domingo, 12 de julho de 2020

Não quero esquecer



Perdi a conta de quantas vezes tive esta sensação de incredulidade nos últimos quatro  ou cinco anos, especialmente nos últimos dezoito meses. A cada manhã faço a mesma pergunta: este pesadelo não terminou ainda?
            Desta vez, foram as palavras do novo ministro (minúsculo) da Educação no seu discurso de posse. A máxima deste senhor é de que é salutar infringir castigo físico a uma criança para corrigi-la. Mais ainda, ressaltou que ela precisa sentir dor para ter resultado neste ato de educar. E ainda, porque ela é incapaz de entender argumentos para ser convencida de algo. Isto é dito com o respaldo do presidente (também minúsculo) do país. Aquele senhor é religioso, foi reitor de universidade, professor, tem alguma carreira acadêmica.
            Não busco teorias para contrapor, existem muitas. Prefiro lembrar minha história, vasculhar nas minhas lembranças, o que ficou marcado.  Meus pais foram de uma geração em que bater nos filhos diante de uma desobediência era  inquestionável. Nunca sofri uma surra. Nas escolas em que estudei, o castigo físico jamais foi uma questão. Imagino que seria avaliada como uma cidadã de bem pelo atual ministro. Não me importo com a sua possível avaliação, apenas um raciocínio seguindo suas convicções.
            Perseguem-me imagens da situação das escolas públicas (deixarei de lado as particulares) sofrendo um longo e incessante processo de desestruturação nos seus recursos e dos seus professores. Recordo alguns testemunhos dos últimos anos sobre as dificuldades com alunos em situação de risco na própria família. Situação esta que deve ser vista a partir de um problema social e não como julgamento das ações dos pais. Recordo lamentos, porque algumas crianças só conheciam a linguagem da violência e o diálogo era muito difícil de estabelecer, um gesto de compreensão por parte do adulto era visto como fraqueza, a lei do enfrentamento estava arraigada como única forma de defesa.
Recordo da agitação das crianças recebidas por uma ong com a qual pude colaborar por um tempo. As questões que os educadores se faziam diante da dificuldade de estabelecer relações de confiança e de entendimento sobre o que elas mais necessitavam. Ali também, crianças em situação de risco e com dificuldades de concentração e aprendizagem.
Recordo histórias de pais desesperados por não conseguirem controlar os filhos e usarem a violência física para não os deixar cair nas mãos de traficantes. Única forma que viam para encaminhá-los para o caminho do bem. E não entendiam seu fracasso. Há incontáveis registros de trajetórias semelhantes. E outras tantas não registradas.
Recordo relatos sobre o modo violento com que são tratados jovens infratores reclusos. Única forma encontrada para controlá-los. Jamais vou esquecer o que uma assistente social falou um dia sobre a situação presenciada: “Aqueles jovens vivem no inferno”.
E o ministro da educação vem falar de aplicação de castigo físico para ensinar? Justo no lugar onde deveriam ser feitos os questionamentos sobre o que está ocorrendo com a educação. Por que não se perguntar sobre o mecanismo de produção da violência na nossa sociedade? Qual a origem? Como a violência perpassa todas as instituições, inclusive a escola? O que deveria ser feito para interromper esta máquina mortífera que é a violência? Ocorreu-me perguntar se ele foi educado da maneira que prega. Se acha que deu certo. E sobre o seu conceito de “dar certo”.
Não quero esquecer o discurso do ministro. Não quero que se torne mais uma sandice por parte de quem faz parte do governo do país e a ser relativizada. Quero ligar-me a narrativas que ajudem a encontrar o que de melhor há no ser humano. Quero reafirmar os caminhos da educação para produção de um ser humano capaz de ser poeta, cientista, astronauta, pai e mãe capazes de proteger seus filhos. Quero enaltecer os dizeres de poeta das ruas que pintava nos muros: “Gentileza gera gentileza”

