quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Cactos

 

            Uma manta espessa sobre o solo pedregoso entremeada de ramos secos, arbustos e árvores baixas, tudo da mesma cor bege amarelada a perder de vista ao redor do estreito caminho. Vi Riobaldo e Diadorim rastejando no solo protegidos apenas pelo couro de suas roupas, desvencilhando-se das espetadas inevitáveis, rosto quase tocando a poeira a dificultar a respiração que também deveria ser silenciosa, cena de páginas lidas muito tempo atrás. Esta primeira visão ao vivo do sertão do Nordeste se sobrepôs às imagens da literatura e permanece intacta. Fiquei estupefata quando o guia nos perguntou: “Vocês acham que tudo isso está morto?”. Sem esperar resposta, ele seguiu: “Olhem aqui” e nos mostrou minúsculas folhas verdes esparsas, despontando nas junções dos galhos secos, invisíveis a olhos desacostumados. “Está tudo vivo” disse, enquanto falava da chuva abundante e extensa de uma semana atrás. “A natureza é paciente e renasce sempre”.

Continuou contando com paixão como ela era generosa, jamais deixava de gerar vida, atendia os que permaneciam teimosos ali, e não tardava em recompensá-los após qualquer água que recebesse. “Brotar era a resposta daquela vegetação áspera, seca, sem brilho, espinhosa e arisca ao contato humano” disse. Consegui aproximar-me do sentido das palavras de Guimarães Rosa, do que deveriam ser “vidas secas” de Graciliano Ramos, das pinturas de Portinari e Tarsila do Amaral. O tom apaixonado do guia ligou-me  àquela terra muitas vezes incompreendida. Ele desfiou histórias de vida de um povo que ama sua terra e seu modo de ser é lutar por ela. Mesmo quando tem que se distanciar dali.

            Outra visão nos esperava junto a um local hoje preservado. Uma pequena encosta, um arranjo de enormes pedras e o testemunho de uma antiga passagem de indígenas por aquela região. Andou-se entre um conjunto de cactos e vegetação de pequeno porte cuja serventia era explicada com encanto e reverência. Tudo ali tinha uma história e não podia ser arrancado sem razão. Nada de carregar uma lembrança dali. Só a necessidade de cura permitia retirar alguma folha ou ramo. A natureza era reverenciada.

Estas lembranças vêm em meu socorro porque tenho buscado motivos para continuar a ter esperanças, continuar a acalentar meus sonhos,  continuar a acreditar que um mundo melhor é possível. Continuar a acreditar.  Palavras amigas, doses de sabedoria ancestral, experiências vividas e compartilhadas, um arsenal de imagens e palavras já chegaram até mim. No entanto, os sistemáticos, ininterruptos e cruéis acontecimentos que ceifam vidas sem piedade têm abalado minhas esperanças sobre o futuro. Dói muito presenciar tudo isso. Posso fazer pouco agora. Faço. Várias vezes, pensei em desistir. Apresenta-se o vazio.

Eis que voltei a prestar atenção num vaso com alguns exemplares de cactos. Sua beleza espinhosa trouxe-me o Sertão de volta. Senti-me insignificante e covarde. Minha condição de isolamento físico criou o hábito de acercar-me daquelas pequenas plantas toda vez que desanimo. Elas me conectam a uma resistência distante, mas também próxima, tramada pelo país afora em lugares que conheço e que desconheço, onde a palavra desistir não existe, porque ocupada por resistir. Desejo espelhar-me nos pequenos cactos. Leio neles a mensagem: resiste.   

9 comentários:

  1. Quanta empatia me causa teu belo texto. É preciso resistir, cara amiga. A natureza sábia nos dá lições o tempo inteiro. Quem sabe olhar os "subtextos" da mãe terra não perde a esperança. Resistir é preciso, fazer florescer a esperança para antecipar o tempo da colheita. Nem todos veem essa lição. Amei teu texto.
    (Ana Maria Pérez da Silveira)

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  2. Mirosa, vc foi muito feliz em sua inspiração. Parabéns.

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  3. Fui parar lá sertão, onde a vida resiste e nos dá esta lição de persistência. Obrigado pelo teu texto, Rosa!
    (Dante)

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  4. Parabéns,Mirosa! Um texto poderoso e criativo que retrata a capacidade do ser humano de se reinventar, apesar das circunstâncias, muitas vezes, dolorosas. Que tenhamos a sensibilidade, a resistência e a generosidade para prosseguir nessa caminhada. Bjs

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  5. Maria Rosa,
    Que bela a lembrança do sertão agreste e seco que esconde, durante tempos de saudades da vida, esconde a vida e, de repente, começa a desnudá-la generosamente, mostrando que vale a pena a esperança e resistência em tempos ruins. Amanhã há de ser outro dia. Um beijo. Teu texto está lindo.

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  6. Que lindo texto, Maria Rosa! Como os cactus, seguimos resistindo!

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  7. Que lindo, Mirosa! Quanta sensibilidade para descrever aquela nossa viagem tão especial e conectá-la com o momento presente. Um beijo!

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  8. Tua capacidade de enxergar sopro de vida no que parece seco, transformá-lo em palavras, traz a essência do que temos de perseguir: resistir, ainda mais quando tudo parece estar perdido. 🌹😘

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