quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Temperos e flores

Existem ações humanas que exalam um tal mau cheiro como o que escapa de um ralo de pia, quando muda o tempo. Elas tem se multiplicado ultimamente como cogumelos depois de um dia de chuva. O tempo mudou. O mau cheiro penetra todas as frestas, todas as gavetas, todos os cantos. Um mau cheiro que impregna os poros, os cabelos, as cavidades, e nos sufoca. A gente sabia, mas ainda tinha esperança que não mudasse. Talvez não fosse esperança, mas teimosia. Uma teimosia que nasceu com o desejo de não perder o pouco que se alcançou. Mas há gente que consegue viver à vontade neste ar contaminado. E acha que é bom, porque se contaminou primeiro com os pratos embalados no ódio a toda diferença, na insensibilidade diante da fragilidade do outro e na ânsia de poder. E tem aqueles que fingem não sentir o fedor, tapando o nariz e dizendo a si mesmos que logo vai passar.

É preciso lembrar que os dias sucedem às noites, como a primavera sempre vem após o inverno. Há que se esperar pelos ventos e chuvaradas que levarão aos rios e mares a sujeira a ser engolida e transformada. Enquanto isso, limpemos chão, paredes e armários. Espalhemos alecrim e manjericão. O perfume dos jasmins logo nos alcançará.

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