sábado, 20 de junho de 2020

Não deveria ser assim




Os raios de sol que alcançavam a parede sul se encurtaram com o fim do verão. O outono chegou. Então, levei o vaso para o lado norte onde o sol ainda chega a entrar na sala. O verde do manjericão e da hortelã ficou mais vivo, e o perfume das folhas se espalha por ali.
Abril se foi. Neste mês, a sombra do espigão erguido a alguns metros começou a substituir a luz que chegava durante todo o dia. O tempo de sombra do edifício vai aumentando à medida que o outono avança. Maio também se foi. Estamos próximos do ápice: dia de solstício de inverno. E também do tamanho da sombra no nosso edifício. O sol nos alcança um tempo antes e um tempo depois de fazer sua rota atrás da enorme construção.
Gosto de pensar que ele parece pedir desculpas por nos abandonar justamente quando mais precisamos dele, enquanto ilumina o tempo todo aquele espigão. Mas não foi ele a decidir isso. A sua rota continua a mesma, derramando luz e calor indistintamente para todos. A sombra ficou ainda pior para as casas que ainda existem próximas e do lado sul. Elas ficam sem sol direto todo o inverno.
Gosto de pensar que vai começar o período em que o sol volta a iluminar nosso edifício um pouco mais a cada dia. No início nem se nota. É pouco a pouco, como quando o fomos perdendo. É todo ano assim. Ele volta sempre.
Não deveria ser assim. O espigão não seguiu o plano diretor na época de sua construção, tomou caminhos estranhos, embora legais. Com isso, privatizou-se a luz solar neste recorte da cidade.
Lembro que um grupo de moradores do bairro tentou bloquear a construção pelas vias legais, mas já era tarde. O mais triste é que muitos outros não quiseram participar da denúncia, nem de manifestações por escrito, nem de caminhadas pelas ruas próximas. Talvez uma grande mobilização pudesse ter feito a diferença. Talvez. Fica o fato de que a maioria ficou isolada em sua indiferença. Depois do acontecido ficaram queixas e a sensação de impotência. E a descrença em tudo. 
Existem muitos outros fatos dessa natureza pela cidade. São exemplos de como funciona cada um ficar resguardado no seu canto. Os motivos devem ser vários, mas acredito que o principal deve ser o medo do enfrentamento. Medo que advém de uma visão individual do que seja lutar por alguma coisa. A história nos mostra que os avanços sociais são resultados de muitas lutas. Muitas derrotas e algumas vitórias. Mas sempre de trajetórias com a mesma esperança e o mesmo objetivo.
Enquanto mantivermos nosso modo de viver assentado em consumismo intimamente ligado ao individualismo, ao egoísmo, e a diversos outros ismos, todos separatistas, não vejo como possam acontecer mudanças. São todas sombras das quais necessitamos emergir.
Resta a esperança de emergir nas manifestações, às vezes surgidas inesperadamente em diferentes lugares, e que se conectam em rede para gerar força na mesma direção. Que esta história se concretize com urgência.

