sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Conversas no ar


Acabo de ler uma crônica de minha amiga escritora Maria Avelina Gastal. Consigo ler quase todas as que ela publica em seu sito. Elas me fazem conversar com o que escreve. Algumas me fazem chorar, outras me fazem pensar mais longe, outras me fazem rir – estas menos frequentes.

            Num dos textos, Avelina se propunha a ser mais leve, apesar de todo o tormento que vivemos no país. O interessante é que faz dias que penso nos meus últimos escritos publicados no blog. Eles são tristes, porque não consigo desapegar do que se vive. A dor do outro é também minha. Sou grata pela minha situação e isto me faz lembrar de quem está frágil e desprotegido.  Então, vi nas palavras de minha amiga um mesmo apelo. Não é qualquer apelo, é pensamento que cruza com meu pensamento e se identifica. É comunhão de expectativas que brotam do mesmo desejo de um mundo melhor, e chora, e se indigna, e denuncia com os mesmos motivos. Só a combinação de palavras que usamos é diversa.

            Foi justamente esta conexão que me fez resgatar uma ideia guardada há muito tempo. A ideia de rompimento. As grandes transformações históricas não ocorreram de repente. As suas raízes foram plantadas no período anterior e se fizeram vivas em pequenas e, depois, em grandes rachaduras nas diferentes narrativas. Foram acontecimentos que foram abalando aqui e ali, esparramando-se sobre os fundamentos dos conceitos e das crenças aceitos  pela sociedade. Os impérios caíram aos poucos. As artes estão cheias de rompimentos. Alguns exemplos me fascinaram e volto a eles sempre que a desesperança grita mais alto. Voltei-me para as artes.

            Foi numa viagem a Assisi há alguns anos, que ouvi pela primeira vez o que representou Giotto para a arte no século XIV. Ele pintou o corpo morto de Jesus de forma vertical, mas com as pernas dobradas que fazem sentir o seu peso e, com isso, tornou a imagem mais humana e popular. Introduziu o sentido do espaço, do volume e da cor. Até então, as representações eram retas e estáticas. Este pintor provocou a revolução nas artes que antecipou a época do humanismo e do Renascimento.

            Na história da música, há o exemplo de Paganini, nascido em 1782. Ele revolucionou a arte de tocar violino, instrumento cujas raízes são milenares, mas os primeiros instrumentos foram construídos entre o final do séc. XVI e meados do séc. XVII. Serviu de inspiração a Brahms e Rachmaninoff.

            Baudelaire, no século XIX, poeta que buscou uma nova maneira de fazer poesia nas imagens cotidianas, na realidade concreta. A sua maneira de encarar a arte tornou-o precursor dos poetas do final do séc. XIX. Seu livro de cem poemas As Flores do Mal foi inicialmente censurado e sofreu rejeição da sociedade.

            E.T.A. Hoffmann, também no final do século XIX, influenciou a literatura posterior a ele com sua produção fantástica. Misturando as fronteiras entre ficção e realidade, temas de fantasia e horror, reflexão filosófica. Sua originalidade sofreu críticas fortes, como costuma acontecer com o inusitado em qualquer tempo e sociedade, mas não deixou de ser um marco para mudanças na literatura.

            Neste mergulho sobre uns exemplos de erupções artísticas de outras épocas, busco algum alívio para poder me reabastecer de energia e continuar a resistir às notícias terríveis de abandono do governo de seus deveres com a saúde pública. E suas dramáticas consequências.

            Não dá para ser leve no momento, mas é possível pensar e desejar que haverá uma reação em algum lugar. Tanta coisa imprevisível aconteceu, só depois é que foram identificados os sinais de seu surgimento. Recuperar fios de esperança é fundamental. E também compartilhá-los com os outros. O peso do absurdo e da crueldade precisa ser aliviado e as artes são uma fonte inesgotável de ajuda. As artes são sempre testemunhas do seu tempo e campo de criatividade e contestação. Por isso mesmo, os artistas são atacados por governos autoritários como o que está atualmente acontecendo no país.

