Eu
passava por ela e pensava que devia ser paralítica ou deveria ter algum
problema grave nas pernas. Durante muitos anos, eu vi a mulher sentada na
calçada envolvida em trapos junto ao muro que delimitava o clube. A calçada ali
era estreita e os pedestres passavam mais distanciados dela que podiam. Alguns
até caminhavam no asfalto, mesmo na avenida movimentada. Eu também. Ali era seu lugar, inclusive das suas
necessidades fisiológicas. O cheiro era insuportável. A sujeira dela e a da calçada davam nojo. E o
nojo vinha enrolado na raiva que sempre sinto ao ver a degradação humana em
meio à abundância da qual faço parte. A impotência se agregava e acionava o
conhecido mecanismo do esquecimento um pouco adiante. Só me dava conta que ela
desaparecia de tempos em tempos, quando voltava a sentar-se lá. Perguntava-me onde
ela teria andado, mas também esquecia sem esperar resposta. Um dia, passei a
ver um homem sentado ao lado dela, igualmente sujo e fedorento. A intervalos, os
dois também desapareciam. Às vezes xingavam-se, às vezes conversavam baixinho como
a compartilhar segredos, às vezes dormiam totalmente cobertos pelos trapos.
Um dia,
encontrei-os na calçada em frente a uma agência bancária, uns duzentos metros
adiante do primeiro local. Este, estranhamente limpo. A chuva deve ter feito a
faxina. O casal, sentado em meio a uma quantidade muito maior de trapos e sacos,
fixou ali seu novo ponto. O uso da calçada tornou-a imunda e mal cheirosa como
a anterior. Ali a largura era bem mais ampla e os pedestres não precisavam
desviar, nem mesmo para entrar na agência. Soou-me como uma irônica denúncia. A
resposta sobre a origem de tanta diferença de vida numa mesma sociedade estava
às costas deles em letras e logotipo nacionalmente conhecidos. Um retrato do
país.
Um tempo depois,
eles despareceram dali. Ou foram desaparecidos. Aquele local pertencia a bairro
nobre da cidade. Grades circundaram o espaço antes ocupado pelo casal, e dentro
dele foram plantas duas palmeiras. Tudo limpo e sem traços de qualquer
ocupação. A calçada estava sob nova apresentação. Nunca mais vi o casal.
Durante alguns
anos, aquele homem e aquela mulher eram testemunhos solitários de uma população
de rua invisível no bairro. Uns e outros circulavam por tempo curto e
desapareciam. Nunca foram muitos, mas num movimento que nunca cessou. Semelhante
a mosquitos que invadem nossa sala numa noite de verão. Damos caça, fechamos as
janelas e ligamos o ar.
Nos últimos
anos, com aumento enorme na pandemia, está sendo impossível caminhar algumas
quadras sem ouvir um pedido de ajuda, sem ter a oferta de balas ou panos de
prato, sem ler “estou com fome” num cartaz. E não são somente moradores de rua.
Homens vestidos modestamente, com filhos pequenos acomodados num canto, procuram
vender alguma coisa. Nunca haviam sido vistos pelo bairro. Não são sempre os
mesmos. Não há como não ver pessoas que devem ter perdido seu emprego, devem
ter tido sua vida desestruturada, e se viram como podem. Perguntei-me que
distâncias devem transpor para chegar até aqui e porque não são sempre os
mesmos. Poucos são os que permanecem e se tornam conhecidos. Uma realidade que
bate na nossa cara, e um gesto solidário de nossa parte é pequeno e
insuficiente, embora necessário.
Chegamos ao fim
do ano, aliás, ao fim de seis anos de retrocesso no país. Domingo, enfim,
assumirá nosso Presidente. A reconstrução do país estará começando com um
caminho difícil, com muitos obstáculos a superar, com instituições a serem
reconstruídas, mas com muita gente – nos postos chave da administração federal –
que tem o mesmo sonho de fazer deste país um lugar melhor para viver. Aliás, já
está sendo feito.
Embora, não
tenhamos nem o governo estadual e nem o municipal na mesma sintonia, os
reflexos de nova política social do Governo Federal se farão sentir também nas
nossas ruas. Que elas sejam cobertas apenas das flores de cada temporada. Este
é o horizonte à nossa frente, porque a maior parte do povo brasileiro disse sim
à esperança, à empatia, ao afeto, à alegria espelhada no outro.
O próximo ano colocará em ato a vitória do
desejo de vida expressa na vitória de LULA. E cada um que compartilha deste
desejo precisa continuar a estar vigilante e a apoiar o que foi conquistado. O
desafio continua.
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