam a lutar, inclusive os dois maravilhosos artistas. Apesar de tudo, ou por causa de tudo o que está acontecendo.

Igualmente, vêm em nosso auxílio as palavras de Nico Nicolaiewsky com sua voz inesquecível: só cai quem voa.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Apenas curativos


 

            A ferida se abre cada vez que vejo um carroceiro nas ruas da cidade cheias de veículos. Não sei em que parte do corpo ela está, sei que dói. E a dor vem junto com imagens de escravos carregando pedras, puxando cordas, arrastando-se até o último suspiro. Nenhum sinal deles nas obras grandiosas que ergueram. Pirâmides, templos, palácios, aquedutos, estradas. Uma força extraída de músculos e sangue com a autoridade e indiferença que o poder outorga sobre o outro. Dói, porque passam por mim e tudo está em ordem. É assim mesmo no século XXI. A diferença está que estes não constroem obras, mas limpam a cidade do lixo que cada um de nós faz. Eles também desparecem. E nada.

Não lembro de ter visto o mesmo carroceiro duas vezes ao longo dos anos que presto atenção a eles. Cheguei a imaginar que eles não ficam muito tempo neste trabalho, que conseguem arrumar alguma coisa melhor para fazer. Mas sei ser meu desejo a falar. São substituídos por outros. Sempre há outros de sobra.

Hoje é diverso, dizem. O trabalhador pode escolher o serviço que quiser, se não gostar de uma coisa, pode fazer outra.  Alguns não o fazem por incompetência ou preguiça. O carroceiro é carroceiro, porque quer. Mas são livres. Livres. Ouvi esta afirmação muitas vezes no discurso cotidiano Vejo homens substituindo cavalos na tração de seus carrinhos ou carroças, porque era indigno o tratamento dado aos animais, diziam os defensores destes últimos. E eles foram livres para substituir o animal. É obsceno invocar a palavra liberdade.

Então, penso que a ferida que dói se chame impotência. Ela não se cura com a caridade. Precisa de algo muito maior. Solidariedade no olhar, alcançar-lhe um dinheiro pedido, denunciar sobre sua situação são todos apenas curativos.

Tenho visto novos carroceiros, ainda não muito sacrificados pelas ruas. É possível constatar pela pele ainda livre de estragos fundos e pelas roupas em condições decentes. E o olhar vivo à procura de material que lhe sirva, identificar o saco de lixo promissor, a distância necessária a percorrer, um ou outro gesto amigo, a indiferença, a hostilidade. É o olhar que mais nos dá a medida do tempo nas ruas, porque ele vai se encolhendo e perdendo o brilho, a experiência da busca torna-o raso. A rua vai lhe desenhando também as marcas do rosto e no corpo.  Nem precisava da notícia de que o número deles aumentou em 21% nos últimos meses. Homens mais jovens estão nesta cifra.

Um dia, um homem me pediu um trocado para comer. Alcanço algumas moedas sempre com vontade de sair correndo depois. Mas ele começou a falar da filha. E o olhar raso ficou profundo. Ela estava terminando o segundo grau, ele tinha conseguido ajudar, orgulhoso de si. Não consegui falar nada, a garganta fechada, feliz por ele, imaginando onde e como conseguira aquela façanha. Vieram-me perguntas e dúvidas sobre o futuro desta mocinha, senti vergonha de não compartilhar suas esperanças, por conhecer o mundo de um outro lugar. Desejei-lhe sorte.

Em outro momento, ouvi a pergunta: “Por que querem nos tirar das ruas, se ajudamos a limpar a cidade?” A resposta oficial seria uma estupidez e a verdadeira, uma agressão. Não conseguiria explicar em poucas palavras. Então resolvi dizer-lhe que ainda havia políticos que se interessavam por eles, estavam cuidando da lei. Eu havia assinado um abaixo-assinado a favor deles. Não seriam tirados das ruas.

Outro modo de produção e de consumo é a questão seminal. E carregar lixo seco pelas ruas deixaria de ser sequer uma questão. Como poderia falar-lhes sobre isto?

Enquanto a impotência continua a falar mais alto, resolvo ter algum dinheiro sempre à mão, quando saio à rua.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                               Em geral são homens que arrastam a carga. Às vezes, é acompanhado pela mulher. Às vezes tem criança junto. Nos últimos tempos, vi homens jovens, ainda não tão maltratados, nem no físico, nem nas roupas. Poderiam ser sujeitos indo para o trabalho qualquer. Não que puxar uma carroça para ir em busca de materiais recicláveis não seja um trabalho. Penso num emprego fixo, lugar certo, vínculos empregatícios, que requer uma aparência dentro de certas normas.

