sexta-feira, 2 de março de 2018

Irreverências mil


“Deus é uma palavra” diz De André ao sacerdote que lhe pergunta como o definiria. Era uma aula de religião ou filosofia, a pergunta e o diálogo que se seguiu entre os dois marcaram a adolescência do cantor. E a palavra de De André derramou-se em canções belíssimas, tornando-o admirado na Itália e no mundo. De suas letras escorrem sentimentos e emoções que comungam com os que o ouvem, porque tratam do amor, da injustiça, da estupidez humana, da vida que pulsa no cotidiano.
É impossível não se emocionar ao ouvir:

Dormi sepolto in un campo di grano
non è la rosa non è il tulipano
che ti fan veglia dall'ombra dei fossi
ma sono mille papaveri rossi

            Os versos acima pertencem a La Guerra di Piero, música que chora a estupidez humana capaz de levar um jovem a matar outro, seu igual. Uma homenagem aos soldados sacrificados por uma guerra insana como são todas as guerras.
            Outros lembram uma prostituta assassinada:

questa è la tua canzone Marinella
che sei volata in cielo su una stella
e come tutte le più belle cose
vivesti solo un giorno, come le rose

            Não escrevo canções, mas gostaria de ter palavras para cantarem aos céus a resistência de quem trabalha, de quem denuncia, de quem grita sua indignação e só pode ser derrubado pela força, jamais por ter deixado de lutar.
            Sirvo-me da memória e alcanço Elis Regina como se estivesse cantando no tempo enlouquecido de agora o mesmo lamento de então. Um lamento que não deveria ser repetido:

Louco, o bêbado com chapéu-côco
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil, meu Brasil

            A memória em tumulto também me traz o que li em algum lugar, a única derrota é ter desistido. Então recupero Geraldo Vandré com:

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

            Agarro-me à esperança de que as atuais gerações e as que se seguirem possam descobrir os caminhos para conquistar mais do que a minha geração não conseguiu e não conseguiu garantir. Os avanços sociais conquistados num passado recente esfumaçaram-se num tsunami de bandalheiras, mas a história continua e com ela possibilidades nem sempre previsíveis. Quem sabe esteja em gestação um saber fazer a hora.
            Neste percurso, que a palavra de indignação e de contestação continue a ser pronunciada. Que a palavra seja resgatada da imundície da ignorância e dos preconceitos. Que a palavra seja o amálgama do desejo de um mundo mais justo onde o outro é meu semelhante, não meu inimigo. E que a palavra amor seja sempre mais poderosa que o ódio.
            Hoje há uma sensação generalizada que o ódio está vencendo. Ou estará apenas fazendo mais barulho? Tomara que seja a segunda hipótese.

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