quinta-feira, 11 de junho de 2020

Colorido um pouco desbotado




Isolamento. Pertenço a grupo de risco. Minha maior contribuição à sociedade é não adoecer, embora alguns gestores bem que gostariam que velho aposentado desaparecesse para, segundo eles, dar uma ajuda nas contas públicas.
O isolamento tem preço. Enquanto a angústia me cutuca pelas tragédias diárias no país, vou limpando aqui e acolá, conforme a vontade do momento. Uma peça por dia, devagar, vou cuidando de tudo.
Limpeza e arrumação são um jeito de cansar o corpo e despistar a tentação de abandonar-me num canto. Hoje, escolhi os enfeitas da prateleira da sala (coisa que não faço normalmente). São vários objetos acumulados ao longo dos anos. Na altura da vida em que me encontro, deixo para a diarista fazer. Neste período de pandemia, continuei pagando, mas pedi para que ficasse em casa como eu.
Limpar os objetos pequenos é uma tarefa demorada, alguns são delicados. Escovinha, pano macio, cotonetes, meus apetrechos. Todos tem valor afetivo. Concentro-me em cada um, mas alguns acabam me atraindo, não sou eu a escolhê-los. Um relógio de sol, em pedra sabão, encaixado num suporte (quando conheci Ouro Preto), uma ampulheta (presente na defesa de minha pesquisa sobre o tempo), algumas bolas que espalham neve quando agitadas e recobrem um pedaço de cidade ali encerrado (de diferentes lugares da Europa), uma bruxinha de cabeleira espevitada (presenteada por uma amiga, para me proteger, quando viajei para estudar fora). Todas lembranças prenhes de significados, porque por trás de cada uma existe história. Assim, vou me perdendo neste recanto protegido pelas recordações numa espécie de quarto de brinquedos onde posso ficar o tempo que quiser, escolhendo um ou outro, repetindo-os à vontade, no desejo de reviver de alguma forma momentos cheios de vida despreocupada.  
Detenho-me na estátua de porcelana. Tenho vontade de chamar de bibelô pela delicadeza do conjunto, mas a moça deve ter uns 25 centímetros de altura sobre uma base de mesma medida. Ela segura com uma mão um carrinho cheio de flores. Faz 19 anos que a recebi, na despedida de um longo período de estudo no exterior. Muitas vezes, vinha dela uma ponta de tristeza, porque perdi contato com quem me presenteou. Seu lugar era o canto esquerdo, sem alguma razão para a escolha. Foi colocada lá e lá permaneceu. Algumas vezes eu a olhei de raspão, como se costuma dizer, ao passar para ir para outro cômodo. Uma ou outra vez, perguntei-me se não estaria acumulando muita poeira com tantos detalhes, tantos relevos, tantas reentrâncias. Eram perguntas como fagulhas que logo apagam.
Devagar, com cuidado, passei a tirar a poeira das dobras do longo vestido, do franzido do avental, dos enfeites do chapéu, dos cabelos longos e encaracolados de um castanho claro suave. Passei às rosas, margaridas e pequenas flores do campo, num arranjo que transbordava o carrinho. O colorido já um pouco desbotado pelo tempo, mas em nuances que formavam um conjunto harmonioso de rosa, branco e lilás. Nesta passagem, intui estar entrando em mundos esquecidos, onde hibernam sentimentos colados a histórias de encantamento da minha infância. Princesas, bosques, montanhas, brincadeiras, cirandas, fantasias vestidas para cenas de teatro em férias de verão. Sem precisar qual história ou quando me foi contada, ou quando a li. Uma sensação no limiar entre estar dormindo e acordar. Um entremeio de passagem.
O tempo que dediquei a limpar a moça com carrinho cheio de flores me conectou com aquele espaço de alegrias, de expectativas, de sonhos vividos lá atrás na linha de tempo de minha própria história.
Deixei o rosto da moça para o final. Ela olha para cima, braço direito livre e erguido na mesma direção do olhar que brilha. O brilho me surpreendeu. Depois de tantos anos. Não lembro de ter reparado nele. Talvez eu não precisasse ver antes. Este brilho não fez ponte com o passado. Fez-me pensar no presente e no futuro. Fez-me pensar em tudo o que fiz e vivi para chegar até aqui e remeteu-me à necessidade de largar tristezas e desesperanças.
Lembrei-me de alguém me dizer um dia: o mundo não é como gostaríamos, temos de achar o nosso modo de viver nele. Nos últimos tempos, tem sido muito difícil achar esse modo para qualquer um que enxergue os rumos que vem tomando o país. A cada manhã encontramos notícias do desmantelamento das nossas instituições e da perda de direitos.
Ausentar-me do presente por alguns minutos foi providencial. Fazê-lo junto a referências de etapas de minha história não pode ter sido casualidade.  O que limpei foi muito mais do que a poeira, talvez outra poeira etérea e asfixiante.  Teve o poder de me fazer enfrentar medos escondidos. Sei que outros virão, terei que continuar limpando, porque não há possibilidade de retorno.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Cuidem das crianças


