sexta-feira, 29 de abril de 2022

Rosa Branca

 

               Vejo e ouço Michele Serra com uma rosa branca na mão a falar na tela à minha frente.

                É dia da Libertação na Itália, 25 de abril de 1945.

                Rosa branca, libertação, abril, 1945. Imagino tantos significados para tantas pessoas. Para mim são ímãs que me levam de volta àquele tempo, porque tenho lembranças que nunca se apagaram, nem perderam potência, embora tenha nascido no final da guerra. Ao mesmo tempo, juntam-se a um presente que nunca julguei viver e me vejo numa gangorra de incredulidade e espanto, porque os acontecimentos de hoje fazem o tempo suspender décadas passadas como se nunca tivéssemos sofrido tanto e morrido tanto pela paz.

                Michele Serra lembra um comandante partigiano, Luchino Dal Verme, que morreu em 2017 aos 104 anos. Ele era oficial da cavalaria e foi mandado a lutar na Rússia com outros milhares de italianos. No entanto, mal equipados e sem condições, os soldados são obrigados a voltar, a maioria morre no inverno de 1942/1943. Luchino é um dos poucos sobreviventes que conseguiram retornar a pé por milhares de quilômetros.

                Em 8 de setembro de 1943 a Itália assina o armistício e Luchino deixa as armas, não quer mais a guerra. No entanto, é levado a aceitar o comando de um grupo de jovens partigiani, muitos comunistas, ele que tem origens nobres desde o século XIV. Ele diz que nesta data morre o dever e nasce a consciência. Luta contra os nazistas que se retiram do solo italiano e dos fascistas que ainda acreditam na falácia de Mussolini.

                Terminada a guerra, retira-se para o interior da Toscana a criar galinhas. Não aceita entrar na política, desiludido por tudo o que viu. Vive em paz no meio da natureza e, aos 90 anos, pede ao seu médico um aparelho para a surdez que o havia acometido. Pouco depois, abandona o aparelho, não porque não funcionasse, mas porque ouvia o rumor de suas botas sobre o gelo e isso lhe recordava a guerra, o que lhe era insuportável.

Hoje, os sons das armas e gritos das pessoas no meio delas são insuportáveis e, no entanto, continuam. Construímos uma humanidade que não precisa se isolar, porque nos acostumamos com o som das bombas e com a dor do outro. Nos acostumamos ao horror, esta é a nossa tragédia.

                Ouço Michele Serra dizer que vai levar a rosa branca ao túmulo de Luchino no pequeno cemitério de Torre degli Alberi no meio do silêncio dos castanheiros. Esta lembrança é uma bandeira branca que busca a paz no mundo cada vez mais ameaçada ao longo dos mais de 70 anos que seguem o fim da segunda guerra mundial.

                Precisamos com urgência levantarmos todas as bandeiras brancas que tivermos pelos jovens que têm ainda a vida pela frente. Quero acreditar que outro mundo é possível, há muita gente como Luchino que ainda luta e não desiste. Desistir é uma palavra obscena.

4 comentários:

  1. Que lindo, cara Maria Rosa Bianca.

    Escreveste com a alma e a sina de quem por vocação põe a palavra como instrumento da vida, da saudade, da Esperança e da persistência. Continua, querida amiga, precisamos, o mundo precisa, que continues. Beijo.

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  2. Obrigada por trazer mais essa lição, agora de Luchino, que eu não conhecia. Que sejamos bandeiras /rosas brancas, regadas todos os dias!

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  3. Nossa, que lindo texto! Que nunca, nunca desistamos de acreditar na Humanidade que temos dentro de nós.... os bons são maioria e, por isso é tantos outros motivos nobres, não podem calar.... que orgulho desta escrita, sempre libertadora...

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  4. Lindo texto, mãe! Você pratica aquilo que diz. É incansável!

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