sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

O desafio continua

 

                Eu passava por ela e pensava que devia ser paralítica ou deveria ter algum problema grave nas pernas. Durante muitos anos, eu vi a mulher sentada na calçada envolvida em trapos junto ao muro que delimitava o clube. A calçada ali era estreita e os pedestres passavam mais distanciados dela que podiam. Alguns até caminhavam no asfalto, mesmo na avenida movimentada. Eu também.  Ali era seu lugar, inclusive das suas necessidades fisiológicas. O cheiro era insuportável.  A sujeira dela e a da calçada davam nojo. E o nojo vinha enrolado na raiva que sempre sinto ao ver a degradação humana em meio à abundância da qual faço parte. A impotência se agregava e acionava o conhecido mecanismo do esquecimento um pouco adiante. Só me dava conta que ela desaparecia de tempos em tempos, quando voltava a sentar-se lá. Perguntava-me onde ela teria andado, mas também esquecia sem esperar resposta. Um dia, passei a ver um homem sentado ao lado dela, igualmente sujo e fedorento. A intervalos, os dois também desapareciam. Às vezes xingavam-se, às vezes conversavam baixinho como a compartilhar segredos, às vezes dormiam totalmente cobertos pelos trapos.

Um dia, encontrei-os na calçada em frente a uma agência bancária, uns duzentos metros adiante do primeiro local. Este, estranhamente limpo. A chuva deve ter feito a faxina. O casal, sentado em meio a uma quantidade muito maior de trapos e sacos, fixou ali seu novo ponto. O uso da calçada tornou-a imunda e mal cheirosa como a anterior. Ali a largura era bem mais ampla e os pedestres não precisavam desviar, nem mesmo para entrar na agência. Soou-me como uma irônica denúncia. A resposta sobre a origem de tanta diferença de vida numa mesma sociedade estava às costas deles em letras e logotipo nacionalmente conhecidos. Um retrato do país.

Um tempo depois, eles despareceram dali. Ou foram desaparecidos. Aquele local pertencia a bairro nobre da cidade. Grades circundaram o espaço antes ocupado pelo casal, e dentro dele foram plantas duas palmeiras. Tudo limpo e sem traços de qualquer ocupação. A calçada estava sob nova apresentação. Nunca mais vi o casal.

Durante alguns anos, aquele homem e aquela mulher eram testemunhos solitários de uma população de rua invisível no bairro. Uns e outros circulavam por tempo curto e desapareciam. Nunca foram muitos, mas num movimento que nunca cessou. Semelhante a mosquitos que invadem nossa sala numa noite de verão. Damos caça, fechamos as janelas e ligamos o ar.

Nos últimos anos, com aumento enorme na pandemia, está sendo impossível caminhar algumas quadras sem ouvir um pedido de ajuda, sem ter a oferta de balas ou panos de prato, sem ler “estou com fome” num cartaz. E não são somente moradores de rua. Homens vestidos modestamente, com filhos pequenos acomodados num canto, procuram vender alguma coisa. Nunca haviam sido vistos pelo bairro. Não são sempre os mesmos. Não há como não ver pessoas que devem ter perdido seu emprego, devem ter tido sua vida desestruturada, e se viram como podem. Perguntei-me que distâncias devem transpor para chegar até aqui e porque não são sempre os mesmos. Poucos são os que permanecem e se tornam conhecidos. Uma realidade que bate na nossa cara, e um gesto solidário de nossa parte é pequeno e insuficiente, embora necessário.

Chegamos ao fim do ano, aliás, ao fim de seis anos de retrocesso no país. Domingo, enfim, assumirá nosso Presidente. A reconstrução do país estará começando com um caminho difícil, com muitos obstáculos a superar, com instituições a serem reconstruídas, mas com muita gente – nos postos chave da administração federal – que tem o mesmo sonho de fazer deste país um lugar melhor para viver. Aliás, já está sendo feito.

Embora, não tenhamos nem o governo estadual e nem o municipal na mesma sintonia, os reflexos de nova política social do Governo Federal se farão sentir também nas nossas ruas. Que elas sejam cobertas apenas das flores de cada temporada. Este é o horizonte à nossa frente, porque a maior parte do povo brasileiro disse sim à esperança, à empatia, ao afeto, à alegria espelhada no outro.

 O próximo ano colocará em ato a vitória do desejo de vida expressa na vitória de LULA. E cada um que compartilha deste desejo precisa continuar a estar vigilante e a apoiar o que foi conquistado. O desafio continua.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Preciso voar

 

Voar. Sobre as ruas do meu bairro, e mais longe, ondulando em asas de fuga, saindo de minha janela, ultrapassando o último andar do edifício e tomando o rumo à esquerda, até à rua onde não posso mais caminhar como antigamente, porque assaltam a qualquer hora. Voar, um jeito de circular por aí sem medos. Sem peso, leva-me o equilíbrio entre o movimento das asas e o ar que me recebe. Movimento harmônico vindo do abandono do ser estátua diante dos acontecimentos. Do alto posso ver, através dos espaços entre as copas das árvores, poucas pessoas caminhando, uma e outra vão devagar com seus cachorros, outras andam apressadas, devem ser as empregadas e funcionários que precisam chegar cedo ao trabalho. Poucos carros a essa hora da manhã. O sol ainda não está alto, mas esquenta minhas costas, a brisa que acaricia meu corpo vem em meu socorro, permite que continue meu voo recém iniciado. Vejo um mosaico de pequenos quadrados e retângulos negados ao pedestre. Há espaços entre eles, de vários formatos e diferentes tamanhos, preenchidos por piscinas, quadras, gramados, restos de matas que existiam na região, poucos terrenos vazios, uma e outra casa, formam quadras de aproximadamente cem metros quadrados, algumas maiores. Sei que as formas geométricas que consigo enxergar estão recheadas de seres humanos, muitos podem ainda estar dormindo, outros estarão começando seus afazeres do dia que começa, sairão à rua, aos seus compromissos. Agora, e do alto onde estou, não vejo estes movimentos que sei existirem. A rua que sobrevoo é ladeada por árvores, em alguns trechos formam um túnel; em outros, elas estão esparsas e oferecem flores brancas nesta época. As ruas transversais seguem o mesmo padrão. Raios do sol saltam de diferentes lugares, vieram com novas arquiteturas envidraçadas e desenham reflexos, lembram espectros de segurança para objetos valiosos, uma segurança impossível nas vias públicas há muito tempo. Nelas estamos sós, à mercê do inesperado. Vou e volto, não desejo baixar muito, é na altura que me embalo melhor e enxergo cores e desenhos não possíveis no andar à terra. Na distância daquilo que me está próximo, resgato o olhar perdido para as belezas ocultas no caos do cotidiano. Se voasse mais alto, talvez não distinguisse o que seriam estas formas, enxergaria outras, outros traçados, outros brilhos. Alcançarei um olhar mais amplo? Por enquanto, só consegui voos próximos. Em cada um deles consegui mergulhar no sono e sonhar. Na próxima vez, tentarei ir mais longe.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Alegria contida


