Vazio. Letras com B bonito, burro,
bosta, banfletário (pronúncia de quem está gripado – panfletário). Panfletária,
foi assim, que um dia meu ex-marido me chamou, nem lembro mais porque. O vazio que sinto deixa escapar o que tenho de pior, mágoa, nada mais me
vem para escrever. Nada. Nada. Nada. Imobilismo. Indiferença, que se foda tudo.
Assim é que deve se sentir alguém deprimido. Estou deprimida?
Dizem que se a
gente faz essa pergunta, é porque não se está. Então o que é? Enfado, sensação
de inutilidade em discutir sempre as mesmas coisas sobre a estupidez do mundo.
E eu o que sou? Incapaz de enfrentar isso que eu classifico de estupidez.
Pertenço ao grupo que pensa, que escreve, que reage diante da desfaçatez de
políticos que estão destruindo o estado e o país. Eu consigo só apoiar. Incapaz
de reagir. Reagir como? Reagir a quê? Interessante, volto à primeira linha e
vejo que escolhi o B sem qualquer titubeio. Nada realmente é arbitrário. Logo o
B, letra do inominável. Reagir ao que é inominável em mim?
Hoje me senti velha. Não falo dos anos,
tenho muitos e estou feliz com isso. Falo de sensações e de perdas. Pedi
notícias de um amigo que nunca mais vi depois de deixar a cidade. Foi meu
padrinho de casamento. Ele está numa casa de repouso com Alzheimer. Bomba. Um
pouco mais velho que eu, estatisticamente possível. Há quinze dias morreu uma
amiga dos tempos de lutas sindicais. Bem mais jovem do que eu.
No mês anterior
nos deixou o marido de uma amiga na minha faixa etária. Alguém que eu conhecia
há poucos anos, mas era como se fossem muitos. Um número do tamanho da
admiração e respeito que eu sentia por ele e sua história. A lista está ficando
extensa se juntar as perdas do ano que passou. E do anterior. Ouvi há tempos
que envelhecer significava perder as memórias que se iam com os amigos. Construí
o significado disto aos poucos. Hoje coloquei mais um tijolo. Um edifício que
não terá fim. É uma construção singular, cada um tem a sua. Não é casa, não é monumento, não é museu. É
como uma sombra que nos acompanha. As nuances ficam por conta da consciência de
cada um. A construção será interrompida quando eu me for. Por enquanto, dói
erguê-la. Dor que é suavizada pela gratidão em viver, tendo ao redor a família
e os amigos. Como me sentirei amanhã?
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