“Deus é uma
palavra” diz De André ao sacerdote que lhe pergunta como o definiria. Era uma
aula de religião ou filosofia, a pergunta e o diálogo que se seguiu entre os
dois marcaram a adolescência do cantor. E a palavra de De André derramou-se em
canções belíssimas, tornando-o admirado na Itália e no mundo. De suas letras
escorrem sentimentos e emoções que comungam com os que o ouvem, porque tratam
do amor, da injustiça, da estupidez humana, da vida que pulsa no cotidiano.
Dormi sepolto in un campo di grano
non è la rosa non è il tulipano
che ti fan veglia dall'ombra dei fossi
ma sono mille papaveri rossi
Os
versos acima pertencem a La Guerra di
Piero, música que chora a estupidez humana capaz de levar um jovem a matar
outro, seu igual. Uma homenagem aos soldados sacrificados por uma guerra insana
como são todas as guerras.
Outros
lembram uma prostituta assassinada:
questa è la tua canzone Marinella
che sei volata in cielo su una stella
e come tutte le più belle cose
vivesti solo un giorno, come le rose
Não
escrevo canções, mas gostaria de ter palavras para cantarem aos céus a
resistência de quem trabalha, de quem denuncia, de quem grita sua indignação e
só pode ser derrubado pela força, jamais por ter deixado de lutar.
Sirvo-me
da memória e alcanço Elis Regina como se estivesse cantando no tempo
enlouquecido de agora o mesmo lamento de então. Um lamento que não deveria ser repetido:
Louco, o bêbado com
chapéu-côco
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil, meu Brasil
Fazia irreverências mil pra noite do Brasil, meu Brasil
A
memória em tumulto também me traz o que li em algum lugar, a única derrota é
ter desistido. Então recupero Geraldo Vandré com:
Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer
Agarro-me
à esperança de que as atuais gerações e as que se seguirem possam descobrir os
caminhos para conquistar mais do que a minha geração não conseguiu e não
conseguiu garantir. Os avanços sociais conquistados num passado recente
esfumaçaram-se num tsunami de bandalheiras, mas a história continua e com ela possibilidades
nem sempre previsíveis. Quem sabe esteja em gestação um saber fazer a hora.
Neste
percurso, que a palavra de indignação e de contestação continue a ser
pronunciada. Que a palavra seja resgatada da imundície da ignorância e dos
preconceitos. Que a palavra seja o amálgama do desejo de um mundo mais justo
onde o outro é meu semelhante, não meu inimigo. E que a palavra amor seja
sempre mais poderosa que o ódio.
Hoje
há uma sensação generalizada que o ódio está vencendo. Ou estará apenas fazendo
mais barulho? Tomara que seja a segunda hipótese.
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