Acordei no meio da noite com o peito oprimido e com sensação de ansiedade, havia dormido pouco?, o que havia acontecido?, por que eu me sentia com medo? Lembrei que o domingo havia terminado bem, não como eu desejaria, mas muito bem diante de tudo o que havia ocorrido nos dois últimos dois meses de campanha onde o poder econômico da máquina do governo esteve o tempo todo a favor do atual presidente. Sem falar nos últimos quatro anos. Eu tinha certeza de que LULA venceria, mas o perigo estava sempre rondando. Chorei muito diante do Presidente LULA enquanto fazia seu discurso de líder onde resgatava todos os nossos desejos para o país.  Foi um choro gritado, soluçado e sem conseguir parar. Eu estava feliz e queria rir, mas chorava. Precisava expulsar a ansiedade nas lágrimas contidas diante das inúmeras injustiças praticadas pelo governo que está terminando. Precisava aliviar meu corpo e minha alma das tensões que não encontravam fim, porque as barbáries deste governo eram diuturnas. Incessantes. Então veio o cansaço e fui dormir. Adormeci logo. Por isso, não entendia as razões de ter acordado no sufoco. Eu havia optado por não ir festejar na rua, queria estar recolhida, precisava de isolamento para recarregar minhas energias. Eu me sentia esgotada e minha alegria era uma alegria contida, como eu havia dito a uma amiga algumas horas antes. Contida por quê? Não tenho certeza das razões. As que consigo identificar estão ligadas aos medos que não deixam minha alegria explodir. Medos construídos a partir das ameaças e ações que o atual presidente pode desencadear nestes dois meses que lhe restam. Sabendo de sua maldade e de sua falta de limites. Dele e do grupo que o cerca. Nosso primeiro passo foi alcançado que foi eleger o Presidente LULA, apesar dos milhões que ainda votaram nele apesar de todos os horrores advindos do governo dele. Uma fantástica vitória que tem de valorizar e saborear como um fruto raro entregue pelas forças da natureza brasileira. Na verdade, uma façanha de milhões de brasileiros, muitos dos quais em linha de frente e ao alcance das garras do poder. Muitos perderam a vida neste enfrentamento. Devemos festejar também por eles, pela sua memória. Minha forma de festejar foi em recolhimento, sintonizando-me com todas as boas energias que estão explodindo país afora. Eu disse várias vezes que já alcancei uma idade que não vai me permitir ver a sociedade brasileira alcançar um nível de civilidade desejado, mas estive lutando pelos meus filhos e, principalmente meus netos. E todos os filhos e netos do país.

                Como disse LULA, nosso Presidente, só envelhece quem não tem uma causa e a causa dele é cuidar do povo brasileiro, por isso ele não envelhece. Neste sentido, apesar da idade cronológica, eu também não envelheço porque estarei sempre ao lado de quem luta por um governo que cuida deste povo tão culturalmente rico, sofrido e resistente. Sei que milagres não vão acontecer, nos últimos quatro anos o país foi massacrado e saqueado. Espero, no entanto, ver os sinais de um novo tempo nas ruas sem crianças a pedir ajuda para comer.

            Que as forças do universo estejam em sintonia com o Presidente LULA nas suas decisões. Milhões de brasileiros espalhados pelo país, embora mais concentrados no Nordeste, também estarão ao seu lado.

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Antes de queimar livros

 

É lugar comum ler ou ouvir uma notícia sobre ataque ao conhecimento, à ciência, às artes no país, principalmente desde a posse do atual pseudopresidente. É lugar comum a aversão às universidades públicas que o atual governo demonstra, e as medidas que foram sendo tomadas de modo sistemático para desmontá-las nestes quase quatro anos.

Nefastos estão sendo as consequências, as inúmeras leis e os provedimentos que continuam a asfixiar as excelentes contribuições que as universidades federais têm oferecido à nação ao longo de décadas. A lista seria muito longa. Vale falar sobre a última (se, depois, já não ocorreu outro ataque). No Curso de Doutorado em Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco, foi aprovada a tese: Mídia e Conservadorismo: O Globo, a Folha de São Paulo e a Ascensão de Bolsonaro e do Bolsonarismo. No dia 11 de agosto, a tese conquistou “Menção Honrosa no Prêmio CAPES de Tese de 2022” – o maior reconhecimento feito a autores de teses de doutorado no país. O assunto, entretanto, não pôde ser divulgado pelos veículos internos na universidade por alegações de que feririam a legislação eleitoral no presente período. O que é considerado falso, portanto, um ato arbitrário de censura.

Haveria uma lista longa demais também com ataques às escolas públicas e seus professores no Ensino Médio e Fundamental no país. Para me deter apenas no Rio Grande do Sul, um dos últimos exemplos (aqui também podem ter acontecido outros no intervalo até este texto) é a demissão de uma professora de escola particular, porque alguns alunos não aceitaram que ela expusesse o fato da exclusão histórica das mulheres nas ciências, nas artes e na política. Claro está que o motivo declarado foi outro. Este tipo de demissão é comum, e uma simples pesquisa na internet pode confirmar.

Em outra face da história do Estado do Rio Grande do Sul, o governador que está se recandidatando tem sido implacável na destruição da escola estadual. Nem os governadores biônicos da ditadura foram tão desrespeitosos e cruéis com o magistério e os funcionários. Ele foi cínico com o CPERS, não ouviu reivindicações, negou fatos, foi indiferente à situação das diversas comunidades escolares, acabou com o Plano de Carreira dos Professores, eliminou benefícios para quem trabalhava em escola de difícil acesso, desqualificou os professores aposentados, porque eles não contribuiriam para a melhoria da educação, como se fossem descartáveis depois de terem cumprido seu tempo de trabalho.

Encontramos também as investidas para implantar a escola sem partido, o abandono a prédios, propostas de reformas curriculares que retiram disciplinas da área das humanas e que ignoram todo um referencial a embasar a formação integral de um aluno, são algumas das medidas apoiadas indiretamente ou diretamente pelo governo do Estado. Estas atingem principalmente as crianças e jovens mais pobres que teriam um espaço fundamental para a sua formação, porque há boas escolas particulares sem estas reformas para quem pode pagar. Esta é uma as faces do governo em defesa do Estado mínimo. Se não bastasse isso, ele propõe “vender” as escolas públicas através da oferta de vouchers para as escolas particulares. As empresas estatais ele as está vendendo diretamente sem disfarces. O discurso que o governador fazia na sua primeira campanha ao governo do Estado era exatamente o contrário. Já foi publicada a pergunta: Quanto vale sua palavra, senhor governador?

Com tudo o que foi feito pelos últimos governos estaduais, principalmente o último de Eduardo Leite, nem é preciso fazer o que  está fazendo o governador da Flórida, EUA: uma lei com 200 livros proibidos para as escolas (O comum dos livros, referência a qualquer tipo de opressão, ao racismo: O apanhador no campo de centeio, O sol é para todos, Uma dobra no tempo, Amada. Também Harry Potter); toda vez que um aluno tirar um livro da biblioteca, o pai vai saber; também fará o financiamento de campanha para quem se candidata aos Conselhos Escolares. Ele está tratando de exercer seu poder sobre a formação da geração que está na escola hoje através de seus pais, os seus eleitores.

No nosso Estado, o abominável reducionismo dos currículos da Educação Básica e a alternativa de entregá-la à iniciativa privada, são propostas tão ou mais ameaçadoras. Elas também contemplam censura e autoritarismo, embora sem as cores e a visibilidade do que está acontecendo no país do norte do continente.

É desesperador esquecer tantos anos de luta pela educação. Quantas experiências excelentes o nosso Estado propiciou, já tivemos o melhor sistema educacional do país. Lugar este perdido há bastante tempo. A minha geração estudou em escola pública de excelência. Uma história esquecida pelos últimos governos que a desprezam como desprezam as camadas da população que mais necessitam dela e, com isso, o maior prejuízo é o de impedir-lhes acesso ao lugar de construção de conhecimento, de formação de pensamento crítico pelo confronto de ideias e convivência com a diversidade de saberes. Significa impedir-lhes um dos caminhos privilegiados para compreender os direitos que lhes são subtraídos.

Quem está no poder conhece muito bem esta história. Os que estão sendo prejudicados, massacrados por falsas notícias, é que precisam saber quem são seus inimigos. Este é o grande desafio.



segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Rir juntos

 

            Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.

