quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Mudam apenas os caminhantes

 

 

Terminei  a releitura de As Memórias de Adriano onde acompanhei as viagens do imperador pelo vasto território romano do final do séc. I à primeira metade do séc. II. Nestas viagens, Marguerite Yourcenar fala pela voz dele. As reflexões abrangem os acontecimentos daquele tempo, as guerras, as disputas pelo poder; os entrelaçamentos da cultura romana com a grega que a antecedeu, mas continuava viva; as formas de convivência com os povos conquistados da Europa, da Ásia e do norte da África. Foi um repassar os pensamentos daquela época, suas visões de mundo, suas glórias, suas incertezas, seus sentimentos, seus desejos, seus valores. Dois mil anos depois, as querelas particulares e públicas não diferem do que vemos hoje. Elas apenas se manifestavam com as roupagens de seu estágio histórico. Muito do que acontece hoje mostra que a humanidade se desenvolveu cientificamente, mas não colheu seus frutos para viver em paz, continua a alimentar as disputas entre povos. Grupos no poder continuam a usar os mesmos motivos para guerrear com armas cada vez mais modernas e sofisticadas. Continuam a matar. E o poder continua predominantemente com os homens.

Ontem, vi a notícia que a Primeira Ministra da Escócia renunciou ao cargo por não aguentar as pressões políticas. O mesmo motivo que pouco tempo atrás a Primeira Ministra da Nova Zelândia utilizou para também renunciar. Ambas com ampla aprovação de seu eleitorado. Será um sinal de incompatibilidade entre o feminino, com tudo o que ele representa, e a máquina de poder? Há uma vasta literatura a respeito.

Temos um mundo que pode propiciar modos de vida com confortos fantásticos, doenças podem ser prevenidas e curadas, avançamos enormemente no conhecimento de nós mesmos e do universo, conseguimos produzir alimentos em larga escala. Mas tudo isso não é para todos. E, ainda, criamos novas doenças; os abusos de uns sobre outros, especialmente sobre os mais frágeis, estão disseminados nas famílias e nos lugares mais marginalizados; ainda existe o trabalho escravo; milhões de pessoas passam fome e sede, sequer sabem ler e escrever, vivem à margem de todo progresso da humanidade. Uma equação ainda não resolvida. Sabemos disso desde sempre.

Mesmo assim, há poucos dias um líder europeu afirmou que é preciso aumentar a produção de armas para ajudar a Ucrânia. Enquanto isso o país continua a ser bombardeado em todo o seu território. E não se vê frutificar a diplomacia. A disposição de vencer essa guerra é reafirmada todo o dia por Ucrânia e Rússia. Os milhares de mortos civis e de jovens soldados, não têm rosto. E nem falamos nas outras guerras que existem pelo mundo.

Há que escolher outra equação.

No Brasil, está sendo colocando a nu o que já sabíamos que o governo anterior estava fazendo. O horror no interior da Amazônia está sendo tratado com urgência. Muitas outras frentes estão sendo abraçadas. Um trabalho que exige muitos esforços e muito tempo. E há muita gente ligada ao passado – não só do governo anterior, mas do tempo da ditadura – que age contra esses esforços. Para quem não está no governo e deseja um mundo equânime precisa encontrar a própria forma de colaborar. Há muitas maneiras, cada um precisa encontrar a sua. É urgente fazê-lo.

Há vozes corajosas e competentes espalhadas pelos país que desconstroem diuturnamente o mundo paralelo de negação da realidade. Uma forma é somar-se a elas e dizer a própria palavra para multiplicá-las. É como aplicar um antibiótico à infecção que se apoderou do país. A dose deve ser forte o necessário e por um tempo longo, porque ela se espalhou por todo o território. O tratamento será longo e ninguém está fora.

Tomara que mais e mais mentes se somem nesta caminhada. Não há fim para ela, mudam apenas os caminhantes.