            Quero, no entanto, voltar a leveza da esperança nos rompimentos nas artes que a história nos oferece. A política tem suas próprias regras, mas vários sinais estão surgindo. Há muitas conversas no ar.

           

           

 

 

 

 

 

 

           


segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Raízes


 

Horrorizada com as mortes por falta de oxigênio em Manaus? Sim, sem dúvida. No entanto, é um horror duro, entorpecido, espinhento, porque sentido outras vezes. Repetido. Quantos horrores antes deste? É justamente por isso, não deveria acontecer mais nada para que ele voltasse a ser sentido.

            Acabo de ver a charge com o mapa do Brasil onde um joelho espreme Manaus e o pedaço de corpo que aparece com a faixa presidencial. Esta imagem é tão mais terrível, quanto mais lembramos os brasileiros que ainda louvam este joelho e tudo o que está junto com ele. Continuam no negacionismo da doença, do tratamento adequado, das medidas necessárias para enfrentar o contágio e, principalmente, dos governantes responsáveis por não implementarem medidas necessárias para proteger a população.

            Nossa história é cheia de horrores desde o início da colonização. Mesmo repassando o extermínio de índios e de negros, das guerras com nossos vizinhos, das torturas durante a ditadura, impossível não se escandalizar com a crueldade do atual governo em ignorar as necessidades dos hospitais de Manaus. Muitos mais ignoram ou negam tudo isso. Inconcebível.

O negacionismo é explicado de diferentes formas. É enorme a quantidade de textos publicados que nos mostram como ele tem raízes profundas, extensas e antigas na formação de nossa sociedade. Lendo apenas algumas, pode-se compreender quanta complexidade há na formação de subjetividades alienadas, egoístas e odiosas que continuam a aplaudir o que há de pior nesta terra. Somos um país tremendamente injusto não apenas economicamente, uns comem demais, outros morrem de fome próximos a supermercados abarrotados de gêneros alimentícios que vêm de tantas partes do mundo. Isto nós sabemos desde sempre. Somos um país tremendamente injusto no acesso à educação e à cultura. Também sabemos há muito tempo. O que acontece hoje de diferente é que nem tentamos mascarar a situação. O discurso da escola para todos não existe mais, universidade para os mais pobres não é necessária, só para quem pode pagar (declaração oficial), políticas públicas de incentivo à cultura aniquiladas,  até as manifestações culturais independentes são atacadas. Distribuição de renda uma idiotice. Continuam a se contrapor a estes horrores aqueles que clamam por uma sociedade mais justa onde a criação artística seja prioritária sobre o fabrico de armas. Onde um prato de comida pode fazer a diferença. E lutam bravamente na mídia alternativa, em organizações não governamentais, em sindicatos, em grupos independentes, no sistema político, em diferentes instâncias da sociedade. E a situação estaria muito pior se não existissem. Mas a luta é desigual.

            E o negacionismo sobre os processos em curso acerca do envolvimento do presidente e de seus três filhos políticos com as milícias do Rio de Janeiro? Este envolvimento estaria ocorrendo há muito tempo, durante os vários mandatos deste grupo. A raiz está ali. Está exposta. Por que eles se importariam com o que está ocorrendo em Manaus? E boa parte da população os elegeram e continua a apoiá-los apesar disso.

O crime instalado no poder é tão escandaloso quanto o são as mortes de Manaus. Ele mata todos os dias. É tão escandaloso quanto o são as mortes nas periferias das grandes cidades. Muitas delas poderiam ter sido evitadas desde sempre Mas estamos num país de banalização da morte e isto está insuportável.

Para enfrentar esta situação só a indignação. Só com ela poderemos fazer crescer mais e mais raízes para construir uma nova sociedade. Mesmo assim levará muito tempo. O fundamental é não nos deixarmos levar pelo desalento, embora humano e compreensível. Cada um de nós precisa encontrar a sua forma de dizer não à brutalidade que estamos testemunhando de mais longe ou mais perto. Mesmo no distanciamento que a pandemia exige. É preciso proteger as raízes que sustentam a indignação.