Em: A morte não é nada

Santo Agostinho

 

Lembro o filme baseado no livro O Nome da Rosa, não tanto pela excelente trama, mas pela luta intrínseca entre duas visões de mundo dentro da própria Igreja Católica na Idade Média, um recorte do pensamento da época. Embora tenham transcorrido alguns séculos, continuamos a viver esta luta, atualizados com os tempos de progresso econômico e científico, mostrando como ela é eterna.

Lembro o sacerdote que se empenhava em barrar o acesso ao manuscrito que ele julgava seu dever esconder. O que foi desnudado, no final, foi o medo do sacerdote de que o manuscrito de Santo Agostinho fosse de domínio público. O conteúdo a ser escondido estava ligado à defesa do riso no ensino religioso, visto por ele um perigo de quebra das normas monásticas, pois o riso levaria à alegria e à liberdade. Haveria, portanto, sério perigo de perda de poder da Igreja sobre os corpos e, em consequência, sobre o pensamento. O poder da Igreja constituído sobre o medo em todas as suas faces, culminando com medo do inferno após a morte. Os manuscritos da época estavam restritos às bibliotecas da Igreja, como aquela que é mostrada no filme, inacessíveis à população que, na sua maioria, era analfabeta. Mesmo assim, havia zelo em serem mantidos escondidos até dos próprios clérigos.

O riso tem sido difícil nos últimos anos, quando vemos o que tem acontecido diuturnamente na política do país. São os mais diversos sentimentos, tristeza, angústia, raiva que prevalecem, tanto mais em quem entende as injustiças praticadas por interesses particulares de grupos econômicos, que se apossaram das diferentes instâncias de governo. Sentimentos que são faces diversas do medo de quem não tem o que comer; de quem perdeu ou pode perder o emprego; de quem não consegue chegar ao final do mês com o salário que recebe; de não conseguir se aposentar dadas as mudanças na legislação; de não conseguir mandar os filhos para a escola; de não conseguir pagar as contas; de ser assaltado numa parada de ônibus ao ir ou voltar do trabalho. Todos, medos diante de situações reais que vêm se agravando.

No entanto, há os medos construídos sobre mentiras e desinformação que impedem ver as verdadeiras causas dos problemas vividos pela população. São as velhas ameaças de que toda proposta ou política social vem mascarando a implantação do comunismo no país; de que políticas sociais só favorecem a preguiça; de que apenas um determinado partido disseminou a corrupção na máquina governamental; de que tudo se resolve com o Estado mínimo; de que a livre iniciativa resolverá os problemas do país; de que o pobre é pobre porque não se esforçou o suficiente; de que bandido bom é bandido morto. A lista é extensa.

Um conjunto de mentiras continua a alimentar a máquina dos medos, os quais, por sua vez, mantém a população refém de quem está no poder e pode ditar as regras do ordenamento social. Quem não embarca nas mentiras vê como elas constroem a necessidade do salve-se quem puder, alimentando o monstro do individualismo. O medo que afasta a alegria do riso de que falava Santo Agostinho, porque o riso requer o compartilhamento, necessita do outro, necessita de liberdade.

Há anos, são denunciados os mal feitos de quem se apossou do governo por meio de um golpe, e depois, de quem se elegeu legalmente, mas com a contribuição deslavada de fakenews, colocando combustível no medo já instalado e bem nutrido. A palavra contra as injustiças e desmandos de quem não tem compromisso algum com a população mais necessitada foi lançada de incontáveis lugares. Estas denúncias necessárias eram acompanhadas de um sentimento de impotência, porque não se via um horizonte de mudança próximo. O medo acompanhava os esforços para desmontar as mentiras, porque parecia uma luta de David contra Golias.

Hoje, estamos em outro momento, as denúncias estão recebendo outro reforço. As bibliotecas estão sendo abertas, os livros proibidos estão sendo liberados para a alegria da esperança, e ela nos leva às palavras de Santo Agostinho. Um tempo que invoca o riso onde une as pessoas, a alegria que constrói outras narrativas e outros laços entre elas, elimina barreiras que impedem a produção de um ser humano com empatia. A alegria desvela outros mundos e encantamentos onde novas subjetividades são produzidas. Este é o caminho que precisamos percorrer para fazer com o que o medo não seja medida de qualquer decisão, apesar de todas as dificuldades que conhecemos e outras que certamente surgirão.

Estamos num tempo em que as narrativas de denúncia e de luta estão recebendo recuperando lembranças do quanto podemos ir adiante e mais longe juntos. Precisamos rir juntos enquanto construímos um novo caminho. Um riso que vem da união de esforços, de pequenas conquistas no árduo caminho para uma conquista maior, que resgata a alegria espelhada no outro e, principalmente, de que precisamos do outro para um mundo melhor.

 

sexta-feira, 1 de julho de 2022

A morte dos vaga-lumes

 

                Imagino que a maioria da minha geração tenha brincado com vaga-lumes. Eu tenho lembranças gostosas, era mágico ver as fagulhas que aqueles pequenos minúsculos seres emitiam no escuro da noite. Corríamos atrás deles até cansar e atender ao chamado para voltar para casa. Hoje, a maior parte da população vive em cidades onde algum tipo de iluminação sempre existe. A própria vegetação deixou lugar a prédios de todo o tipo e tamanho. Os vaga-lumes sumiram. Mesmo longe das cidades eles já pouco aparecem.

                Nestes tempos de tantos sobressaltos e tragédias, volto seguidamente às palavras de Pier Paolo Pasolini, falecido em 1975. Dentre tantos escritos, um deles é muito conhecido por denunciar a morte dos vaga-lumes. Um outro tipo de vaga-lumes. A denúncia está ligada à análise da sociedade italiana na qual o modelo capitalista acabou com as carências no pós- guerra, trouxe ganhos inimagináveis de bem estar material, mas  está cobrando um alto preço. Ele mostra como a sociedade italiana havia sido presa de um novo fascismo, o aprisionamento das ideias e o corte de suas raízes culturais.

                Segundo Pasolini, o poder não precisaria mais de tanques nas ruas para dominar uma sociedade, porque as mentes dos sujeitos estariam sendo domesticadas através do consumo e de seus valores embutidos de ilusões, o que teria provocado o distanciamento do espírito e da cultura popular, de suas memórias. Estariam sendo apagadas as luzes da identidade popular pelo excesso de luminosidade sobre o engodo da oferta de infindáveis novidades de consumo.

                Um paralelo com sociedade brasileira de hoje, infestada de discursos rasos, cuja base é apenas a opinião individual, sem argumentos, sem o mínimo conhecimento, tornando fúteis as afirmações emitidas com a segurança de quem sequer tem um resquício de dúvida ou de interrogação, nos conecta com o pessimismo de Pasolini.

Uma realidade, tanto lá como aqui e no mundo todo, construída aos poucos, como doença invisível e silenciosa até ela escapar a qualquer controle. Uma realidade construída em relações competitivas, em valores de posses de bens materiais, na ilusão do consumo e do descarte ininterrupto, na crença da felicidade através do acesso a uma juventude perene, num modo de viver em ilhas (condomínio, centro comercial, clube, transporte particular). Que subjetividades pode-se esperar numa sociedade onde a aposta é obter bem estar físico como fim último a qualquer custo e, para isso, a necessidade de realizá-lo em bolhas?

Desta forma, os cidadãos afastam-se dos verdadeiros problemas de organização da produção do campo e da cidade. As questões são tratadas com superficialidade e as informações desconexas são aceitas como verdades. As verdadeiras razões, denunciadas por lideranças engajadas na defesa de outro modo de viver e de se relacionar com a natureza, os nossos vaga-lumes, são vistos como ameaças. Quem está no poder de grandes conglomerados econômicos e financeiros defende a qualquer custo a ordem estabelecida. Isto porque poucos ganham muito à custa da maioria da população, e esta realidade, mascarada de todas as maneiras, precisa continuar, as origens precisam ser ocultadas. As denúncias que as desnudam nas entranhas do poder são os lampejos que iluminam para um novo caminho. É preciso eliminá-los.    

