Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.
Em:
A morte não é nada
Santo
Agostinho
Lembro o filme
baseado no livro O Nome da Rosa, não tanto pela excelente trama, mas pela luta intrínseca
entre duas visões de mundo dentro da própria Igreja Católica na Idade Média, um
recorte do pensamento da época. Embora tenham transcorrido alguns séculos,
continuamos a viver esta luta, atualizados com os tempos de progresso econômico
e científico, mostrando como ela é eterna.
Lembro o
sacerdote que se empenhava em barrar o acesso ao manuscrito que ele julgava seu
dever esconder. O que foi desnudado, no final, foi o medo do sacerdote de que o
manuscrito de Santo Agostinho fosse de domínio público. O conteúdo a ser
escondido estava ligado à defesa do riso no ensino religioso, visto por ele um
perigo de quebra das normas monásticas, pois o riso levaria à alegria e à
liberdade. Haveria, portanto, sério perigo de perda de poder da Igreja sobre os
corpos e, em consequência, sobre o pensamento. O poder da Igreja constituído
sobre o medo em todas as suas faces, culminando com medo do inferno após a
morte. Os manuscritos da época estavam restritos às bibliotecas da Igreja, como
aquela que é mostrada no filme, inacessíveis à população que, na sua maioria,
era analfabeta. Mesmo assim, havia zelo em serem mantidos escondidos até dos
próprios clérigos.
O riso tem sido
difícil nos últimos anos, quando vemos o que tem acontecido diuturnamente na
política do país. São os mais diversos sentimentos, tristeza, angústia, raiva que
prevalecem, tanto mais em quem entende as injustiças praticadas por interesses
particulares de grupos econômicos, que se apossaram das diferentes instâncias
de governo. Sentimentos que são faces diversas do medo de quem não tem o que
comer; de quem perdeu ou pode perder o emprego; de quem não consegue chegar ao
final do mês com o salário que recebe; de não conseguir se aposentar dadas as mudanças
na legislação; de não conseguir mandar os filhos para a escola; de não conseguir
pagar as contas; de ser assaltado numa parada de ônibus ao ir ou voltar do
trabalho. Todos, medos diante de situações reais que vêm se agravando.
No entanto, há
os medos construídos sobre mentiras e desinformação que impedem ver as
verdadeiras causas dos problemas vividos pela população. São as velhas ameaças
de que toda proposta ou política social vem mascarando a implantação do
comunismo no país; de que políticas sociais só favorecem a preguiça; de que
apenas um determinado partido disseminou a corrupção na máquina governamental;
de que tudo se resolve com o Estado mínimo; de que a livre iniciativa resolverá
os problemas do país; de que o pobre é pobre porque não se esforçou o
suficiente; de que bandido bom é bandido morto. A lista é extensa.
Um conjunto de
mentiras continua a alimentar a máquina dos medos, os quais, por sua vez,
mantém a população refém de quem está no poder e pode ditar as regras do
ordenamento social. Quem não embarca nas mentiras vê como elas constroem a
necessidade do salve-se quem puder, alimentando o monstro do individualismo. O medo
que afasta a alegria do riso de que falava Santo Agostinho, porque o riso
requer o compartilhamento, necessita do outro, necessita de liberdade.
Há anos, são
denunciados os mal feitos de quem se apossou do governo por meio de um golpe, e
depois, de quem se elegeu legalmente, mas com a contribuição deslavada de fakenews, colocando combustível no medo
já instalado e bem nutrido. A palavra contra as injustiças e desmandos de quem
não tem compromisso algum com a população mais necessitada foi lançada de
incontáveis lugares. Estas denúncias necessárias eram acompanhadas de um
sentimento de impotência, porque não se via um horizonte de mudança próximo. O
medo acompanhava os esforços para desmontar as mentiras, porque parecia uma
luta de David contra Golias.
Hoje, estamos em
outro momento, as denúncias estão recebendo outro reforço. As bibliotecas estão
sendo abertas, os livros proibidos estão sendo liberados para a alegria da
esperança, e ela nos leva às palavras de Santo Agostinho. Um tempo que invoca o
riso onde une as pessoas, a alegria que constrói outras narrativas e outros
laços entre elas, elimina barreiras que impedem a produção de um ser humano com
empatia. A alegria desvela outros mundos e encantamentos onde novas
subjetividades são produzidas. Este é o caminho que precisamos percorrer para
fazer com o que o medo não seja medida de qualquer decisão, apesar de todas as
dificuldades que conhecemos e outras que certamente surgirão.
Estamos num
tempo em que as narrativas de denúncia e de luta estão recebendo recuperando lembranças
do quanto podemos ir adiante e mais longe juntos. Precisamos rir juntos
enquanto construímos um novo caminho. Um riso que vem da união de esforços, de
pequenas conquistas no árduo caminho para uma conquista maior, que resgata a
alegria espelhada no outro e, principalmente, de que precisamos do outro para
um mundo melhor.
Estamos alimentando pensamentos muito semelhantes, Maria Rosa. O riso é essencial e sim, coletivo em essência; lição que aprendi na carne durante a quarentena, porque chorar sozinho é fácil, mas rir é quase uma impossibilidade. E aquilo de que rimos escancara a nossa visão de mundo e as nossas suposições sobre o que vale a pena na vida. O que nos faz rir juntos é a base de nossas utopias, do mundo com o qual sonhamos. O Pateta é meu personagem Disney favorito, porque o riso dele começa nele mesmo, porque não se leva tão a sério e sabe que o que conta é a descontração que irmana. Somos irmãos é no riso que brota em uníssono, acolhendo o que somos, ainda que muitas vezes ridículos. Você está certa, precisamos do riso e do outro para construirmos um mundo melhor.
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