 

sábado, 7 de janeiro de 2023

Tempo de "devir"


A vitória de Lula assemelha-se a um conto de fadas. Um final feliz. Os bruxos maus foram expulsos.

Muitos me dirão calma lá, o governo recém começou, o país está sem dinheiro, o patrimônio público foi depredado, as instituições foram exauridas, há milhões que torcem para que dê errado, o mercado espera a sua vez para dar o bote, o congresso não é confiável, há tudo para ser reconstruído. A própria “esquerda” critica algumas escolhas para os ministérios. Dizem que é por ser, ela mesma, muito crítica. A lista de temores e obstáculos é muito grande. Os bruxos não morreram, estão à solta.

Continuo a sentir uma leveza que não sentia há anos.

Contrariamente àquilo que suportei – eu e milhões de brasileiros – desde o golpe contra a Dilma, o dia amanhece sem sustos. Fomos Sísifos, empurrando um saco de notícias ruins, de maldades cometidas pelo governo que se foi, de seguidores fanáticos replicando crueldades, de ameaças visíveis e mascaradas. Não quero falar dos horrores já barrados. Agora não. Li várias pessoas terem o mesmo sentimento.

Continuo a me encontrar saboreando uma paz há muito esquecida.

O ápice do terror instalado no país quatro anos atrás deu-se no processo da eleição. Tudo o que podiam fazer os antigos inquilinos da Alvorada colocaram em prática para ganhar as eleições. Utilizaram a máquina do governo a pressionar, a chantagear e a comprar votos. Tudo bem documentado pela imprensa. E perderam. Ainda assim, alguns setores que votaram no Lula, acharam que deveríamos ter ganhado no primeiro turno, que a diferença foi pequena, que merecíamos mais. Tudo foi analisado. Foi comprovado que a vitória foi grandiosa, inequívoca e estrondosa. A resistência e a luta por justiça e por um país melhor foram gigantes.

Continuo a me alimentar do que significa ter ganhado essas eleições para o país e para o mundo.

Preciso da paz, da serenidade, da crença que vale a pena lutar, da alegria de milhões de brasileiros irradiada com a posse de Lula e com os rituais que nos mandaram a mensagem de um país vivo e de um governo que lutará para reconstruir o que destruíram.

Continuo a me envolver nas imagens e discursos de algumas mulheres e de alguns homens escolhidos para dirigir os Ministérios.

A poucos dias de governo, e os analistas “do nosso lado” já apontaram a necessidade de demitir ministros. Mas não quero me envolver nesta discussão. Estou feliz porque meus netos compartilharam de minha alegria e vão poder falar destes momentos históricos, quando eu já não estiver. Eles terão vivido um tempo que lhe valerá para as futuras lutas que hão de viver e exigirão sua posição.

A trégua que me concedo é necessária para manter minha saúde psíquica e física. Preciso delas para acompanhar e apoiar o governo nos próximos quatro anos. Para apostar num tempo de “devir” novos sentidos e subjetividades a favor da vida.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

O desafio continua

 

                Eu passava por ela e pensava que devia ser paralítica ou deveria ter algum problema grave nas pernas. Durante muitos anos, eu vi a mulher sentada na calçada envolvida em trapos junto ao muro que delimitava o clube. A calçada ali era estreita e os pedestres passavam mais distanciados dela que podiam. Alguns até caminhavam no asfalto, mesmo na avenida movimentada. Eu também.  Ali era seu lugar, inclusive das suas necessidades fisiológicas. O cheiro era insuportável.  A sujeira dela e a da calçada davam nojo. E o nojo vinha enrolado na raiva que sempre sinto ao ver a degradação humana em meio à abundância da qual faço parte. A impotência se agregava e acionava o conhecido mecanismo do esquecimento um pouco adiante. Só me dava conta que ela desaparecia de tempos em tempos, quando voltava a sentar-se lá. Perguntava-me onde ela teria andado, mas também esquecia sem esperar resposta. Um dia, passei a ver um homem sentado ao lado dela, igualmente sujo e fedorento. A intervalos, os dois também desapareciam. Às vezes xingavam-se, às vezes conversavam baixinho como a compartilhar segredos, às vezes dormiam totalmente cobertos pelos trapos.

