quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Respingos

Acordei mais cedo que o costume. O primeiro pensamento que abriu caminho foi o de incredulidade com o que havia sido feito com o Estado no dia anterior.  Mas era verdade. Milhares de famílias jogadas na insegurança pela injusta perda de seu emprego. Uma tragédia cujo sentido só é mais profundo quando se pensa na insensibilidade dos que a provocaram e continuam a usufruir dos benefícios do Estado como se tudo estivesse no lugar certo. Como se os que estão no poder fossem diferentes e melhores, como se não fossem responsáveis pelas suas decisões, como se não houvesse outro caminho, como se apenas os que os antecederam tivessem provocado a situação.
Mas há outras consequências tão perversas quanto a primeira. A morte dos meios de produção e veiculação da cultura local como responsabilidade de um Estado democrático. A morte de espaços de pesquisa, a morte de espaços que deveriam ser ampliados para dar maior qualidade de vida à população do estado, a morte das fontes de construção de conhecimento necessários ao melhor funcionamento dos espaços sociais. De quem é essa responsabilidade senão de quem foi eleito sob a égide que O Rio Grande é Meu Partido?  E o que é tudo isso senão o enfraquecimento do tecido social, das relações sociais e a consequente piora nas já deterioradas condições de vida das pessoas, processo desencadeado por um violento desmonte da economia nacional . O mais perverso disto tudo é movimentar um mecanismo cruel sob o manto da mentira, porque em nome de contas mal feitas, de uma economia ínfima com o fechamento das instituições, de uma desqualificação dos serviços prestados pelas FZB, CIENTEC, FEE, TVE, FM Cultura, FDRH.
 O atual (Des)governo assumiu sem ter um Plano mínimo e demorou cerca de um ano e meio para propor algo para a segurança. Aliás, ao assumir, sua primeira medida para a área foi anular concurso feito pelo Governo anterior. Não foram pensadas as responsabilidades do Estado e a falta de medidas contra a sonegação, contra privilégios a poucos e poderosos. Joga-se com a desinformação da maior parte do povo que é abastecido cotidianamente pelo pensamento único da grande imprensa. Povo, que tem que trabalhar cada vez mais para sobreviver e que não participa das instâncias de discussão e análise do que acontece. Povo, cuja escola para seus filhos vem sendo paulatinamente deteriorada. Povo, cujo acesso à cultura sempre foi um privilégio de uma minoria. Da incompetência - termo que pode englobar outras incapacidades da equipe que está no poder - em tomar medidas que ampliem as receitas dos cofres públicos, do descompromisso com o gerenciamento do bem público, da despreocupação com a qualificação dos Serviços à população, da crítica rasteira ao Governo anterior, surgiu o descalabro.
Uma receita prevista pelos que acompanham as artimanhas e as bandalheiras do poder com o beneplácito de boa parte da população.

Tomara que do lamento e da indignação surjam forças para mudar tudo isso. No entanto, o caminho se mostra longo e muito sofrimento continuará a acontecer. Os respingos atingirão a todos independente de nossa vontade.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Caos e beleza



