sábado, 28 de julho de 2018

O que não se vê




Sentados nos bancos em frente ao hospital vê-se um movimento incessante. Homens e mulheres caminham num vai e vem maior que em muitas das cidades do interior de Estado. Sabe-se que devem ser parentes, amigos ou conhecidos de alguém internado em algum dos tantos quartos. Também alguns funcionários com seus uniformes verdes, e algum médico com roupas brancas.
Um mundo muito distante do cotidiano de afazeres prosaicos, de trabalho ou de entretenimento. Esta distância não é medida em quilômetros. A algumas dezenas de metros a vida corre veloz sobre quatro rodas ou levada por pés apressados. A vida movimentando-se em frequências diversas. O parâmetro que os confronta é a intensidade. Há uma luta pela vida por aqui onde pode ser agarrada ou perdida na trajetória sobre uma corda bamba.
Quando um amigo está nesta corda bamba a proximidade é a do microscópio. Sua dor funde-se com a dor dele e de seus familiares. Não há como negar a visão do que é descoberto. O desejo de que tudo não passe de um susto, de que o diagnóstico seja um equívoco, de que o inusitado aconteça, porém, adormenta momentaneamente qualquer racionalidade. O tempo é marcado pela espera do que vai acontecer. Não existem ponteiros. Existem os boletins médicos, os sentimentos, a resistência a perspectivas da ciência.
No mundo lá fora, existem os caminhos de acesso a este do atendimento. Um mundo ameaçado hoje em nosso país por interesse escusos. Junta-se então a gratidão porque nosso amigo ou familiar está sendo atendido hoje. Evitamos pensar sobre o que acontecerá conosco e nossos filhos. Muitos sequer têm consciência do futuro ameaçador. Lutam pelo sobrevivência diária com esforços gigantescos.
São tantos os temores. Por hora, o que podemos fazer é envolver nosso amigo ou familiar com todo o afeto possível em sua luta pela vida. Um remédio a par com os meios da medicina. Rede de energia na qual boa parte de nós acredita. Não é questão de ver, mas de sentir.
O que vai nos atingir mais adiante, mas não vemos, fica para depois. Quem sabe as coisas mudam. Quem sabe nosso amigo ou familiar se salva. Quem sabe tudo é um pesadelo e acordamos.

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