sábado, 12 de setembro de 2020

Cavalos marinhos

 

Sonhei com a visão do nascimento dos cavalos marinhos. Centenas deles,  poucos no início, depois uma erupção vulcânica sai da barriga do pai. O vivido atualmente ultrapassou o limite do suportável. O sonho deve ter sido eco de meu desejo de outro mundo. É belíssimo vê-los deslizar na água que os recebe prontos a viver no seu habitat, alguns por pouco tempo. Respiro devagar, não quero sair deste lugar de harmonia.  São os machos que gestam os óvulos da fêmea. Sabor de resgate, de salvação, está tudo certo, enfim, o mundo entrou nos eixos. Há outros motivos de encantamento diante da vida natural. Existem os dragões-barbudos, um tipo de pequeno lagarto que pode mudar de sexo quando exposto a altas temperaturas. Hoje, encontrado também como animal de estimação. E os peixes-palhaço (Nemo) com seu cuidado especial pelas fêmeas, acompanhadas por vários machos e, quando uma morre, um deles se transforma em fêmea.  Existem também os chocos, os labridae, os ariolimax, para citar alguns exemplos de animais com transformações na sua sexualidade.

A natureza cada vez mais distante para quem vive numa grande cidade como eu. Mais ainda, num apartamento e durante a pandemia. Felizmente, posso contemplar algum verde de minhas janelas. Sou agradecida por isto.

Natureza que oferece flores bissexuais, femininas e masculinas na cobertura da crosta terrestre grávida de enorme variedade de espécies. Muitas delas, queimando no inferno da devastação da Amazônia com o apoio do atual governo. Volto às plantas e lembro que ainda não chegou a estação da florescência do jacarandá. Por aqui, existe o jacarandá-roxo, responsável pelo lilás das calçadas todos os anos na primavera. Mas aprendi que em algum lugar crescem também: jacarandá-do-pará, jacarandá-amarelo, jacarandá-do-cerrado, jacarandá-paulista. Imagino-os espalhados pelas matas ainda não destruídas, mas também ameaçadas como quase tudo neste país.  Há também a acácia, o pinus, o ipê (há manchas rosa e amarelas ao redor de onde moro), a palmeira, a canela, para ficar com apenas algumas espécies.

E lembrei também das leguminosas, das verduras, dos grãos e das frutas.

Um mundo torturado pelo modo como os latifúndios passaram a explorar o campo. Monoculturas e agrotóxicos destruindo o equilíbrio existente na multiplicidade de plantas.

            Volto ao mundo dos humanos onde vivo e  a seu insano desprezo pela natureza. O mundo autofágico onde o presidente do país declara: homem é homem, mulher é mulher; bandido bom é bandido morto; o coronavírus é uma gripezinha. A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, decreta que menina usa rosa e menino usa azul; e a gravidez de uma menina estuprada não pode ser interrompida; ignora o feminicídio existente no país; acusa professores de ensinarem as crianças a “virarem” gays; e por aí vai a lista de horrores. O ministro do meio-ambiente compactua com a devastação da Amazônia, declarando que o momento da pandemia é o de passar a boiada (leis que liberam a continuidade do seu aniquilamento), onde os indígenas remanescentes ainda convivem em harmonia com a natureza e são dizimados em nome de grotescas mentiras. O ministro da Fazenda manda vender as estatais a troco de bananas. A educação, a ciência e a cultura são atacadas de engenhosas maneiras.

Uma guerra diuturna e sem pausas. Uma força voraz para dobrar, emparelhar, domar o que foi classificado como diferente daquilo que o governo do país alçou como verdade. As denúncias existem, e muitas, contra o projeto macabro de poder que continua a avançar. Um esforço enorme de muitas fontes. E vão se multiplicando, muitas vezes carregadas de esperança. Como uma parte dos filhotes dos cavalos marinhos, no entanto, muitas morrem. Ou são esquecidas, ou são escrachadas pelo aplauso dos que, apesar de tudo, apoiam a barbárie como se lhes tivessem instalado um chip no cérebro. Tudo isso, apesar da luta que uma minoria dentro da política continua a enfrentar e sem a qual tudo estaria muito pior. Luta de David contra Golias. Claro que participo da luta junto a David, mas como não cair no desânimo e na impotência, ainda mais em tempos de isolamento?

Um dia, ouvi alguém dizer que o pobre não sabe o que é melancolia, não tem tempo para isso, gasta seu tempo para sobreviver. É uma das razões pela qual sinto vergonha de me lamentar. Tenho minha sobrevivência e isolamento garantidos, o que é muito nos dias de hoje. Do meu isolamento, então, também procuro a palavra para denunciar os horrores que acontecem todo o dia. Mas, muitas vezes, ela se esconde, porque estou cheia de raiva e de incredulidade. Por isso, refugio-me na potência de vida da natureza simbolizada no nascimento dos cavalos marinhos. Mas são momentos de trégua, de reabastecimento de energia, é preciso continuar.

            Evito o imobilismo de diferentes formas, como muitos de meus amigos. Uma delas é ampliar relações cooperativas, privilegiando o pequeno e o próximo:  produtor rural,  loja,  livraria,  restaurante, que  se reinventam para vir até a nossa casa. É um movimento vital de se aproximar do outro. Um movimento para continuar pós-pandemia. Talvez, isto seja uma das formas de microrrevoluções apontadas por alguns autores. Talvez, isto liberte a palavra engasgada e, com ela, novas energias para seguir adiante. Talvez, isto ajude a subir a montanha como Sísifo, não importa quantas vezes fomos derrubados. Talvez, isto se conecte com a macropolítica. Talvez.

 

 

7 comentários:

  1. Lindo, doído. Não sabemos mais como resistir, mas desistir não é opção. Palavras, gestos, união, respeito e solidariedade terão que ser armas potentes. Eles desconhecem qualquer movimento que acolha o humano. Talvez essa seja a resistência que encontrará um caminho. Talvez.

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  2. Neste tempo quase inacreditavel precisamos mesmo ser como Sisifo. Aguentar o a b surdo, a dor,o non sense das perversidades e daí extrair a Resistência. Bravo texto, brava Rosa. Texto de extrema beleza e lucidez.

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  3. Muito bom. A tua lucidez e a maneira de enfrentar os demonios, me contagiam. Parabéns!!

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  4. Sinto também todo esse desalento e tristeza. Em alguma medida, estamos nos acostumando ao absurdo. Mas aí lembramos dessas pequenas resistências, desses pequenos espaços de potência de vida e de esperança. Dos cavalos marinhos, que vêm em forma de ações de solidariedade, de risos das crianças da família, de canto de passarinho, de dança, de arte, de conversa com nossos amados, de raio de sol e de sombra de árvore. Lendo textos como esse, também lembramos que não estamos sós. Obrigada.

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  5. Devemos dizer o que pensamos não só para mudar outras mentes, o que as vezes não acontece, mas para que as mentes pensantes como nos não se sintam sós... eu adoro tua escrita, especialmente quando ela acompanha tão fielmente o que vai em teu coração! ♥️ Teu desabafo é o meu e o de muitos outros.... Incrédulos, resistimos... 🥰😍❣️

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  6. A menção aos cavalos marinhos me fez lembrar a música de Renato Russo chamada Vento no litoral. A veia da professora está presente nesse conto, bem como a força da natureza para imprimir sentido à existência humana.

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  7. A menção aos cavalos marinhos me fez lembrar a música de Renato Russo chamada Vento no litoral. A veia da professora está presente nesse conto, bem como a força da natureza para imprimir sentido à existência humana.

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