 

Para que serve viver uma vida assim? Será a espécie humana tão cruel a ponto de gerar crianças do mesmo modo, mas de modo tão diferente negar-lhes a sua plena realização?

O carroceiro odeia a morte? Na sua ignorância de mundo ou extremo conhecimento, porque mergulhado nele todos os segundo que vive, segue puxando o peso que o mantém vivo.

sábado, 12 de setembro de 2020

Cavalos marinhos

 

Sonhei com a visão do nascimento dos cavalos marinhos. Centenas deles,  poucos no início, depois uma erupção vulcânica sai da barriga do pai. O vivido atualmente ultrapassou o limite do suportável. O sonho deve ter sido eco de meu desejo de outro mundo. É belíssimo vê-los deslizar na água que os recebe prontos a viver no seu habitat, alguns por pouco tempo. Respiro devagar, não quero sair deste lugar de harmonia.  São os machos que gestam os óvulos da fêmea. Sabor de resgate, de salvação, está tudo certo, enfim, o mundo entrou nos eixos. Há outros motivos de encantamento diante da vida natural. Existem os dragões-barbudos, um tipo de pequeno lagarto que pode mudar de sexo quando exposto a altas temperaturas. Hoje, encontrado também como animal de estimação. E os peixes-palhaço (Nemo) com seu cuidado especial pelas fêmeas, acompanhadas por vários machos e, quando uma morre, um deles se transforma em fêmea.  Existem também os chocos, os labridae, os ariolimax, para citar alguns exemplos de animais com transformações na sua sexualidade.

A natureza cada vez mais distante para quem vive numa grande cidade como eu. Mais ainda, num apartamento e durante a pandemia. Felizmente, posso contemplar algum verde de minhas janelas. Sou agradecida por isto.

Natureza que oferece flores bissexuais, femininas e masculinas na cobertura da crosta terrestre grávida de enorme variedade de espécies. Muitas delas, queimando no inferno da devastação da Amazônia com o apoio do atual governo. Volto às plantas e lembro que ainda não chegou a estação da florescência do jacarandá. Por aqui, existe o jacarandá-roxo, responsável pelo lilás das calçadas todos os anos na primavera. Mas aprendi que em algum lugar crescem também: jacarandá-do-pará, jacarandá-amarelo, jacarandá-do-cerrado, jacarandá-paulista. Imagino-os espalhados pelas matas ainda não destruídas, mas também ameaçadas como quase tudo neste país.  Há também a acácia, o pinus, o ipê (há manchas rosa e amarelas ao redor de onde moro), a palmeira, a canela, para ficar com apenas algumas espécies.

E lembrei também das leguminosas, das verduras, dos grãos e das frutas.

Um mundo torturado pelo modo como os latifúndios passaram a explorar o campo. Monoculturas e agrotóxicos destruindo o equilíbrio existente na multiplicidade de plantas.

            Volto ao mundo dos humanos onde vivo e  a seu insano desprezo pela natureza. O mundo autofágico onde o presidente do país declara: homem é homem, mulher é mulher; bandido bom é bandido morto; o coronavírus é uma gripezinha. A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, decreta que menina usa rosa e menino usa azul; e a gravidez de uma menina estuprada não pode ser interrompida; ignora o feminicídio existente no país; acusa professores de ensinarem as crianças a “virarem” gays; e por aí vai a lista de horrores. O ministro do meio-ambiente compactua com a devastação da Amazônia, declarando que o momento da pandemia é o de passar a boiada (leis que liberam a continuidade do seu aniquilamento), onde os indígenas remanescentes ainda convivem em harmonia com a natureza e são dizimados em nome de grotescas mentiras. O ministro da Fazenda manda vender as estatais a troco de bananas. A educação, a ciência e a cultura são atacadas de engenhosas maneiras.

Uma guerra diuturna e sem pausas. Uma força voraz para dobrar, emparelhar, domar o que foi classificado como diferente daquilo que o governo do país alçou como verdade. As denúncias existem, e muitas, contra o projeto macabro de poder que continua a avançar. Um esforço enorme de muitas fontes. E vão se multiplicando, muitas vezes carregadas de esperança. Como uma parte dos filhotes dos cavalos marinhos, no entanto, muitas morrem. Ou são esquecidas, ou são escrachadas pelo aplauso dos que, apesar de tudo, apoiam a barbárie como se lhes tivessem instalado um chip no cérebro. Tudo isso, apesar da luta que uma minoria dentro da política continua a enfrentar e sem a qual tudo estaria muito pior. Luta de David contra Golias. Claro que participo da luta junto a David, mas como não cair no desânimo e na impotência, ainda mais em tempos de isolamento?