Um dia, encontrei-os na calçada em frente a uma agência bancária, uns duzentos metros adiante do primeiro local. Este, estranhamente limpo. A chuva deve ter feito a faxina. O casal, sentado em meio a uma quantidade muito maior de trapos e sacos, fixou ali seu novo ponto. O uso da calçada tornou-a imunda e mal cheirosa como a anterior. Ali a largura era bem mais ampla e os pedestres não precisavam desviar, nem mesmo para entrar na agência. Soou-me como uma irônica denúncia. A resposta sobre a origem de tanta diferença de vida numa mesma sociedade estava às costas deles em letras e logotipo nacionalmente conhecidos. Um retrato do país.

Um tempo depois, eles despareceram dali. Ou foram desaparecidos. Aquele local pertencia a bairro nobre da cidade. Grades circundaram o espaço antes ocupado pelo casal, e dentro dele foram plantas duas palmeiras. Tudo limpo e sem traços de qualquer ocupação. A calçada estava sob nova apresentação. Nunca mais vi o casal.

Durante alguns anos, aquele homem e aquela mulher eram testemunhos solitários de uma população de rua invisível no bairro. Uns e outros circulavam por tempo curto e desapareciam. Nunca foram muitos, mas num movimento que nunca cessou. Semelhante a mosquitos que invadem nossa sala numa noite de verão. Damos caça, fechamos as janelas e ligamos o ar.

Nos últimos anos, com aumento enorme na pandemia, está sendo impossível caminhar algumas quadras sem ouvir um pedido de ajuda, sem ter a oferta de balas ou panos de prato, sem ler “estou com fome” num cartaz. E não são somente moradores de rua. Homens vestidos modestamente, com filhos pequenos acomodados num canto, procuram vender alguma coisa. Nunca haviam sido vistos pelo bairro. Não são sempre os mesmos. Não há como não ver pessoas que devem ter perdido seu emprego, devem ter tido sua vida desestruturada, e se viram como podem. Perguntei-me que distâncias devem transpor para chegar até aqui e porque não são sempre os mesmos. Poucos são os que permanecem e se tornam conhecidos. Uma realidade que bate na nossa cara, e um gesto solidário de nossa parte é pequeno e insuficiente, embora necessário.

Chegamos ao fim do ano, aliás, ao fim de seis anos de retrocesso no país. Domingo, enfim, assumirá nosso Presidente. A reconstrução do país estará começando com um caminho difícil, com muitos obstáculos a superar, com instituições a serem reconstruídas, mas com muita gente – nos postos chave da administração federal – que tem o mesmo sonho de fazer deste país um lugar melhor para viver. Aliás, já está sendo feito.

Embora, não tenhamos nem o governo estadual e nem o municipal na mesma sintonia, os reflexos de nova política social do Governo Federal se farão sentir também nas nossas ruas. Que elas sejam cobertas apenas das flores de cada temporada. Este é o horizonte à nossa frente, porque a maior parte do povo brasileiro disse sim à esperança, à empatia, ao afeto, à alegria espelhada no outro.

