sábado, 13 de outubro de 2018

A árvore e o elétron




Olhei a velha árvore sacudida pelo vento intenso. Resistia. Só umas poucas folhas amarelas eram arrancadas e voavam longe. Alguns galhos eram sacudidos como braços em exercícios agitados. Ela ignorava a força que a atingia. Firme, mesmo coberta de parasitas. O tráfego era intenso. A poluição deveria também ser alta. Ela ali, na beira da calçada. Eu lhe prestei atenção, porque aguardava minha neta sair da aula. O tronco grosso mostrava ter sido plantada há muitos anos. Velha e forte. Deve ter sido podada várias vezes, porque os galhos formavam uma copa não muito alta como deveria ser a de outros exemplares de sua espécie. Um plátano. Pensei no país. Tantas vezes impedido de crescer, mas resistindo e renascendo. Freado, no entanto, no caminho de realizar sua natureza de nação rica. Cresceu injusto, cada vez mais. Durante uns poucos anos sentiu o gosto da esperança de um futuro melhor. Hoje, os ventos que o assolam são tão ou mais tempestuosos que em outros tempos. E os parasitas que nunca deixaram de sugá-lo estão mais assanhados agora. Resistirá desta vez? O medo e o passado me dizem que não. Aquela velha árvore, tão fixa e forte me diz para confiar. Desejo tanto acreditar. Espero o acontecimento na acepção de Deleuze. Pode acontecer sem termos previsto. Uma folia? Não, a vida traz o inesperado. Agarro-me à possibilidade de redenção que é negada ao meu redor. Esqueço a história. A história está sendo escrita, ainda há tempo. A teimosia de acreditar no amor terá que vencer. Agarro-me à física quântica, o observador interfere na posição do elétron. Eu preciso interferir na realidade sufocante dos últimos tempos. Não só eu, milhões de nós. Será possível? A imagem daquela velha árvore reaparece. Sim, há uma esperança.

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