O trânsito um caos, atravessar uma rua é aventura certa. No entanto, as línguas de carros que deslizam pelas ruas cruzam-se, cortam-se, misturam-se numa dança ininterrupta, não são ameaçadoras, não são agressivas. Num primeiro momento há o medo de enfrentá-las, há o desejo de encontrar uma alternativa que não percorrer aquele vazio que deve ser ultrapassado para chegar à outra calçada. Na inexistência de outra opção, os passos levam e não acontece nada, a salvação é alcançada sem problemas. Apenas a incerteza da decisão dos carros que se aproximam sobre ti, mas eles param, sempre param, mesmo que joguem contigo o jogo prepotente da máquina contra um corpo humano e te constranjam com sua proximidade. Difícil é aceitar o ritmo do piscar dos semáforos, da conversão livre à direita enquanto os pedestres exigem seu direito de preferência. Os romanos se divertem ressaltando a diferença deles com o resto do mundo. Em qualquer cidade, a visão de uma faixa de listras brancas avisa para diminuir a velocidade. Em Roma, aceleram e, talvez, consigam alcançar o pedestre até em cima da calçada. Em vários dias na cidade, porém, não vimos um acidente sequer e nenhum atropelamento. Pelo contrário, as pessoas atravessam as ruas nos lugares os mais diversos, como vingança e exercício de sua vontade apesar de tudo. E tudo funciona, tudo anda, como se aquela (des)ordem fosse introjetada de tal forma que todos se desculpassem por uma desobediência causada pela beleza da cidade que não se poupa em oferecer-se. A arquitetura de diferentes épocas, bordada por ruas ondem pinheiros mediterrâneos centenários olham para o céu em pose de modelo. As ruínas romanas integradas a igrejas que deram sua última palavra contra os deuses antigos. Outras ruínas a testemunhar um império que teima em se vangloriar século após século e nos provoca interrogações sobre o que somos nós nos dias de hoje. Uma cidade que, também ela, não escapou à invasão das pequenas lojas de produtos chineses, denunciada por algum cartaz orgulhoso com os dizeres “aqui tudo é feito na Itália”. O café maravilhoso, o cornetto ou brioche – vuoto ou com marmellata, o panino com a mozzarella verdadeira, com a mesma qualidade em qualquer pequeno bar. Tudo isso entremeado com a visão de obeliscos roubados aos egípcios, obras de Bernini e outros grandes a enfeitar praças espalhadas por toda a cidade. Sinais de um mundo maravilhoso de artes resguardadas nos tantos museus a serem explorados pouco a pouco, porque é inominável a criação artística de séculos de mãos e olhos a serviço da cristianidade que se assentou pelas terras itálicas.

            Inútil procurar uma frase única que englobe o que é Roma. Ela é simplesmente linda e convida a caminhar para ser admirada com vagar aceitando as surpresas que oferece a todo o instante. Merece procurar o caminho que leva até ela.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Pesadelo

Acordei de um sonho que fugiu sem que lhe alcançasse o rastro. Madrugada ainda, permaneci estendida prestando atenção ao que sentia. Na quietude da cidade, o quarto era sossego, mas meu corpo acusava um alvoroço, solicitava atenção. Não conseguia mais dormir, mas não queria levantar, uma sensação que acabei definindo como saudade acabou se impondo. De quê? De algo ao qual queria retornar, mas não identificava. No esforço de concentrar-me, acabou saltando uma lasca do sonho no qual eu buscava um documento, meu registro de professor, aquele que me dava direito a lecionar as disciplinas ali escritas, havia a assinatura do funcionário do MEC, minha foto, data, um lugar conquistado, orgulho de minha identificação,  informações de um lugar que eu ocupava, resultado de anos de estudos, de certificação das instituições onde eu havia passado anos de minha vida. Eram as  décadas de 1970 e 1980. Apesar de todos os retrocessos, começávamos a recuperar perdas anteriores e nos organizávamos nas escolas; os sindicatos de escolas públicas e privadas eram símbolo de luta, as quais deveriam se dar no local de trabalho como em qualquer ramo; em greve, atuávamos junto aos nossos alunos, embora fôssemos para a rua na necessidade de tornar visível o movimento. Havia uma formação para cada disciplina, não era questão que alguém ocupasse o lugar que não fosse o professor específico. O registro de professor acabou relegado, mas os concursos legitimavam a entrada dos profissionais na rede estadual e municipal e, apesar de um tempo de medos, os mesmos que nos impulsionavam a ir adiante, e a certeza de nossa importância e reconhecimento.
 Desde o tempo da ditadura a desvalorização da profissão com o aviltamento dos salários e descaso com a escola pública acenavam para tempos piores, mas não imaginávamos que chegaríamos ao descalabro atual. Apesar de tudo, não imaginávamos o que está ocorrendo agora.
Conquistas pisoteadas, projetos sem consistência estão sendo levados adiante, o ministro da educação recebe um ator pornô com um programa de educação, e veicula-se a proposta de que qualquer pessoa com “notório saber” poderá ser professor. O  MEC despreza todo um conhecimento que envolve o que seja o ato de educar e desmantela o que existe. Nenhuma narrativa fantástica daria conta do que está acontecendo com a educação no Brasil. O ato pedagógico é completamente ignorado e as últimas propostas mostram um conceito rasteiro de ensinar que faria enrubescer qualquer cidadão minimamente comprometido com as gerações que vão para a escola. A escola particular também ficará mais pobre, apesar de seus mecanismos de ir além da lei, mas é a pública que se ressentirá em demasia.

