quarta-feira, 28 de março de 2012


Asa quebrada

Estranho seu saltitar no chão junto ao muro,
Desnorteado,  a debater-se.
Passamos, apesar da pena que sentimos,
Como ater-se?
No ritmo da cidade seguimos
Adiante um tanto.
No entanto,
Seu esforço recapturou nosso olhar
Voltamos a cabeça
Retornamos nos nossos passos,
Uma caixa abandonada serviu de maca,
Seu corpo aquietou-se,
Ao balançar do andar
E do inevitável abandono.
Mas, na intuição do tanto,
No entanto,
O bico procurou o ar de fora,
E lá dentro,
Espasmos repentinos da asa quebrada
Que se esparramou,
Testemunho da indiferença quase realizada.
No entanto...

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Os pulsares do recanto da lagoa


            A beleza do lugar dá-se a conhecer pouco a pouco.
O brilho do sol torna-se mais intenso ao toque das tantas nuanças das folhas que balançam preguiçosas. Há um tempo que se completa aí em cada instante. Um pulsar de cores e sons vai crescendo e, naquela hora da manhã em que a brisa se torna mais forte e pode-se ouvi-la, ela também refletida de verde, ao trespassar as ramagens. Um som delicado e contínuo como um sussurro de fundo ao cantar dos passarinhos. Eles brincam de esconde-esconde, ou em jogos de amor aos pares em voos frenéticos, com a urgência dos amantes, ou nas pausas para tocar o solo e alimentar-se de sementes e outros manjares invisíveis ao olhar humano.  Acasalando-se com o verde, enrodilhados nele, o branco, o fúcsia e o rosa das três-marias  despontam aqui e ali numa grande árvore orgulhosa de servir-lhe de sustentação em abraços coloridos.
A natureza generosa oferece araçás amarelos e vermelhos, jamelões e jabuticabas, que cobrem o solo, já que nem os humanos, nem os habitantes voadores não dão conta de comê-los. Gosto perdido de fruta recém colhida remete à infância. Um pulsar de cheiros e sabores em que a interferência humana se mostra também nos canteiros cultivados com a salsa, o alecrim e manjerona e parecem dizer que  tanto  mais ofereceriam, quanto as mãos quisessem plantar.
A grama reveste o solo e oferece a pés indiferentes uma maciez conseguida por incontáveis pequenas folhas aparadas e próximas uniformemente. Revela um pulsar de cuidados que faz nascer um verde homogêneo abraçando o contorno das árvores, da casa ao meio do terreno, dos canteiros, das pedras e dos caminhos, como se um pintor metódico houvesse derramado com cuidado uma tinta mágica e reluzente.
Uma caminhada de uns cinquenta metros une o lugar às margens da lagoa. Há um pulsar nas águas convidativas com seu ondular tranquilo, às vezes encrespadas ou levemente agitadas, dependendo dos caprichos do vento que igualmente lhe muda a cor predominantemente esverdeada. Tépidas e límpidas envolvem o corpo sem susto e permitem se encantar com os peixes, os juncos, os barcos, os mil efeitos na sua superfície. Os morros ao redor como colo materno a embalar a concha de diferentes pulsares da vida.
Tudo isso, no entanto, tem o sentido que o olhar e a ação humana lhes dão. Usufruir o que a natureza oferece numa harmonia que a preserve, desgastá-la como se fosse infinita, ignorá-la ou menosprezá-la. Tantos caminhos!

Esta é uma homenagem em agradecimento aos amigos Bia, Marcos, Vera e Niúra, que generosamente me possibilitaram estar neste lugar por alguns maravilhosos dias.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

É preciso não nos perdermos




“Viajamos continuamente. Tudo passa rapidamente: as cidades, a gente. No entanto, às vezes, nos sentimos tão cansados que te esquecemos e não sabemos se estamos avançando ou retrocedendo. É, então, que nos perdemos”   (A menina Voula, dirigindo-se ao pai que busca – no filme Paisagem na Neblina de Theo Angelopoulos)

