Voar. Sobre as
ruas do meu bairro, e mais longe, ondulando em asas de fuga, saindo de minha janela,
ultrapassando o último andar do edifício e tomando o rumo à esquerda, até à rua
onde não posso mais caminhar como antigamente, porque assaltam a qualquer hora.
Voar, um jeito de circular por aí sem medos. Sem peso, leva-me o equilíbrio
entre o movimento das asas e o ar que me recebe. Movimento harmônico vindo do
abandono do ser estátua diante dos acontecimentos. Do alto posso ver, através
dos espaços entre as copas das árvores, poucas pessoas caminhando, uma e outra vão
devagar com seus cachorros, outras andam apressadas, devem ser as empregadas e
funcionários que precisam chegar cedo ao trabalho. Poucos carros a essa hora da
manhã. O sol ainda não está alto, mas esquenta minhas costas, a brisa que
acaricia meu corpo vem em meu socorro, permite que continue meu voo recém
iniciado. Vejo um mosaico de pequenos quadrados e retângulos negados ao
pedestre. Há espaços entre eles, de vários formatos e diferentes tamanhos, preenchidos
por piscinas, quadras, gramados, restos de matas que existiam na região, poucos
terrenos vazios, uma e outra casa, formam quadras de aproximadamente cem metros
quadrados, algumas maiores. Sei que as formas geométricas que consigo enxergar
estão recheadas de seres humanos, muitos podem ainda estar dormindo, outros
estarão começando seus afazeres do dia que começa, sairão à rua, aos seus
compromissos. Agora, e do alto onde estou, não vejo estes movimentos que sei
existirem. A rua que sobrevoo é ladeada por árvores, em alguns trechos formam
um túnel; em outros, elas estão esparsas e oferecem flores brancas nesta época.
As ruas transversais seguem o mesmo padrão. Raios do sol saltam de diferentes
lugares, vieram com novas arquiteturas envidraçadas e desenham reflexos,
lembram espectros de segurança para objetos valiosos, uma segurança impossível nas
vias públicas há muito tempo. Nelas estamos sós, à mercê do inesperado. Vou e
volto, não desejo baixar muito, é na altura que me embalo melhor e enxergo
cores e desenhos não possíveis no andar à terra. Na distância daquilo que me está
próximo, resgato o olhar perdido para as belezas ocultas no caos do cotidiano. Se
voasse mais alto, talvez não distinguisse o que seriam estas formas, enxergaria
outras, outros traçados, outros brilhos. Alcançarei um olhar mais amplo? Por enquanto,
só consegui voos próximos. Em cada um deles consegui mergulhar no sono e
sonhar. Na próxima vez, tentarei ir mais longe.
Nada como voar com as palavras! Se não temos esse dom de voar sem asas, ganhamos asas com as palavras. Um refresco no meu dia ler tua crônica. Frescor e esperança!
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