Pasolini dizia ainda na década de 1970 que estes lampejos estavam desaparecendo. Infelizmente, mesmo sem os tanques na rua, continuamos a ver o assassinato de lideranças do campo e da cidade no nosso país. Continuamos a ver o apagamento dos vagalumes que brilham na nossa noite escura. A lista é muito longa, mais do que poderíamos sequer imaginar.

Quero fazer eco às muitas vozes que se pronunciaram no mundo inteiro diante do assassinato dos dois defensores dos indígenas e da Amazônia. Quero fazer às muitas vozes que começaram a enxergar quem são os responsáveis por essa barbárie. Quero fazer eco às vozes de quantos nunca deixaram de lançar luz sobre o horror que vive o país, porque uma grande parte de sua população, talvez a maior, não merece o que tem sofrido nos últimos anos.

Os vaga-lumes que se dispersaram não cessaram sua procriação e a sua volta precisa nos unir num novo caminho. Os vaga-lumes assassinados merecem não ser esquecidos. Os desafios são enormes.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

Você quer um brinquedo?

 


O velhinho batia na porta de casa todas as segundas-feiras de manhã. Mamãe lhe alcançava um pote com alguma coisa que tinha sobrado do almoço de domingo. Eu ouvia sempre minha mãe dizer que dar aos pobres era dar a Deus. Ele tinha roupas surradas, mas bem limpas, minha mãe falava. O cabelo era branco e comprido, a barba também, as unhas sujas e mãos com dedos grossos. Isso eu via, quando ele pegava o pote e me olhava como se fosse meu avô. Ninguém sabia onde ele morava.

            Na minha rua tinha uns chorões grandes com os galhos virados sobre a calçada. Eu enxergava grandes saias rodadas, quando tinha vento e balançava eles inteiros. Um dia eles desapareceram, tinham sido cortados. Quando cheguei em casa e vi aquele vazio, fiquei muito triste, eu tinha brincado muito de casinha embaixo dos seus galhos com as crianças da rua. Chorei muito. Algum tempo depois, um prédio foi sendo construído ali, parecia que não terminava mais de subir. Por causa disso, o meu quarto não teve mais sol de manhã.

            Um dia, foram aparecendo pessoas estranhas na rua. Elas iam catando no lixo e colocavam numa caixa grande gradeada que eles iam puxando. No começo era um homem sozinho que puxava aquele tipo de carrinho. Depois, começou a vir junto com uma mulher. Depois, vinham também uma ou mais crianças. Depois, começaram a aparecer mais pessoas, e sempre diferentes. E eu comecei a perguntar porque aquela gente andava por ali catando no lixo em vez de estarem em casa ou num trabalho como meu pai e minha mãe? Eu também queria saber porque as crianças não estavam estudando, porque vinham, quando eu estava indo  para o colégio, ou quando voltava para casa. Naquela época eu ia à escola sozinha, porque não era muito longe. Mas o pai disse um dia que alguém tinha que começar a ir junto, ele iria falar com os vizinhos para que um adulto fosse sempre com a gente. Foi aí que não brincamos mais na calçada.

Começou também a acontecer outra coisa. As casas da rua foram sendo demolidas e alguns de meus amigos se mudaram. No lugar delas construíram prédios com muitos andares.

            Um dia começaram a colocar grades em roda da minha casa, do mesmo jeito que na frente dos edifícios. E eu não vi mais o velho que chegava na porta da cozinha. Minha mãe disse que não sabia o que podia ter acontecido com ele. Eu sentia muita falta da segunda-feira, era como se fosse a visita de meu avô que morava longe. Ainda mais agora que tinha sido proibida de sair e até de ir à lojinha onde costumava comprar algum lápis e figurinhas, porque a avenida tinha ficado muito movimentada. Eu tinha que atravessar a rua para chegar lá, justo na esquina onde puseram uma sinaleira. Ali, apareceram algumas crianças que pediam esmolas, quando o sinal ficava vermelho e os carros tinham que parar. Papai tinha dito para que não chegasse perto delas, era perigoso, mas não tinha respondido porquê.

            Uma tarde fiquei em casa, porque havia uma reunião de professores na escola. Fui brincar no jardim. Enquanto ia atrás de um beija-flor que colocava seu bico nas flores de hibisco que eu tinha plantado com minha mãe, ouvi uma gritaria. Corri até a grade e vi duas mulheres brigando no outro lado da rua. Elas puxavam uma sacola tirada do lixo. Uma delas deu um empurrão na outra, que caiu sentada, então conseguiu agarrar o pote que havia dentro e deu para o menino ao seu lado. Rápido, ele começou a comer o que havia dentro com as mãos, enquanto a mulher caída se levantava e xingava aos gritos.

            De noite, enquanto a gente jantava, eu contei o que tinha visto e ficado com nojo. Os pais me disseram que era muito triste ver as pessoas procurarem comida daquele jeito, e que eu deveria comer sem sobrar nada no prato e deveria também agradecer porque não faltava nada para nós. Eu queria perguntar de onde vinha aquela gente e muitas outras coisas, mas mandaram eu parar de falar e terminar de comer.

            Uma tarde, eu estava brincando como sempre no jardim e vi de novo algumas pessoas mexerem no lixo. Eu tinha uma bolinha que servia para jogar nos gatos que se aproximavam dos passarinhos quando eles chegavam na grama para comer. Fui até a grade e fiquei olhando. Uma menina atravessou a rua e veio vindo para perto, ela ficou com o rosto junto da grade, era menor que eu, tinha remela nos olhos e o nariz escorrendo, e o vestido sujo também. Ficou olhando para minhas mãos. Não fiquei com medo dela, como meu pai, e perguntei se ela queria a bolinha, ela demorou um pouco para responder “quero, mas eu queria mesmo é uma coisa pra comer?”. Fui atrás de minha mãe, que fez uma marmita e eu dei para ela junto com minha bolinha. Nunca mais eu vi aquela menina.

                Assim é minha rua.

Tema de casa.

               

               

 

 

               

               

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Há uma estrada

 

Eu não sou pacifista. Eu sou contra a guerra. 

Gino Strada

 em Entrevista a Che tempo che fa

 

            A origem dos sobrenomes na Itália nos contam muitas histórias. A partir do século XIV, as camadas mais ricas da população começaram a usar sobrenome, o que foi seguido por toda a população com o correr dos tempos. E como o fizeram? Adotando o nome do lugar onde viviam (napolitano, lombardo), tendo o primeiro nome de um antepassado (D’Angelo, D‘Alessi), de acordo com sua profissão (Muratori, Ferraro) ou adotando um apelido (Franco, Gambino).

            Não sei a origem do sobrenome Strada (estrada em português), mas certamente para Gino Strada, o verdadeiro significado tem a ver com a trajetória dele, com os caminhos que ele percorreu nos países em guerra. É ele que dá um sentido a seu sobrenome, porque ele levou sua humanidade a uma potência máxima, dedicou-se a curar os que mais necessitavam, os feridos de guerra.

            Gino Strada, cuja formação era de cirurgião médico, em 1988, começou a dedicar-se à cirurgia de emergência em feridos de guerra. Até 1994, ele trabalhou com a Cruz Vermelha, quando fundou Emergency juntamente com sua esposa, uma associação independente e neutra criada para levar tratamento médico e cirúrgico gratuito. Foi incansável na denúncia de que as maiores vítimas de qualquer guerra são os civis. E foi ali que levou seu trabalho. Infelizmente, estamos comprovando mais uma vez os horrores que a população civil está sofrendo na Ucrânia hoje.

