Vergonha ou valentia?
Fios cortam as
árvores ao meio. Não, serras é que lhe amputam galhos fortes e sadios, apesar
dos parasitas que vivem às suas custas. Lâminas acionadas com voracidade. A
rede elétrica invade o espaço aéreo das copas, mutila-as e determina uma forma
sem chances de apelo. A estética imposta é a da deformação da natureza. Braços
sinuosos ou retilíneos, sempre protetores contra o sol de verão, são eliminados
como se necrosados fossem. Algumas árvores vingam-se projetando um V que pode
significar ideias díspares como voragem, valentia, vergonha ou vitória, segundo
o sentimento que nos inspira. Pode ser também vértebra. Algumas árvores parecem
ser sido desvertebradas. Dos tocos emergem circularidades que marcam o exato
lugar da violência, acentuando uma imobilidade da espécie e do seu destino truncado.
Uma natureza livre submetida às necessidades urbanas materializadas na
quantidade de fios que foram crescendo aos poucos e se sustentam nos postes enfileirados
na beira das calçadas, um exército fiel e indiferente às árvores mutiladas. Poderia
ser diferente? Sim, há testemunhos pelo mundo afora. No país também há uma
mutilação em curso, a dos programas e dos direitos sociais, ela também em nome
de necessidades mistificadoras. Poderia ser diferente? Sim, a história recente e
antiga nos ensina, embora boa parte da sociedade não queira aprender.
Eu me sinto como
estes tocos. Espero que brotem com força nos próximos meses. Quanto à rede
elétrica, será tarefa das próximas gerações, se conseguirem mudar a política e
a gestão da coisa pública. A minha geração está em débito.
Maria Rosa, uma crônica perfeita que revela a tua indignação com a situação política de nosso País, fazendo uma bela metáfora com as árvores mutiladas. Mutilado está nosso coração, não é mesmo? Abraços.
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