quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Erva-de-passarinho

           
Fotografia de Luciano Rodrigues Soares - FloraRS


              Sua forma escandente lembra um “chorão”.
            A erva-de-passarinho enche os olhos, enfeita galhos,  confunde-se com a estrutura de copa  da planta hospedeira, desce com elegância do meio do verde e misturada  em abraços.
 Mostra-se vigorosa e saudável. Saudável ela é, o problema é que adoece quem ela parasita sem que pareça fazê-lo.  Alimenta-se do outro. Realiza sua condição de abastecer pássaros com seus frutos e eles retribuem, dispersando-os e fazendo-a proliferar-se. Ela não é preconceituosa, é democrática, cresce onde seu fruto for depositado. É preciso arrancá-la logo que apareça, para que a sua hospedeira dela se livre. Seu mal feito é lento e inexorável, seus estragos são cruéis. Mas, para quem não a conhece é um enfeite. O florescimento intenso e o perfume agradável dificultam expor seu poder e sua extirpação. A aparência oculta-lhe a dependência de quem ela explora, porque ela não se basta, sem usurpação ela não existe.
            Este parasita, com suas dezenas de espécies, lembra o consumo desenfreado a cujo canto de sereia os seres humanos estão expostos e mantidos escravos. Escravos que o sustentam e de quem lhes são dependentes.  Excessos contaminam e misturam-se à estrutura da mente,  que acaba detectando apenas seu brilho e prazer. Promessas ilusórias proliferam incontroláveis na mídia e conquistam corações, modificam canais de percepção, mimetizam-se numa desejada forma escandente de viver. A partir deste ponto, difícil o retorno. Uma erva-de-passarinho mental difícil de arrancar, alimenta os que se aproximam e prolifera consumidores, confunde satisfazer necessidades com multiplicá-las  compulsivamente e vê-las como um inevitável modo de vida.
A diferença é que a erva-de-passarinho cumpre seu destino inevitável. O ser humano cria seu futuro.

4 comentários:

  1. Mais uma vez recebi este texto como um nectar, capaz de me fazer (re)pensar o meu instante presente, para com isto me colocar na posição de alerta para refinar o olhar crítico do mundo a minha volta.
    Muito obrigado.
    Upa de luz e paz do teu eterno amigo

    José Ubirajara de Castro

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  2. Nota dez para a tua crônica. Parabéns. És porta voz daquilo que eu e muitas pessoas pensam,e te agradeço por isto.
    bjo
    Maureen

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  3. Gostei do texto, baseado nessa comparação pertinente entre o que determina a natureza
    e o que praticamos nós, com mesmo resultado
    predatório, com a diferença do uso do livre arbítrio que as plantinhas não possuem. Mais
    uma lição. Parabéns! (abraço da Scyla)

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  4. Oi rosa, maravilhoso e completamente de acordo com o que eu ando pensando. Obrigada! vera renner

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