Sim, a vida é uma viagem. Longa ou curta, é sempre uma espécie de caminhada com as formas e cores que cada um consegue lhe dar. Fazemo-la  de trechos onde a solidão impera, em outros momentos, no aconchego de uma companhia, outras vezes, desejando nos desvencilhar de quem não nos faz bem. Nisso tudo, há uma vontade cumprida ou contrariada, um desejo a ser atendido. Buscamos afeto, compreensão, proteção ou o que rotulamos como felicidade. Quantas vezes tropeçamos pelo caminho e um braço amigo nos tira da margem. Outras vezes, conseguimos fazer o mesmo por alguém. Gestos que tecem o que há de melhor em cada um. Somos, também, capazes de outros gestos que tratamos de esquecer.
Somos bons, somos maus, somos indiferentes. Podemos ser tudo, este é o grande desafio. Intrincados fios nos constroem desde nossos primeiros respiros.  Tudo ao nosso redor tem importância. Como, então, aceitamos tantas coisas inaceitáveis? Que forças nos impelem ao individualismo, ao isolamento? Quem não atravessou um tempo em que o afeto, a amizade, alguém em quem confiar, evitou o caos. Evitou aquele instante brevíssimo em que não sabemos mais o que queremos, nem quem somos e, aí, nos perdemos.
Tudo isso tem a ver com o que acontece com os jovens infratores recolhidos àquilo que a sociedade concebe como lugar possível para “correções”. O princípio de sua reclusão é ainda estarem  se estruturando e devem ser ajudados para a construção do próprio caminho sem se perderem. Ou, serão já pré-julgados e perdidos? Daí a permanência em condições de reclusão sem as mínimas condições de atender ao princípio invocado?
A existência desta situação, como tantas outras, é conhecida, mas a ignoramos. Até que alguma denúncia seja feita. Várias o foram ao longo dos anos. A mais recente, um médico ousou desnudar sua tarefa diária de amortecer o sofrimento dos internos e mantê-los sob controle, medicando-os de modo automático, repetitivo, muitas vezes, a pedido deles próprios.
Esta reportagem trouxe à lembrança o depoimento de uma ex-professora desses adolescentes. Contou sobre as condições sob as quais ela tinha que  tentar ensinar-lhe alguma coisa, sobre a rotina em que viviam, sobre seu aprisionamento em celas, porque não havia outro modo de controlá-los dada a inexistência de uma autodisciplina mínima. Lembro que, atônita, lhe disse: Isso é de enlouquecer.  Ao que ela me respondeu: Eles enlouquecem.
Nisso tudo, não cabe julgar os medicamentos ministrados, nem as palavras da atual presidente da entidade que afirma a herança recebida de muitos anos de existência da situação. Cabe aprender e não nos perdermos em argumentos inúteis.
Interessa a qualquer cidadão, tenha ou não alguma ligação direta com esses jovens que pedem ajuda, que não nasceram transgressores, que têm direito a aprender com seus erros e a chances de se formarem homens e mulheres em gozo de seus direitos e responsabilidades. Mas eles são ceifados e jogados à margem prematuramente. Ceifadas deveriam ser as condições que produziram suas transgressões e os sofrimentos gerados a eles e aos outros. Reclusos tornam-se invisíveis. Mas a máquina continua sua produção.
E vivemos com indiferença com o que acontece entremuros das instituições que deveriam proteger, abrigar e oferecer novas oportunidades para jovens infratores. Ao escrever A Peste, Camus tem razão quando diz “As pessoas cansam-se da piedade quando a piedade é inútil”. Talvez, sintamos cansaço diante destas situações, porque não vemos o que fazer, nos sentimos impotentes, inúteis e, então, ignoramos para não sentir culpa. Mas, é justamente aí que nos perdemos, não vemos o que possamos fazer de útil, cansamos e não buscamos uma forma de, ao menos, compreendermos e nos indignarmos. Não temos o direito de cansar. O cidadão comum precisa conhecer o que acontece para não julgar e cair em preconceitos. O poder público precisa assumir a tarefa que lhe foi confiada e não cansar, mas trabalhar para que as soluções sejam postas em prática. Não adianta invocar o passado sem aprender com ele.
Nise da Silveira – falecida em 1999 – recusava eletrochoques nos seus pacientes e ousou  tratá-los por meio das artes, principalmente a pintura. Aí está o Museu de Imagens do Inconsciente  a testemunhar os resultados  do afeto nos tratamentos.
O médico que afirmou o uso de medicamentos na FASE, também denunciou o motivo: o ócio que cerca desumanamente os adolescentes. Custará tanto aos cofres públicos oferecer àqueles jovens oportunidades do que fazer, ao invés do falido caminho existente?
Um outro mundo é possível. É preciso desejá-lo e construí-lo sem cansar.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Erva-de-passarinho

           
Fotografia de Luciano Rodrigues Soares - FloraRS


              Sua forma escandente lembra um “chorão”.
            A erva-de-passarinho enche os olhos, enfeita galhos,  confunde-se com a estrutura de copa  da planta hospedeira, desce com elegância do meio do verde e misturada  em abraços.
 Mostra-se vigorosa e saudável. Saudável ela é, o problema é que adoece quem ela parasita sem que pareça fazê-lo.  Alimenta-se do outro. Realiza sua condição de abastecer pássaros com seus frutos e eles retribuem, dispersando-os e fazendo-a proliferar-se. Ela não é preconceituosa, é democrática, cresce onde seu fruto for depositado. É preciso arrancá-la logo que apareça, para que a sua hospedeira dela se livre. Seu mal feito é lento e inexorável, seus estragos são cruéis. Mas, para quem não a conhece é um enfeite. O florescimento intenso e o perfume agradável dificultam expor seu poder e sua extirpação. A aparência oculta-lhe a dependência de quem ela explora, porque ela não se basta, sem usurpação ela não existe.
            Este parasita, com suas dezenas de espécies, lembra o consumo desenfreado a cujo canto de sereia os seres humanos estão expostos e mantidos escravos. Escravos que o sustentam e de quem lhes são dependentes.  Excessos contaminam e misturam-se à estrutura da mente,  que acaba detectando apenas seu brilho e prazer. Promessas ilusórias proliferam incontroláveis na mídia e conquistam corações, modificam canais de percepção, mimetizam-se numa desejada forma escandente de viver. A partir deste ponto, difícil o retorno. Uma erva-de-passarinho mental difícil de arrancar, alimenta os que se aproximam e prolifera consumidores, confunde satisfazer necessidades com multiplicá-las  compulsivamente e vê-las como um inevitável modo de vida.
A diferença é que a erva-de-passarinho cumpre seu destino inevitável. O ser humano cria seu futuro.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Nas dobras do tempo