 O próximo ano colocará em ato a vitória do desejo de vida expressa na vitória de LULA. E cada um que compartilha deste desejo precisa continuar a estar vigilante e a apoiar o que foi conquistado. O desafio continua.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Preciso voar

 

Voar. Sobre as ruas do meu bairro, e mais longe, ondulando em asas de fuga, saindo de minha janela, ultrapassando o último andar do edifício e tomando o rumo à esquerda, até à rua onde não posso mais caminhar como antigamente, porque assaltam a qualquer hora. Voar, um jeito de circular por aí sem medos. Sem peso, leva-me o equilíbrio entre o movimento das asas e o ar que me recebe. Movimento harmônico vindo do abandono do ser estátua diante dos acontecimentos. Do alto posso ver, através dos espaços entre as copas das árvores, poucas pessoas caminhando, uma e outra vão devagar com seus cachorros, outras andam apressadas, devem ser as empregadas e funcionários que precisam chegar cedo ao trabalho. Poucos carros a essa hora da manhã. O sol ainda não está alto, mas esquenta minhas costas, a brisa que acaricia meu corpo vem em meu socorro, permite que continue meu voo recém iniciado. Vejo um mosaico de pequenos quadrados e retângulos negados ao pedestre. Há espaços entre eles, de vários formatos e diferentes tamanhos, preenchidos por piscinas, quadras, gramados, restos de matas que existiam na região, poucos terrenos vazios, uma e outra casa, formam quadras de aproximadamente cem metros quadrados, algumas maiores. Sei que as formas geométricas que consigo enxergar estão recheadas de seres humanos, muitos podem ainda estar dormindo, outros estarão começando seus afazeres do dia que começa, sairão à rua, aos seus compromissos. Agora, e do alto onde estou, não vejo estes movimentos que sei existirem. A rua que sobrevoo é ladeada por árvores, em alguns trechos formam um túnel; em outros, elas estão esparsas e oferecem flores brancas nesta época. As ruas transversais seguem o mesmo padrão. Raios do sol saltam de diferentes lugares, vieram com novas arquiteturas envidraçadas e desenham reflexos, lembram espectros de segurança para objetos valiosos, uma segurança impossível nas vias públicas há muito tempo. Nelas estamos sós, à mercê do inesperado. Vou e volto, não desejo baixar muito, é na altura que me embalo melhor e enxergo cores e desenhos não possíveis no andar à terra. Na distância daquilo que me está próximo, resgato o olhar perdido para as belezas ocultas no caos do cotidiano. Se voasse mais alto, talvez não distinguisse o que seriam estas formas, enxergaria outras, outros traçados, outros brilhos. Alcançarei um olhar mais amplo? Por enquanto, só consegui voos próximos. Em cada um deles consegui mergulhar no sono e sonhar. Na próxima vez, tentarei ir mais longe.

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

Alegria contida


Acordei no meio da noite com o peito oprimido e com sensação de ansiedade, havia dormido pouco?, o que havia acontecido?, por que eu me sentia com medo? Lembrei que o domingo havia terminado bem, não como eu desejaria, mas muito bem diante de tudo o que havia ocorrido nos dois últimos dois meses de campanha onde o poder econômico da máquina do governo esteve o tempo todo a favor do atual presidente. Sem falar nos últimos quatro anos. Eu tinha certeza de que LULA venceria, mas o perigo estava sempre rondando. Chorei muito diante do Presidente LULA enquanto fazia seu discurso de líder onde resgatava todos os nossos desejos para o país.  Foi um choro gritado, soluçado e sem conseguir parar. Eu estava feliz e queria rir, mas chorava. Precisava expulsar a ansiedade nas lágrimas contidas diante das inúmeras injustiças praticadas pelo governo que está terminando. Precisava aliviar meu corpo e minha alma das tensões que não encontravam fim, porque as barbáries deste governo eram diuturnas. Incessantes. Então veio o cansaço e fui dormir. Adormeci logo. Por isso, não entendia as razões de ter acordado no sufoco. Eu havia optado por não ir festejar na rua, queria estar recolhida, precisava de isolamento para recarregar minhas energias. Eu me sentia esgotada e minha alegria era uma alegria contida, como eu havia dito a uma amiga algumas horas antes. Contida por quê? Não tenho certeza das razões. As que consigo identificar estão ligadas aos medos que não deixam minha alegria explodir. Medos construídos a partir das ameaças e ações que o atual presidente pode desencadear nestes dois meses que lhe restam. Sabendo de sua maldade e de sua falta de limites. Dele e do grupo que o cerca. Nosso primeiro passo foi alcançado que foi eleger o Presidente LULA, apesar dos milhões que ainda votaram nele apesar de todos os horrores advindos do governo dele. Uma fantástica vitória que tem de valorizar e saborear como um fruto raro entregue pelas forças da natureza brasileira. Na verdade, uma façanha de milhões de brasileiros, muitos dos quais em linha de frente e ao alcance das garras do poder. Muitos perderam a vida neste enfrentamento. Devemos festejar também por eles, pela sua memória. Minha forma de festejar foi em recolhimento, sintonizando-me com todas as boas energias que estão explodindo país afora. Eu disse várias vezes que já alcancei uma idade que não vai me permitir ver a sociedade brasileira alcançar um nível de civilidade desejado, mas estive lutando pelos meus filhos e, principalmente meus netos. E todos os filhos e netos do país.

