Olhei a velha
árvore sacudida pelo vento intenso. Resistia. Só umas poucas folhas amarelas
eram arrancadas e voavam longe. Alguns galhos eram sacudidos como braços em
exercícios agitados. Ela ignorava a força que a atingia. Firme, mesmo coberta
de parasitas. O tráfego era intenso. A poluição deveria também ser alta. Ela
ali, na beira da calçada. Eu lhe prestei atenção, porque aguardava minha neta
sair da aula. O tronco grosso mostrava ter sido plantada há muitos anos. Velha
e forte. Deve ter sido podada várias vezes, porque os galhos formavam uma copa
não muito alta como deveria ser a de outros exemplares de sua espécie. Um
plátano. Pensei no país. Tantas vezes impedido de crescer, mas resistindo e
renascendo. Freado, no entanto, no caminho de realizar sua natureza de nação
rica. Cresceu injusto, cada vez mais. Durante uns poucos anos sentiu o gosto da
esperança de um futuro melhor. Hoje, os ventos que o assolam são tão ou mais
tempestuosos que em outros tempos. E os parasitas que nunca deixaram de sugá-lo
estão mais assanhados agora. Resistirá desta vez? O medo e o passado me dizem
que não. Aquela velha árvore, tão fixa e forte me diz para confiar. Desejo
tanto acreditar. Espero o acontecimento na acepção de Deleuze. Pode acontecer
sem termos previsto. Uma folia? Não, a vida traz o inesperado. Agarro-me à
possibilidade de redenção que é negada ao meu redor. Esqueço a história. A
história está sendo escrita, ainda há tempo. A teimosia de acreditar no amor
terá que vencer. Agarro-me à física quântica, o observador interfere na posição
do elétron. Eu preciso interferir na realidade sufocante dos últimos tempos. Não
só eu, milhões de nós. Será possível? A imagem daquela velha árvore reaparece.
Sim, há uma esperança.
A palavra continua sendo um caminho poderoso para estar no mundo. Ela tem sido de ajuda para resistir a tudo o que tem acontecido no entorno mais próximo e mais longínquo. Companheira sempre à disposição, embora nem sempre eu consiga aceitar seu convite para usá-la. Às vezes, ela me ajuda a seguir em frente. Sempre me coloca em contato com o outro. Isto é um privilégio. Compartilho-a com quem desejar me honrar com sua leitura.
sábado, 13 de outubro de 2018
quinta-feira, 20 de setembro de 2018
Relâmpagos inesperados
Vazio. Letras com B bonito, burro,
bosta, banfletário (pronúncia de quem está gripado – panfletário). Panfletária,
foi assim, que um dia meu ex-marido me chamou, nem lembro mais porque. O vazio que sinto deixa escapar o que tenho de pior, mágoa, nada mais me
vem para escrever. Nada. Nada. Nada. Imobilismo. Indiferença, que se foda tudo.
Assim é que deve se sentir alguém deprimido. Estou deprimida?
Dizem que se a
gente faz essa pergunta, é porque não se está. Então o que é? Enfado, sensação
de inutilidade em discutir sempre as mesmas coisas sobre a estupidez do mundo.
E eu o que sou? Incapaz de enfrentar isso que eu classifico de estupidez.
Pertenço ao grupo que pensa, que escreve, que reage diante da desfaçatez de
políticos que estão destruindo o estado e o país. Eu consigo só apoiar. Incapaz
de reagir. Reagir como? Reagir a quê? Interessante, volto à primeira linha e
vejo que escolhi o B sem qualquer titubeio. Nada realmente é arbitrário. Logo o
B, letra do inominável. Reagir ao que é inominável em mim?
Hoje me senti velha. Não falo dos anos,
tenho muitos e estou feliz com isso. Falo de sensações e de perdas. Pedi
notícias de um amigo que nunca mais vi depois de deixar a cidade. Foi meu
padrinho de casamento. Ele está numa casa de repouso com Alzheimer. Bomba. Um
pouco mais velho que eu, estatisticamente possível. Há quinze dias morreu uma
amiga dos tempos de lutas sindicais. Bem mais jovem do que eu.
No mês anterior
nos deixou o marido de uma amiga na minha faixa etária. Alguém que eu conhecia
há poucos anos, mas era como se fossem muitos. Um número do tamanho da
admiração e respeito que eu sentia por ele e sua história. A lista está ficando
extensa se juntar as perdas do ano que passou. E do anterior. Ouvi há tempos
que envelhecer significava perder as memórias que se iam com os amigos. Construí
o significado disto aos poucos. Hoje coloquei mais um tijolo. Um edifício que
não terá fim. É uma construção singular, cada um tem a sua. Não é casa, não é monumento, não é museu. É
como uma sombra que nos acompanha. As nuances ficam por conta da consciência de
cada um. A construção será interrompida quando eu me for. Por enquanto, dói
erguê-la. Dor que é suavizada pela gratidão em viver, tendo ao redor a família
e os amigos. Como me sentirei amanhã? sábado, 28 de julho de 2018
O que não se vê
Sentados nos
bancos em frente ao hospital vê-se um movimento incessante. Homens e mulheres
caminham num vai e vem maior que em muitas das cidades do interior de Estado.
