Olhei a velha
árvore sacudida pelo vento intenso. Resistia. Só umas poucas folhas amarelas
eram arrancadas e voavam longe. Alguns galhos eram sacudidos como braços em
exercícios agitados. Ela ignorava a força que a atingia. Firme, mesmo coberta
de parasitas. O tráfego era intenso. A poluição deveria também ser alta. Ela
ali, na beira da calçada. Eu lhe prestei atenção, porque aguardava minha neta
sair da aula. O tronco grosso mostrava ter sido plantada há muitos anos. Velha
e forte. Deve ter sido podada várias vezes, porque os galhos formavam uma copa
não muito alta como deveria ser a de outros exemplares de sua espécie. Um
plátano. Pensei no país. Tantas vezes impedido de crescer, mas resistindo e
renascendo. Freado, no entanto, no caminho de realizar sua natureza de nação
rica. Cresceu injusto, cada vez mais. Durante uns poucos anos sentiu o gosto da
esperança de um futuro melhor. Hoje, os ventos que o assolam são tão ou mais
tempestuosos que em outros tempos. E os parasitas que nunca deixaram de sugá-lo
estão mais assanhados agora. Resistirá desta vez? O medo e o passado me dizem
que não. Aquela velha árvore, tão fixa e forte me diz para confiar. Desejo
tanto acreditar. Espero o acontecimento na acepção de Deleuze. Pode acontecer
sem termos previsto. Uma folia? Não, a vida traz o inesperado. Agarro-me à
possibilidade de redenção que é negada ao meu redor. Esqueço a história. A
história está sendo escrita, ainda há tempo. A teimosia de acreditar no amor
terá que vencer. Agarro-me à física quântica, o observador interfere na posição
do elétron. Eu preciso interferir na realidade sufocante dos últimos tempos. Não
só eu, milhões de nós. Será possível? A imagem daquela velha árvore reaparece.
Sim, há uma esperança.
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