A palavra sempre será uma raiz de resistência, como nos diz Mia Couto. Que ela não nos falte.

           

 

 


domingo, 10 de janeiro de 2021

Bons augúrios

 


Como é mesmo o nome daquele vereador que quis ser prefeito, ficou na rabeira da eleição e ficou indignado com a renovação da Câmara de Vereadores de Porto Alegre? Ele chegou a dizer, no alto de sua estupidez, que estavam entrando jovens desqualificados. Um nome para esquecer. Ele que deve estar arranjando um cargo por aí entre seus iguais.

            Eis que ocorre a posse dos novos eleitos e um fato inesperado marca um período promissor para aquela Câmara e para a cidade. Um fato que ofereceu algum ânimo para quem apostava numa mudança do executivo e não aconteceu. Um ato pacífico de alguns vereadores, recusaram-se a levantar e cantar o hino rio-grandense. Jovens negros eleitos pela primeira vez, sabem muito bem porque escolheram não seguir o rito tradicional da casa. Denunciaram o racismo contido no hino que exalta a guerra e a história do Estado, racismo sofrido por seu povo naquela guerra, racismo que eles conhecem desde que nasceram, racismo que o seu povo escravizado continuou sofrendo mesmo depois de “liberto”. Uma pseudoliberdade que os marginalizou ao longo do século e meio que se seguiu.

            O fato novo não foi a denúncia em si, mas acontecer dentro do legislativo da cidade e, pode ter atingido grande parte da população que habitualmente não lê e não estuda história, menos ainda a do nosso Estado. Fato produzido por uma nova geração cuja identidade está enraizada na história de seu povo. Fato que exigiu um espaço na grande mídia, rompendo a hegemonia de um discurso ufanista. Fato que repercutiu nas redes sociais e se espalhou como fagulha em campo seco pela estiagem. Fato que deu voz a outras vozes habitualmente deixadas de lado. Vozes que exigem lugar  para os seus iguais. Foi posto em xeque um dos símbolos mais exaltados da pretensa superioridade rio-grandense no cenário nacional. E o foi no lugar mais apropriado, no lugar de representação da sociedade.

            Muito foi escrito e dito sobre fatos não tão heroicos, nem tão gloriosos  durante o conflito entre farroupilhas e Império, por diversos historiadores e cronistas. Mário Maestri  nem chama aquele conflito de revolução, mas de guerra. Juremir Machado tem escrito livros e crônicas em abundância onde resgata a história que muitos querem omitida ou esquecida. Para citar apenas dois escritores. Mesmo assim, o negativismo funciona, e muitos teimam a glorificar o que nem conhecem. Um período que contém parte mais vil e cruel de quem teve poder de decisão naquelas hostilidades, e que envergonha qualquer um que deseje justiça. Pior, outros omitem fatos vergonhoso, mesmo conhecendo bem tudo o que aconteceu, afinal, refere-se apenas aos negros. Entendo a posição de alguns deixarem pra lá o massacre dos negros que lutaram na Revolução Farroupilha, o seu recrutamento à base de promessas de liberdade, o tratamento diferenciado que lhe foi dado durante o conflito, o aparelhamento apenas com lanças para lutar uma guerra desigual para eles. Enfim, entendo que parcela da população ache tudo isso de menor importância, um simples efeito colateral sempre existente em qualquer guerra, como costuma-se dizer. É a mesma parcela da população que sempre se negou a ver a realidade de nossa sociedade autoritária e racista. Mas existem intelectuais que também compactuam com a omissão e o negacionismo, apesar de sua história compromissada com a democracia e com o desejo de uma sociedade melhor. Paradoxo. Felizmente,  existe outra parte da população que não foi e não quer ser cúmplice do mascaramento da história. O que aconteceu na Câmara de Vereadores neste começo de ano de 2020 deu força a esta parte da sociedade.