                Como disse LULA, nosso Presidente, só envelhece quem não tem uma causa e a causa dele é cuidar do povo brasileiro, por isso ele não envelhece. Neste sentido, apesar da idade cronológica, eu também não envelheço porque estarei sempre ao lado de quem luta por um governo que cuida deste povo tão culturalmente rico, sofrido e resistente. Sei que milagres não vão acontecer, nos últimos quatro anos o país foi massacrado e saqueado. Espero, no entanto, ver os sinais de um novo tempo nas ruas sem crianças a pedir ajuda para comer.

            Que as forças do universo estejam em sintonia com o Presidente LULA nas suas decisões. Milhões de brasileiros espalhados pelo país, embora mais concentrados no Nordeste, também estarão ao seu lado.

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Antes de queimar livros

 

É lugar comum ler ou ouvir uma notícia sobre ataque ao conhecimento, à ciência, às artes no país, principalmente desde a posse do atual pseudopresidente. É lugar comum a aversão às universidades públicas que o atual governo demonstra, e as medidas que foram sendo tomadas de modo sistemático para desmontá-las nestes quase quatro anos.

Nefastos estão sendo as consequências, as inúmeras leis e os provedimentos que continuam a asfixiar as excelentes contribuições que as universidades federais têm oferecido à nação ao longo de décadas. A lista seria muito longa. Vale falar sobre a última (se, depois, já não ocorreu outro ataque). No Curso de Doutorado em Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco, foi aprovada a tese: Mídia e Conservadorismo: O Globo, a Folha de São Paulo e a Ascensão de Bolsonaro e do Bolsonarismo. No dia 11 de agosto, a tese conquistou “Menção Honrosa no Prêmio CAPES de Tese de 2022” – o maior reconhecimento feito a autores de teses de doutorado no país. O assunto, entretanto, não pôde ser divulgado pelos veículos internos na universidade por alegações de que feririam a legislação eleitoral no presente período. O que é considerado falso, portanto, um ato arbitrário de censura.

Haveria uma lista longa demais também com ataques às escolas públicas e seus professores no Ensino Médio e Fundamental no país. Para me deter apenas no Rio Grande do Sul, um dos últimos exemplos (aqui também podem ter acontecido outros no intervalo até este texto) é a demissão de uma professora de escola particular, porque alguns alunos não aceitaram que ela expusesse o fato da exclusão histórica das mulheres nas ciências, nas artes e na política. Claro está que o motivo declarado foi outro. Este tipo de demissão é comum, e uma simples pesquisa na internet pode confirmar.

Em outra face da história do Estado do Rio Grande do Sul, o governador que está se recandidatando tem sido implacável na destruição da escola estadual. Nem os governadores biônicos da ditadura foram tão desrespeitosos e cruéis com o magistério e os funcionários. Ele foi cínico com o CPERS, não ouviu reivindicações, negou fatos, foi indiferente à situação das diversas comunidades escolares, acabou com o Plano de Carreira dos Professores, eliminou benefícios para quem trabalhava em escola de difícil acesso, desqualificou os professores aposentados, porque eles não contribuiriam para a melhoria da educação, como se fossem descartáveis depois de terem cumprido seu tempo de trabalho.