As palavras de Fernanda Montenegro ditas alguns anos atrás teimam em surgir cada vez mais seguido. O triste de envelhecer é ir perdendo um a um os amigos e, com eles, as memórias, disse mais ou menos assim numa entrevista.
Além de perder os amigos, vão-se perdendo também pessoas que foram marcos na história do país. A proximidade com muitas delas não pertence ao círculo de amizade, mas a uma dimensão igualmente importante e fundamental na construção da identidade de uma geração. São símbolos luminosos de épocas importantes da história. Épocas de sofrimentos e de esperanças. E elas traduziram esses tempos com suas próprias criações. E os marcaram com músicas, com filmes, com peças de teatro. E foram se incorporando à superação de períodos dolorosos e à conquista de um pedaço de caminho em direção à realização de esperanças.
De repente, em poucos anos, perdemos esse pedaço de caminho, entramos num túnel que nos tritura e não vemos luz à frente. Caminhamos quase sem fôlego. Então, para tornar essa caminhada ainda mais difícil, sabemos da morte de uma dessas referências do passado. A lista está ficando longa e pesada.
Nos últimos dias, perdemos Aldir Blanc. Morreu pelo covid19, poderia não ter morrido, nem chegara aos oitenta anos. Hoje, é possível viver muito mais. Ele escreveu uma das canções mais importantes a marcar a história do país: O bêbado e o Equilibrista. Ele é um ícone da resistência do povo brasileiro à brutalidade e à injustiça.
Há tempos recolhido, Flávio Migliaccio também se foi. Artista inesquecível, também representou uma época de luta por um país melhor. Sua atuação encantou muita gente. Ele resolveu sair de cena por vontade própria. Não suportou os rumos do país. O sofrimento o venceu, acreditou que não valeu a pena ter vivido para ver o que está acontecendo no país.
Dois exemplos perdidos, dentre os muitos da mesma geração, que outros estão  testemunhando. Envelhecer é também isto. Ser testemunha.
Um jovem pede desculpas num vídeo, porque a geração dele também fracassou como aquela de Lima Duarte e Flávio Migliaccio. Diante de tudo o que aconteceu no passado e, mesmo assim, muitos não aprenderam nada. Considera que está em nós a realização do fracasso, apesar de tanta gente ter lutado por um mundo melhor. Está em nós o bem e o mal. E deixamos que o mal fosse mais forte. Ele não citou, mas existem muitas narrativas que o respaldam.
Então lembro as palavras de um grande escritor: Mia Couto. Perguntado sobre as previsões de um mundo mais solidário após esta pandemia, ele não se mostrou esperançoso. Em síntese expressou o temor de que, se as condições existentes de embrutecimento do ser humano continuarem, não poderão ocorrer mudanças. É necessário mudar nosso modo de vida, caso contrário produziremos subjetividades que seguirão no mesmo caminho, sem aprender com o que está acontecendo. Em alguns lugares, talvez saiamos ainda piores, há quem preveja com pesar.
Por onde começar? Volto às palavras de Migliaccio na sua carta de despedida: cuidem das crianças. Quem cuidará das crianças? Quem puder, faça-o mais e melhor do que já o fez.


domingo, 3 de maio de 2020

Inaceitável é a injustiça (Na redoma 3)




Há um limite para suportar sentimentos dolorosos. Quando soa o alarme no sono agitado, no corpo que se recusa a obedecer, na sensação de impotência, volto-me para o que me ampara e ajuda a resistir ao que está posto.
Além das notícias ruins sobre as quais não tenho poder, cruzam as fronteiras da redoma energias boas, como gosto de chamar. Para minha sorte. Vem de outras redomas ou de espaços que não se podem fechar, porque necessários à sua própria sobrevivência. E sustentam a sobrevivência dos outros. E a minha. E fazem contraponto à intrusão da impotência, erguendo-se com a sua própria potência.
Uma vez por semana, recebo verduras e legumes orgânicos de assentamentos. Há amigos meus lá. Recebo cada sacola com gratidão. Sei quanto mais têm que trabalhar nas novas condições, mas não vejo desânimo no rosto curtido pelo sol, nem no olhar determinado que a máscara não oculta, nem nos gestos firmes. Guardo conversas anteriores, na feira que ocorria às quartas na esquina de casa. A consciência e o orgulho do que são e da importância do que fazem lhes dá uma força singular. Respeito, admiração amizade me unem a eles.
O celular também ajuda muito, apesar das contradições que seu uso produz. Angustia-me com as notícias, mas é o cabo que rompe parte do meu isolamento.
Ele traz a voz da neta maior com um assunto que emenda no outro, fazendo-me partícipe do tempo que ela também tem de viver diferente. Com suas palavras vem também afeto. Na tela vejo meus netos em situações corriqueiras que fazem toda a diferença no tempo atual. Recebo vídeos com macaquices, fotos e desenhos de um e de outro. Mando-lhes gravações de voz e em vídeos. Recebo opiniões do meu neto maior sobre meus textos do blog. Encanto-me com o que ele diz.
Através do whatsapp, encontro-me com amigos. Descubro uma nova poeta (para mim) com palavras entrelaçadas em ritmos suaves ou explosivos, dependendo do que quer lançar ao mundo. Recebo seu primeiro livro solo. Conheço as mãos criativas de uma artesã, encomendo-lhe uma boneca para a neta menor.  A Pascoa não precisou do supermercado. Uma mulher habilidosa ajudou-me a presentear os netos com chocolates saborosíssimos.
Meus filhos conseguem enfrentar a situação de maneiras diversas. Um deles providencia o que preciso do supermercado. Poupa-me saídas. Torço por eles.
Tenho o conforto de internet e contas bancárias (mesmo que reduzidas). Posso encomendar medicamentos e produtos, pagando on-line. Inclusive posso ajudar algumas pessoas, utilizando o teclado do computador. Meu risco de contágio é mínimo. Estão arriscando os muitos rapazes que transportam as mercadorias pelas ruas. E toda a rede de pessoas que ainda podem e devem trabalhar para produzir e fazer circular os produtos que chegam aos que respeitam a quarentena.
Não há como queixar-se. Pelo contrário, agradeço todos os dias o que tenho. Quando algum lamento teima em me mostrar o que estou perdendo, faço-a calar. Inaceitável é a injustiça de muitos não terem o mínimo para se proteger dessa pandemia.