Gino Strada, foi crítico da política italiana e deixou de votar nos seus últimos 30 anos. Não se conformava com o aumento das despesas militares, com o envolvimento da OTAN e, portanto, da Itália na guerra do Afeganistão que chamou de barbárie contra a população e não a favor da paz. Ali mantém dois centros cirúrgicos para vítimas da guerra e já atendeu milhares de pessoas, dentre as quais muitas crianças. Não se conformava com a política italiana respeito à imigração, resultado das guerras em diferentes países da África e da Ásia.

Gino Strada morreu em 2021, mas sua organização humanitária continua.

Seu sobrenome, Strada, tem um sentido profundo, ainda mais num mundo onde as palavras são prostituídas e disseminadas nas redes sociais de maneira vulgar e criminosa. Lembrar um nome que irradiou solidariedade e amor a milhões de pessoas é fazer um contraponto para recuperar o imenso valor das palavras. Lembrar Strada é lembrar que o mundo seria muito pior se a história não tivesse sido contemplada com pessoas como ele. Lembrar Strada é lembrar o quanto de trabalho amoroso continua a ser feito no meio da estupidez humana. Lembrar Strada é lembrar que devemos escolher um caminho.

No Brasil, hoje, vivemos um momento em que podemos construir uma nova estrada, escolher novas palavras, escolher outros sobrenomes além daqueles que deixarão um significado tenebroso para as próximas gerações, mas não quero enlamear a história colocando-os aqui.

Nenhuma palavra é neutra e todo sobrenome tem uma história. Estamos diante da possibilidade de usar as melhores palavras e escolher os melhores sobrenomes para nos governarem, aqueles que já mostraram serem sensíveis à dor do outro. Há uma estrada a seguir e ela começa com um primeiro passo. Vamos dá-lo este ano no Brasil.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Rosa Branca

 

               Vejo e ouço Michele Serra com uma rosa branca na mão a falar na tela à minha frente.

                É dia da Libertação na Itália, 25 de abril de 1945.

                Rosa branca, libertação, abril, 1945. Imagino tantos significados para tantas pessoas. Para mim são ímãs que me levam de volta àquele tempo, porque tenho lembranças que nunca se apagaram, nem perderam potência, embora tenha nascido no final da guerra. Ao mesmo tempo, juntam-se a um presente que nunca julguei viver e me vejo numa gangorra de incredulidade e espanto, porque os acontecimentos de hoje fazem o tempo suspender décadas passadas como se nunca tivéssemos sofrido tanto e morrido tanto pela paz.

                Michele Serra lembra um comandante partigiano, Luchino Dal Verme, que morreu em 2017 aos 104 anos. Ele era oficial da cavalaria e foi mandado a lutar na Rússia com outros milhares de italianos. No entanto, mal equipados e sem condições, os soldados são obrigados a voltar, a maioria morre no inverno de 1942/1943. Luchino é um dos poucos sobreviventes que conseguiram retornar a pé por milhares de quilômetros.

                Em 8 de setembro de 1943 a Itália assina o armistício e Luchino deixa as armas, não quer mais a guerra. No entanto, é levado a aceitar o comando de um grupo de jovens partigiani, muitos comunistas, ele que tem origens nobres desde o século XIV. Ele diz que nesta data morre o dever e nasce a consciência. Luta contra os nazistas que se retiram do solo italiano e dos fascistas que ainda acreditam na falácia de Mussolini.

                Terminada a guerra, retira-se para o interior da Toscana a criar galinhas. Não aceita entrar na política, desiludido por tudo o que viu. Vive em paz no meio da natureza e, aos 90 anos, pede ao seu médico um aparelho para a surdez que o havia acometido. Pouco depois, abandona o aparelho, não porque não funcionasse, mas porque ouvia o rumor de suas botas sobre o gelo e isso lhe recordava a guerra, o que lhe era insuportável.

Hoje, os sons das armas e gritos das pessoas no meio delas são insuportáveis e, no entanto, continuam. Construímos uma humanidade que não precisa se isolar, porque nos acostumamos com o som das bombas e com a dor do outro. Nos acostumamos ao horror, esta é a nossa tragédia.

                Ouço Michele Serra dizer que vai levar a rosa branca ao túmulo de Luchino no pequeno cemitério de Torre degli Alberi no meio do silêncio dos castanheiros. Esta lembrança é uma bandeira branca que busca a paz no mundo cada vez mais ameaçada ao longo dos mais de 70 anos que seguem o fim da segunda guerra mundial.

                Precisamos com urgência levantarmos todas as bandeiras brancas que tivermos pelos jovens que têm ainda a vida pela frente. Quero acreditar que outro mundo é possível, há muita gente como Luchino que ainda luta e não desiste. Desistir é uma palavra obscena.

domingo, 17 de abril de 2022

Palavras e silêncios

 


As palavras de Jesus, segundo Frei Betto, nos diziam que o reino de Deus não ficava lá no outro lado da vida, mas aqui na terra junto do povo. Isto é reafirmado no Pai Nosso: Venha a nós o Vosso Reino. O Reino de Deus deve ser realizado aqui na Terra entre todos e Jesus foi crucificado por incluir os esquecidos, os fracos e marginalizados.

Dois mil anos depois, não faltam palavras no mundo todo a nos afirmar a necessidade de olharmos o outro como nosso semelhante aqui e agora e, portanto, reafirmar que as suas necessidades devem ser satisfeitas no mundo terreno, não num outro mundo prometido e etéreo.

Dentre tantos chamamentos, o Papa Francisco não cansa de chamar para olharmos o outro com empatia, para dedicarmos algum tempo a prestar atenção e a falar com quem encontramos em situação de marginalização. Sim, falar, para anular a indiferença, porque ela mata tanto quanto a fome e as armas.

Retornando às palavras de Frei Betto, precisamos de amor e de justiça social para realizarmos o reino de Deus na terra. Palavras que precisam ser ditas ao infinito, porque a história da humanidade tem demonstrado que muitos são surdos e cegos a essa verdade. A surdez e a cegueira diante da dor do outro impede a realização do Reino de Deus na Terra.

A palavra torna-se tanto mais fundamental, quanto mais a realidade seja tormentosa. É com ela que podemos trazer a memória de todos aqueles que não se dobraram e não se dobram ao poder contrário dos ensinamentos de Jesus. O registro da história tem um lista infinita de nomes de todas religiões e pensamentos que defenderam e defendem o amor ao outro transfigurado na solidariedade, na partilha, na compreensão das diferenças de cada um.

Com estes pensamentos, junto-me às reflexões que outros estão fazendo sobre o significado destes dias. E, diante da dor do outro, quando não é mais possível fazer alguma coisa, lembrar de segurar-lhe a mão em silêncio num outro jeito possível de comunicação e empatia, como disse Papa Francisco, porque há momentos em que o silêncio é única possibilidade.

Vivemos dias em que o retrocesso civilizatório parece em marcha. Justamente por isso, é preciso relembrar o calvário e ressureição de Jesus Cristo para potencializar a reflexão sobre o que nos cabe fazer com urgência. E usar a palavra para continuar a agir.

segunda-feira, 7 de março de 2022

Palavras ajudam a não sufocar


 

“Quem cala e quem curva a cabeça

morre cada vez que o faz.