O Congresso Nacional já mostrou a que veio. Se há ainda alguma esperança, ela está nos atuais movimentos contra a MP 746 e PEC 241, através das ocupações estudantis que tomaram a dianteira em todo o país e têm o apoio de amplos setores da sociedade.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Presenças

Minhas palavras foram escassas quando minha amiga foi embora porque compactuo com ONDJAKI:

"Não gosto de despedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que se transformam em recordações molhadas com bué de lágrimas. Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança"

            Ficou um vazio em minha casa e o preencho com o pensamento pelo caminho por onde ela vai no interior do país. Eu sei que ela está em solo brasileiro, mas quase tão longe quanto seria já na sua terra. Na nossa terra. O que são as distâncias? Estamos perto ou longe quanto nossa capacidade de partilhar pensamentos, gostos e esperanças. Esta é a rede que se construiu imediatamente quando nos reencontramos dois anos atrás depois de dezenas de anos de afastamento. Lá onde mora ela. E a vida nos propiciou repetir a aproximação aqui onde moro eu. A gratidão por revê-la e partilharmos um tempo longínquo da infância e da adolescência me conecta com o que há de melhor para viver.
            Seu retorno ao país em que viveu, na Serra, e depois, aqui na capital onde eu vivo, trouxe-lhe apreensões e tristezas pela situação político-social existente. Não havia compreendido as reais perspectivas de retrocesso, compartilhamos análises e comparações com outros tempos. Nos solidarizamos, enquanto andamos juntas pelas ruas da cidade cuja natureza a encantou. Os ipês, cuja florada estava desaparecendo, e os jacarandás iniciando a colorir as calçadas e praças. Encantou-se com os testemunhos arquitetônicos do centro histórico, da Independência e de outros lugares. Ela que convive com uma história milenar. Lamentou a substituição de outros prédios por edificações de estética duvidosa. Enfim, sentiu Porto Alegre com algumas de suas contradições.
            A partir de agora, o afastamento físico nos dará a dimensão do quanto podemos estar juntas em nossa amizade, por isso a reafirmação da desnecessidade de despedida. E, quando a rede de confidências se esgarçar pelas distâncias e ausência do olhar, deixando escorrer nossa cumplicidade diante da visão de mundo e da vida, olharei o camafeu. Ela se restabelecerá como se nos encontrássemos a meio caminho sobre o oceano, com a mágica da imaginação e da confiança na amiga onde estiver.

Ondjki tem razão.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Andantes

A palavra está me servindo de antídoto à rendição.
Resistir é preciso, então compartilho alguns redemoinhos de meu pensamento. 


Andante

Corri uma corrida desesperada.
Quase alcançada,
Uma força estranha me alçou
No topo de uma ramada.
Pausa negada,
Ouvi a serra e balancei,
Na queda  voei
Para a próxima retomada.
..............................

Sempre andante

Uma primavera sorriu
E eu esqueci o rolar do tempo
Como a cigarra me lambuzei de canto.
Direito teu, o grilo assoprou,
Preguiçosa a formiga acusou.
Desmemoriada, não teci com o canto
O manto
Da alegria e do pranto
Que veste os humanos
Em qualquer canto.
Vejo-me à cata dos esquecidos
Para remendar os rasgados,
Colorir os esmaecidos,
Juntar os retalhos largados
Para cobrir o inverno
Com novo canto
Até a primavera recomeçar.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016