Os símbolos têm forte poder, fazem parte de narrativas que povoam nosso cotidiano e alimentam a subjetividade de quem está rodeado deles. Isto, de uma maneira diversa para quem não estuda, não lê e apenas repete hábitos e tradições. A Câmara de vereadores é um lugar de decisão sobre muitos destes símbolos. É só andar pela cidade e ver os nomes de suas ruas e logradouros aprovados ali. Muitos nomes de homens, de heróis brancos, de militares, onde a vitória é sempre à custa de muitas vidas. Os nomes perpetuam a memória dos conflitos e uma mensagem de sua aprovação, afinal são homenageados numa rua ou avenida. Como a adoção de um hino. Não existe neutralidade nas escolhas, há sempre uma disputa. É sintomático o ocorrido não muito tempo atrás quando foi quebrada a placa em homenagem a Marielle Franco no Rio de Janeiro. Um recorte da nossa sociedade em tempos tristes e cruéis, onde a prepotência exerce sua força, a ponta do icebergue. Outro exemplo não tão remoto, em Porto Alegre, foi a substituição do nome da Avenida Castelo Branco por Avenida da Legalidade. A substituição não durou muito tempo. A força antiga prevaleceu. São poderes nem sempre nomeados, mas representados no legislativo e executivo a decidir sobre qual história a ser dita e cantada.

Daí a importância da recusa dos jovens negros vereadores. Que seu primeiro ato tenha sido o início de diferentes desdobramentos em favor de novo modo de discutir o público e o privado. Que seja sinal de bons augúrios para que interesses coletivos sejam mais fortes de interesses particulares. Que a renovação na Câmara de Vereadores de Porto Alegre possa propiciar de fato um trabalho legislativo para a maioria da população como deveria ser.

Estejamos atentos aos nossos representantes.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Paradoxos

 

O tempo passa devagar quando somos jovens Às vezes, muito, muito devagar. Mas quanto mais velhos ficamos, mais depressa ele anda. Estas ideias alimentam muitas conversas. Também fazem lembrar teorias de cientistas e filósofos. A questão do tempo é um desafio para todos, teóricos ou não.

Para ficar apenas no círculo cotidiano, quem não  lembra de ter dito ou ouvido: Deixa o tempo fazer seu trabalho. Com o tempo tudo passa. O tempo cura qualquer ferida. É como se pudéssemos deixar alguém nos inocular um remédio muito poderoso, e bastasse ficar à espera. No entanto, o tempo é uma abstração tão enigmática que fica difícil entender até uma simples experiência de Einstein quando nos explica a sua relatividade através da observação de um objeto no interior de um trem em movimento. Ou então, viajar pela galáxia retardaria o envelhecimento do ser humano. O tempo no espaço não seria o mesmo da Terra. Questões que nos dizem ser o tempo uma categoria com múltiplas explicações.

Permanecendo na análise do que acontece na nossa sociedade, podemos afirmar que temos a percepção do tempo como em contínua aceleração. Fazemos mais atividades num dia do que faziam nossos antepassados. Conseguimos transpor em poucas horas distâncias inimagináveis há algumas dezenas de anos. Conseguimos saber o que acontece do outro lado do mundo em questão de minutos. Mesmo assim, as diferentes sociedades continuam obrigando grande parte do povo à imobilidade social, com acesso restrito à escola, à cultura, a viagens, ao consumo. Um tempo de espera e de não realização. Por outro lado, a escassez e as guerras obrigam aglomerações inteiras ao êxodo, movimento involuntário e predador.

Eis que, neste ano, a pandemia obrigou todos à imobilidade e distanciamento, todos foram igualados. E o tempo mudou de figura violentamente. No entanto, tempo e movimento continuam sentidos de forma desigual, desta vez, conforme as condições do distanciamento/isolamento. Ficar em casa, para quem mora precariamente, é duplamente punitivo. Sair para o trabalho ou simplesmente andar por aí, pode oferecer um tempo de estar num lugar melhor. Um exemplo visível é um passeio pelo shopping num dia escaldante. É o paraíso para quem não tem sequer um ventilador. Para quem pode armazenar comida e para quem tem que providenciá-la dia a dia, um fazer tremendamente diverso. Para quem tem condições de se proteger, pode ser apenas um tempo duro que vai passar.

