quarta-feira, 6 de abril de 2016

Repetição




            Michel dispensou o amigo à entrada do cassino. Ele o ajudara a alugar a casaca, a conseguir quinhentos euros emprestados e as informações básicas para que ele se misturasse à burguesia que frequentava o local com o mínimo de naturalidade. Agora era com ele.
            Ultrapassou a boca da caverna, como costumava dizer quando entrava em ambientes desconhecidos e possivelmente hostis. Ali, a gentileza e os modos eram refinados. A hostilidade estava na pele dos frequentadores e funcionários servis, só se manifestaria se ele não seguisse a engrenagem das regras. Ele se preparara para rompê-las no momento oportuno.
            Luzes, vestidos, fraques, jóias, tudo precisava ser ostentado com a falsidade da indiferença. Os gestos habituados à contenção, ao momento justo de colocar as fichas na mesa, de agarrar o copo nos intervalos do ganho ou da perda, sem que a pose se alterasse. Só o olhar era traidor e deixava, às vezes, uma nesga de gozo ou de desespero após a perseguição de somas vultosas que decidiam a vida de muitos.
            Fora constrangido, depois de anos, a ir e ganhar. Ele pensara muito e decidira desobedecer. Perderia, apesar de suas habilidades repetidamente exercidas num tempo que julgara morto. Isto faria o dia seguinte ser o fim do tormento. O hábito, no entanto, driblou o que arquitetara e fez por ele. Ganhou, e muito, porque o gosto de vencer era superior a qualquer coisa que ele tivesse experimentado.
Michel superestimara sua capacidade de resistir à chantagem. A engrenagem imperou. Ganhar foi um fracasso que o jogou às correntes de uma galé. Os anos que vivera em paz desmancharam-se como papel velho em contato com o ar. Só seu corpo continuava ali, o pensamento voejava cego.
            Ainda era noite, a fonte continuava a reluzir em frente ao cassino e ele saiu levando o perfume que preenchia o ar dos salões. Pesadamente foi seguindo para o hotel, sua vida não valia mais a pena.    


Curso Formação de Escritores / Oficina com Cíntia Moscovich / Paradoxo

            

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