Toalha

Um dia, uma amiga afirmou que a humanidade tinha evoluído, as coisas tinham ficado melhores, éramos uma sociedade melhor. Eu lhe respondi que realmente as mulheres não eram mais queimadas em praça pública, mas os estupros existiam em todas as camadas sociais, as mulheres eram vítimas da violência de forma assustadora, mas a maior parte dos casos sequer era denunciada, por medo, o que mudara era que agora havia o silêncio, a agressão era oculta.
De lá para cá, volta e meia esta conversa me vem à mente, e busco algum exemplo que dê razão à minha amiga, mas não encontro, apesar dos meus esforços.
Um dia, olhando pela janela, vagando com meus pensamentos, imaginei a humanidade como uma grande toalha bordada e colorida, mas com muitas falhas, buracos e rasgos. Mãos invisíveis a vão consertando e aumentando, e ela se expande para todos os lados como uma galáxia. E as tramas, e os buracos, e os rasgos também. Só que mudam de lugar e de contornos, e surgem coloridos nunca antes vistos em texturas novas que parecem mais fortes, deixando a perspectiva de que a toalha vai aumentar sem se estragar. Mas, pouco a pouco, também o tecido novo é tomado por estranhas deformações, nunca antes vistas. E a cada pedaço que se estende, o que era novo e resplandecente se transforma igualmente em tecido danificado.
Mas tudo continua a se estender, e os pedaços exteriores e distantes do início têm suas semelhanças esmaecidas, os padrões mudaram, mas continuam presos ao mesmo tecido que se expande indefinidamente.
Então lembrei no que dizia Deleuze sobre a diferença, vinda em relação a si mesmo num infinito processo de duração da vida no complexo entremear de ações individuais, próximas ou distantes, mas todas em relação umas com as outras.

Construímos juntos e sempre o mesmo tecido.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Temperos e flores

Existem ações humanas que exalam um tal mau cheiro como o que escapa de um ralo de pia, quando muda o tempo. Elas tem se multiplicado ultimamente como cogumelos depois de um dia de chuva. O tempo mudou. O mau cheiro penetra todas as frestas, todas as gavetas, todos os cantos. Um mau cheiro que impregna os poros, os cabelos, as cavidades, e nos sufoca. A gente sabia, mas ainda tinha esperança que não mudasse. Talvez não fosse esperança, mas teimosia. Uma teimosia que nasceu com o desejo de não perder o pouco que se alcançou. Mas há gente que consegue viver à vontade neste ar contaminado. E acha que é bom, porque se contaminou primeiro com os pratos embalados no ódio a toda diferença, na insensibilidade diante da fragilidade do outro e na ânsia de poder. E tem aqueles que fingem não sentir o fedor, tapando o nariz e dizendo a si mesmos que logo vai passar.

É preciso lembrar que os dias sucedem às noites, como a primavera sempre vem após o inverno. Há que se esperar pelos ventos e chuvaradas que levarão aos rios e mares a sujeira a ser engolida e transformada. Enquanto isso, limpemos chão, paredes e armários. Espalhemos alecrim e manjericão. O perfume dos jasmins logo nos alcançará.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Vergonha ou valentia?



Fios cortam as árvores ao meio. Não, serras é que lhe amputam galhos fortes e sadios, apesar dos parasitas que vivem às suas custas. Lâminas acionadas com voracidade. A rede elétrica invade o espaço aéreo das copas, mutila-as e determina uma forma sem chances de apelo. A estética imposta é a da deformação da natureza. Braços sinuosos ou retilíneos, sempre protetores contra o sol de verão, são eliminados como se necrosados fossem. Algumas árvores vingam-se projetando um V que pode significar ideias díspares como voragem, valentia, vergonha ou vitória, segundo o sentimento que nos inspira. Pode ser também vértebra. Algumas árvores parecem ser sido desvertebradas. Dos tocos emergem circularidades que marcam o exato lugar da violência, acentuando uma imobilidade da espécie e do seu destino truncado. Uma natureza livre submetida às necessidades urbanas materializadas na quantidade de fios que foram crescendo aos poucos e se sustentam nos postes enfileirados na beira das calçadas, um exército fiel e indiferente às árvores mutiladas. Poderia ser diferente? Sim, há testemunhos pelo mundo afora. No país também há uma mutilação em curso, a dos programas e dos direitos sociais, ela também em nome de necessidades mistificadoras. Poderia ser diferente? Sim, a história recente e antiga nos ensina, embora boa parte da sociedade não queira aprender.