Um dia, ouvi alguém dizer que o pobre não sabe o que é melancolia, não tem tempo para isso, gasta seu tempo para sobreviver. É uma das razões pela qual sinto vergonha de me lamentar. Tenho minha sobrevivência e isolamento garantidos, o que é muito nos dias de hoje. Do meu isolamento, então, também procuro a palavra para denunciar os horrores que acontecem todo o dia. Mas, muitas vezes, ela se esconde, porque estou cheia de raiva e de incredulidade. Por isso, refugio-me na potência de vida da natureza simbolizada no nascimento dos cavalos marinhos. Mas são momentos de trégua, de reabastecimento de energia, é preciso continuar.

            Evito o imobilismo de diferentes formas, como muitos de meus amigos. Uma delas é ampliar relações cooperativas, privilegiando o pequeno e o próximo:  produtor rural,  loja,  livraria,  restaurante, que  se reinventam para vir até a nossa casa. É um movimento vital de se aproximar do outro. Um movimento para continuar pós-pandemia. Talvez, isto seja uma das formas de microrrevoluções apontadas por alguns autores. Talvez, isto liberte a palavra engasgada e, com ela, novas energias para seguir adiante. Talvez, isto ajude a subir a montanha como Sísifo, não importa quantas vezes fomos derrubados. Talvez, isto se conecte com a macropolítica. Talvez.

 

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Quadro impressionista

 

Logo que o cinamomo foi cortado, eu parava muitas vezes ao lado do toco que restou. Era como olhar para o lugar onde antes havia existido uma perna ou um braço. Li que alguém, que tenha perdido um pedaço de si mesmo, continua a senti-lo e olha o vazio que ficou no conjunto de seu corpo, até se acostumar.

Eu me senti derrotada quando o laudo feito por profissional particular foi aceito pela prefeitura para cortar a árvore. A sombra na calçada não era espessa, mas aliviava o calor dos prolongados verões da cidade. E a buganvília próxima havia se entrelaçado até nos galhos mais altos numa composição que poderia servir de imagem a um pintor impressionista. Em diversos momentos do dia, daria um belo quadro. Eu enxerguei vários.

Lembro que uns poucos galhos bem no alto estavam secando, mas não lhe davam o aspecto de doente. Poder-se-ia podá-la, dizia-se. Eu compartilhava desta visão, talvez estivesse comprometida pelo desejo de conservá-la junto às primeiras lembranças daquele lugar. Quando nos mudamos para o edifício, ela era pouco mais que um arbusto formado por dois finos troncos que subiam de uma mesma base. Com o tempo eles se juntaram e formaram um único e vigoroso. Olhando aquela árvore adulta, poder-se-ia dizer que tinha um tronco deformado. No que restava dela, no entanto, viam-se dois conjuntos de círculos colados, um avançado sobre o outro. Foram crescendo assim, como duas árvores siamesas. Um belo espécime.

Mas a árvore também incomodava. Os cachos de frutos que deixava cair, como era de sua natureza, sujavam a calçada. Foi o argumento não declarado de alguns moradores ao sentenciá-la doente e perigosa. Logo lembrei do mecanismo que usam para derrubar alguma liderança. Destacam alguma coisa “errada” feita por quem querem eliminar – muitas vezes fake new – e acabam com o sujeito. A história está cheia de exemplos.

Um dia, resolvi fotografar o toco que não conseguiram exterminar. Lamentei não tê-lo feito antes, quando se podia ver nele a saúde da árvore abatida. Círculos bem definidos no plano bege deixado pela serra. Nenhuma intrusão de parasitas. Depois de cortada, o tempo fez, e continua fazendo, seu trabalho. Uma parte, a do tronco menor, mostra-se preta com seus anéis roídos pela umidade e transformados em espaços circulares onde a água já entra com facilidade. A outra circunferência sobrevive melhor às intempéries, conserva a cor clara com algumas nuances em verde mofo. Resiste teimosa.

Durante algum tempo, esperei que o cinamomo mostrasse uma interna e invisível rebeldia através do surgimento de algum ramo, como eu havia visto com outras árvores em outros lugares. Mas não aconteceu. Agora, o traçado dos círculos serve de testemunho, mas como documento comprometido. Cada círculo presenciou a vida que se movimentou pelo edifício. A chegada dos primeiros moradores, a mudança de outros, crianças de nasceram, alguns velhos que morreram, convidados para alguma festa em família, visitas, andanças de tanta gente. O círculo externo, presenciou uma história de cerca quarenta anos. Cada círculo interno acompanhou a história deste espaço um pouco menos, mas sempre testemunho junto aos outros que foram se formando. Uma espécie de diário ignorado em frente ao prédio. Agora a marca de cada ano vivido está  sendo borrada aos poucos.