Li, não sei quando, nem em que contexto, que não podemos estar distraídos. Hoje, penso que não distrair-se é dar atenção para o que faz, ou não, a vida valer a pena. Não sei se esta era a ideia de quem escreveu a frase, mas encaixa-se com harmonia neste tempo em que nossos movimentos foram cerceados bruscamente. Instalou-se um tempo de espera, um tempo de balanço sobre as reais necessidades para se ter uma vida digna. Um tempo de muita atenção.

Não distrair-se, ou prestar atenção, pode ter o sentido de desacelerar o tempo e inverter a rota. Ao menos para quem tem a sobrevivência garantida. Mesmo para estes, a garantia é ilusória na perspectiva histórica, porque nosso planeta está pedindo socorro, está sendo destruído de forma acelerada. E, de alguma maneira, todos sentem seus efeitos. Os avisos têm sido repetidos por cientistas de vários países, mas ignorados por quem detém poder econômico e o poder político. Talvez, o maior paradoxo do nosso tempo seja termos a capacidade de produzir tanta riqueza e tanta destruição simultâneas. Talvez nem seja um paradoxo. Há quem afirme ser uma equação necessária.

Na verdade, micromundos formam-se com novas alternativas de consumo e de relações sociais capilares. O modo de viver a natureza, e de usufrui-la com gratidão como muitos ancestrais, está sendo recuperada. Um tempo fora dos eixos vai se conectando à margem da exploração destrutiva da terra e do poder que continua a explorá-la. Um tempo cuja medida não é a aceleração, mas a solidariedade e a resistência, que desafia a ordem estabelecida. Talvez sejam estes micromundos a salvação do planeta. Não há tempo a perder. Tempo de acordar, de não se distrair.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Esquecimento é derrota

 


Chega ao fim mais um ano, um ano de pandemia, um ano letivo. Como serão as férias?

Tenho acompanhado com uma tristeza sem fim o que está acontecendo com o sistema de ensino no país e, especificamente, com a escola pública estadual onde fiz minha carreira. Só depois, fui para o ensino universitário. Outras notícias são igualmente avassaladoras, mas as referentes à escola pública estadual e municipal – responsáveis pela entrada das crianças e jovens que não podem ir para uma escola particular –, são angustiantes. Não são poucos os estudos que comprovam a importância da escola para as camadas excluídas da sociedade. Além do seu papel central de oferecer e construir conhecimentos, para muitos alunos, ela foi e continua sendo o único lugar de socialização protegida fora de casa. Mas há mais. Para muitos, é garantia de uma refeição decente. Apesar de todos os limites que sabemos existirem, ela é fundamental na vida de boa parte da população.

            A escola particular para a camada da população que pode pagar, procura conectar-se às mudanças que têm acontecido de forma acelerada na sociedade nos últimos cinquenta anos. A escola pública segue aos trancos. Encontramos desinteresse e omissão do poder público e esforços cada vez mais extenuantes por parte dos profissionais dentro da escola para aproximar-se desta atualização. São atos de heroísmo de alguns de seus professores e funcionários.

A ideia de escola para todos, da escola como alicerce para o futuro do país, da escola como prioridade para uma sociedade mais equânime são todos princípios abandonados há muito tempo. A diferença está em que, agora, foram abandonados até nos discursos oficiais. O descaso com ela está escancarado. Sem a mínima vergonha. Com esse abandono, vê-se morrer a esperança de que novas gerações consigam superar-se e tenham condições de vida dignas. A escola pública tem sido tratada, nos últimos anos, apenas como um problema a gerenciar diante da “falta de “verbas”. Mantra para a venda do patrimônio público nos três níveis da administração pública. Argumento que encobre interesses de grupos  particulares.