Encontramos também as investidas para implantar a escola sem partido, o abandono a prédios, propostas de reformas curriculares que retiram disciplinas da área das humanas e que ignoram todo um referencial a embasar a formação integral de um aluno, são algumas das medidas apoiadas indiretamente ou diretamente pelo governo do Estado. Estas atingem principalmente as crianças e jovens mais pobres que teriam um espaço fundamental para a sua formação, porque há boas escolas particulares sem estas reformas para quem pode pagar. Esta é uma as faces do governo em defesa do Estado mínimo. Se não bastasse isso, ele propõe “vender” as escolas públicas através da oferta de vouchers para as escolas particulares. As empresas estatais ele as está vendendo diretamente sem disfarces. O discurso que o governador fazia na sua primeira campanha ao governo do Estado era exatamente o contrário. Já foi publicada a pergunta: Quanto vale sua palavra, senhor governador?

Com tudo o que foi feito pelos últimos governos estaduais, principalmente o último de Eduardo Leite, nem é preciso fazer o que  está fazendo o governador da Flórida, EUA: uma lei com 200 livros proibidos para as escolas (O comum dos livros, referência a qualquer tipo de opressão, ao racismo: O apanhador no campo de centeio, O sol é para todos, Uma dobra no tempo, Amada. Também Harry Potter); toda vez que um aluno tirar um livro da biblioteca, o pai vai saber; também fará o financiamento de campanha para quem se candidata aos Conselhos Escolares. Ele está tratando de exercer seu poder sobre a formação da geração que está na escola hoje através de seus pais, os seus eleitores.

No nosso Estado, o abominável reducionismo dos currículos da Educação Básica e a alternativa de entregá-la à iniciativa privada, são propostas tão ou mais ameaçadoras. Elas também contemplam censura e autoritarismo, embora sem as cores e a visibilidade do que está acontecendo no país do norte do continente.

É desesperador esquecer tantos anos de luta pela educação. Quantas experiências excelentes o nosso Estado propiciou, já tivemos o melhor sistema educacional do país. Lugar este perdido há bastante tempo. A minha geração estudou em escola pública de excelência. Uma história esquecida pelos últimos governos que a desprezam como desprezam as camadas da população que mais necessitam dela e, com isso, o maior prejuízo é o de impedir-lhes acesso ao lugar de construção de conhecimento, de formação de pensamento crítico pelo confronto de ideias e convivência com a diversidade de saberes. Significa impedir-lhes um dos caminhos privilegiados para compreender os direitos que lhes são subtraídos.

Quem está no poder conhece muito bem esta história. Os que estão sendo prejudicados, massacrados por falsas notícias, é que precisam saber quem são seus inimigos. Este é o grande desafio.



segunda-feira, 8 de agosto de 2022

Rir juntos

 

            Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.

Em: A morte não é nada

Santo Agostinho

 

Lembro o filme baseado no livro O Nome da Rosa, não tanto pela excelente trama, mas pela luta intrínseca entre duas visões de mundo dentro da própria Igreja Católica na Idade Média, um recorte do pensamento da época. Embora tenham transcorrido alguns séculos, continuamos a viver esta luta, atualizados com os tempos de progresso econômico e científico, mostrando como ela é eterna.