Quantas perguntas o cinamomo, e a falta dele, pode fazer brotar como galhos invisíveis. No entanto, só quem ainda presta atenção no que ficou dele é capaz de atiçar memórias. É assim no viver cotidiano. O cinamomo é meu braço cortado, cuja falta persiste e me traz mil imagens de desperdícios, de injustiças, de paradoxos.

Que bobagem, apenas uma árvore cortada, poderiam dizer. Vejo, no entanto, a metáfora do descompromisso das ações humanas na capilaridade da rede social. Vivemos um tempo no qual cada um invoca e faz valer sua opinião com o respaldado de artifícios institucionais.

Imaginei as tantas vozes silenciadas com o auxílio da lei para salvaguardar interesses particulares. Uma vontade, uma mentira, ou mesmo, um pedacinho de verdade transformado em verdade absoluta, e o poder arbitrário abre passagem.

A eliminação de um cinamomo sadio na rua de uma grande cidade afrontou uma nesga do mundo vivido hoje.  E o espaço vazio privou-me do quadro impressionista, cuja beleza enfeitava meus dias e ajudava a seguir adiante.

domingo, 12 de julho de 2020

Não quero esquecer



Perdi a conta de quantas vezes tive esta sensação de incredulidade nos últimos quatro  ou cinco anos, especialmente nos últimos dezoito meses. A cada manhã faço a mesma pergunta: este pesadelo não terminou ainda?
            Desta vez, foram as palavras do novo ministro (minúsculo) da Educação no seu discurso de posse. A máxima deste senhor é de que é salutar infringir castigo físico a uma criança para corrigi-la. Mais ainda, ressaltou que ela precisa sentir dor para ter resultado neste ato de educar. E ainda, porque ela é incapaz de entender argumentos para ser convencida de algo. Isto é dito com o respaldo do presidente (também minúsculo) do país. Aquele senhor é religioso, foi reitor de universidade, professor, tem alguma carreira acadêmica.
            Não busco teorias para contrapor, existem muitas. Prefiro lembrar minha história, vasculhar nas minhas lembranças, o que ficou marcado.  Meus pais foram de uma geração em que bater nos filhos diante de uma desobediência era  inquestionável. Nunca sofri uma surra. Nas escolas em que estudei, o castigo físico jamais foi uma questão. Imagino que seria avaliada como uma cidadã de bem pelo atual ministro. Não me importo com a sua possível avaliação, apenas um raciocínio seguindo suas convicções.
            Perseguem-me imagens da situação das escolas públicas (deixarei de lado as particulares) sofrendo um longo e incessante processo de desestruturação nos seus recursos e dos seus professores. Recordo alguns testemunhos dos últimos anos sobre as dificuldades com alunos em situação de risco na própria família. Situação esta que deve ser vista a partir de um problema social e não como julgamento das ações dos pais. Recordo lamentos, porque algumas crianças só conheciam a linguagem da violência e o diálogo era muito difícil de estabelecer, um gesto de compreensão por parte do adulto era visto como fraqueza, a lei do enfrentamento estava arraigada como única forma de defesa.
Recordo da agitação das crianças recebidas por uma ong com a qual pude colaborar por um tempo. As questões que os educadores se faziam diante da dificuldade de estabelecer relações de confiança e de entendimento sobre o que elas mais necessitavam. Ali também, crianças em situação de risco e com dificuldades de concentração e aprendizagem.
Recordo histórias de pais desesperados por não conseguirem controlar os filhos e usarem a violência física para não os deixar cair nas mãos de traficantes. Única forma que viam para encaminhá-los para o caminho do bem. E não entendiam seu fracasso. Há incontáveis registros de trajetórias semelhantes. E outras tantas não registradas.
Recordo relatos sobre o modo violento com que são tratados jovens infratores reclusos. Única forma encontrada para controlá-los. Jamais vou esquecer o que uma assistente social falou um dia sobre a situação presenciada: “Aqueles jovens vivem no inferno”.
E o ministro da educação vem falar de aplicação de castigo físico para ensinar? Justo no lugar onde deveriam ser feitos os questionamentos sobre o que está ocorrendo com a educação. Por que não se perguntar sobre o mecanismo de produção da violência na nossa sociedade? Qual a origem? Como a violência perpassa todas as instituições, inclusive a escola? O que deveria ser feito para interromper esta máquina mortífera que é a violência? Ocorreu-me perguntar se ele foi educado da maneira que prega. Se acha que deu certo. E sobre o seu conceito de “dar certo”.
Não quero esquecer o discurso do ministro. Não quero que se torne mais uma sandice por parte de quem faz parte do governo do país e a ser relativizada. Quero ligar-me a narrativas que ajudem a encontrar o que de melhor há no ser humano. Quero reafirmar os caminhos da educação para produção de um ser humano capaz de ser poeta, cientista, astronauta, pai e mãe capazes de proteger seus filhos. Quero enaltecer os dizeres de poeta das ruas que pintava nos muros: “Gentileza gera gentileza”

