quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Temperos e flores

Existem ações humanas que exalam um tal mau cheiro como o que escapa de um ralo de pia, quando muda o tempo. Elas tem se multiplicado ultimamente como cogumelos depois de um dia de chuva. O tempo mudou. O mau cheiro penetra todas as frestas, todas as gavetas, todos os cantos. Um mau cheiro que impregna os poros, os cabelos, as cavidades, e nos sufoca. A gente sabia, mas ainda tinha esperança que não mudasse. Talvez não fosse esperança, mas teimosia. Uma teimosia que nasceu com o desejo de não perder o pouco que se alcançou. Mas há gente que consegue viver à vontade neste ar contaminado. E acha que é bom, porque se contaminou primeiro com os pratos embalados no ódio a toda diferença, na insensibilidade diante da fragilidade do outro e na ânsia de poder. E tem aqueles que fingem não sentir o fedor, tapando o nariz e dizendo a si mesmos que logo vai passar.

É preciso lembrar que os dias sucedem às noites, como a primavera sempre vem após o inverno. Há que se esperar pelos ventos e chuvaradas que levarão aos rios e mares a sujeira a ser engolida e transformada. Enquanto isso, limpemos chão, paredes e armários. Espalhemos alecrim e manjericão. O perfume dos jasmins logo nos alcançará.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Vergonha ou valentia?



Fios cortam as árvores ao meio. Não, serras é que lhe amputam galhos fortes e sadios, apesar dos parasitas que vivem às suas custas. Lâminas acionadas com voracidade. A rede elétrica invade o espaço aéreo das copas, mutila-as e determina uma forma sem chances de apelo. A estética imposta é a da deformação da natureza. Braços sinuosos ou retilíneos, sempre protetores contra o sol de verão, são eliminados como se necrosados fossem. Algumas árvores vingam-se projetando um V que pode significar ideias díspares como voragem, valentia, vergonha ou vitória, segundo o sentimento que nos inspira. Pode ser também vértebra. Algumas árvores parecem ser sido desvertebradas. Dos tocos emergem circularidades que marcam o exato lugar da violência, acentuando uma imobilidade da espécie e do seu destino truncado. Uma natureza livre submetida às necessidades urbanas materializadas na quantidade de fios que foram crescendo aos poucos e se sustentam nos postes enfileirados na beira das calçadas, um exército fiel e indiferente às árvores mutiladas. Poderia ser diferente? Sim, há testemunhos pelo mundo afora. No país também há uma mutilação em curso, a dos programas e dos direitos sociais, ela também em nome de necessidades mistificadoras. Poderia ser diferente? Sim, a história recente e antiga nos ensina, embora boa parte da sociedade não queira aprender.



Eu me sinto como estes tocos. Espero que brotem com força nos próximos meses. Quanto à rede elétrica, será tarefa das próximas gerações, se conseguirem mudar a política e a gestão da coisa pública. A minha geração está em débito.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Sem palavras

Há palavras que abarcam melhor o que pensamos. Encontrei uma delas lendo a apreciação do quadro Nossa Senhora dos palafreneiros de Caravaggio feita na época, século XVII. Obsceno. Imediatamente reconheci-a como uma palavra adequada a caracterizar não o quadro, onde o pintor representa sua própria interpretação de um versículo do Gênesis. A obscenidade estava na cabeça da cúria do Vaticano que o rejeitou. Um poder de então que me leva à obscenidade que reveste o governo atual do Brasil, com o desmonte das políticas sociais conseguidas até aqui e devolvendo à miséria muitos dos que tinham conseguido emergir dela. Logo a seguir, pensei nas matanças de jovens das periferias da cidade. Não só naqueles que morrem a todo o instante, mas naquilo em que foram transformados tantos policiais para poder matar. Depois, pensei nas fraudes de médicos que se servem da profissão para enriquecer ilegalmente, inventando necessidades de próteses e outros tais.  Depois, veio-me a lembrança da violência que continua a existir contra a mulher e do terrível silêncio a que a maioria se submete, por causa da impunidade existente. Depois, vieram-me cenas de abuso de falsos religiosos incrustados em falsas religiões a explorar a fragilidade humana para enriquecer à custa dos mais vulneráveis. Depois, vieram-me as imagens do pranto pelos assassinatos de lideranças comunitárias, sindicais, indígenas e religiosas que ousaram enfrentar o poder. Tantos depois. Em demasia. Pior ainda, a indiferença de grande parte da sociedade, como se não lhe dissesse respeito.