Quem fala e quem caminha com a testa erguida

 morre uma só vez”

 

Giovanni Falcone

 

Leio um artigo sobre o que está acontecendo na Ucrânia e paro com esta frase “Se ve que hay muertos que importan y otros que no”. Não consegui ir adiante. Este parágrafo ficou sozinho alguns dias, porque a tristeza vinha forte demais a cada vez que desejava continuar a escrever. E eu desistia. As palavras recusavam-se a me ajudar. Apenas imagens me vinham à mente. Imagens desordenadas, como formigas que fogem porque sua casa foi chutada por um pé furioso. Seres humanos em fuga, eritreus, nigerianos, sírios, afegãos. Barcos cheios de homens, mulheres e crianças afundando no mar. E, destacando-se deste quadro surrealista, uma figura longeva, a de um jovem soldado alemão de olhos azuis oferecendo-me um pedacinho de chocolate.

            Minha família vivia no norte da Itália, e o país era aliado da Alemanha. Os homens estavam no exército. Enquanto aliados, os alemães circulavam entre a população local estabelecendo relações as mais diversas e contraditórias, porque a sobrevivência estava em jogo. Havia um jovem soldado alemão que minha mãe dizia gostar muito de mim, bebê de poucos meses, ele contava que tinha saudades de sua mãe, de seus pais e de seus irmãos menores, tinham uma loja de tecidos numa pequena cidade do interior, a guerra logo terminaria e ele mandaria um cartão postal de lá, ele me oferecia o chocolate de sua ração, minha mãe precisava explicar-lhe que eu não podia comê-lo, ele sorria. Não lembro de minha mãe contar como conseguiam se entender com línguas tão diversas. Com o tempo, entendi que os laços humanos oferecem formas universais de entendimento. A unidade à qual o soldado pertencia começou a se retirar quando a Itália decretou o armistício. Meu pai e os outros homens do lugar começaram a ser caçados por terem deposto as armas.  Soldados alemães tornaram-se forças de ocupação, invadiam as casas apontando um fuzil, fazendo varredura na retirada. O jovem alemão não estava entre eles. Nunca mais foi visto. No entanto, a imagem desenhada pelas palavras de minha mãe, e pelo afeto que ela sentia por ele, ficaram marcados em mim para sempre. A voz de minha mãe contando que era um jovem como os jovens italianos que estavam em outras terras e, talvez, contassem suas histórias para alguma família, húngara, polonesa, ucraniana ou russa.

Eu não gostava de doces quando era  criança, a única exceção era um sanduíche de chocolate de merenda na escola, que não me era dado sempre. Imagino que devia ser caro, vivíamos os primeiros anos pós-guerra , reconstruía-se  o país e os alemães caíram no rol dos seres ferozes com rostos duros retratados em cenas de tantos filmes. Junto com estas imagens, eu lembro de olhos azuis do jovem soldado que vinha à nossa casa, embora eu  ainda nem tivesse os meus abertos no colo de minha mãe. E sua mão com um pedacinho de chocolate.

            Passaram-se quase oitenta nos desde então, formou-se a ONU e a UE com o propósito expresso de preservar a paz alcançada. Se as atrocidades da primeira grande guerra não foram suficientes para aprender, com a segunda, os povos tiveram nova chance de sentir que a guerra só traz sofrimento e destruição. A Europa tornou-se unida e em paz.

            Eis que acontece a invasão da Ucrânia. Tantas guerras sucederam no mundo e continuam, mas os meios de comunicação quase não falam mais nelas. Milhões de mortos aqui e acolá deixaram de ser notícia. Agora é na Europa. Agora é de novo às portas de casa. Agora é diferente.

            Vi o retrato de diversos jovens soldados que estão na guerra na tela do televisor, pouco antes do momento de escrever. Não sei se estão vivos ou mortos. Não sei se são russos ou ucranianos. Importa? Poderiam ser meus filhos, sobrinhos ou netos. Ou filhos, sobrinhos ou netos de qualquer família. São jovens como milhões de outros que foram mandados para batalhas que nunca são suas.

            Vejo olhos azuis distantes. Tenho um grito represado na garganta. Ainda busco palavras que são minha ajuda para não sufocar.

 


quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

O que diriam meus pais?

 

                Cresci vendo filmes e seriados de guerra onde o mocinho era o soldado heroico americano contra o perverso alemão. Nasci no final da segunda guerra no norte da Itália, e minhas recordações vêm das histórias ouvidas em casa depois do conflito ter acabado. Volta e meia conto algumas passagens que ainda agora me emocionam, embora tenham passado décadas. O que conto, no entanto, nem chega perto das atrocidades que outras famílias de italianos sofreram e que eu só vim a conhecer muito tempo depois quando já tendo emigrado para a América, como eu dizia. Só vim a saber que o país seria o Brasil ao chegar aqui.

Cresci ouvindo de meus pais que não devíamos nos meter em política, porque éramos estrangeiros. Fiz meus estudos em colégio de irmãs, porque eles queriam o melhor para mim. A morte de meu pai ocorreu precoce, e eu precisei começar a trabalhar muito cedo. Trabalho e escola deixavam-me pouco tempo para qualquer outra atividade, menos ainda para me inteirar da política e de outras partes da história que eu conhecia. Foi já adulta, que vim a entender que o mocinho, que ajudara a libertar a Europa do nazismo, nem tão mocinho era.

Estas lembranças voltam muito vivas nestes dias em que vejo nos noticiários europeus a tensão entre o Ocidente e a Rússia. Muitas análises foram publicadas sobre a origem do conflito, não é sobre elas que quero me referir. É sobre o efeito que tudo o que está acontecendo reverbera em mim, porque nasci no meio de uma guerra e minha família esteve dentro dela. Apesar de muito pequena, a sirene avisando bombardeamento próximo ficou gravado na memória, tanto que, com nove ou dez anos e já vivendo em outro país, eu não suportava o ruído dos aviões da Esquadrilha da Fumaça ao se apresentar em alguma comemoração. Eu me fechava no quarto tapando os ouvidos.

Meu pai foi militar e desmobilizou, atendendo às ordens do armistício decretado em 1943. Ele e outros militares esconderam-se dos nazistas que os procuravam para levá-los presos na sua retirada para a Alemanha. Minha mãe tinha-me no colo e enfrentou metralhadora, negando-se a dizer o paradeiro do marido. Meus pais viram trens cheios de prisioneiros que passavam em direção aos campos de concentração alemães. Ao longo dos anos vi cenas semelhantes em filmes e, muitas vezes, acelerei a projeção por não aguentar. Ficaram marcas que não se apagarão nunca. Meu pai resolveu emigrar por vários motivos. Lembro de conversas entre os adultos, e guardo que o motivo decisivo foi o medo de outra guerra. Foi quando ocorreu o conflito na Coréia, 1949. Longe de onde morávamos, mas corria a desconfiança de outra guerra mundial. Guerra nunca mais.

Nos últimos 70 anos a Europa se reorganizou e manteve suas fronteiras em paz. Mas a história comprova que ela esteve e está envolvida de alguma maneira com guerras mais ou menos próximas. A cultura da guerra nunca se desfez. Com ou sem guerra fria a disputa entre potências continua e a morte de milhões e milhões de soldados e civis sempre fica na conta de efeito necessário ou colateral. É a cultura da morte que está associada a um modo de vida autofágico baseado na competição e no consumismo. Isto tem nome. Modo de produção capitalista, a morte e a destruição fazem parte de sua natureza. Tantos já o disseram.

Enquanto isso ocorre e desperta tantas tristezas, leio mais uma  tragédia. Em Barreiros, zona rural de Pernambuco, foi assassinado intencionalmente um menino dentro da casa invadida por homens encapuzados à procura do pai, líder comunitário. Não li até o momento de escrever este texto sobre grandes manifestações de indignação. Talvez, porque crimes semelhantes estejam ocorrendo frequentemente? Os residentes pedem investigação e justiça. O que acontecerá? A vida segue como se esta interminável guerra não ocorresse por aqui.

