terça-feira, 19 de abril de 2016

Fronteiras

Ângelo. Assim a mãe decidiu chamar o primogênito recém-nascido. Ângelo, porque tinha cara de anjo.
Embora a mãe fosse costureira e o pai, torneiro mecânico, Ângelo teve tudo do bom e do melhor. Colégio, livros, tênis, mochila. Bicicleta, bola de futebol. Televisão e videogame. O menino cresceu forte, bom, amoroso. A mãe, com os dedos furados de tantas agulhas, o pai, de pele encardida da graxa das máquinas, acreditavam que o menino teria um futuro brilhante. Coisa de anjo mesmo.
A infância foi um tempo aventuras que não ultrapassaram as fronteiras do pátio de sua casa e do caminho da escola. Alguns passeios da turma em datas especiais e férias no sítio onde viviam os avós paternos. Foi num daqueles verões que conheceu Beliel, um menino atrevido que andava pelas vizinhanças a caçar ninhos de passarinhos.
Foi como descobrir que tudo ao redor era um lugar encantado a revelar-se com as artimanhas de Beliel. Só ele sabia como subir nas árvores que lhe pareciam inacessíveis. Só ele imitava um sabiá e atraía outro que andava por perto. Só ele sabia onde encontrar as amoras que ele nunca tinha experimentado. E, mais que tudo, só com ele desobedeceu pela primeira vez às orientações de não entrar na sanga próxima à curva da trilha. Lugar proibido com histórias de afogamentos, e os espíritos a rondar o entorno.
Já não achava graça em brincar com os dois irmãos menores e os brinquedos trazidos. Nenhuma surpresa, nenhuma emoção, a obediência espelhava a previsibilidade, a transgressão era um ímã do qual não conseguia mais escapar. Começou a mentir. No início uma desculpa que o ruborizava, depois, um hábito incorporado ao ar angelical que sempre fora sua marca. Inventava histórias para se afastar com o amigo que lhe contava outras tantas. Um mundo muito diferente do que ele conhecia.
Beliel morava do outro lado do morro, vivia pelos matos, o sol amorenara sua pele e acentuara o sarará dos cabelos crespos. Aparecia nas horas mais inesperadas, às vezes, à noitinha, quando todos iam ver televisão na sala. Nunca quis entrar e conhecer os avós de Ângelo, só os cumprimentava à distância. Ângelo dizia-o envergonhado, tudo o que ele não era.
Numa das suas aparições noturnas, o calor insuportável se infiltrara em todos os cantos da casa e as mariposas giravam agitadas ao redor das lâmpadas, anunciando um temporal distante. Um assobio fino e espichado fez Ângelo abandonar o sofá e alcançar o amigo.
A lua quase cheia ainda encontrava caminho entre as nuvens e o escuro se dissipava no rarear das folhagens. Beliel caminhava na frente e Ângelo o seguia. Chegara o momento prometido, ele conheceria o paraíso. De repente, um sinal sobre os lábios do amigo e eles diminuíram o passo, tiraram as alpargatas dos pés e com movimentos lentos chegaram a um ângulo em que os olhos alcançaram os suspiros saídos da pequena enseada. Aproximaram-se ainda mais, onde Ângelo jamais ousara sequer de dia, mas Beliel tudo já havia explorado.Do barranco ao lado viam-se fios de luz que tremulavam na água agitada por dois corpos, hipnotizando Ângelo e fazendo Beliel sorrir.  

O tempo emergiu do rio e acelerou o conhecimento para Ângelo, cujos pensamentos e emoções o desequilibraram e o fizeram ultrapassar a fronteira de sua infância. Turbado pelos sons e movimentos daqueles dois corpos vorazes, seu próprio corpo entrou em êxtase e o terreno aos seus pés lhe retirou o apoio. Mal teve tempo de sentir a água fria engoli-lo, enquanto seus braços tentavam agarrar as ramagens que cederam. O olhar de Beliel não o socorreu e ele pode pensar com terror em suas desobediências. Antes de imergir, as últimas palavras recordadas de sua mãe ao lhe dizer que ele era um anjo bom.


Desafio de Cintia Moscovich para trabalhar o subtexto no Curso de Formação de Escritores

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