Então pensei que nem essa poderia abarcar o horror dessas atrocidades. Tudo isso é inominável.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Resistir



Tento compreender obsessivamente como chegamos a esse ponto de hipocrisia e mediocridade de grande parte da sociedade brasileira. Claro que há o PIG, Partido da Imprensa Golpista, como nos diz Paulo Henrique Amorim, e todos os mecanismos de poder para difundir mentiras, meias verdades ou escolher a omissão. No entanto, há também informações em inúmeros canais que se contrapõem, mas  são refutadas por muitos com um escudo anti-razão.
É aqui que reaparece uma palavra há tanto tempo esquecida: mistificação. Com ela veio-me à mente a palestra onde foi proferida e em que época. Estudante de uma Faculdade no interior do Estado no período que antecedeu o golpe militar de 64, ouvia o então brilhante professor Ernani Fiori da UFRGS e me assombrei com a descoberta do mecanismo de mentir a si próprio pela aceitação da verdade deturpada e, assim, estar em paz por ter criado para si o lado certo. Hoje este mecanismo mostrou o quanto é poderoso e capaz de se atualizar e se reinventar. A grande e velha mídia continua a mesma, mas os mecanismos de transformar tudo em mercadoria, tudo com um preço, tudo com a ilusão de poder comprar a felicidade, se associaram de tal forma que o pensamento de grande parte da população parece ter se transformado numa incontrolável e esponjosa gelatina. Mistificação das massas pela indústria cultural à venda.
Deve ser por isso que a palavra me reaparece depois de muito tempo guardada, e utilizada várias vezes ao longo da vida para me desvelar o mundo. Justamente hoje ela se faz viva, quando tantos estão à deriva tentando organizar-me na busca de alternativas para enfrentar os tempos sombrios que se estão instalando. O interessante é que ela relutou em ser acessada, não se ofereceu prontamente. Primeiro lembrei que ela existia, mas era mais uma sensação do que uma palavra, algo anunciado que eu conhecia, mas não conseguia nomear. Depois lembrei da palestra e, aí também, o nome do filósofo surgiu no esforço de rastreá-lo quem sabe em que parte infinitesimal de meu cérebro. Fui à procura dele, porque a palavra se recusava a comparecer. Com o mestre presente, ela cedeu e veio a seguir. Mistificação. Mestre e palavra continuam a ser fundamentais depois de mais de sessenta anos. A explicação da sociedade mistificada da época ampliou o olhar de uma estudante ávida de saber. Não impediu o golpe, mas deixou uma semente na cabeça de quantos estavam a esperá-la. Ele estava no caminho certo, por isso foi ceifado.
Refaço o caminho e vejo que a palavra não me impediu equívocos posteriores, mas impediu que eu permanecesse neles. Foram necessárias situações de confronto com a realidade, de encontros com pessoas e ideias, de necessidade de tomar decisões que foram construindo minha visão de mundo e de uma postura íntegra diante dele. Aquela palavra foi seminal para me salvar quando  no limite de me perder.
Mais uma vez volto a ela e reforço a certeza de que nem tudo está perdido. A palavra ajuda a encontrarmos canais que buscam um mundo mais justo, porque sabemos que o mundo que queremos não existe, é preciso construí-lo a cada momento, nunca chegaremos lá como gostaríamos. É como caminhamos para buscá-lo o que nos diferencia.

Há que intensificar o trabalho de despotencializar as forças que alimentam a mistificação, justamente em momentos que a luta parece perdida. Caso contrário os esforços de quantos lutaram e lutam serão em vão. Há tantos. Li em algum lugar que a única batalha perdida é aquela abandonada. Vou acreditar nisso e relembrar Ernani Fiori, cassado pela ditadura militar que não impediu que eu o relembrasse hoje. E a sua palavra.