domingo, 26 de abril de 2020

A pergunta de Levi (Na redoma2)




Ouvi o arquiteto Stefano Boeri afirmar em entrevista que procura viver o isolamento de forma a não sentir que perdeu tempo, quando este período terminar.
Continuo confinada e também não quero perder esse tempo. A guerra do coronavírus continua. À sua sombra ocorre outra, a da informação. Então, procuro lidar da melhor maneira com as horas às vezes pesadas e com o que me chega de fora.
Alcançam-me dados esparsos de diferentes noticiários, jornais, sites, a maioria independentes. As informações oficiais são postas em dúvida. O silêncio do atual Ministro da Saúde é ensurdecedor.
Recorro à literatura para fazer do meu tempo um terreno onde semeio. A redoma em que estou tem que ser uma estufa onde plantas frágeis se desenvolvem. Não uma gaiola onde pássaros sonoros deixam de cantar.
Leio e relembro. Primo Levi narra de uma maneira tremendamente dolorosa o que ocorria no campo de concentração. Um preso disputava qualquer coisa para comer. Às vezes, uma casca de batata, porque ela poderia significar ter mais algumas horas de vida. E a disputava com todas as suas forças. Naquele momento nada mais importava. Talvez fosse sua última chance de se salvar. O outro não existia, como não existia principalmente para o algoz.  Levi foi dos poucos sobreviventes, e sua terrível experiência o fez perguntar mais tarde: É isso um homem? Anos depois pagou um preço caro por ter continuado a viver, apesar de tudo.
            As narrativas do momento sobre a situação mundial dizem que estamos à beira de um colapso nunca experimentado, mesmo que alguns insanos o neguem. Somos atingidos por um vírus agressivo e grande parte da população encontra-se na miséria. Há quem tenha banalizado a morte anunciada dos mais frágeis: pobres, velhos e doentes. Seres humanos que poderão cair diante da indiferença de quem tem a obrigação de protegê-los. Numa lógica de guerra, há quem tenha se referido a eles como perda inevitável, para justificar a negação de isolamento social.
No nosso país, a situação é particularmente cruel e inacreditável. Somos governados por um grupo temerário. Parte dos apoiadores refletem suas ideias e ações. Alguns deles, tão ou mais cruéis e insanos, pedem de dentro de seus carros a abertura dos negócios. Outros vão às ruas sem proteção, repetindo a leviandade de seu líder. Este continua a dizer disparates criticados no mundo inteiro. O ministro da Economia não quer gastar demais. O ministro da Saúde, que tentava dar um rumo correto para lidar com o contágio que se está espalhando pelo país, foi demitido. O atual resolveu não mais falar à imprensa, mas já se declarou contrário à compra de muitos respiradores, porque perdem seu uso após a pandemia. A negação do perigo é seu mantra. Felizmente, existe desobediência em nível estadual e municipal.
De todo modo, continuam banalizando os campos de concentração existentes hoje. No país, são aqueles onde o Estado não está presente. São os bolsões de miséria que não têm infraestrutura sanitária, moradia adequada, trabalho, água potável, segurança. Mesmo que estejam próximos a espaços e gentes com todas as condições necessárias para se defender dignamente. Não são delimitados por cercas de arame farpado, nem por guardas armados, mas pelo abandono e pela inanição.
Por isso, a pergunta de Levi continua atual. Mas não deve ser feita para a população presa às condições em que vive, e no meio da qual podem explodir atos extremos. Ela tem que ser feita para aqueles que têm poder de interferir e mudar a realidade e não o fazem.
Responder àquela pergunta talvez possa ajudar a usar bem o tempo de isolamento. E a reagir às arbitrariedades inaceitáveis.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Papoulas e margaridas (na redoma 1)