Eu me sinto como estes tocos. Espero que brotem com força nos próximos meses. Quanto à rede elétrica, será tarefa das próximas gerações, se conseguirem mudar a política e a gestão da coisa pública. A minha geração está em débito.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Sem palavras

Há palavras que abarcam melhor o que pensamos. Encontrei uma delas lendo a apreciação do quadro Nossa Senhora dos palafreneiros de Caravaggio feita na época, século XVII. Obsceno. Imediatamente reconheci-a como uma palavra adequada a caracterizar não o quadro, onde o pintor representa sua própria interpretação de um versículo do Gênesis. A obscenidade estava na cabeça da cúria do Vaticano que o rejeitou. Um poder de então que me leva à obscenidade que reveste o governo atual do Brasil, com o desmonte das políticas sociais conseguidas até aqui e devolvendo à miséria muitos dos que tinham conseguido emergir dela. Logo a seguir, pensei nas matanças de jovens das periferias da cidade. Não só naqueles que morrem a todo o instante, mas naquilo em que foram transformados tantos policiais para poder matar. Depois, pensei nas fraudes de médicos que se servem da profissão para enriquecer ilegalmente, inventando necessidades de próteses e outros tais.  Depois, veio-me a lembrança da violência que continua a existir contra a mulher e do terrível silêncio a que a maioria se submete, por causa da impunidade existente. Depois, vieram-me cenas de abuso de falsos religiosos incrustados em falsas religiões a explorar a fragilidade humana para enriquecer à custa dos mais vulneráveis. Depois, vieram-me as imagens do pranto pelos assassinatos de lideranças comunitárias, sindicais, indígenas e religiosas que ousaram enfrentar o poder. Tantos depois. Em demasia. Pior ainda, a indiferença de grande parte da sociedade, como se não lhe dissesse respeito.

Então pensei que nem essa poderia abarcar o horror dessas atrocidades. Tudo isso é inominável.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Resistir



Tento compreender obsessivamente como chegamos a esse ponto de hipocrisia e mediocridade de grande parte da sociedade brasileira. Claro que há o PIG, Partido da Imprensa Golpista, como nos diz Paulo Henrique Amorim, e todos os mecanismos de poder para difundir mentiras, meias verdades ou escolher a omissão. No entanto, há também informações em inúmeros canais que se contrapõem, mas  são refutadas por muitos com um escudo anti-razão.
É aqui que reaparece uma palavra há tanto tempo esquecida: mistificação. Com ela veio-me à mente a palestra onde foi proferida e em que época. Estudante de uma Faculdade no interior do Estado no período que antecedeu o golpe militar de 64, ouvia o então brilhante professor Ernani Fiori da UFRGS e me assombrei com a descoberta do mecanismo de mentir a si próprio pela aceitação da verdade deturpada e, assim, estar em paz por ter criado para si o lado certo. Hoje este mecanismo mostrou o quanto é poderoso e capaz de se atualizar e se reinventar. A grande e velha mídia continua a mesma, mas os mecanismos de transformar tudo em mercadoria, tudo com um preço, tudo com a ilusão de poder comprar a felicidade, se associaram de tal forma que o pensamento de grande parte da população parece ter se transformado numa incontrolável e esponjosa gelatina. Mistificação das massas pela indústria cultural à venda.
Deve ser por isso que a palavra me reaparece depois de muito tempo guardada, e utilizada várias vezes ao longo da vida para me desvelar o mundo. Justamente hoje ela se faz viva, quando tantos estão à deriva tentando organizar-me na busca de alternativas para enfrentar os tempos sombrios que se estão instalando. O interessante é que ela relutou em ser acessada, não se ofereceu prontamente. Primeiro lembrei que ela existia, mas era mais uma sensação do que uma palavra, algo anunciado que eu conhecia, mas não conseguia nomear. Depois lembrei da palestra e, aí também, o nome do filósofo surgiu no esforço de rastreá-lo quem sabe em que parte infinitesimal de meu cérebro. Fui à procura dele, porque a palavra se recusava a comparecer. Com o mestre presente, ela cedeu e veio a seguir. Mistificação. Mestre e palavra continuam a ser fundamentais depois de mais de sessenta anos. A explicação da sociedade mistificada da época ampliou o olhar de uma estudante ávida de saber. Não impediu o golpe, mas deixou uma semente na cabeça de quantos estavam a esperá-la. Ele estava no caminho certo, por isso foi ceifado.
Refaço o caminho e vejo que a palavra não me impediu equívocos posteriores, mas impediu que eu permanecesse neles. Foram necessárias situações de confronto com a realidade, de encontros com pessoas e ideias, de necessidade de tomar decisões que foram construindo minha visão de mundo e de uma postura íntegra diante dele. Aquela palavra foi seminal para me salvar quando  no limite de me perder.
Mais uma vez volto a ela e reforço a certeza de que nem tudo está perdido. A palavra ajuda a encontrarmos canais que buscam um mundo mais justo, porque sabemos que o mundo que queremos não existe, é preciso construí-lo a cada momento, nunca chegaremos lá como gostaríamos. É como caminhamos para buscá-lo o que nos diferencia.