Na primeira década deste século, tivemos um período em que sonhamos e vimos melhoras acontecerem. O Ministério da Educação foi reconfigurando a legislação a favor de uma escola básica plural e com recursos. Projetos para bibliotecas, infraestrutura, laboratórios, salários dos professores. Enfim, cuidados com a escola como um todo, como era necessários fazê-lo. Muito ainda havia a ser feito. Eis que o sonho ampliou-se. A descoberta de enormes jazidas de petróleo, o pré-sal, permitiu prever uma enorme fonte de recursos para a educação. Enfim, o país destinaria parte de sua arrecadação a um projeto grandioso. O país distribuiria ganhos para por em prática o que nações, hoje desenvolvidas, haviam feito para tornar-se o que são atualmente. Seriam recursos maciços no sistema educacional. Todo professor deve se lembrar do slogan adotado na época: Pátria Educadora.

O poder econômico daqui e de além fronteiras não permitiu, com a conivência da parte podre da política nativa. Foi dado um golpe na política, destituída a Presidenta eleita e em poucos anos os direitos sociais foram sendo retirados num retrocesso de décadas. A educação foi atropelada sem piedade, os ataques ao sistema de ensino da base às universidades se espalharam de forma tão virulenta que deixou todos atônitos e incrédulos. O pesadelo continua e a sanha da “Casa grande”, para usar a expressão de Gilberto Freire, continua feroz e não dá trégua. Leva de roldão toda manifestação das ciências e das artes, invadindo grosseiramente as instituições e tomando de assalto os cargos de comando para garantir a sua devastação.

Chegamos em 2020. Todos sabem, ou deveriam saber, que as camadas desprotegidas sofrem muito mais com o que está acontecendo. A escola pública também. Sem condições de atender adequadamente seus alunos on-line, também não lhe são destinados recursos para receber com segurança seus alunos em sistema presencial. E mais, uma guerra de informações do governo, seu gestor, coloca dúvidas sobre o desejo de trabalhar dos próprios professores e dirigentes escolares. Mais uma vez, resta a rua para muitas crianças e jovens.

O que transmite a força para continuar a acreditar na mudança de rota, por longínquo que seja o dia, são as ações de gente lutadora, que não aceita os desmandos e as injustiças. Algumas são visíveis, outras não. Para quem não está mais em linha de frente, uma das formas de continuar junto, de se solidarizar,  é  servir-se da palavra para que nada seja esquecido. Registrar e denunciar são uma das formas de enfrentar a impunidade hoje robusta. É preciso fazê-lo sem descanso. É preciso lembrar. A lembrança fortalece outras formas de lutas.

O esquecimento seria a maior derrota.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Cactos

 

            Uma manta espessa sobre o solo pedregoso entremeada de ramos secos, arbustos e árvores baixas, tudo da mesma cor bege amarelada a perder de vista ao redor do estreito caminho. Vi Riobaldo e Diadorim rastejando no solo protegidos apenas pelo couro de suas roupas, desvencilhando-se das espetadas inevitáveis, rosto quase tocando a poeira a dificultar a respiração que também deveria ser silenciosa, cena de páginas lidas muito tempo atrás. Esta primeira visão ao vivo do sertão do Nordeste se sobrepôs às imagens da literatura e permanece intacta. Fiquei estupefata quando o guia nos perguntou: “Vocês acham que tudo isso está morto?”. Sem esperar resposta, ele seguiu: “Olhem aqui” e nos mostrou minúsculas folhas verdes esparsas, despontando nas junções dos galhos secos, invisíveis a olhos desacostumados. “Está tudo vivo” disse, enquanto falava da chuva abundante e extensa de uma semana atrás. “A natureza é paciente e renasce sempre”.

Continuou contando com paixão como ela era generosa, jamais deixava de gerar vida, atendia os que permaneciam teimosos ali, e não tardava em recompensá-los após qualquer água que recebesse. “Brotar era a resposta daquela vegetação áspera, seca, sem brilho, espinhosa e arisca ao contato humano” disse. Consegui aproximar-me do sentido das palavras de Guimarães Rosa, do que deveriam ser “vidas secas” de Graciliano Ramos, das pinturas de Portinari e Tarsila do Amaral. O tom apaixonado do guia ligou-me  àquela terra muitas vezes incompreendida. Ele desfiou histórias de vida de um povo que ama sua terra e seu modo de ser é lutar por ela. Mesmo quando tem que se distanciar dali.