sábado, 20 de junho de 2020

Não deveria ser assim




Os raios de sol que alcançavam a parede sul se encurtaram com o fim do verão. O outono chegou. Então, levei o vaso para o lado norte onde o sol ainda chega a entrar na sala. O verde do manjericão e da hortelã ficou mais vivo, e o perfume das folhas se espalha por ali.
Abril se foi. Neste mês, a sombra do espigão erguido a alguns metros começou a substituir a luz que chegava durante todo o dia. O tempo de sombra do edifício vai aumentando à medida que o outono avança. Maio também se foi. Estamos próximos do ápice: dia de solstício de inverno. E também do tamanho da sombra no nosso edifício. O sol nos alcança um tempo antes e um tempo depois de fazer sua rota atrás da enorme construção.
Gosto de pensar que ele parece pedir desculpas por nos abandonar justamente quando mais precisamos dele, enquanto ilumina o tempo todo aquele espigão. Mas não foi ele a decidir isso. A sua rota continua a mesma, derramando luz e calor indistintamente para todos. A sombra ficou ainda pior para as casas que ainda existem próximas e do lado sul. Elas ficam sem sol direto todo o inverno.
Gosto de pensar que vai começar o período em que o sol volta a iluminar nosso edifício um pouco mais a cada dia. No início nem se nota. É pouco a pouco, como quando o fomos perdendo. É todo ano assim. Ele volta sempre.
Não deveria ser assim. O espigão não seguiu o plano diretor na época de sua construção, tomou caminhos estranhos, embora legais. Com isso, privatizou-se a luz solar neste recorte da cidade.
Lembro que um grupo de moradores do bairro tentou bloquear a construção pelas vias legais, mas já era tarde. O mais triste é que muitos outros não quiseram participar da denúncia, nem de manifestações por escrito, nem de caminhadas pelas ruas próximas. Talvez uma grande mobilização pudesse ter feito a diferença. Talvez. Fica o fato de que a maioria ficou isolada em sua indiferença. Depois do acontecido ficaram queixas e a sensação de impotência. E a descrença em tudo. 
Existem muitos outros fatos dessa natureza pela cidade. São exemplos de como funciona cada um ficar resguardado no seu canto. Os motivos devem ser vários, mas acredito que o principal deve ser o medo do enfrentamento. Medo que advém de uma visão individual do que seja lutar por alguma coisa. A história nos mostra que os avanços sociais são resultados de muitas lutas. Muitas derrotas e algumas vitórias. Mas sempre de trajetórias com a mesma esperança e o mesmo objetivo.
Enquanto mantivermos nosso modo de viver assentado em consumismo intimamente ligado ao individualismo, ao egoísmo, e a diversos outros ismos, todos separatistas, não vejo como possam acontecer mudanças. São todas sombras das quais necessitamos emergir.
Resta a esperança de emergir nas manifestações, às vezes surgidas inesperadamente em diferentes lugares, e que se conectam em rede para gerar força na mesma direção. Que esta história se concretize com urgência.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Colorido um pouco desbotado