Lembro o sacerdote que se empenhava em barrar o acesso ao manuscrito que ele julgava seu dever esconder. O que foi desnudado, no final, foi o medo do sacerdote de que o manuscrito de Santo Agostinho fosse de domínio público. O conteúdo a ser escondido estava ligado à defesa do riso no ensino religioso, visto por ele um perigo de quebra das normas monásticas, pois o riso levaria à alegria e à liberdade. Haveria, portanto, sério perigo de perda de poder da Igreja sobre os corpos e, em consequência, sobre o pensamento. O poder da Igreja constituído sobre o medo em todas as suas faces, culminando com medo do inferno após a morte. Os manuscritos da época estavam restritos às bibliotecas da Igreja, como aquela que é mostrada no filme, inacessíveis à população que, na sua maioria, era analfabeta. Mesmo assim, havia zelo em serem mantidos escondidos até dos próprios clérigos.

O riso tem sido difícil nos últimos anos, quando vemos o que tem acontecido diuturnamente na política do país. São os mais diversos sentimentos, tristeza, angústia, raiva que prevalecem, tanto mais em quem entende as injustiças praticadas por interesses particulares de grupos econômicos, que se apossaram das diferentes instâncias de governo. Sentimentos que são faces diversas do medo de quem não tem o que comer; de quem perdeu ou pode perder o emprego; de quem não consegue chegar ao final do mês com o salário que recebe; de não conseguir se aposentar dadas as mudanças na legislação; de não conseguir mandar os filhos para a escola; de não conseguir pagar as contas; de ser assaltado numa parada de ônibus ao ir ou voltar do trabalho. Todos, medos diante de situações reais que vêm se agravando.

No entanto, há os medos construídos sobre mentiras e desinformação que impedem ver as verdadeiras causas dos problemas vividos pela população. São as velhas ameaças de que toda proposta ou política social vem mascarando a implantação do comunismo no país; de que políticas sociais só favorecem a preguiça; de que apenas um determinado partido disseminou a corrupção na máquina governamental; de que tudo se resolve com o Estado mínimo; de que a livre iniciativa resolverá os problemas do país; de que o pobre é pobre porque não se esforçou o suficiente; de que bandido bom é bandido morto. A lista é extensa.

Um conjunto de mentiras continua a alimentar a máquina dos medos, os quais, por sua vez, mantém a população refém de quem está no poder e pode ditar as regras do ordenamento social. Quem não embarca nas mentiras vê como elas constroem a necessidade do salve-se quem puder, alimentando o monstro do individualismo. O medo que afasta a alegria do riso de que falava Santo Agostinho, porque o riso requer o compartilhamento, necessita do outro, necessita de liberdade.

Há anos, são denunciados os mal feitos de quem se apossou do governo por meio de um golpe, e depois, de quem se elegeu legalmente, mas com a contribuição deslavada de fakenews, colocando combustível no medo já instalado e bem nutrido. A palavra contra as injustiças e desmandos de quem não tem compromisso algum com a população mais necessitada foi lançada de incontáveis lugares. Estas denúncias necessárias eram acompanhadas de um sentimento de impotência, porque não se via um horizonte de mudança próximo. O medo acompanhava os esforços para desmontar as mentiras, porque parecia uma luta de David contra Golias.

Hoje, estamos em outro momento, as denúncias estão recebendo outro reforço. As bibliotecas estão sendo abertas, os livros proibidos estão sendo liberados para a alegria da esperança, e ela nos leva às palavras de Santo Agostinho. Um tempo que invoca o riso onde une as pessoas, a alegria que constrói outras narrativas e outros laços entre elas, elimina barreiras que impedem a produção de um ser humano com empatia. A alegria desvela outros mundos e encantamentos onde novas subjetividades são produzidas. Este é o caminho que precisamos percorrer para fazer com o que o medo não seja medida de qualquer decisão, apesar de todas as dificuldades que conhecemos e outras que certamente surgirão.

Estamos num tempo em que as narrativas de denúncia e de luta estão recebendo recuperando lembranças do quanto podemos ir adiante e mais longe juntos. Precisamos rir juntos enquanto construímos um novo caminho. Um riso que vem da união de esforços, de pequenas conquistas no árduo caminho para uma conquista maior, que resgata a alegria espelhada no outro e, principalmente, de que precisamos do outro para um mundo melhor.