terça-feira, 23 de agosto de 2022

Antes de queimar livros

 

É lugar comum ler ou ouvir uma notícia sobre ataque ao conhecimento, à ciência, às artes no país, principalmente desde a posse do atual pseudopresidente. É lugar comum a aversão às universidades públicas que o atual governo demonstra, e as medidas que foram sendo tomadas de modo sistemático para desmontá-las nestes quase quatro anos.

Nefastos estão sendo as consequências, as inúmeras leis e os provedimentos que continuam a asfixiar as excelentes contribuições que as universidades federais têm oferecido à nação ao longo de décadas. A lista seria muito longa. Vale falar sobre a última (se, depois, já não ocorreu outro ataque). No Curso de Doutorado em Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco, foi aprovada a tese: Mídia e Conservadorismo: O Globo, a Folha de São Paulo e a Ascensão de Bolsonaro e do Bolsonarismo. No dia 11 de agosto, a tese conquistou “Menção Honrosa no Prêmio CAPES de Tese de 2022” – o maior reconhecimento feito a autores de teses de doutorado no país. O assunto, entretanto, não pôde ser divulgado pelos veículos internos na universidade por alegações de que feririam a legislação eleitoral no presente período. O que é considerado falso, portanto, um ato arbitrário de censura.

Haveria uma lista longa demais também com ataques às escolas públicas e seus professores no Ensino Médio e Fundamental no país. Para me deter apenas no Rio Grande do Sul, um dos últimos exemplos (aqui também podem ter acontecido outros no intervalo até este texto) é a demissão de uma professora de escola particular, porque alguns alunos não aceitaram que ela expusesse o fato da exclusão histórica das mulheres nas ciências, nas artes e na política. Claro está que o motivo declarado foi outro. Este tipo de demissão é comum, e uma simples pesquisa na internet pode confirmar.

Em outra face da história do Estado do Rio Grande do Sul, o governador que está se recandidatando tem sido implacável na destruição da escola estadual. Nem os governadores biônicos da ditadura foram tão desrespeitosos e cruéis com o magistério e os funcionários. Ele foi cínico com o CPERS, não ouviu reivindicações, negou fatos, foi indiferente à situação das diversas comunidades escolares, acabou com o Plano de Carreira dos Professores, eliminou benefícios para quem trabalhava em escola de difícil acesso, desqualificou os professores aposentados, porque eles não contribuiriam para a melhoria da educação, como se fossem descartáveis depois de terem cumprido seu tempo de trabalho.

Encontramos também as investidas para implantar a escola sem partido, o abandono a prédios, propostas de reformas curriculares que retiram disciplinas da área das humanas e que ignoram todo um referencial a embasar a formação integral de um aluno, são algumas das medidas apoiadas indiretamente ou diretamente pelo governo do Estado. Estas atingem principalmente as crianças e jovens mais pobres que teriam um espaço fundamental para a sua formação, porque há boas escolas particulares sem estas reformas para quem pode pagar. Esta é uma as faces do governo em defesa do Estado mínimo. Se não bastasse isso, ele propõe “vender” as escolas públicas através da oferta de vouchers para as escolas particulares. As empresas estatais ele as está vendendo diretamente sem disfarces. O discurso que o governador fazia na sua primeira campanha ao governo do Estado era exatamente o contrário. Já foi publicada a pergunta: Quanto vale sua palavra, senhor governador?

Com tudo o que foi feito pelos últimos governos estaduais, principalmente o último de Eduardo Leite, nem é preciso fazer o que  está fazendo o governador da Flórida, EUA: uma lei com 200 livros proibidos para as escolas (O comum dos livros, referência a qualquer tipo de opressão, ao racismo: O apanhador no campo de centeio, O sol é para todos, Uma dobra no tempo, Amada. Também Harry Potter); toda vez que um aluno tirar um livro da biblioteca, o pai vai saber; também fará o financiamento de campanha para quem se candidata aos Conselhos Escolares. Ele está tratando de exercer seu poder sobre a formação da geração que está na escola hoje através de seus pais, os seus eleitores.

No nosso Estado, o abominável reducionismo dos currículos da Educação Básica e a alternativa de entregá-la à iniciativa privada, são propostas tão ou mais ameaçadoras. Elas também contemplam censura e autoritarismo, embora sem as cores e a visibilidade do que está acontecendo no país do norte do continente.

É desesperador esquecer tantos anos de luta pela educação. Quantas experiências excelentes o nosso Estado propiciou, já tivemos o melhor sistema educacional do país. Lugar este perdido há bastante tempo. A minha geração estudou em escola pública de excelência. Uma história esquecida pelos últimos governos que a desprezam como desprezam as camadas da população que mais necessitam dela e, com isso, o maior prejuízo é o de impedir-lhes acesso ao lugar de construção de conhecimento, de formação de pensamento crítico pelo confronto de ideias e convivência com a diversidade de saberes. Significa impedir-lhes um dos caminhos privilegiados para compreender os direitos que lhes são subtraídos.

Quem está no poder conhece muito bem esta história. Os que estão sendo prejudicados, massacrados por falsas notícias, é que precisam saber quem são seus inimigos. Este é o grande desafio.



6 comentários:

  1. Sinceramente, não tenho palavras 😢

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  2. Parabéns Maria Rosa, disseste tudo. Fica um alerta.

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  3. Maria Rosa, obrigada. Por tudo: pelo que disse há 25 anos e pelo que dizes agora!

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  4. Cada vez mais o livro do Orwell, 1984 e o do Bradbury, Farenheit 451 nos assombram porque se tornam muito reais. Que tempos vivemos. Muito triste tudo.

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  5. É tudo muito lamentável! Realmente, precisaríamos de um novo alfabeto para falar dos momentos que vivemos. Excelente como sempre, Rosa.

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  6. Contundente, verdadeiro e triste, Maria Rosa. Educação é vital, isso em termos dos sistemas escolar e acadêmico, como você tão berm colocou, mas também em termos de oportunidades para criar as nossas utopias. Sou totalmente a favor das ações que começam por iniciativas das bases, que assumem a responsabilidade por atos de formação e por seus próprios sonhos de um mundo mais justo e mais irmanado. Parabéns pelo seu texto.

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