Horrorizada com
as mortes por falta de oxigênio em Manaus? Sim, sem dúvida. No entanto, é um
horror duro, entorpecido, espinhento, porque sentido outras vezes. Repetido.
Quantos horrores antes deste? É justamente por isso, não deveria acontecer mais
nada para que ele voltasse a ser sentido.
Acabo
de ver a charge com o mapa do Brasil onde um joelho espreme Manaus e o pedaço de
corpo que aparece com a faixa presidencial. Esta imagem é tão mais terrível,
quanto mais lembramos os brasileiros que ainda louvam este joelho e tudo o que
está junto com ele. Continuam no negacionismo da doença, do tratamento
adequado, das medidas necessárias para enfrentar o contágio e, principalmente, dos
governantes responsáveis por não implementarem medidas necessárias para proteger
a população.
Nossa
história é cheia de horrores desde o início da colonização. Mesmo repassando o
extermínio de índios e de negros, das guerras com nossos vizinhos, das torturas
durante a ditadura, impossível não se escandalizar com a crueldade do atual governo
em ignorar as necessidades dos hospitais de Manaus. Muitos mais ignoram ou
negam tudo isso. Inconcebível.
O negacionismo é
explicado de diferentes formas. É enorme a quantidade de textos publicados que
nos mostram como ele tem raízes profundas, extensas e antigas na formação de
nossa sociedade. Lendo apenas algumas, pode-se compreender quanta complexidade
há na formação de subjetividades alienadas, egoístas e odiosas que continuam a
aplaudir o que há de pior nesta terra. Somos um país tremendamente injusto não
apenas economicamente, uns comem demais, outros morrem de fome próximos a
supermercados abarrotados de gêneros alimentícios que vêm de tantas partes do
mundo. Isto nós sabemos desde sempre. Somos um país tremendamente injusto no
acesso à educação e à cultura. Também sabemos há muito tempo. O que acontece
hoje de diferente é que nem tentamos mascarar a situação. O discurso da escola
para todos não existe mais, universidade para os mais pobres não é necessária,
só para quem pode pagar (declaração oficial), políticas públicas de incentivo à
cultura aniquiladas, até as
manifestações culturais independentes são atacadas. Distribuição de renda uma
idiotice. Continuam a se contrapor a estes horrores aqueles que clamam por uma
sociedade mais justa onde a criação artística seja prioritária sobre o fabrico
de armas. Onde um prato de comida pode fazer a diferença. E lutam bravamente na
mídia alternativa, em organizações não governamentais, em sindicatos, em grupos
independentes, no sistema político, em diferentes instâncias da sociedade. E a
situação estaria muito pior se não existissem. Mas a luta é desigual.
E
o negacionismo sobre os processos em curso acerca do envolvimento do presidente
e de seus três filhos políticos com as milícias do Rio de Janeiro? Este
envolvimento estaria ocorrendo há muito tempo, durante os vários mandatos deste
grupo. A raiz está ali. Está exposta. Por que eles se importariam com o que
está ocorrendo em Manaus? E boa parte da população os elegeram e continua a
apoiá-los apesar disso.
O crime
instalado no poder é tão escandaloso quanto o são as mortes de Manaus. Ele mata
todos os dias. É tão escandaloso quanto o são as mortes nas periferias das
grandes cidades. Muitas delas poderiam ter sido evitadas desde sempre Mas estamos
num país de banalização da morte e isto está insuportável.
Para enfrentar
esta situação só a indignação. Só com ela poderemos fazer crescer mais e mais
raízes para construir uma nova sociedade. Mesmo assim levará muito tempo. O
fundamental é não nos deixarmos levar pelo desalento, embora humano e compreensível.
Cada um de nós precisa encontrar a sua forma de dizer não à brutalidade que
estamos testemunhando de mais longe ou mais perto. Mesmo no distanciamento que
a pandemia exige. É preciso proteger as raízes que sustentam a indignação.
A palavra sempre
será uma raiz de resistência, como nos diz Mia Couto. Que ela não nos falte.
Belo texto 👏🏼👏🏼👏🏼 Que não percamos a capacidade de nos indignar e de repudiar tantos absurdos.
ResponderExcluirForte e necessário, que nunca te falte a palavra. ����
ResponderExcluirAbraço minha amiga, Bel
Querida Maria Rosa,
ResponderExcluirNem sei como começar. Tão triste é morrer, ver morrer e não se poder fazer nada. Pior, muito pior, inconcebível para nossa mente e experiência social é a deixar morrer, é assassinar, conscientemente. Eles sabiam que iria faltar oxigênio dez dias antes. Deixar acontecer, não importa que morram.
Nem sei o que te dizer que tempos tão inconcebiveis.
Que sirva pra alguma coisa pra enterrar esses assassinos.
Forte, necessário, porém cheio de esperanças nas raízes profundas do conhecimento e da luta. Acredito na juventude que está aí! Sempre é um bálsamo ler tuas escritas.
ResponderExcluirHaja vozes. Pior se calarem.
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