A cultura da indiferença ou da impotência faz com que a invasão de uma casa simples de trabalhadores rurais seja esquecida. A morte de um menino só envolve os direitos de algumas famílias que ocupam há anos uma fazenda. Estão à espera de seus direitos num interior perdido do país. Tomara que o sacrifício daquela criança consiga mexer nos bastidores do poder e que ela não tenha sido em vão.

A possibilidade de guerra com a Rússia ocupa grandes espaços na mídia mundial, há interesses econômicos enormes por trás. Há grandes grupos empresariais que poderiam ser atingidos. Então, são necessários milhares de soldados frente a frente para morrer. Tomara que os jogos de poder via diplomacia sejam mais fortes.

Não há palavras que justifiquem estas situações-limite. A humanidade está levianamente brincando com a morte. Sempre o fez, mas parece estarmos no limite do não retorno. Precisamos continuar indignados para acalentar o sonho de uma sociedade melhor. É a indiferença que mata nossos sonhos.

Penso muitas vezes sobre o que diriam meus pais. Eles que fugiram da guerra e vieram para um país que lhe disseram ser pacífico.

 

 

 

 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Pincéis coloridos, uma fábula


Hoje, como seguidamente tem me acontecido, acordei com uma necessidade de enxergar o mundo como deveria ser. Um mundo em que as pessoas pudessem viver dignamente com o fruto de seu trabalho, e em que predominasse a empatia. Cansada de saber que o modo de viver atual, nas diversas formas e nos diversos países, favorece a produção de subjetividades individualistas, egoístas, alienadas e, muitas vezes, perversas. Uma máquina de produção que se autoalimenta. Incansável.

            Em mais um dia quente além do suportável, precisei ir à farmácia, e voltar, porque me venderam o remédio errado. Era na primeira parte da manhã, perto de casa mas, mesmo assim, voltei tão suada que precisei trocar toda a roupa. Banho tomado, vestido limpo e leve, tomo uma água gelada, ligo o ventilador – ainda não precisa ligar o ar condicionado – e vou descansar numa poltrona com o livro que ainda não terminei. Agradeço por essas comodidades.

            Livro aberto, não leio. Como constantemente faço, quando paro e penso em meu lugar no mundo, sinto gratidão. Meus filhos e suas famílias estão bem, enfrentando os desafios e com saúde. Eu estou saudável. Vacinada com a terceira dose e também contra a gripe. Tenho acesso a médicos e exames, sou bem atendida. Vivo num apartamento confortável. Posso tomar um banho quando quiser, a água não falta. Posso escapar do calor ligando aparelhos. Posso alimentar-me com produtos orgânicos. Tenho amigos que os produzem e uma feirinha próxima. Tenho amigas e amigos queridos. Adoro ler e o faço como quero, recuperando o tempo em que não o podia fazer, por excesso de trabalho durante grande parte de minha vida. Desejo que todos também tenham isso.

Dizem que as ideias antecipam os acontecimentos, as invenções, as transformações. Então, só vou pensar no que eu gostaria de ver, o mundo ser tocado por pincéis mágicos surgidos do desejo de todos aqueles que compartilham a mesma visão de mundo.

Então, os pincéis vão recuperar as florestas, despoluir os rios, lagos e mares, e todos estão a postos para mantê-los protegidos. Assim, a temperatura para de aumentar, e as geleiras voltam à sua magnitude, e os extremos climáticos deixam de ser usuais. E a Terra é, enfim, tutelada como merece.

Então, os pincéis seguem produzindo casas coloridas e ajardinadas para todos numa harmoniosa configuração de verde e de construções; escola e praças para esportes; nunca mais vai faltar água, nem luz; as cidades têm ônibus confortáveis, e reduzido fluxo de carros particulares; os moradores de rua não existem; todas as crianças estão na escola e os pais trabalham tranquilos; as poucas cadeias têm uma estrutura nas quais os detentos podem recuperar-se; os policiais têm formação para atuar com justiça; os hospitais atendem a todos igualmente; estão disseminadas escolas de artes com vagas para quantos queiram desenvolver sua capacidade de criação; casas de espetáculos e cinemas estão à mão de todos; as fábricas de armas são apagadas e substituídas por outras onde será produzido tudo o que pode dar conforto à população; as universidades estão a serviço das ciências para que a sociedade viva cada vez melhor e em paz.

Alguém pode dizer que minha fantasia é ingênua, que isto é bobagem, que os homens sempre foram diferentes e problemáticos, e não podemos voltar para trás. Se olharmos para a história da humanidade, quantas experiências de vida solidária surgiram em todos os cantos de nosso planeta. Se olharmos apenas para a história do nosso país, próximo de nós, ainda temos sobreviventes da invasão europeia. Ainda temos indígenas nas nossas matas que vivem da terra e se curam através dela sem a agredir. Não se trata de voltar para trás, trata-se de não nos autodestruirmos em nome do progresso. O progresso deveria servir a humanidade, não devorá-la. O progresso deveria estar a serviço de pincéis mágicos.

Os pincéis terão que carregar nas cores e, ainda, solicitar ajuda extra ao pintar os centros de poder para que eles se esvaziem da sanha de controle e exploração, para que eles acreditem em outros caminhos possíveis. Serão necessários pontos vibrantes de energia luminosa para lhe absorver a negatividade e o individualismo. Uma vigilância permanente será feita por todas as cores existentes.

Então a viagem mágica de minha imaginação terá oferecido as condições para que todos possam ser gratos à vida na sua própria maneira, porque a realidade não será madrasta, mas mãe generosa. Os pincéis, então poderão descansar, porque o colorido virá de dentro de cada um.

 

segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

Proteção para nossas crianças

 

 

Tanta coisa ruim acontecendo e, no meio disso, uma brisa de alegria. Como soprar sobre um joelho esfolado e sentir alívio. Mas é muito mais do que isto e seu significado também muito mais profundo.

            Refiro-me à foto na unidade de saúde Santa Marta onde uma menina está recebendo sua primeira dose de vacina. Uma sala cheia de balões coloridos como numa festa de aniversário. Imagem que me fez pensar sobre os cuidados daquelas profissionais em receber da melhor forma as crianças de 5 a 11 anos. Talvez, algumas delas, principalmente as menores, cheguem com medo, agulha sente dá uma sensação de receio, no mínimo. As enfermeiras conhecem seu trabalho e seu público. Elas sabem da importância da vacina nestes tempos em que a pandemia custa a ceder e se espalha mais rapidamente entre os não vacinados com consequências mais graves.

            A foto chegou até mim como uma lufada de esperança empurrando a tristeza de saber que o presidente do país faz o possível e o impossível para atrapalhar a imunização da população brasileira desde as primeiras notícias do aparecimento do vírus covid19. Agora age contra a vacinação das crianças. Ele vai continuar a cometer crimes até o fim, mas estão crescendo as manifestações contrárias. Não só crescendo, como se fazendo ver e ouvir. O SUS cumpriu o seu papel de proteger a população apesar de todos os ataques sofridos por quem deveria cumprir a constituição e fortalecê-lo.

A foto representa uma ponta de uma sociedade viva, resistente e batalhadora. E as crianças, contentes em poder recuperar espaços e companhias de amigos em segurança.

Infelizmente, a ignorância e a maldade, que se unem ao dirigente maior do país, atuam contra, espalhando fakenews sobre a vacinação e produzindo medo, principalmente onde as informações corretas baseadas na ciência não chegam. Por isso há mães e pais que relutam em proteger seus filhos. A grande arma da ignorância é o medo.

Felizmente, parte da mídia oficial rendeu-se à opção de esclarecer a população, associando-se à mídia independente que vem buscando romper bolhas de desinformação e má fé desde os primeiros instante.

