Minhas palavras foram escassas quando minha amiga foi embora porque compactuo
com ONDJAKI:
"Não
gosto de despedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que se transformam
em recordações molhadas com bué de lágrimas. Não gosto de despedidas porque
elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem
segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de
criança"
Ficou um vazio em minha casa e o
preencho com o pensamento pelo caminho por onde ela vai no interior do país. Eu
sei que ela está em solo brasileiro, mas quase tão longe quanto seria já na sua
terra. Na nossa terra. O que são as distâncias? Estamos perto ou longe quanto
nossa capacidade de partilhar pensamentos, gostos e esperanças. Esta é a rede
que se construiu imediatamente quando nos reencontramos dois anos atrás depois
de dezenas de anos de afastamento. Lá onde mora ela. E a vida nos propiciou
repetir a aproximação aqui onde moro eu. A gratidão por revê-la e partilharmos
um tempo longínquo da infância e da adolescência me conecta com o que há de
melhor para viver.
Seu retorno ao país em que viveu, na
Serra, e depois, aqui na capital onde eu vivo, trouxe-lhe apreensões e
tristezas pela situação político-social existente. Não havia compreendido as
reais perspectivas de retrocesso, compartilhamos análises e comparações com
outros tempos. Nos solidarizamos, enquanto andamos juntas pelas ruas da cidade
cuja natureza a encantou. Os ipês, cuja florada estava desaparecendo, e os
jacarandás iniciando a colorir as calçadas e praças. Encantou-se com os
testemunhos arquitetônicos do centro histórico, da Independência e de outros
lugares. Ela que convive com uma história milenar. Lamentou a substituição de
outros prédios por edificações de estética duvidosa. Enfim, sentiu Porto Alegre
com algumas de suas contradições.
A partir de agora, o afastamento
físico nos dará a dimensão do quanto podemos estar juntas em nossa amizade, por
isso a reafirmação da desnecessidade de despedida. E, quando a rede de
confidências se esgarçar pelas distâncias e ausência do olhar, deixando
escorrer nossa cumplicidade diante da visão de mundo e da vida, olharei o
camafeu. Ela se restabelecerá como se nos encontrássemos a meio caminho sobre o
oceano, com a mágica da imaginação e da confiança na amiga onde estiver.
Um depoimento ímpar de amizade. Fiquei encantada. Parabéns!
ResponderExcluirComo é bom celebrar a amizade e também um privilégio.
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