quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Onde estão nossas façanhas?


 

Gratidão é o sentimento que me toma cada vez que vejo meus netos menores voltando à escola com todas as regras de proteção exigidas pelo ainda presente vírus. Um deles, em semana alternada. A outra, em horário reduzido. Estão em escolas particulares com todos os recursos necessários. Ambos também com atendimento on-line.

            Tristeza infinita é o que me toma a cada notícia que recebo sobre a situação da escola pública, a qual foi meu local de trabalho com orgulho por décadas.

            Num longínquo 1965, ingressei no Magistério Público Estadual, após concurso. Eu ficava feliz quando me perguntavam sobre o que fazia: Sou professora do Estado. Nesta resposta eu frisava Estado, porque eu sentia orgulho do lugar que ocupava. Nem todos passavam no concurso, eu me sentia empoderada pelo que havia conseguido. Sim, tinha orgulho. Era preciso ter conhecimento de seu campo de trabalho e titulação. A carga horária permitia fôlego e o salário razoável. Não poderia prever a longa e inexorável decadência que a situação sofreria. O orgulho de ter sido professora do Estado permanece, apesar das declarações de menosprezo que o governador (minúsculo) expressou pela categoria. Uma delas: O aposentado não melhora a educação.

            Os anos de trabalho em diferentes escolas estaduais, no interior e na capital, fizeram-me viver intensamente o cotidiano do ensino e da aprendizagem e as lutas que foram necessárias para defender a educação pública. Foram anos de experiências, projetos, disputas de narrativas e de ideias para que a sala de aula oferecesse o melhor para os alunos. No entanto, foram impostas reformas nas leis, atingindo os currículos e o regime de trabalho. A escola foi laboratório de ideias desastradas durante a ditadura e, a cada vez, foi se perdendo a identidade daquela escola pública respeitada e admirada. Algo foi recuperado depois, mas insuficiente. Ainda existem testemunhos nos prédios de algumas delas em numerosas cidades do estado. Como aluna e, no início, como professora, a escola do Estado era mais qualificada que a privada.

            A desqualificação da escola deu-se em três grandes linhas: currículo, recursos para manutenção e aprimoramento dos espaços físicos e salários de professores e funcionários. A história é longa, os currículos foram depauperados (começou em 1971) – depois, em parte reconstruídos com muitos esforços -, os recursos minguados lentamente e, com relação aos professores, destaco o ano de 1974 com a imposição do Plano de Carreira. Foi um brutal arrocho salarial, mas foi o que protegeu a categoria de novas investidas ao longo dos anos posteriores. Nem os governos da ditadura trataram com tal menosprezo a voz dos professores como está fazendo o atual.

            Eis que chegamos ao ano da pandemia. A escola pública é mais um exemplo de como o coronavírus atinge a todos, mas não da mesma forma. Os mais frágeis são mais atingidos e as desigualdades se acentuam. A escola pública em geral não tem os recursos físicos e humanos para poder atender adequadamente, e com os menores riscos possíveis, os seus alunos. Boa parte de seus alunos também não têm recursos adequados em casa para se proteger, nem para receber aulas on-line. Os professores com salários achatados que não lhes permite sequer sobreviver dignamente. E o governo do estado (minúsculo) faz de conta que esta realidade inexiste, embora tenha todos os dados necessários para saber. E sabe.

            Pouco antes de iniciar a pandemia, o governo do estado (minúsculo) massacrou o magistério que lutou com todas as forças de que dispunha para que não tivesse novas perdas. No, entanto, a dignidade das pessoas que lutaram na greve será sempre maior que a pequenez de um governador egocêntrico e cruel que recusa ouvir além do que ele e sua equipe determinam. Dignidade que não impede a tristeza, o desânimo, o estresse e as doenças decorrentes deste estado de coisas permanente.

Onde se perdeu o discurso de educação para todos como fundamental para o desenvolvimento do país? Onde se perdeu a história da escola pública de qualidade do Rio Grande do Sul? Quais são nossas façanhas, hoje, para que sirvam “de modelo a toda Terra”? A memória deste Estado está soterrada para quem está no poder hoje. O tempo se encarregará de julgar este período tenebroso para a educação.

3 comentários:

  1. A educação agonizando
    É decepcionante muito triste só quem está vivendo próximo sabe o quanto é grave e doloroso.

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  2. Não sei quais façanhas devem servir de orgulho a toda terra. Estamos vivendo anos de vergonha.

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  3. Triste, mas não podemos perder a esperança. Saudades vó, bjs

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