Isolamento. Pertenço a grupo de risco. Minha maior contribuição à sociedade é não adoecer, embora alguns gestores bem que gostariam que velho aposentado desaparecesse para, segundo eles, dar uma ajuda nas contas públicas.
O isolamento tem preço. Enquanto a angústia me cutuca pelas tragédias diárias no país, vou limpando aqui e acolá, conforme a vontade do momento. Uma peça por dia, devagar, vou cuidando de tudo.
Limpeza e arrumação são um jeito de cansar o corpo e despistar a tentação de abandonar-me num canto. Hoje, escolhi os enfeitas da prateleira da sala (coisa que não faço normalmente). São vários objetos acumulados ao longo dos anos. Na altura da vida em que me encontro, deixo para a diarista fazer. Neste período de pandemia, continuei pagando, mas pedi para que ficasse em casa como eu.
Limpar os objetos pequenos é uma tarefa demorada, alguns são delicados. Escovinha, pano macio, cotonetes, meus apetrechos. Todos tem valor afetivo. Concentro-me em cada um, mas alguns acabam me atraindo, não sou eu a escolhê-los. Um relógio de sol, em pedra sabão, encaixado num suporte (quando conheci Ouro Preto), uma ampulheta (presente na defesa de minha pesquisa sobre o tempo), algumas bolas que espalham neve quando agitadas e recobrem um pedaço de cidade ali encerrado (de diferentes lugares da Europa), uma bruxinha de cabeleira espevitada (presenteada por uma amiga, para me proteger, quando viajei para estudar fora). Todas lembranças prenhes de significados, porque por trás de cada uma existe história. Assim, vou me perdendo neste recanto protegido pelas recordações numa espécie de quarto de brinquedos onde posso ficar o tempo que quiser, escolhendo um ou outro, repetindo-os à vontade, no desejo de reviver de alguma forma momentos cheios de vida despreocupada.  
Detenho-me na estátua de porcelana. Tenho vontade de chamar de bibelô pela delicadeza do conjunto, mas a moça deve ter uns 25 centímetros de altura sobre uma base de mesma medida. Ela segura com uma mão um carrinho cheio de flores. Faz 19 anos que a recebi, na despedida de um longo período de estudo no exterior. Muitas vezes, vinha dela uma ponta de tristeza, porque perdi contato com quem me presenteou. Seu lugar era o canto esquerdo, sem alguma razão para a escolha. Foi colocada lá e lá permaneceu. Algumas vezes eu a olhei de raspão, como se costuma dizer, ao passar para ir para outro cômodo. Uma ou outra vez, perguntei-me se não estaria acumulando muita poeira com tantos detalhes, tantos relevos, tantas reentrâncias. Eram perguntas como fagulhas que logo apagam.
Devagar, com cuidado, passei a tirar a poeira das dobras do longo vestido, do franzido do avental, dos enfeites do chapéu, dos cabelos longos e encaracolados de um castanho claro suave. Passei às rosas, margaridas e pequenas flores do campo, num arranjo que transbordava o carrinho. O colorido já um pouco desbotado pelo tempo, mas em nuances que formavam um conjunto harmonioso de rosa, branco e lilás. Nesta passagem, intui estar entrando em mundos esquecidos, onde hibernam sentimentos colados a histórias de encantamento da minha infância. Princesas, bosques, montanhas, brincadeiras, cirandas, fantasias vestidas para cenas de teatro em férias de verão. Sem precisar qual história ou quando me foi contada, ou quando a li. Uma sensação no limiar entre estar dormindo e acordar. Um entremeio de passagem.
O tempo que dediquei a limpar a moça com carrinho cheio de flores me conectou com aquele espaço de alegrias, de expectativas, de sonhos vividos lá atrás na linha de tempo de minha própria história.
Deixei o rosto da moça para o final. Ela olha para cima, braço direito livre e erguido na mesma direção do olhar que brilha. O brilho me surpreendeu. Depois de tantos anos. Não lembro de ter reparado nele. Talvez eu não precisasse ver antes. Este brilho não fez ponte com o passado. Fez-me pensar no presente e no futuro. Fez-me pensar em tudo o que fiz e vivi para chegar até aqui e remeteu-me à necessidade de largar tristezas e desesperanças.
Lembrei-me de alguém me dizer um dia: o mundo não é como gostaríamos, temos de achar o nosso modo de viver nele. Nos últimos tempos, tem sido muito difícil achar esse modo para qualquer um que enxergue os rumos que vem tomando o país. A cada manhã encontramos notícias do desmantelamento das nossas instituições e da perda de direitos.
Ausentar-me do presente por alguns minutos foi providencial. Fazê-lo junto a referências de etapas de minha história não pode ter sido casualidade.  O que limpei foi muito mais do que a poeira, talvez outra poeira etérea e asfixiante.  Teve o poder de me fazer enfrentar medos escondidos. Sei que outros virão, terei que continuar limpando, porque não há possibilidade de retorno.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Cuidem das crianças