Testemunho a história sob a redoma do meu confinamento. Ela é trespassada pelas notícias que chegam via web. Não é a mesma coisa que estar circulando pela cidade sob a direção dos meus interesses ou do acaso. Dizem que o acaso não existe, só se mostra se temos olhos e ouvidos para encontrá-lo. Talvez. De qualquer forma, ele oferece muitas vezes visões singulares do cotidiano que teimamos em consumir com pressa.
                Na ausência de contato com o mundo físico, o tempo muda o ritmo, as lembranças substituem o acaso e a música toma lugar cada vez mais no espaço reduzido do confinamento.
Hoje ouvi várias vezes a mesma, de De André: “Dormi sepolto in un campo di grano / Non è la rosa non è il tulipano”, A  imagem do soldado lembrado pelo cantor produz uma dor que atrai lembrança de tantos outros jovens mandados ao sacrifício numa Europa devastada. Sempre eles, na primeira leva. A juventude que teria toda a vida pela frente, mas alguém decide o contrário. O soldado imortalizado pelo cantor simboliza todos os jovens esquecidos e sepultados nos campos de batalha: “Che ti fan veglia dall'ombra dei fossi / Ma sono mille papaveri rossi”. A imagem das papoulas vermelhas das brincadeiras de infância é entristecida pela tragédia das mortes inúteis para as quais aquelas flores são o único sinal de companhia.
Eis que somos atingidos por outra guerra. Uma guerra identificada com outras em séculos anteriores. Relativizada e menosprezada, já sabíamos como enfrentá-la. O progresso no atual estágio, com sua potência na medicina e nas tecnologias, enfrentaria o novo vírus com rapidez e eficiência. Mas ele se fez mais veloz em desmontar as certezas existentes. A ciência teve que se curvar e admitir que não o conhece suficientemente. É um novo inimigo, há que se estudar, pesquisar, experimentar. Com o que existe não se consegue derrotá-lo.
A música continua e mimetiza o que o mundo vive agora. “Sparagli Piero, sparagli ora / E dopo un colpo sparagli ancora / Fino a che tu non lo vedrai exangue / Cadere in terra a coprire il suo sangue.” É preciso atingir o inimigo de hoje, quantas vezes for necessário, aniquilá-lo em cada corpo humano, isolá-lo para abatê-lo. Foram convocados os soldados. E eles responderam prontamente como nas outras guerras. Mas, seu fardamento é outro, não mais verde oliva, mas branco. Logo se viu que não existiam as armas apropriadas e necessárias. Logo, muitos foram abatidos nas trincheiras dos hospitais junto a seus pacientes. Como Piero, muitos caíram sem pensar que poderiam sucumbir e sem lamentar-se “Cadesti in terra senza un lamento”. E outros mais o serão. Outros soldados, os mais necessitados, colhidos nas suas fragilidades, sem defesas, serão outra presa fácil.
Logo se viu que esta guerra será longa. E não será igual para todos, embora atinja a todos. As reações dos governos dos países atingidos são diversas. Uns foram atacados primeiro, tardaram a se equipar, tiveram perdas maiores. Outros beiraram a loucura da negação do que estava acontecendo, mas renderam-se e mudaram o roteiro.
No Brasil, no entanto, o caminho é lamentavelmente inusitado. Temos um presidente inclassificável na sua teimosia em ignorar as leis, a ciência, as informações de todos os cantos do mundo; de fazer do seu mandato uma chacrinha de quintal com seus três filhos; de tratar os que dele divergem com crueldade perversa; e de arregimentar apoiadores na base de mentiras e parvoíces que fazem eco em parte de semelhantes espalhados pelo país. Não parece haver lucidez em algum ponto de sua equipe. O único colaborador, que ousou de algum modo encarar de modo profissional a pandemia no país, foi descartado. Sem surpresa.
Qual música será composta quando tudo isso terminar? Será um dos nossos grandes compositores ou um dos talentosos rappers de periferia a criá-la? Quais palavras lamentarão a estupidez desta guerra? Onde serão enterrados os seus mortos? Serão extensos os campos sem ninguém a lhe fazer vigília. De novo, serão as flores a testemunhar sua morte. Mas não serão papoulas. No nosso clima, talvez sejam margaridas. Brancas. Amarelas. Mas as dores serão iguais, apenas multiplicadas.