            Outra visão nos esperava junto a um local hoje preservado. Uma pequena encosta, um arranjo de enormes pedras e o testemunho de uma antiga passagem de indígenas por aquela região. Andou-se entre um conjunto de cactos e vegetação de pequeno porte cuja serventia era explicada com encanto e reverência. Tudo ali tinha uma história e não podia ser arrancado sem razão. Nada de carregar uma lembrança dali. Só a necessidade de cura permitia retirar alguma folha ou ramo. A natureza era reverenciada.

Estas lembranças vêm em meu socorro porque tenho buscado motivos para continuar a ter esperanças, continuar a acalentar meus sonhos,  continuar a acreditar que um mundo melhor é possível. Continuar a acreditar.  Palavras amigas, doses de sabedoria ancestral, experiências vividas e compartilhadas, um arsenal de imagens e palavras já chegaram até mim. No entanto, os sistemáticos, ininterruptos e cruéis acontecimentos que ceifam vidas sem piedade têm abalado minhas esperanças sobre o futuro. Dói muito presenciar tudo isso. Posso fazer pouco agora. Faço. Várias vezes, pensei em desistir. Apresenta-se o vazio.

Eis que voltei a prestar atenção num vaso com alguns exemplares de cactos. Sua beleza espinhosa trouxe-me o Sertão de volta. Senti-me insignificante e covarde. Minha condição de isolamento físico criou o hábito de acercar-me daquelas pequenas plantas toda vez que desanimo. Elas me conectam a uma resistência distante, mas também próxima, tramada pelo país afora em lugares que conheço e que desconheço, onde a palavra desistir não existe, porque ocupada por resistir. Desejo espelhar-me nos pequenos cactos. Leio neles a mensagem: resiste.   

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

O que fazer?

 

 

    O que fazer? Uma pergunta feita muito tempo atrás continua sempre atual.

            Um político, cuja história o coloca em posição indefensável por já ter estado no poder, com acusações sérias a serem esclarecidas sobre sua forma de gerenciar a cidade, com um discurso de ódio e de mentiras e com comportamentos vulgares, mereceu a maioria dos votos válidos. Votos dos ricos, da classe média e das periferias que sofreram sob a sua administração. Havia uma alternativa. Uma mulher que buscou a alegria, o diálogo, o resgate de uma cidade que privilegiava a cultura, a educação, a ampliação da infraestrutura para a periferia, com diversas políticas sociais, enfim um governo de inclusão. Havia um programa que contemplava tudo isso. A história política da candidata e de seu vice permitia acreditar no que propunham. O fanatismo venceu a razão, a beleza, o entusiasmo e a esperança.  Neste momento, não quero voltar às inumeráveis análises.

            Sei que não vou desistir de lutar do jeito que puder. Sempre. Mas, neste instante, preciso me recolher, ficar quieta, juntar e aquietar meus pensamentos, dizer a mim mesma que haverá outro dia luminoso e precisa ter paciência. Talvez eu não tenha tempo para ela, já vivi a maior parte da minha vida. Agora necessito ficar no meu canto em silêncio sem negar a tristeza

Nada de teorias, nada de explicações, nada de lamentos. Apenas a gratidão por poder isolar-me e desejar que cada um dos que sofrem por não termos conseguido realizar o sonho, que nos parecia tão próximo, consigam se recuperar. Que os mais desfavorecidos socialmente consigam ser protegidos. É preciso, porque o caminho para transformar o que está aí será muito longo. E eu sei que estarei apenas no começo.

Vou lembrar dos meus filhos, dos meus netos, dos meus amigos – próximos e distantes – e me colocarei num grande e confortador abraço.

Preciso de uma trégua para que não me faltem as palavras.