As palavras de Fernanda Montenegro ditas alguns anos atrás teimam em surgir cada vez mais seguido. O triste de envelhecer é ir perdendo um a um os amigos e, com eles, as memórias, disse mais ou menos assim numa entrevista.
Além de perder os amigos, vão-se perdendo também pessoas que foram marcos na história do país. A proximidade com muitas delas não pertence ao círculo de amizade, mas a uma dimensão igualmente importante e fundamental na construção da identidade de uma geração. São símbolos luminosos de épocas importantes da história. Épocas de sofrimentos e de esperanças. E elas traduziram esses tempos com suas próprias criações. E os marcaram com músicas, com filmes, com peças de teatro. E foram se incorporando à superação de períodos dolorosos e à conquista de um pedaço de caminho em direção à realização de esperanças.
De repente, em poucos anos, perdemos esse pedaço de caminho, entramos num túnel que nos tritura e não vemos luz à frente. Caminhamos quase sem fôlego. Então, para tornar essa caminhada ainda mais difícil, sabemos da morte de uma dessas referências do passado. A lista está ficando longa e pesada.
Nos últimos dias, perdemos Aldir Blanc. Morreu pelo covid19, poderia não ter morrido, nem chegara aos oitenta anos. Hoje, é possível viver muito mais. Ele escreveu uma das canções mais importantes a marcar a história do país: O bêbado e o Equilibrista. Ele é um ícone da resistência do povo brasileiro à brutalidade e à injustiça.
Há tempos recolhido, Flávio Migliaccio também se foi. Artista inesquecível, também representou uma época de luta por um país melhor. Sua atuação encantou muita gente. Ele resolveu sair de cena por vontade própria. Não suportou os rumos do país. O sofrimento o venceu, acreditou que não valeu a pena ter vivido para ver o que está acontecendo no país.
Dois exemplos perdidos, dentre os muitos da mesma geração, que outros estão  testemunhando. Envelhecer é também isto. Ser testemunha.
Um jovem pede desculpas num vídeo, porque a geração dele também fracassou como aquela de Lima Duarte e Flávio Migliaccio. Diante de tudo o que aconteceu no passado e, mesmo assim, muitos não aprenderam nada. Considera que está em nós a realização do fracasso, apesar de tanta gente ter lutado por um mundo melhor. Está em nós o bem e o mal. E deixamos que o mal fosse mais forte. Ele não citou, mas existem muitas narrativas que o respaldam.
Então lembro as palavras de um grande escritor: Mia Couto. Perguntado sobre as previsões de um mundo mais solidário após esta pandemia, ele não se mostrou esperançoso. Em síntese expressou o temor de que, se as condições existentes de embrutecimento do ser humano continuarem, não poderão ocorrer mudanças. É necessário mudar nosso modo de vida, caso contrário produziremos subjetividades que seguirão no mesmo caminho, sem aprender com o que está acontecendo. Em alguns lugares, talvez saiamos ainda piores, há quem preveja com pesar.
Por onde começar? Volto às palavras de Migliaccio na sua carta de despedida: cuidem das crianças. Quem cuidará das crianças? Quem puder, faça-o mais e melhor do que já o fez.


domingo, 3 de maio de 2020

Inaceitável é a injustiça (Na redoma 3)




Há um limite para suportar sentimentos dolorosos. Quando soa o alarme no sono agitado, no corpo que se recusa a obedecer, na sensação de impotência, volto-me para o que me ampara e ajuda a resistir ao que está posto.
Além das notícias ruins sobre as quais não tenho poder, cruzam as fronteiras da redoma energias boas, como gosto de chamar. Para minha sorte. Vem de outras redomas ou de espaços que não se podem fechar, porque necessários à sua própria sobrevivência. E sustentam a sobrevivência dos outros. E a minha. E fazem contraponto à intrusão da impotência, erguendo-se com a sua própria potência.
Uma vez por semana, recebo verduras e legumes orgânicos de assentamentos. Há amigos meus lá. Recebo cada sacola com gratidão. Sei quanto mais têm que trabalhar nas novas condições, mas não vejo desânimo no rosto curtido pelo sol, nem no olhar determinado que a máscara não oculta, nem nos gestos firmes. Guardo conversas anteriores, na feira que ocorria às quartas na esquina de casa. A consciência e o orgulho do que são e da importância do que fazem lhes dá uma força singular. Respeito, admiração amizade me unem a eles.
O celular também ajuda muito, apesar das contradições que seu uso produz. Angustia-me com as notícias, mas é o cabo que rompe parte do meu isolamento.
Ele traz a voz da neta maior com um assunto que emenda no outro, fazendo-me partícipe do tempo que ela também tem de viver diferente. Com suas palavras vem também afeto. Na tela vejo meus netos em situações corriqueiras que fazem toda a diferença no tempo atual. Recebo vídeos com macaquices, fotos e desenhos de um e de outro. Mando-lhes gravações de voz e em vídeos. Recebo opiniões do meu neto maior sobre meus textos do blog. Encanto-me com o que ele diz.
Através do whatsapp, encontro-me com amigos. Descubro uma nova poeta (para mim) com palavras entrelaçadas em ritmos suaves ou explosivos, dependendo do que quer lançar ao mundo. Recebo seu primeiro livro solo. Conheço as mãos criativas de uma artesã, encomendo-lhe uma boneca para a neta menor.  A Pascoa não precisou do supermercado. Uma mulher habilidosa ajudou-me a presentear os netos com chocolates saborosíssimos.
Meus filhos conseguem enfrentar a situação de maneiras diversas. Um deles providencia o que preciso do supermercado. Poupa-me saídas. Torço por eles.
Tenho o conforto de internet e contas bancárias (mesmo que reduzidas). Posso encomendar medicamentos e produtos, pagando on-line. Inclusive posso ajudar algumas pessoas, utilizando o teclado do computador. Meu risco de contágio é mínimo. Estão arriscando os muitos rapazes que transportam as mercadorias pelas ruas. E toda a rede de pessoas que ainda podem e devem trabalhar para produzir e fazer circular os produtos que chegam aos que respeitam a quarentena.
Não há como queixar-se. Pelo contrário, agradeço todos os dias o que tenho. Quando algum lamento teima em me mostrar o que estou perdendo, faço-a calar. Inaceitável é a injustiça de muitos não terem o mínimo para se proteger dessa pandemia.