Sabe-se que devem ser parentes, amigos ou conhecidos de alguém internado em
algum dos tantos quartos. Também alguns funcionários com seus uniformes verdes,
e algum médico com roupas brancas.
Um mundo muito
distante do cotidiano de afazeres prosaicos, de trabalho ou de entretenimento.
Esta distância não é medida em quilômetros. A algumas dezenas de metros a vida
corre veloz sobre quatro rodas ou levada por pés apressados. A vida
movimentando-se em frequências diversas. O parâmetro que os confronta é a
intensidade. Há uma luta pela vida por aqui onde pode ser agarrada ou perdida
na trajetória sobre uma corda bamba.
Quando um amigo
está nesta corda bamba a proximidade é a do microscópio. Sua dor funde-se com a
dor dele e de seus familiares. Não há como negar a visão do que é descoberto. O
desejo de que tudo não passe de um susto, de que o diagnóstico seja um
equívoco, de que o inusitado aconteça, porém, adormenta momentaneamente
qualquer racionalidade. O tempo é marcado pela espera do que vai acontecer. Não
existem ponteiros. Existem os boletins médicos, os sentimentos, a resistência a
perspectivas da ciência.
No mundo lá
fora, existem os caminhos de acesso a este do atendimento. Um mundo ameaçado
hoje em nosso país por interesse escusos. Junta-se então a gratidão porque
nosso amigo ou familiar está sendo atendido hoje. Evitamos pensar sobre o que
acontecerá conosco e nossos filhos. Muitos sequer têm consciência do futuro
ameaçador. Lutam pelo sobrevivência diária com esforços gigantescos.
São tantos os
temores. Por hora, o que podemos fazer é envolver nosso amigo ou familiar com
todo o afeto possível em sua luta pela vida. Um remédio a par com os meios da
medicina. Rede de energia na qual boa parte de nós acredita. Não é questão de
ver, mas de sentir.
O que vai nos
atingir mais adiante, mas não vemos, fica para depois. Quem sabe as coisas
mudam. Quem sabe nosso amigo ou familiar se salva. Quem sabe tudo é um pesadelo
e acordamos.
terça-feira, 10 de julho de 2018
Domingo inesquecível
Ando descrente
no poder da palavra. Por isso, talvez, esteja com dificuldade de escrever os
sentimentos diante das notícias sobre o país e o mundo.
Não tenho
conseguido ler textos até o fim, vagueio por manchetes que continuam a me
assombrar. Frequentemente sinto-me derrotada. Algumas vezes, cada vez menos,
surpreendo-me diante da estupidez humana.
E eis que, num
domingo à tarde, me vejo sacudida pela ordem de um desembargador para soltar
Lula. Descrente na justiça (com letra minúscula) do país, ressurge a esperança
na Justiça. Mas o ódio não descansa nunca e os seus defensores, mesmo não
estando de plantão, aliás estavam de férias, anulam a sentença com
justificativas distorcidas a seu bel prazer. É o escárnio de quem se garante no
posto e não deve a verdade a ninguém. Quem afirma são inúmeros juristas de
renome que denunciam a manobra da justiça que por hora está no poder.
Outro poder, o Quarto,
alimenta as mentiras. Um desvairado pseudojornalista chega a publicar o número
do celular do juiz a favor da Justiça. É preciso ameaçar também para que outros
não se insurjam contra a Casa Grande como diz Mino Carta.
Desta vez, no
entanto, o desmascaramento do complô para manter Lula na prisão é tão amplo que
até as algumas televisões internacionais mostraram o desmando que impera por
aqui.
Em bem humorada
gravação, Gregório Duvivier, nos mostra como a informação justa não demove os que
se nutrem do ódio. A estes não adianta explicar, nem desenhar, o
desmantelamento das mentiras veiculadas. A origem de suas convicções está em
outra seara, em sua formação, em origens culturais e psicológicas. Isto explica
em parte, porque os agora donos do poder têm em suas mãos a mente de boa parte
da população.
Mas este domingo
ficará na história. Como ficarão todos os registros escritos e televisionados que
desmentem o imaginário criado para manter preso quem não é culpado. E soltar quem
o é. Voltei a ter esperança na palavra. Ela está funcionando como um
antibiótico, é preciso esperar seus efeitos.
No caso do
Brasil, a infecção é tão potente que beira um câncer. É preciso esperar e
torcer que os remédios ministrados ajam antes da sua total destruição.
terça-feira, 1 de maio de 2018
El@s e eu
Palavras,
palavras, palavras
fogem de mim.
Sofro a dor muda
do que vejo.
El@s não veem.
Não querem?
Não podem?
Muitas coisas
ouço,
Soluço.
Sei o que el@s
ouvem,
absorvem.
Quisera um
diapasão.
Engole-nos a
refração.
El@s e eu
Distanciando-nos
sem palavras.