Há que intensificar o trabalho de despotencializar as forças que alimentam a mistificação, justamente em momentos que a luta parece perdida. Caso contrário os esforços de quantos lutaram e lutam serão em vão. Há tantos. Li em algum lugar que a única batalha perdida é aquela abandonada. Vou acreditar nisso e relembrar Ernani Fiori, cassado pela ditadura militar que não impediu que eu o relembrasse hoje. E a sua palavra.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Fronteiras

Ângelo. Assim a mãe decidiu chamar o primogênito recém-nascido. Ângelo, porque tinha cara de anjo.
Embora a mãe fosse costureira e o pai, torneiro mecânico, Ângelo teve tudo do bom e do melhor. Colégio, livros, tênis, mochila. Bicicleta, bola de futebol. Televisão e videogame. O menino cresceu forte, bom, amoroso. A mãe, com os dedos furados de tantas agulhas, o pai, de pele encardida da graxa das máquinas, acreditavam que o menino teria um futuro brilhante. Coisa de anjo mesmo.
A infância foi um tempo aventuras que não ultrapassaram as fronteiras do pátio de sua casa e do caminho da escola. Alguns passeios da turma em datas especiais e férias no sítio onde viviam os avós paternos. Foi num daqueles verões que conheceu Beliel, um menino atrevido que andava pelas vizinhanças a caçar ninhos de passarinhos.
Foi como descobrir que tudo ao redor era um lugar encantado a revelar-se com as artimanhas de Beliel. Só ele sabia como subir nas árvores que lhe pareciam inacessíveis. Só ele imitava um sabiá e atraía outro que andava por perto. Só ele sabia onde encontrar as amoras que ele nunca tinha experimentado. E, mais que tudo, só com ele desobedeceu pela primeira vez às orientações de não entrar na sanga próxima à curva da trilha. Lugar proibido com histórias de afogamentos, e os espíritos a rondar o entorno.
Já não achava graça em brincar com os dois irmãos menores e os brinquedos trazidos. Nenhuma surpresa, nenhuma emoção, a obediência espelhava a previsibilidade, a transgressão era um ímã do qual não conseguia mais escapar. Começou a mentir. No início uma desculpa que o ruborizava, depois, um hábito incorporado ao ar angelical que sempre fora sua marca. Inventava histórias para se afastar com o amigo que lhe contava outras tantas. Um mundo muito diferente do que ele conhecia.
Beliel morava do outro lado do morro, vivia pelos matos, o sol amorenara sua pele e acentuara o sarará dos cabelos crespos. Aparecia nas horas mais inesperadas, às vezes, à noitinha, quando todos iam ver televisão na sala. Nunca quis entrar e conhecer os avós de Ângelo, só os cumprimentava à distância. Ângelo dizia-o envergonhado, tudo o que ele não era.
Numa das suas aparições noturnas, o calor insuportável se infiltrara em todos os cantos da casa e as mariposas giravam agitadas ao redor das lâmpadas, anunciando um temporal distante. Um assobio fino e espichado fez Ângelo abandonar o sofá e alcançar o amigo.
A lua quase cheia ainda encontrava caminho entre as nuvens e o escuro se dissipava no rarear das folhagens. Beliel caminhava na frente e Ângelo o seguia. Chegara o momento prometido, ele conheceria o paraíso. De repente, um sinal sobre os lábios do amigo e eles diminuíram o passo, tiraram as alpargatas dos pés e com movimentos lentos chegaram a um ângulo em que os olhos alcançaram os suspiros saídos da pequena enseada. Aproximaram-se ainda mais, onde Ângelo jamais ousara sequer de dia, mas Beliel tudo já havia explorado.Do barranco ao lado viam-se fios de luz que tremulavam na água agitada por dois corpos, hipnotizando Ângelo e fazendo Beliel sorrir.  

