Perdi a conta de
quantas vezes tive esta sensação de incredulidade nos últimos quatro ou cinco anos, especialmente nos últimos
dezoito meses. A cada manhã faço a mesma pergunta: este pesadelo não terminou
ainda?
Desta
vez, foram as palavras do novo ministro (minúsculo) da Educação no seu discurso
de posse. A máxima deste senhor é de que é salutar infringir castigo físico a
uma criança para corrigi-la. Mais ainda, ressaltou que ela precisa sentir dor
para ter resultado neste ato de educar. E ainda, porque ela é incapaz de
entender argumentos para ser convencida de algo. Isto é dito com o respaldo do
presidente (também minúsculo) do país. Aquele senhor é religioso, foi reitor de
universidade, professor, tem alguma carreira acadêmica.
Não
busco teorias para contrapor, existem muitas. Prefiro lembrar minha história,
vasculhar nas minhas lembranças, o que ficou marcado. Meus pais foram de uma geração em que bater
nos filhos diante de uma desobediência era
inquestionável. Nunca sofri uma surra. Nas escolas em que estudei, o
castigo físico jamais foi uma questão. Imagino que seria avaliada como uma
cidadã de bem pelo atual ministro. Não me importo com a sua possível avaliação,
apenas um raciocínio seguindo suas convicções.
Perseguem-me
imagens da situação das escolas públicas (deixarei de lado as particulares) sofrendo
um longo e incessante processo de desestruturação nos seus recursos e dos seus
professores. Recordo alguns testemunhos dos últimos anos sobre as dificuldades
com alunos em situação de risco na própria família. Situação esta que deve ser
vista a partir de um problema social e não como julgamento das ações dos pais.
Recordo lamentos, porque algumas crianças só conheciam a linguagem da violência
e o diálogo era muito difícil de estabelecer, um gesto de compreensão por parte
do adulto era visto como fraqueza, a lei do enfrentamento estava arraigada como
única forma de defesa.
Recordo da
agitação das crianças recebidas por uma ong com a qual pude colaborar por um
tempo. As questões que os educadores se faziam diante da dificuldade de
estabelecer relações de confiança e de entendimento sobre o que elas mais
necessitavam. Ali também, crianças em situação de risco e com dificuldades de
concentração e aprendizagem.
Recordo
histórias de pais desesperados por não conseguirem controlar os filhos e usarem
a violência física para não os deixar cair nas mãos de traficantes. Única forma
que viam para encaminhá-los para o caminho do bem. E não entendiam seu
fracasso. Há incontáveis registros de trajetórias semelhantes. E outras tantas
não registradas.
Recordo relatos sobre
o modo violento com que são tratados jovens infratores reclusos. Única forma
encontrada para controlá-los. Jamais vou esquecer o que uma assistente social
falou um dia sobre a situação presenciada: “Aqueles jovens vivem no inferno”.
E o ministro da
educação vem falar de aplicação de castigo físico para ensinar? Justo no lugar
onde deveriam ser feitos os questionamentos sobre o que está ocorrendo com a
educação. Por que não se perguntar sobre o mecanismo de produção da violência
na nossa sociedade? Qual a origem? Como a violência perpassa todas as
instituições, inclusive a escola? O que deveria ser feito para interromper esta
máquina mortífera que é a violência? Ocorreu-me perguntar se ele foi educado da
maneira que prega. Se acha que deu certo. E sobre o seu conceito de “dar
certo”.
Não quero
esquecer o discurso do ministro. Não quero que se torne mais uma sandice por
parte de quem faz parte do governo do país e a ser relativizada. Quero ligar-me
a narrativas que ajudem a encontrar o que de melhor há no ser humano. Quero
reafirmar os caminhos da educação para produção de um ser humano capaz de ser
poeta, cientista, astronauta, pai e mãe capazes de proteger seus filhos. Quero
enaltecer os dizeres de poeta das ruas que pintava nos muros: “Gentileza gera gentileza”
Muita lucidez n o teu texto. Da mesma forma que tu, sinto uma tristeza e desesperança enormes nestes dias sombrios. Não temos governo na principal cadeira do Executivo, não temos ministros. Temos fanáticos no poder, com mentalidades perversas muitas vezes, confusas e estáticas. Pobre Brasil. Mas devemos seguir a máxima salvadora, a de que a esperança é a última que morre. Que não morra conosco, essa esperança. PARABÉNS pelo teu texto tão verdadeiro,Rosa. E que não voltemos às trevas das palmatórias.
ResponderExcluirRosa, teu texto é a denúncia de uma prática que retorna, que foi há muitos anos descartada por ser inócua. É muito triste mesmo ver a barbárie chegar, agora, às nossas escolas. Não podemos esquecer não. É preciso que fique bem claro nosso repúdio. Estamos e continuamos juntos! Valeu!
ResponderExcluirTeu texto tira uma fotografia exata de um momento que nunca imaginei que pudéssemos viver no nosso país. Seres com índole sombria, disfarçados de "cidadãos de bem", estão no controle do governo. Sustentados por uma boa parcela da população, infelizmente.
ResponderExcluirÉ bom contarmos com fotógrafas literárias como você para registrarmos estes tempos. É doído, mas necessário não deixar isto de lado.
Muito bom, mãe. Ninguém em sã consciência lembra de uma "surra" com prazer. As lições oriundas do afeto, bom, estas sim são as lembranças que guardamos com carinho. Aquele que receita a violência é porque, infelizmente, não conheceu e não consegue projetar um mundo diferente. É verdade, não podemos esquecer a fala do ministro.
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