domingo, 26 de abril de 2020

A pergunta de Levi (Na redoma2)




Ouvi o arquiteto Stefano Boeri afirmar em entrevista que procura viver o isolamento de forma a não sentir que perdeu tempo, quando este período terminar.
Continuo confinada e também não quero perder esse tempo. A guerra do coronavírus continua. À sua sombra ocorre outra, a da informação. Então, procuro lidar da melhor maneira com as horas às vezes pesadas e com o que me chega de fora.
Alcançam-me dados esparsos de diferentes noticiários, jornais, sites, a maioria independentes. As informações oficiais são postas em dúvida. O silêncio do atual Ministro da Saúde é ensurdecedor.
Recorro à literatura para fazer do meu tempo um terreno onde semeio. A redoma em que estou tem que ser uma estufa onde plantas frágeis se desenvolvem. Não uma gaiola onde pássaros sonoros deixam de cantar.
Leio e relembro. Primo Levi narra de uma maneira tremendamente dolorosa o que ocorria no campo de concentração. Um preso disputava qualquer coisa para comer. Às vezes, uma casca de batata, porque ela poderia significar ter mais algumas horas de vida. E a disputava com todas as suas forças. Naquele momento nada mais importava. Talvez fosse sua última chance de se salvar. O outro não existia, como não existia principalmente para o algoz.  Levi foi dos poucos sobreviventes, e sua terrível experiência o fez perguntar mais tarde: É isso um homem? Anos depois pagou um preço caro por ter continuado a viver, apesar de tudo.
            As narrativas do momento sobre a situação mundial dizem que estamos à beira de um colapso nunca experimentado, mesmo que alguns insanos o neguem. Somos atingidos por um vírus agressivo e grande parte da população encontra-se na miséria. Há quem tenha banalizado a morte anunciada dos mais frágeis: pobres, velhos e doentes. Seres humanos que poderão cair diante da indiferença de quem tem a obrigação de protegê-los. Numa lógica de guerra, há quem tenha se referido a eles como perda inevitável, para justificar a negação de isolamento social.
No nosso país, a situação é particularmente cruel e inacreditável. Somos governados por um grupo temerário. Parte dos apoiadores refletem suas ideias e ações. Alguns deles, tão ou mais cruéis e insanos, pedem de dentro de seus carros a abertura dos negócios. Outros vão às ruas sem proteção, repetindo a leviandade de seu líder. Este continua a dizer disparates criticados no mundo inteiro. O ministro da Economia não quer gastar demais. O ministro da Saúde, que tentava dar um rumo correto para lidar com o contágio que se está espalhando pelo país, foi demitido. O atual resolveu não mais falar à imprensa, mas já se declarou contrário à compra de muitos respiradores, porque perdem seu uso após a pandemia. A negação do perigo é seu mantra. Felizmente, existe desobediência em nível estadual e municipal.
De todo modo, continuam banalizando os campos de concentração existentes hoje. No país, são aqueles onde o Estado não está presente. São os bolsões de miséria que não têm infraestrutura sanitária, moradia adequada, trabalho, água potável, segurança. Mesmo que estejam próximos a espaços e gentes com todas as condições necessárias para se defender dignamente. Não são delimitados por cercas de arame farpado, nem por guardas armados, mas pelo abandono e pela inanição.
Por isso, a pergunta de Levi continua atual. Mas não deve ser feita para a população presa às condições em que vive, e no meio da qual podem explodir atos extremos. Ela tem que ser feita para aqueles que têm poder de interferir e mudar a realidade e não o fazem.
Responder àquela pergunta talvez possa ajudar a usar bem o tempo de isolamento. E a reagir às arbitrariedades inaceitáveis.