O tempo passa
devagar quando somos jovens Às vezes, muito, muito devagar. Mas quanto mais
velhos ficamos, mais depressa ele anda. Estas ideias alimentam muitas
conversas. Também fazem lembrar teorias de cientistas e filósofos. A questão do
tempo é um desafio para todos, teóricos ou não.
Para ficar
apenas no círculo cotidiano, quem não lembra de ter dito ou ouvido: Deixa o tempo
fazer seu trabalho. Com o tempo tudo passa. O tempo cura qualquer ferida. É
como se pudéssemos deixar alguém nos inocular um remédio muito poderoso, e
bastasse ficar à espera. No entanto, o tempo é uma abstração tão enigmática que
fica difícil entender até uma simples experiência de Einstein quando nos
explica a sua relatividade através da observação de um objeto no interior de um
trem em movimento. Ou então, viajar pela galáxia retardaria o envelhecimento do
ser humano. O tempo no espaço não seria o mesmo da Terra. Questões que nos
dizem ser o tempo uma categoria com múltiplas explicações.
Permanecendo na
análise do que acontece na nossa sociedade, podemos afirmar que temos a
percepção do tempo como em contínua aceleração. Fazemos mais atividades num dia
do que faziam nossos antepassados. Conseguimos transpor em poucas horas
distâncias inimagináveis há algumas dezenas de anos. Conseguimos saber o que
acontece do outro lado do mundo em questão de minutos. Mesmo assim, as
diferentes sociedades continuam obrigando grande parte do povo à imobilidade
social, com acesso restrito à escola, à cultura, a viagens, ao consumo. Um
tempo de espera e de não realização. Por outro lado, a escassez e as guerras
obrigam aglomerações inteiras ao êxodo, movimento involuntário e predador.
Eis que, neste
ano, a pandemia obrigou todos à imobilidade e distanciamento, todos foram
igualados. E o tempo mudou de figura violentamente. No entanto, tempo e
movimento continuam sentidos de forma desigual, desta vez, conforme as
condições do distanciamento/isolamento. Ficar em casa, para quem mora
precariamente, é duplamente punitivo. Sair para o trabalho ou simplesmente
andar por aí, pode oferecer um tempo de estar num lugar melhor. Um exemplo
visível é um passeio pelo shopping num dia escaldante. É o paraíso para quem
não tem sequer um ventilador. Para quem pode armazenar comida e para quem tem
que providenciá-la dia a dia, um fazer tremendamente diverso. Para quem tem
condições de se proteger, pode ser apenas um tempo duro que vai passar.
Li, não sei
quando, nem em que contexto, que não podemos estar distraídos. Hoje, penso que não
distrair-se é dar atenção para o que faz, ou não, a vida valer a pena. Não sei
se esta era a ideia de quem escreveu a frase, mas encaixa-se com harmonia neste
tempo em que nossos movimentos foram cerceados bruscamente. Instalou-se um
tempo de espera, um tempo de balanço sobre as reais necessidades para se ter
uma vida digna. Um tempo de muita atenção.
Não distrair-se,
ou prestar atenção, pode ter o sentido de desacelerar o tempo e inverter a
rota. Ao menos para quem tem a sobrevivência garantida. Mesmo para estes, a
garantia é ilusória na perspectiva histórica, porque nosso planeta está pedindo
socorro, está sendo destruído de forma acelerada. E, de alguma maneira, todos
sentem seus efeitos. Os avisos têm sido repetidos por cientistas de vários
países, mas ignorados por quem detém poder econômico e o poder político. Talvez,
o maior paradoxo do nosso tempo seja termos a capacidade de produzir tanta
riqueza e tanta destruição simultâneas. Talvez nem seja um paradoxo. Há quem
afirme ser uma equação necessária.
Na verdade, micromundos
formam-se com novas alternativas de consumo e de relações sociais capilares. O
modo de viver a natureza, e de usufrui-la com gratidão como muitos ancestrais,
está sendo recuperada. Um tempo fora dos eixos vai se conectando à margem da
exploração destrutiva da terra e do poder que continua a explorá-la. Um tempo
cuja medida não é a aceleração, mas a solidariedade e a resistência, que
desafia a ordem estabelecida. Talvez sejam estes micromundos a salvação do
planeta. Não há tempo a perder. Tempo de acordar, de não se distrair.