Dedicado @s amig@as cujo afeto me é
caro, mas não compartilhamos a mesma visão de mundo.
sábado, 31 de março de 2018
Esterco
Estavam combinando jogar esterco nos
ônibus da caravana. Ele ficou sabendo através de um dos seus grupos de whattsapp que incluía gente do Paraná. Estava
contando em conversa informal, em tom
que podia ser ouvido por quantos estivessem por perto ou passassem por ali. Era
uma conversa com cumplicidade de adolescentes em frente à escola que debocham de
quem não faz parte de sua turma. A certeza da impunidade estava na displicência
e naturalidade da conversa.
O
sujeito que compartilhou a notícia estava deitado num colchonete e obedecia às
orientações de sua personal sentada
ao lado. Uma cena comum numa academia. A naturalidade da conversa foi mais
grave que o próprio conteúdo. Implicava ausência de qualquer dúvida sobre o
direito de fazer e divulgar o que um grupo estava planejando. O rapaz forte e
saudável, que cuidava do seu físico, transpirava familiaridade com o meio.
Explicava em detalhes como um trator arrastava esterco destinado ao adubo de
certas áreas da fazenda. Desta vez seria acumulado à beira da estrada para
pulverizar quem passasse por ali. Não foi narrado o desfecho. Nem precisava.
Este
fato foi um dos tantos veiculados ao longo do percurso da caravana de Lula. A
mediação da palavra, da argumentação, do confronto de ideias foi abolido. A
mediação simbólica de quem pensa diferente foi esfacelada. A agressão direta de
indivíduos à revelia do estado foi assumida sem cerimônia. Os freios de uma
sociedade civilizada mostraram-se ausentes. A barbárie mostrou suas várias
faces com a certeza da impunidade. Uma barbárie que ignorou quantos, apesar de
tudo, mostraram seu acordo, sua solidariedade e seu agradecimento pelas
políticas sociais implantadas por Lula. Os frutos estão disseminados ao longo
do caminho que ele percorreu, estão vivos e se manifestaram.
O
perigo do transbordamento do ódio, tal como foi exemplificado, é assustador.
Para execrá-lo, lembro-me dos esforços de quantos lutam para enfrentá-lo sem
ceder à facilidade do revide. Alinho-me com eles e continuo a pensar que cada
um oferece o que tem. Uns, esterco. Outros, reconhecimento. E torço para que o
esterco cumpra sua função, independente do desvirtuamento que alguns desejaram
dar.
sexta-feira, 2 de março de 2018
Irreverências mil
“Deus é uma
palavra” diz De André ao sacerdote que lhe pergunta como o definiria. Era uma
aula de religião ou filosofia, a pergunta e o diálogo que se seguiu entre os
dois marcaram a adolescência do cantor. E a palavra de De André derramou-se em
canções belíssimas, tornando-o admirado na Itália e no mundo. De suas letras
escorrem sentimentos e emoções que comungam com os que o ouvem, porque tratam
do amor, da injustiça, da estupidez humana, da vida que pulsa no cotidiano.
Dormi sepolto in un campo di grano
non è la rosa non è il tulipano
che ti fan veglia dall'ombra dei fossi
ma sono mille papaveri rossi
Os
versos acima pertencem a La Guerra di
Piero, música que chora a estupidez humana capaz de levar um jovem a matar
outro, seu igual. Uma homenagem aos soldados sacrificados por uma guerra insana
como são todas as guerras.
Outros
lembram uma prostituta assassinada:
questa è la tua canzone Marinella
che sei volata in cielo su una stella
e come tutte le più belle cose
vivesti solo un giorno, come le rose
Não
escrevo canções, mas gostaria de ter palavras para cantarem aos céus a
resistência de quem trabalha, de quem denuncia, de quem grita sua indignação e
só pode ser derrubado pela força, jamais por ter deixado de lutar.
Sirvo-me
da memória e alcanço Elis Regina como se estivesse cantando no tempo
enlouquecido de agora o mesmo lamento de então. Um lamento que não deveria ser repetido:
Louco, o bêbado com
chapéu-côco
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil, meu Brasil
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil, meu Brasil
A
memória em tumulto também me traz o que li em algum lugar, a única derrota é
ter desistido. Então recupero Geraldo Vandré com:
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Agarro-me
à esperança de que as atuais gerações e as que se seguirem possam descobrir os
caminhos para conquistar mais do que a minha geração não conseguiu e não
conseguiu garantir. Os avanços sociais conquistados num passado recente
esfumaçaram-se num tsunami de bandalheiras, mas a história continua e com ela possibilidades
nem sempre previsíveis. Quem sabe esteja em gestação um saber fazer a hora.
Neste
percurso, que a palavra de indignação e de contestação continue a ser
pronunciada. Que a palavra seja resgatada da imundície da ignorância e dos
preconceitos. Que a palavra seja o amálgama do desejo de um mundo mais justo
onde o outro é meu semelhante, não meu inimigo. E que a palavra amor seja
sempre mais poderosa que o ódio.
Hoje
há uma sensação generalizada que o ódio está vencendo. Ou estará apenas fazendo
mais barulho? Tomara que seja a segunda hipótese.
Assinar:
Postagens (Atom)
