Isolamento. Pertenço a grupo
de risco. Minha maior contribuição à sociedade é não adoecer, embora alguns
gestores bem que gostariam que velho aposentado desaparecesse para, segundo
eles, dar uma ajuda nas contas públicas.
O isolamento tem preço. Enquanto
a angústia me cutuca pelas tragédias diárias no país, vou limpando aqui e
acolá, conforme a vontade do momento. Uma peça por dia, devagar, vou cuidando
de tudo.
Limpeza e arrumação são um
jeito de cansar o corpo e despistar a tentação de abandonar-me num canto. Hoje,
escolhi os enfeitas da prateleira da sala (coisa que não faço normalmente). São
vários objetos acumulados ao longo dos anos. Na altura da vida em que me
encontro, deixo para a diarista fazer. Neste período de pandemia, continuei
pagando, mas pedi para que ficasse em casa como eu.
Limpar os objetos pequenos é uma
tarefa demorada, alguns são delicados. Escovinha, pano macio, cotonetes,
meus apetrechos. Todos tem valor afetivo. Concentro-me em cada um, mas alguns
acabam me atraindo, não sou eu a escolhê-los. Um relógio de sol, em pedra sabão,
encaixado num suporte (quando conheci Ouro Preto), uma ampulheta (presente na
defesa de minha pesquisa sobre o tempo), algumas bolas que espalham neve quando
agitadas e recobrem um pedaço de cidade ali encerrado (de diferentes lugares da
Europa), uma bruxinha de cabeleira espevitada (presenteada por uma amiga, para
me proteger, quando viajei para estudar fora). Todas lembranças prenhes de
significados, porque por trás de cada uma existe história. Assim, vou me
perdendo neste recanto protegido pelas recordações numa espécie de quarto de
brinquedos onde posso ficar o tempo que quiser, escolhendo um ou outro,
repetindo-os à vontade, no desejo de reviver de alguma forma momentos cheios de
vida despreocupada.
Detenho-me na estátua de
porcelana. Tenho vontade de chamar de bibelô pela delicadeza do conjunto, mas a
moça deve ter uns 25 centímetros de altura sobre uma base de mesma medida. Ela
segura com uma mão um carrinho cheio de flores. Faz 19 anos que a recebi, na
despedida de um longo período de estudo no exterior. Muitas vezes, vinha dela
uma ponta de tristeza, porque perdi contato com quem me presenteou. Seu lugar
era o canto esquerdo, sem alguma razão para a escolha. Foi colocada lá e lá
permaneceu. Algumas vezes eu a olhei de raspão, como se costuma dizer, ao
passar para ir para outro cômodo. Uma ou outra vez, perguntei-me se não estaria
acumulando muita poeira com tantos detalhes, tantos relevos, tantas
reentrâncias. Eram perguntas como fagulhas que logo apagam.
Devagar, com cuidado, passei
a tirar a poeira das dobras do longo vestido, do franzido do avental, dos enfeites
do chapéu, dos cabelos longos e encaracolados de um castanho claro suave. Passei
às rosas, margaridas e pequenas flores do campo, num arranjo que transbordava o
carrinho. O colorido já um pouco desbotado pelo tempo, mas em nuances que
formavam um conjunto harmonioso de rosa, branco e lilás. Nesta passagem, intui estar
entrando em mundos esquecidos, onde hibernam sentimentos colados a histórias de
encantamento da minha infância. Princesas, bosques, montanhas, brincadeiras,
cirandas, fantasias vestidas para cenas de teatro em férias de verão. Sem
precisar qual história ou quando me foi contada, ou quando a li. Uma sensação no
limiar entre estar dormindo e acordar. Um entremeio de passagem.
O tempo que dediquei a limpar
a moça com carrinho cheio de flores me conectou com aquele espaço de alegrias,
de expectativas, de sonhos vividos lá atrás na linha de tempo de minha própria
história.
Deixei o rosto da moça para o
final. Ela olha para cima, braço direito livre e erguido na mesma direção do olhar
que brilha. O brilho me surpreendeu. Depois de tantos anos. Não lembro de ter
reparado nele. Talvez eu não precisasse ver antes. Este brilho não fez ponte
com o passado. Fez-me pensar no presente e no futuro. Fez-me pensar em tudo o
que fiz e vivi para chegar até aqui e remeteu-me à necessidade de largar
tristezas e desesperanças.
Lembrei-me de alguém me dizer
um dia: o mundo não é como gostaríamos, temos de achar o nosso modo de viver
nele. Nos últimos tempos, tem sido muito difícil achar esse modo para qualquer
um que enxergue os rumos que vem tomando o país. A cada manhã encontramos notícias
do desmantelamento das nossas instituições e da perda de direitos.
Ausentar-me do presente por
alguns minutos foi providencial. Fazê-lo junto a referências de etapas de minha
história não pode ter sido casualidade. O
que limpei foi muito mais do que a poeira, talvez outra poeira etérea e
asfixiante. Teve o poder de me fazer
enfrentar medos escondidos. Sei que outros virão, terei que continuar limpando,
porque não há possibilidade de retorno.
Lindo demais, Mirosa! Saber viver é uma arte. Escrever com sensibilidade e sabedoria é para poucos. Parabéns, adorei!
ResponderExcluirÉ um texto muito comovente, Rosa!
ResponderExcluirAs lembranças despertadas pelas pequenas coisas que colecionamos!
O tempo que ficou retido nas dobras do vestido da boneca...
Belas imagens literárias!
Que texto bonito e cheio de significados. Um dos melhores que já escreveste! ����
ResponderExcluirQue maravilha. Tanta sensibilidade. Uma doçura de lembranças e afetos, um sopro de resiliência. Amei.
ResponderExcluirLendo teu texto me dou conta que a pandemia nos propõe muitos resgates, entre tantos,o da limpeza. Tanto no sentido prático, real da palavra, faxinas, descartes de objetos desnecessários em nossas vida assim como no campo das emoções. Nestes, a limpeza é mais profunda. Exige ferramentas apropriadas como paciência, obstinação e coragem. Só a maturidade nos faz enxergar isto. Belo texto, profundo sem perder a singeleza. Bjs.
ResponderExcluirMuito bom, mãe! Beijos!!
ResponderExcluirLindo texto e com muito significado. Quem sabe a poeira acumulada serviu para marcar muitos momentos importantes da tua vida. Agora limpos e brilhantes é a hora de recomeçar.
ResponderExcluirQue bonito
ResponderExcluirTido esse afeto com pedaços de vida que chamamos lembranças achei muito singelo ..uma fuga necessária ..um abraço e continuemos nós cuidando 🌹
Que delicadeza tens ao lidar com as palavras, Rosa. Tua vais lapida ndo-as como ourives que criam joias. Uma linda reflexão sobre estes tempos bicudos em que cabem todas as metáforas.
ResponderExcluirA ourivesaria da palavra... tens. Um delicado e certeiro trabalho na captação dessas emoções dos tempos sombrios que vivemos. Aprecio imensamente tua arte. PARABÉNS.
ResponderExcluir