Ondas de desmascaramento vêm chegando cada vez mais fortes e contínuas. Vamos torcer para que elas cheguem rápido a cada vez mais pessoas, e nossas crianças possam ser protegidas com urgência.

           

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Justicia gendarussa

 

Ontem foi um dia especial. A inauguração de um grande painel num edifício da cidade tem uma história belíssima e merece ser comemorada e festejada. Para muitos pode ser apenas uma extravagância de artistas ou de quem não se preocupa com coisas mais importantes. No entanto, a pintura é e será o testemunho de histórias que se entrelaçaram desde muito tempo atrás. Histórias de gente que comungou e comunga de um mesmo desejo de harmonia com a natureza e com a humanidade. Num tempo medido em séculos uma plantinha foi se reproduzindo e oferecendo seus benefícios, enquanto gerações de humanos nasciam e morriam.

Ano 2022, uma tarde quente de janeiro, a pintura de um exemplar de justicia gendarussa na parede do prédio do Daer na av. Borges de Medeiros é oferecido oficialmente a Porto Alegre. Justicia é em homenagem a  Sir James Justice, botânico, horticultor e jardineiro escocês (1698-1763), membro da Real Sociedade de Londres para o Avanço da Ciência. É considerado o pai da horticultura escocesa do séc. XVIII. Gendarussa vem dos idiomas malaio e javanês, e pode ser traduzido como o perfume de um doce vento que sopra e traz algo semelhante a aromas silvestres, aromas da floresta ou à fragrância amadeirada. “Para aqueles que acreditam no seu poder, o nome Justicia gendarussa vai além do latim botânico: seu uso significa que as entidades e orixás farão valer a justiça e, sobre aqueles que professam sua fé, a proteção chegará suavemente, assim como o perfume de um doce vento que sopra...”*

Por isso esta planta também é chamada de quebra-demanda, ela cresce em qualquer lugar, nem o cimento a impede de aparecer.

                Esta imagem é resultado de pesquisa e planejamento de anos. A pintura envolveu não só os dois artistas: a suíça Mona Caron e o paulistano Mauro Neri, mas também outros 30 artistas locais. É fruto de um trabalho colaborativo, onde o processo de criação desenvolveu-se tendo em vista a justiça social e a preservação da natureza. A modelo é Beatriz Gonçalves Pereira.

            Em meio a tantos desmandos, tanta crueldade por parte de quem nos governa, tanta gente alienada que não quer ver o que realmente está acontecendo, tantas leis sociais e ambientais transformadas para atender a interesses particulares, esta grande pintura vem nos chamar para a continuidade da resistência. Quando muitos de nós, que estamos atentos ao que acontece ao redor e nos entristecemos, e nos desalentamos, e cansamos, e quase desistimos, chega esta obra de arte que envolveu silenciosamente tanta gente.

            A mensagem está ali, nos olhando e nos convidando a ter fé. Há muita gente que nunca desistiu, que faz o que lhe diz o coração, que sabe o que deve fazer para que possamos ser mais fortes que a maldade solta por aí. Através da arte, foi colocada em movimento uma energia vinda do que há de melhor no ser humano de várias partes do mundo.

            A quebra-demanda e a mulher estão ali para nos lembrar todos os momentos do dia que Porto Alegre está viva, apesar de tudo.

 

 *Fonte: http://www.unirio.br/ccbs/ibio/herbariohuni/justicia-gendarussa-burm-f

quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Imagens e movimentos

 

        

Praias do Nordeste, voo de pássaros do Centro-Oeste, matas ainda preservadas, sítios históricos, algumas imagens que me relembram quanto é lindo o Brasil. Leio, junto a estas imagens, a declaração otimista de representante do setor de turismo no país: as viagens internas estão crescendo. Saldo positivo da pandemia, expressão de contabilidade egoísta, digo. Impedidos de viajar para o exterior, os brasileiros movem-se por aqui mesmo. De qualquer forma, é muito bom que os brasileiros viajem pelo próprio país. Mas há milhões de brasileiros que não conseguem se mover além do entorno onde moram, não só pela pandemia, mas porque estão desempregados e sem nenhuma perspectiva diferente de vida. Tudo isso agravado por políticas de descaso do governo, quando não intencionalmente destrutivas.

Recentemente, depois de um longo tempo de reclusão, arrisquei-me a visitar a orla do rio Guaíba. Sim, rio, não lago. Caminhar nos passeios que serpenteiam sobre as águas, ouvindo o marulhar das minúsculas ondulações, vendo o encrespar da água mais distante enquanto a superfície recebe um risco branco de um barco veloz, uma delícia. Poder se movimentar, sair de casa, estar próximo da natureza é suprimir uma falta comum em cidades grandes. Poder caminhar, correr, andar de bicicleta junto a ar puro e imagens bonitas só pode fazer bem, todos merecem usufruí-lo. O Guaíba e seu entorno oferecem uma paisagem especial em qualquer momento do dia, sem falar no seu famoso por do sol. Se eu fosse turista, registraria este espaço em muitas fotografias para mostrar aos meus amigos. Como fiz inúmeras vezes no exterior. Oxalá todos pudessem desfrutar da beleza deste lugar.

Normalmente não me chama a atenção a cor da pele das pessoas, porque sou branca e vivo numa sociedade predominantemente branca. Naquele dia, no entanto, dei-me conta disso, porque um casal e duas meninas negras chegaram de bicicleta, e pararam perto de um dos quiosques. Comecei a prestar atenção no restante das pessoas que circulavam. Mulheres e homens brancos (alguns de pele morena que, talvez, se considerassem negros), jovens e adultos, crianças, vestidos com roupas esportivas, alguns de forma adequada para o esporte que praticavam, ou exercícios nos aparelhos ali existentes. Quase todos respeitando a necessidade de máscara. Quase todos brancos. Muitos, usufruindo sucos, água de coco, petiscos, em mesas devidamente distanciadas umas das outras. Um quadro harmonioso inserido num recorte privilegiado de natureza.

Nas proximidades, um sem número de carros estacionados. Poucos ônibus circulando. Em domingos e feriados, a frota é reduzida. Então relembrei o quanto o transporte público é fundamental para quem depende quase que exclusivamente dele. Esta população vive principalmente na periferia, na zona norte ou leste da cidade. É onde vamos encontrar maior concentração de população negra. Então a orla do Guaíba é um lugar distante para os que moram longe e são pobres, negros ou brancos, mesmo que não exista uma tabuleta impedindo de acessá-la. Para estas pessoas, viajar para o exterior ou para o interior do país, sequer deva ser uma questão. E nem falo nos restaurantes caros ali existentes. A orla do Guaíba deveria ser uma boa alternativa. Refiro-me apenas às margens que permitem usufruir da beleza que, por si só, faz bem.

Movimentar-se, ver outras paisagens, entrar em contato com outras pessoas, dar-se conta de novos modos de ser, de falar, de viver, de se relacionar. Uma rica forma de nos levar a pensar além do que é vivido, de expandir-se, de ser mais. Sem esquecer o quanto é difícil para muitos o simples fato de sobreviver, é duro ver o quanto pode ser cruel uma sociedade onde grande parte de sua população não consegue passear, movimentar-se pelo simples desejo de ver outros lugares, nem mesmo dentro de sua cidade. Para a população que mesmo andar de ônibus é difícil, muitos espaços lhe são negados desde sempre. Uma negação que não está escrita, um muro imaterial que isola os que têm dos que não têm.

Repensar a mobilidade urbana é repensar o próprio modo de vida que levamos enquanto sociedade, é mexer com privilégios e reordená-la sob o princípio da equidade. É resgatar a indignação pela extrema diferença entre as classes sociais. Utopia? Sim, para que ela nos indique caminhos.