O tempo emergiu do rio e acelerou o conhecimento para Ângelo, cujos pensamentos e emoções o desequilibraram e o fizeram ultrapassar a fronteira de sua infância. Turbado pelos sons e movimentos daqueles dois corpos vorazes, seu próprio corpo entrou em êxtase e o terreno aos seus pés lhe retirou o apoio. Mal teve tempo de sentir a água fria engoli-lo, enquanto seus braços tentavam agarrar as ramagens que cederam. O olhar de Beliel não o socorreu e ele pode pensar com terror em suas desobediências. Antes de imergir, as últimas palavras recordadas de sua mãe ao lhe dizer que ele era um anjo bom.


Desafio de Cintia Moscovich para trabalhar o subtexto no Curso de Formação de Escritores

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Repetição




            Michel dispensou o amigo à entrada do cassino. Ele o ajudara a alugar a casaca, a conseguir quinhentos euros emprestados e as informações básicas para que ele se misturasse à burguesia que frequentava o local com o mínimo de naturalidade. Agora era com ele.
            Ultrapassou a boca da caverna, como costumava dizer quando entrava em ambientes desconhecidos e possivelmente hostis. Ali, a gentileza e os modos eram refinados. A hostilidade estava na pele dos frequentadores e funcionários servis, só se manifestaria se ele não seguisse a engrenagem das regras. Ele se preparara para rompê-las no momento oportuno.
            Luzes, vestidos, fraques, jóias, tudo precisava ser ostentado com a falsidade da indiferença. Os gestos habituados à contenção, ao momento justo de colocar as fichas na mesa, de agarrar o copo nos intervalos do ganho ou da perda, sem que a pose se alterasse. Só o olhar era traidor e deixava, às vezes, uma nesga de gozo ou de desespero após a perseguição de somas vultosas que decidiam a vida de muitos.
            Fora constrangido, depois de anos, a ir e ganhar. Ele pensara muito e decidira desobedecer. Perderia, apesar de suas habilidades repetidamente exercidas num tempo que julgara morto. Isto faria o dia seguinte ser o fim do tormento. O hábito, no entanto, driblou o que arquitetara e fez por ele. Ganhou, e muito, porque o gosto de vencer era superior a qualquer coisa que ele tivesse experimentado.
Michel superestimara sua capacidade de resistir à chantagem. A engrenagem imperou. Ganhar foi um fracasso que o jogou às correntes de uma galé. Os anos que vivera em paz desmancharam-se como papel velho em contato com o ar. Só seu corpo continuava ali, o pensamento voejava cego.
            Ainda era noite, a fonte continuava a reluzir em frente ao cassino e ele saiu levando o perfume que preenchia o ar dos salões. Pesadamente foi seguindo para o hotel, sua vida não valia mais a pena.    


Curso Formação de Escritores / Oficina com Cíntia Moscovich / Paradoxo