domingo, 3 de maio de 2020

Inaceitável é a injustiça (Na redoma 3)




Há um limite para suportar sentimentos dolorosos. Quando soa o alarme no sono agitado, no corpo que se recusa a obedecer, na sensação de impotência, volto-me para o que me ampara e ajuda a resistir ao que está posto.
Além das notícias ruins sobre as quais não tenho poder, cruzam as fronteiras da redoma energias boas, como gosto de chamar. Para minha sorte. Vem de outras redomas ou de espaços que não se podem fechar, porque necessários à sua própria sobrevivência. E sustentam a sobrevivência dos outros. E a minha. E fazem contraponto à intrusão da impotência, erguendo-se com a sua própria potência.
Uma vez por semana, recebo verduras e legumes orgânicos de assentamentos. Há amigos meus lá. Recebo cada sacola com gratidão. Sei quanto mais têm que trabalhar nas novas condições, mas não vejo desânimo no rosto curtido pelo sol, nem no olhar determinado que a máscara não oculta, nem nos gestos firmes. Guardo conversas anteriores, na feira que ocorria às quartas na esquina de casa. A consciência e o orgulho do que são e da importância do que fazem lhes dá uma força singular. Respeito, admiração amizade me unem a eles.
O celular também ajuda muito, apesar das contradições que seu uso produz. Angustia-me com as notícias, mas é o cabo que rompe parte do meu isolamento.
Ele traz a voz da neta maior com um assunto que emenda no outro, fazendo-me partícipe do tempo que ela também tem de viver diferente. Com suas palavras vem também afeto. Na tela vejo meus netos em situações corriqueiras que fazem toda a diferença no tempo atual. Recebo vídeos com macaquices, fotos e desenhos de um e de outro. Mando-lhes gravações de voz e em vídeos. Recebo opiniões do meu neto maior sobre meus textos do blog. Encanto-me com o que ele diz.
Através do whatsapp, encontro-me com amigos. Descubro uma nova poeta (para mim) com palavras entrelaçadas em ritmos suaves ou explosivos, dependendo do que quer lançar ao mundo. Recebo seu primeiro livro solo. Conheço as mãos criativas de uma artesã, encomendo-lhe uma boneca para a neta menor.  A Pascoa não precisou do supermercado. Uma mulher habilidosa ajudou-me a presentear os netos com chocolates saborosíssimos.
Meus filhos conseguem enfrentar a situação de maneiras diversas. Um deles providencia o que preciso do supermercado. Poupa-me saídas. Torço por eles.
Tenho o conforto de internet e contas bancárias (mesmo que reduzidas). Posso encomendar medicamentos e produtos, pagando on-line. Inclusive posso ajudar algumas pessoas, utilizando o teclado do computador. Meu risco de contágio é mínimo. Estão arriscando os muitos rapazes que transportam as mercadorias pelas ruas. E toda a rede de pessoas que ainda podem e devem trabalhar para produzir e fazer circular os produtos que chegam aos que respeitam a quarentena.
Não há como queixar-se. Pelo contrário, agradeço todos os dias o que tenho. Quando algum lamento teima em me mostrar o que estou perdendo, faço-a calar. Inaceitável é a injustiça de muitos não terem o mínimo para se proteger dessa pandemia.

4 comentários:

  1. Tenho assistido a relatos de situações (aqui, em Portugal) que nunca tinha imaginado que pudessem acontecer... Mas, por outro lado, acho que isto despertou a "humanidade", o lado solidário que há dentro das pessoas.

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  2. Termos consciência do nosso privilégio e sermos gratas às doses de conforto afetivo que temos não impede que olhemos para os que se arriscam. Lamento que alguns não enxerguem além de si, ignorando os riscos de quem não tem opção. Parabéns pelo texto é pelas atitudes que não me surpreendem.

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  3. ..."cruzam as fronteiras da redoma energias boas, como gosto de chamar. Para minha sorte. Vem de outras redomas..." - adorei esta imagem e o quanto, mesmo fechados e isolados, podemos trocar amores e dores. E o quanto estar na redoma não impossibilita a conexão com os que precisam estar na luta. Parabéns Rosa, gostei muito!

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  4. Amei ?
    A poeta do Livro Solo citada no Belo texto sou Eu ?
    Que honra
    Parabéns
    Profundo respeito e zelo por seus escritos .
    Um abraço ..✍🏾🌹

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