domingo, 10 de janeiro de 2021

Bons augúrios

 


Como é mesmo o nome daquele vereador que quis ser prefeito, ficou na rabeira da eleição e ficou indignado com a renovação da Câmara de Vereadores de Porto Alegre? Ele chegou a dizer, no alto de sua estupidez, que estavam entrando jovens desqualificados. Um nome para esquecer. Ele que deve estar arranjando um cargo por aí entre seus iguais.

            Eis que ocorre a posse dos novos eleitos e um fato inesperado marca um período promissor para aquela Câmara e para a cidade. Um fato que ofereceu algum ânimo para quem apostava numa mudança do executivo e não aconteceu. Um ato pacífico de alguns vereadores, recusaram-se a levantar e cantar o hino rio-grandense. Jovens negros eleitos pela primeira vez, sabem muito bem porque escolheram não seguir o rito tradicional da casa. Denunciaram o racismo contido no hino que exalta a guerra e a história do Estado, racismo sofrido por seu povo naquela guerra, racismo que eles conhecem desde que nasceram, racismo que o seu povo escravizado continuou sofrendo mesmo depois de “liberto”. Uma pseudoliberdade que os marginalizou ao longo do século e meio que se seguiu.

            O fato novo não foi a denúncia em si, mas acontecer dentro do legislativo da cidade e, pode ter atingido grande parte da população que habitualmente não lê e não estuda história, menos ainda a do nosso Estado. Fato produzido por uma nova geração cuja identidade está enraizada na história de seu povo. Fato que exigiu um espaço na grande mídia, rompendo a hegemonia de um discurso ufanista. Fato que repercutiu nas redes sociais e se espalhou como fagulha em campo seco pela estiagem. Fato que deu voz a outras vozes habitualmente deixadas de lado. Vozes que exigem lugar  para os seus iguais. Foi posto em xeque um dos símbolos mais exaltados da pretensa superioridade rio-grandense no cenário nacional. E o foi no lugar mais apropriado, no lugar de representação da sociedade.

            Muito foi escrito e dito sobre fatos não tão heroicos, nem tão gloriosos  durante o conflito entre farroupilhas e Império, por diversos historiadores e cronistas. Mário Maestri  nem chama aquele conflito de revolução, mas de guerra. Juremir Machado tem escrito livros e crônicas em abundância onde resgata a história que muitos querem omitida ou esquecida. Para citar apenas dois escritores. Mesmo assim, o negativismo funciona, e muitos teimam a glorificar o que nem conhecem. Um período que contém parte mais vil e cruel de quem teve poder de decisão naquelas hostilidades, e que envergonha qualquer um que deseje justiça. Pior, outros omitem fatos vergonhoso, mesmo conhecendo bem tudo o que aconteceu, afinal, refere-se apenas aos negros. Entendo a posição de alguns deixarem pra lá o massacre dos negros que lutaram na Revolução Farroupilha, o seu recrutamento à base de promessas de liberdade, o tratamento diferenciado que lhe foi dado durante o conflito, o aparelhamento apenas com lanças para lutar uma guerra desigual para eles. Enfim, entendo que parcela da população ache tudo isso de menor importância, um simples efeito colateral sempre existente em qualquer guerra, como costuma-se dizer. É a mesma parcela da população que sempre se negou a ver a realidade de nossa sociedade autoritária e racista. Mas existem intelectuais que também compactuam com a omissão e o negacionismo, apesar de sua história compromissada com a democracia e com o desejo de uma sociedade melhor. Paradoxo. Felizmente,  existe outra parte da população que não foi e não quer ser cúmplice do mascaramento da história. O que aconteceu na Câmara de Vereadores neste começo de ano de 2020 deu força a esta parte da sociedade.

Os símbolos têm forte poder, fazem parte de narrativas que povoam nosso cotidiano e alimentam a subjetividade de quem está rodeado deles. Isto, de uma maneira diversa para quem não estuda, não lê e apenas repete hábitos e tradições. A Câmara de vereadores é um lugar de decisão sobre muitos destes símbolos. É só andar pela cidade e ver os nomes de suas ruas e logradouros aprovados ali. Muitos nomes de homens, de heróis brancos, de militares, onde a vitória é sempre à custa de muitas vidas. Os nomes perpetuam a memória dos conflitos e uma mensagem de sua aprovação, afinal são homenageados numa rua ou avenida. Como a adoção de um hino. Não existe neutralidade nas escolhas, há sempre uma disputa. É sintomático o ocorrido não muito tempo atrás quando foi quebrada a placa em homenagem a Marielle Franco no Rio de Janeiro. Um recorte da nossa sociedade em tempos tristes e cruéis, onde a prepotência exerce sua força, a ponta do icebergue. Outro exemplo não tão remoto, em Porto Alegre, foi a substituição do nome da Avenida Castelo Branco por Avenida da Legalidade. A substituição não durou muito tempo. A força antiga prevaleceu. São poderes nem sempre nomeados, mas representados no legislativo e executivo a decidir sobre qual história a ser dita e cantada.

Daí a importância da recusa dos jovens negros vereadores. Que seu primeiro ato tenha sido o início de diferentes desdobramentos em favor de novo modo de discutir o público e o privado. Que seja sinal de bons augúrios para que interesses coletivos sejam mais fortes de interesses particulares. Que a renovação na Câmara de Vereadores de Porto Alegre possa propiciar de fato um trabalho legislativo para a maioria da população como deveria ser.

Estejamos atentos aos nossos representantes.

5 comentários:

  1. Teu texto alia emoção e técnica para ressaltar a ação histórica e corajosa dos jovens vereadores.
    Fico feliz em te ver motivada a escrever.
    (Dante)

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  2. Linda escrita, maravilhosa leitura. Esse fato nos leva a acreditar nas pessoas, e também a refletir sobre as necessidades de mudanças, por óbvio que muitas das tradições merecem serem preservadas, pelo fato histórico, porém há tradições que ferem a existência de alguns muitos, e isso no mínimo deve ser motivo de pauta, de reflexão e ação. Negar a crítica-reflexiva é negar o diálogo. Obrigada pela reflexão de hoje!

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  3. Este ato de muita simbologia merece ser exaltado e falado. Mais uma vez foste esta voz.

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  4. Muito oportuna tua crônica. O momento atual do legislativo municipal começa rompendo barreiras e escancarando o preconceito existente na cultura do povo riograndense. Os valentes vereadores começam muito bem suas gestões e tu fazes uma excelente análise desse momento. Parabéns.

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