quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Os pulsares do recanto da lagoa


            A beleza do lugar dá-se a conhecer pouco a pouco.
O brilho do sol torna-se mais intenso ao toque das tantas nuanças das folhas que balançam preguiçosas. Há um tempo que se completa aí em cada instante. Um pulsar de cores e sons vai crescendo e, naquela hora da manhã em que a brisa se torna mais forte e pode-se ouvi-la, ela também refletida de verde, ao trespassar as ramagens. Um som delicado e contínuo como um sussurro de fundo ao cantar dos passarinhos. Eles brincam de esconde-esconde, ou em jogos de amor aos pares em voos frenéticos, com a urgência dos amantes, ou nas pausas para tocar o solo e alimentar-se de sementes e outros manjares invisíveis ao olhar humano.  Acasalando-se com o verde, enrodilhados nele, o branco, o fúcsia e o rosa das três-marias  despontam aqui e ali numa grande árvore orgulhosa de servir-lhe de sustentação em abraços coloridos.
A natureza generosa oferece araçás amarelos e vermelhos, jamelões e jabuticabas, que cobrem o solo, já que nem os humanos, nem os habitantes voadores não dão conta de comê-los. Gosto perdido de fruta recém colhida remete à infância. Um pulsar de cheiros e sabores em que a interferência humana se mostra também nos canteiros cultivados com a salsa, o alecrim e manjerona e parecem dizer que  tanto  mais ofereceriam, quanto as mãos quisessem plantar.
A grama reveste o solo e oferece a pés indiferentes uma maciez conseguida por incontáveis pequenas folhas aparadas e próximas uniformemente. Revela um pulsar de cuidados que faz nascer um verde homogêneo abraçando o contorno das árvores, da casa ao meio do terreno, dos canteiros, das pedras e dos caminhos, como se um pintor metódico houvesse derramado com cuidado uma tinta mágica e reluzente.
Uma caminhada de uns cinquenta metros une o lugar às margens da lagoa. Há um pulsar nas águas convidativas com seu ondular tranquilo, às vezes encrespadas ou levemente agitadas, dependendo dos caprichos do vento que igualmente lhe muda a cor predominantemente esverdeada. Tépidas e límpidas envolvem o corpo sem susto e permitem se encantar com os peixes, os juncos, os barcos, os mil efeitos na sua superfície. Os morros ao redor como colo materno a embalar a concha de diferentes pulsares da vida.
Tudo isso, no entanto, tem o sentido que o olhar e a ação humana lhes dão. Usufruir o que a natureza oferece numa harmonia que a preserve, desgastá-la como se fosse infinita, ignorá-la ou menosprezá-la. Tantos caminhos!

Esta é uma homenagem em agradecimento aos amigos Bia, Marcos, Vera e Niúra, que generosamente me possibilitaram estar neste lugar por alguns maravilhosos dias.

3 comentários:

  1. Pude te imaginar por lá experimentado diversos sentimentos, aproveitando cada momento. Pude me imaginar tendo estas sensacoes.

    Adorei o texo!!!

    Beijos!!

    Mauricio

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  2. Querida amiga do coração MARIA ROSA!

    Ao degustar tuas palavras, como se fossem um bom vinho, transportei-me para o nosso sul mais sul e (con)vivi estes momentos mágicos.
    Muito obrigado por partilhares bons momentos de vida com este gaudério que continua peleando em terras distantes, cada vez mais ao norte do BraZil.
    Graças a Deus o leito do rio acre já retornou para seu lugar habitual.
    Upa de luz e paz.
    José Ubirajara de Castro

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  3. Maria Rosa, descreves o lugar de forma tão extraordinária que fiquei com vontade de conhecê-lo. Cada vez mais me encanta a harmonia de cores e sons que a Natureza nos presenteia todo dia. Obrigada por compartilhares tuas emoções conosco, admiradores dos teus escritos.
    Bjs.
    Geni

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