Ângelo. Assim a mãe decidiu
chamar o primogênito recém-nascido. Ângelo, porque tinha cara de anjo.
Embora a mãe fosse costureira e o
pai, torneiro mecânico, Ângelo teve tudo do bom e do melhor. Colégio, livros,
tênis, mochila. Bicicleta, bola de futebol. Televisão e videogame. O menino
cresceu forte, bom, amoroso. A mãe, com os dedos furados de tantas agulhas, o
pai, de pele encardida da graxa das máquinas, acreditavam que o menino teria um
futuro brilhante. Coisa de anjo mesmo.
A infância foi um tempo aventuras
que não ultrapassaram as fronteiras do pátio de sua casa e do caminho da
escola. Alguns passeios da turma em datas especiais e férias no sítio onde
viviam os avós paternos. Foi num daqueles verões que conheceu Beliel, um menino
atrevido que andava pelas vizinhanças a caçar ninhos de passarinhos.
Foi como descobrir que tudo ao
redor era um lugar encantado a revelar-se com as artimanhas de Beliel. Só ele
sabia como subir nas árvores que lhe pareciam inacessíveis. Só ele imitava um
sabiá e atraía outro que andava por perto. Só ele sabia onde encontrar as
amoras que ele nunca tinha experimentado. E, mais que tudo, só com ele
desobedeceu pela primeira vez às orientações de não entrar na sanga próxima à
curva da trilha. Lugar proibido com histórias de afogamentos, e os espíritos a
rondar o entorno.
Já não achava graça em brincar
com os dois irmãos menores e os brinquedos trazidos. Nenhuma surpresa, nenhuma
emoção, a obediência espelhava a previsibilidade, a transgressão era um ímã do
qual não conseguia mais escapar. Começou a mentir. No início uma desculpa que o
ruborizava, depois, um hábito incorporado ao ar angelical que sempre fora sua
marca. Inventava histórias para se afastar com o amigo que lhe contava outras
tantas. Um mundo muito diferente do que ele conhecia.
Beliel morava do outro lado do
morro, vivia pelos matos, o sol amorenara sua pele e acentuara o sarará dos
cabelos crespos. Aparecia nas horas mais inesperadas, às vezes, à noitinha,
quando todos iam ver televisão na sala. Nunca quis entrar e conhecer os avós de
Ângelo, só os cumprimentava à distância. Ângelo dizia-o envergonhado, tudo o
que ele não era.
Numa das suas aparições noturnas,
o calor insuportável se infiltrara em todos os cantos da casa e as mariposas
giravam agitadas ao redor das lâmpadas, anunciando um temporal distante. Um
assobio fino e espichado fez Ângelo abandonar o sofá e alcançar o amigo.
A lua quase cheia ainda
encontrava caminho entre as nuvens e o escuro se dissipava no rarear das
folhagens. Beliel caminhava na frente e Ângelo o seguia. Chegara o momento
prometido, ele conheceria o paraíso. De repente, um sinal sobre os lábios do
amigo e eles diminuíram o passo, tiraram as alpargatas dos pés e com movimentos
lentos chegaram a um ângulo em que os olhos alcançaram os suspiros saídos da
pequena enseada. Aproximaram-se ainda mais, onde Ângelo jamais ousara sequer de
dia, mas Beliel tudo já havia explorado.Do barranco ao lado viam-se fios de
luz que tremulavam na água agitada por dois corpos, hipnotizando Ângelo e fazendo
Beliel sorrir.
O tempo emergiu do rio e acelerou
o conhecimento para Ângelo, cujos pensamentos e emoções o desequilibraram e o
fizeram ultrapassar a fronteira de sua infância. Turbado pelos sons e
movimentos daqueles dois corpos vorazes, seu próprio corpo entrou em êxtase e o
terreno aos seus pés lhe retirou o apoio. Mal teve tempo de sentir a água fria
engoli-lo, enquanto seus braços tentavam agarrar as ramagens que cederam. O
olhar de Beliel não o socorreu e ele pode pensar com terror em suas desobediências.
Antes de imergir, as últimas palavras recordadas de sua mãe ao lhe dizer que
ele era um anjo bom.
Desafio de Cintia Moscovich para trabalhar o subtexto no Curso de Formação de Escritores
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