Michel
dispensou o amigo à entrada do cassino. Ele o ajudara a alugar a casaca, a
conseguir quinhentos euros emprestados e as informações básicas para que ele se
misturasse à burguesia que frequentava o local com o mínimo de naturalidade.
Agora era com ele.
Ultrapassou a boca da caverna, como
costumava dizer quando entrava em ambientes desconhecidos e possivelmente
hostis. Ali, a gentileza e os modos eram refinados. A hostilidade estava na
pele dos frequentadores e funcionários servis, só se manifestaria se ele não
seguisse a engrenagem das regras. Ele se preparara para rompê-las no momento
oportuno.
Luzes, vestidos, fraques, jóias, tudo
precisava ser ostentado com a falsidade da indiferença. Os gestos habituados à
contenção, ao momento justo de colocar as fichas na mesa, de agarrar o copo nos
intervalos do ganho ou da perda, sem que a pose se alterasse. Só o olhar era
traidor e deixava, às vezes, uma nesga de gozo ou de desespero após a
perseguição de somas vultosas que decidiam a vida de muitos.
Fora constrangido, depois de anos, a
ir e ganhar. Ele pensara muito e decidira desobedecer. Perderia, apesar de suas
habilidades repetidamente exercidas num tempo que julgara morto. Isto faria o dia seguinte ser o fim do tormento. O
hábito, no entanto, driblou o que arquitetara e fez por ele. Ganhou, e muito,
porque o gosto de vencer era superior a qualquer coisa que ele tivesse
experimentado.
Michel
superestimara sua capacidade de resistir à chantagem. A engrenagem imperou. Ganhar foi um fracasso que o jogou às correntes de uma galé. Os anos que vivera em paz
desmancharam-se como papel velho em contato com o ar. Só seu corpo continuava
ali, o pensamento voejava cego.
Ainda era noite, a fonte continuava
a reluzir em frente ao cassino e ele saiu levando o perfume que preenchia o ar
dos salões. Pesadamente foi seguindo para o hotel, sua vida não valia mais a
pena.
Curso Formação
de Escritores / Oficina com Cíntia Moscovich / Paradoxo
Nenhum comentário:
Postar um comentário