sexta-feira, 23 de setembro de 2016


Toalha

Um dia, uma amiga afirmou que a humanidade tinha evoluído, as coisas tinham ficado melhores, éramos uma sociedade melhor. Eu lhe respondi que realmente as mulheres não eram mais queimadas em praça pública, mas os estupros existiam em todas as camadas sociais, as mulheres eram vítimas da violência de forma assustadora, mas a maior parte dos casos sequer era denunciada, por medo, o que mudara era que agora havia o silêncio, a agressão era oculta.
De lá para cá, volta e meia esta conversa me vem à mente, e busco algum exemplo que dê razão à minha amiga, mas não encontro, apesar dos meus esforços.
Um dia, olhando pela janela, vagando com meus pensamentos, imaginei a humanidade como uma grande toalha bordada e colorida, mas com muitas falhas, buracos e rasgos. Mãos invisíveis a vão consertando e aumentando, e ela se expande para todos os lados como uma galáxia. E as tramas, e os buracos, e os rasgos também. Só que mudam de lugar e de contornos, e surgem coloridos nunca antes vistos em texturas novas que parecem mais fortes, deixando a perspectiva de que a toalha vai aumentar sem se estragar. Mas, pouco a pouco, também o tecido novo é tomado por estranhas deformações, nunca antes vistas. E a cada pedaço que se estende, o que era novo e resplandecente se transforma igualmente em tecido danificado.
Mas tudo continua a se estender, e os pedaços exteriores e distantes do início têm suas semelhanças esmaecidas, os padrões mudaram, mas continuam presos ao mesmo tecido que se expande indefinidamente.
Então lembrei no que dizia Deleuze sobre a diferença, vinda em relação a si mesmo num infinito processo de duração da vida no complexo entremear de ações individuais, próximas ou distantes, mas todas em relação umas com as outras.

Construímos juntos e sempre o mesmo tecido.

Um comentário:

  1. Querida amiga...que as tramas sejam suaves e as cores diversas e que cada um se responsabilize, ao menos por sua parte!
    Sempre é bom ler tuas reflexoes...obrigada por compartilhar!

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