terça-feira, 19 de abril de 2016

Fronteiras

Ângelo. Assim a mãe decidiu chamar o primogênito recém-nascido. Ângelo, porque tinha cara de anjo.
Embora a mãe fosse costureira e o pai, torneiro mecânico, Ângelo teve tudo do bom e do melhor. Colégio, livros, tênis, mochila. Bicicleta, bola de futebol. Televisão e videogame. O menino cresceu forte, bom, amoroso. A mãe, com os dedos furados de tantas agulhas, o pai, de pele encardida da graxa das máquinas, acreditavam que o menino teria um futuro brilhante. Coisa de anjo mesmo.
A infância foi um tempo aventuras que não ultrapassaram as fronteiras do pátio de sua casa e do caminho da escola. Alguns passeios da turma em datas especiais e férias no sítio onde viviam os avós paternos. Foi num daqueles verões que conheceu Beliel, um menino atrevido que andava pelas vizinhanças a caçar ninhos de passarinhos.
Foi como descobrir que tudo ao redor era um lugar encantado a revelar-se com as artimanhas de Beliel. Só ele sabia como subir nas árvores que lhe pareciam inacessíveis. Só ele imitava um sabiá e atraía outro que andava por perto. Só ele sabia onde encontrar as amoras que ele nunca tinha experimentado. E, mais que tudo, só com ele desobedeceu pela primeira vez às orientações de não entrar na sanga próxima à curva da trilha. Lugar proibido com histórias de afogamentos, e os espíritos a rondar o entorno.
Já não achava graça em brincar com os dois irmãos menores e os brinquedos trazidos. Nenhuma surpresa, nenhuma emoção, a obediência espelhava a previsibilidade, a transgressão era um ímã do qual não conseguia mais escapar. Começou a mentir. No início uma desculpa que o ruborizava, depois, um hábito incorporado ao ar angelical que sempre fora sua marca. Inventava histórias para se afastar com o amigo que lhe contava outras tantas. Um mundo muito diferente do que ele conhecia.
Beliel morava do outro lado do morro, vivia pelos matos, o sol amorenara sua pele e acentuara o sarará dos cabelos crespos. Aparecia nas horas mais inesperadas, às vezes, à noitinha, quando todos iam ver televisão na sala. Nunca quis entrar e conhecer os avós de Ângelo, só os cumprimentava à distância. Ângelo dizia-o envergonhado, tudo o que ele não era.
Numa das suas aparições noturnas, o calor insuportável se infiltrara em todos os cantos da casa e as mariposas giravam agitadas ao redor das lâmpadas, anunciando um temporal distante. Um assobio fino e espichado fez Ângelo abandonar o sofá e alcançar o amigo.
A lua quase cheia ainda encontrava caminho entre as nuvens e o escuro se dissipava no rarear das folhagens. Beliel caminhava na frente e Ângelo o seguia. Chegara o momento prometido, ele conheceria o paraíso. De repente, um sinal sobre os lábios do amigo e eles diminuíram o passo, tiraram as alpargatas dos pés e com movimentos lentos chegaram a um ângulo em que os olhos alcançaram os suspiros saídos da pequena enseada. Aproximaram-se ainda mais, onde Ângelo jamais ousara sequer de dia, mas Beliel tudo já havia explorado.Do barranco ao lado viam-se fios de luz que tremulavam na água agitada por dois corpos, hipnotizando Ângelo e fazendo Beliel sorrir.  

O tempo emergiu do rio e acelerou o conhecimento para Ângelo, cujos pensamentos e emoções o desequilibraram e o fizeram ultrapassar a fronteira de sua infância. Turbado pelos sons e movimentos daqueles dois corpos vorazes, seu próprio corpo entrou em êxtase e o terreno aos seus pés lhe retirou o apoio. Mal teve tempo de sentir a água fria engoli-lo, enquanto seus braços tentavam agarrar as ramagens que cederam. O olhar de Beliel não o socorreu e ele pode pensar com terror em suas desobediências. Antes de imergir, as últimas palavras recordadas de sua mãe ao lhe dizer que ele era um anjo bom.


Desafio de Cintia Moscovich para trabalhar o subtexto no Curso de Formação de Escritores

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Repetição




            Michel dispensou o amigo à entrada do cassino. Ele o ajudara a alugar a casaca, a conseguir quinhentos euros emprestados e as informações básicas para que ele se misturasse à burguesia que frequentava o local com o mínimo de naturalidade. Agora era com ele.
            Ultrapassou a boca da caverna, como costumava dizer quando entrava em ambientes desconhecidos e possivelmente hostis. Ali, a gentileza e os modos eram refinados. A hostilidade estava na pele dos frequentadores e funcionários servis, só se manifestaria se ele não seguisse a engrenagem das regras. Ele se preparara para rompê-las no momento oportuno.
            Luzes, vestidos, fraques, jóias, tudo precisava ser ostentado com a falsidade da indiferença. Os gestos habituados à contenção, ao momento justo de colocar as fichas na mesa, de agarrar o copo nos intervalos do ganho ou da perda, sem que a pose se alterasse. Só o olhar era traidor e deixava, às vezes, uma nesga de gozo ou de desespero após a perseguição de somas vultosas que decidiam a vida de muitos.
            Fora constrangido, depois de anos, a ir e ganhar. Ele pensara muito e decidira desobedecer. Perderia, apesar de suas habilidades repetidamente exercidas num tempo que julgara morto. Isto faria o dia seguinte ser o fim do tormento. O hábito, no entanto, driblou o que arquitetara e fez por ele. Ganhou, e muito, porque o gosto de vencer era superior a qualquer coisa que ele tivesse experimentado.
Michel superestimara sua capacidade de resistir à chantagem. A engrenagem imperou. Ganhar foi um fracasso que o jogou às correntes de uma galé. Os anos que vivera em paz desmancharam-se como papel velho em contato com o ar. Só seu corpo continuava ali, o pensamento voejava cego.
            Ainda era noite, a fonte continuava a reluzir em frente ao cassino e ele saiu levando o perfume que preenchia o ar dos salões. Pesadamente foi seguindo para o hotel, sua vida não valia mais a pena.    