A casa já não estava lá.
Ao chegar, a mulher nem identificou o lugar. Tanto tempo passado. Uma barreira de edifícios fora erguida junto à calçada. Não conseguiu enxergar sequer o centro da quadra, mesmo contornando-a pelo lado direito, como fazia quando lá morava. Uma lembrança persistia: o entorno da casa, um pátio onde brincara com seu cachorro, uma parreira, hortas e um banhado coberto de copos-de-leite. No entanto, outra bordadura de edifícios impedia a confirmação do que deveria ter sumido. Chegou a duvidar que o quarteirão, onde havia vivido boa parte da sua infância e adolescência, fosse aquele.
Sentiu-se roubada. Foi tão confiante àquele lugar para mostrá-lo a seus parentes que tinham vindo de longe. Suas lembranças ficaram solitárias. Desejou tê-la fotografado. Não o fez, talvez, por achar que ela permaneceria para sempre. Perpetuar a casa era, de alguma forma, um desejo de permanência daquele tempo. Quem sabe, uma tentativa de driblar fantasmas.
Quando viu a casa pela última vez, alguns anos atrás, sequer pensou sobre o futuro dela, era um fato dado que ela permaneceria ali, à sua disposição, intacta. O seu desparecimento trouxe-lhe a sensação de um já visto, outros desaparecimentos nas dobras do tempo. Ela não existia mais, ou deixou de existir apenas para os seus olhos? Mãe, irmãos e ela, conheceram ali o desamparo com a morte do pai.  Naquele lugar, ela viveu os anseios da adolescência e os sonhos de um futuro que se mostrou radicalmente diverso, que a levou para longe, para outra cidade. A casa não existe mais, a rua recebeu calçamento e, talvez, apenas um ou outro prédio tenha sobrevivido.
O que ela desejava ao tentar rever onde morou? Folhar um álbum do passado? Alcançar o que já se havia ido sem que tivesse percebido? Uma dor insistente foi se definindo aos poucos, como na dissolução vagarosa do vapor sobre um espelho. No fim, a imagem que lhe está defronte. Uma mulher diante dos sofrimentos não chorados na pressa de seguir adiante. Uma mulher que queria olhar-se, mas não havia conseguido fazê-lo.
Necessitava encarar as repetidas dores que a acompanharam. Esgotá-las. Cortar as raízes que alimentavam essas dores. Guardar só as lembranças, despidas de tensões, alicerces e vigas de sua história. Só assim poderia entrar em nova casa.

sábado, 17 de dezembro de 2011

Fortes na ternura



Fortes, é o que elas são.
Como os cipós da floresta
Presos, permitem voos, liberdade.
O deserto na secura
E elas, os cactos enraizados
Generosos,  oferecem flores e sumo.
Juncos castigados pelo vento,
Dobrados até o chão,
Mas não quebrados,
Erguem-se e agitam-se ao céu,
Majestosos e verdejantes
Oferecem sombra e frescor.
Em rachaduras de velhas paredes,
Entre pedras das ruas e beiras  esquecidas,
Flores vicejam  e se oferecem indiferentes.
Têm espinhos, asperezas e calosidades,
Mágicas  vestes do amparo que sabem dar,
Cores e cheiros a encantar.
São as mulheres que teimam
Gritar e chorar desgraças,
Rir e partilhar vitórias, sonhos.
Resistir a cada instante,
No eterno gesto de agarrar
A vida triunfante
Feita abraço e aconchego.

Dedicado ao Grupo de Mulheres do MDCA - Movimento pelos Direitos da Criança e do Adolescente - Partenon/Porto Alegre

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Meu rio


No lugar onde nasci há um rio.
Como lembro do meu rio?
Largo e profundo
Águas frescas
Alguns trechos das margens
Cobertos por tapetes de seixos.
Ali tomávamos banho no verão,
Meu irmão, meus amigos.
Hoje, voltei.
As águas baixaram
Os seixos afloraram
E alargaram as margens,
Elas estreitaram as águas.
Ouvi dizer que as neves das montanhas
Estão desaparecendo
Não alimentam mais o rio.
Talvez, nem profundo seja mais.
O que o faz ainda meu rio?
A lembrança que tenho dele.