Curso Formação de Escritores / Oficina com Cíntia Moscovich / Paradoxo

            

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Novamente, recusa ao ódio



Tenho percebido um profundo cansaço nas pessoas  em relação ao noticiário político. Há, no entanto, graduações neste cansaço. Algumas não querem sequer ouvir a última notícia, fazem uma careta, dizem “não ouvi”, “deixa pra lá” e trocam de assunto. Neste caso é comum desenterrar uma piada ou uma banalidade e seguir falando como se, ignorar o que sucede, fosse fazer desaparecer a realidade.
            Há momentos, porém, em que a recusa é feita com uma indiferença tal como se o assunto nada tivesse a lhe dizer, as preocupações são outras e a sua realização se dá pelas próprias atividades. Para estas pessoas a política é algo que não lhes diz respeito, pairam acima de qualquer contenda.
            Em outras ocasiões, constatei que conhecidos, outrora envolvidos com a política partidária, hoje, assumiram uma religião ou uma filosofia que substitui a necessidade de intervenção social por um processo de mudança individual sem a qual, e antes da qual, não haverá mudança coletiva.  A política como hoje se apresenta deixou lhe interessar.
            Outra situação é a raiva demonstrada por alguns ao se considerarem traídos pelo partido em que apostaram todas as fichas. Aqui é a desilusão que fala e a frase mais ouvida é “são todos iguais, não adianta”. Sem o rigor de uma pesquisa, foi possível constatar que muitos destes votaram em quem eles julgam o opositor de quem os desiludiu, não por julgá-lo o melhor. Outros votaram em branco nas últimas eleições, por não terem um candidato que os satisfizesse.
Todas, situações de desesperança.
Mas há uma espécie de raiva particular, a dos que sempre fizeram oposição ao governo do país que assumiu em 2002, cujas políticas sociais abominam, mas que são apenas a ponta do iceberg de seu rechaço. Esta parte da população não se mostrava, agora escancara o que pensa, adora os noticiários da televisão – concentrada nas mãos de poucos grupos econômicos e determinantes do que deve ser veiculado, usando a notícia para beneficiar interesses particulares – e julga que ali está a verdade dos fatos. Muitas vezes a resposta a algum questionamento foi “Deu na Globo”, conferido àquele canal o estatuto de certeza e idoneidade.
            A descrença e o cansaço foram passos para a grande maioria deixar-se cooptar pela palavra crise, caracterizando-a como brasileira e única, ampliando-a, colorindo-a com as conveniências do momento, mesmo aquela parte que se beneficia do momento, mesmo aquela outra parte que não foi atingida de forma significativa e seu modo de vida continue o mesmo.

            Tudo isso faz imaginar um tecido social esgarçado, a perda de pontos de referência conhecidos sem os quais não é possível entender o que se passa, sem demonizar ou santificar quem quer que seja. O medo é alimentado, para além das causas reais, e a paralisia que lhe é decorrente impede de pensar.

              Este é um período difícil e complexo em que as esperanças de um mundo melhor se desvaneceram. Por isso, oportuna é a colocação de Vladimir Safatle ao analisar as consequências da perda de utopias: “Precisamos de uma reflexão política fundada na capacidade de se abrir à contingência e ao desamparo que sua ocorrência nos traz”. E, a partir disso, pensar o tempo atual de outra forma para encontrar o que ele aponta: “as condições para modificações profundas já estão no presente”.

            Quem sabe, um caminho para alimentar as ideias de Safatle seja a recusa ao ódio, à intolerância, à insensatez e às fontes que os geram (um modo de vida exacerbadamente individualista onde tudo é descartável), concentrando energias nas vozes que apontam o desejo de viver um mundo em que todos têm direito à dignidade. Tudo isto com a contribuição coerente de atitudes e não apenas  de pensamentos.