Testemunho a
história sob a redoma do meu confinamento. Ela é trespassada pelas notícias que
chegam via web. Não é a mesma coisa que estar circulando pela cidade sob a
direção dos meus interesses ou do acaso. Dizem que o acaso não existe, só se
mostra se temos olhos e ouvidos para encontrá-lo. Talvez. De qualquer forma,
ele oferece muitas vezes visões singulares do cotidiano que teimamos em consumir
com pressa.
Na
ausência de contato com o mundo físico, o tempo muda o ritmo, as lembranças substituem
o acaso e a música toma lugar cada vez mais no espaço reduzido do confinamento.
Hoje ouvi várias
vezes a mesma, de De André: “Dormi
sepolto in un campo di grano / Non è la rosa non è il tulipano”, A imagem do soldado lembrado pelo cantor produz
uma dor que atrai lembrança de tantos outros jovens mandados ao sacrifício numa
Europa devastada. Sempre eles, na primeira leva. A juventude que teria toda a
vida pela frente, mas alguém decide o contrário. O soldado imortalizado pelo
cantor simboliza todos os jovens esquecidos e sepultados nos campos de batalha:
“Che ti fan veglia dall'ombra dei fossi /
Ma sono mille papaveri rossi”. A imagem das papoulas vermelhas das
brincadeiras de infância é entristecida pela tragédia das mortes inúteis para
as quais aquelas flores são o único sinal de companhia.
Eis que somos
atingidos por outra guerra. Uma guerra identificada com outras em séculos
anteriores. Relativizada e menosprezada, já sabíamos como enfrentá-la. O
progresso no atual estágio, com sua potência na medicina e nas tecnologias,
enfrentaria o novo vírus com rapidez e eficiência. Mas ele se fez mais veloz em
desmontar as certezas existentes. A ciência teve que se curvar e admitir que
não o conhece suficientemente. É um novo inimigo, há que se estudar, pesquisar,
experimentar. Com o que existe não se consegue derrotá-lo.
A música
continua e mimetiza o que o mundo vive agora. “Sparagli Piero, sparagli ora / E dopo un colpo sparagli ancora / Fino
a che tu non lo vedrai exangue / Cadere in terra a coprire il suo sangue.”
É preciso atingir o inimigo de hoje, quantas vezes for necessário, aniquilá-lo
em cada corpo humano, isolá-lo para abatê-lo. Foram convocados os soldados. E
eles responderam prontamente como nas outras guerras. Mas, seu fardamento é
outro, não mais verde oliva, mas branco. Logo se viu que não existiam as armas
apropriadas e necessárias. Logo, muitos foram abatidos nas trincheiras dos
hospitais junto a seus pacientes. Como Piero, muitos caíram sem pensar que
poderiam sucumbir e sem lamentar-se “Cadesti
in terra senza un lamento”. E outros mais o serão. Outros soldados, os mais
necessitados, colhidos nas suas fragilidades, sem defesas, serão outra presa
fácil.
Logo se viu que
esta guerra será longa. E não será igual para todos, embora atinja a todos. As
reações dos governos dos países atingidos são diversas. Uns foram atacados
primeiro, tardaram a se equipar, tiveram perdas maiores. Outros beiraram a
loucura da negação do que estava acontecendo, mas renderam-se e mudaram o
roteiro.
No Brasil, no
entanto, o caminho é lamentavelmente inusitado. Temos um presidente
inclassificável na sua teimosia em ignorar as leis, a ciência, as informações
de todos os cantos do mundo; de fazer do seu mandato uma chacrinha de quintal
com seus três filhos; de tratar os que dele divergem com crueldade perversa; e de
arregimentar apoiadores na base de mentiras e parvoíces que fazem eco em parte
de semelhantes espalhados pelo país. Não parece haver lucidez em algum ponto de
sua equipe. O único colaborador, que ousou de algum modo encarar de modo
profissional a pandemia no país, foi descartado. Sem surpresa.
Qual música será
composta quando tudo isso terminar? Será um dos nossos grandes compositores ou
um dos talentosos rappers de periferia a criá-la? Quais palavras lamentarão a
estupidez desta guerra? Onde serão enterrados os seus mortos? Serão extensos os
campos sem ninguém a lhe fazer vigília. De novo, serão as flores a testemunhar
sua morte. Mas não serão papoulas. No nosso clima, talvez sejam margaridas.
Brancas. Amarelas. Mas as dores serão iguais, apenas multiplicadas.
Vivemos um tempo muito difícil no mundo e em especial no nosso país.
ResponderExcluirMas não nos roubarão a esperança, nem a nossa mente.
Um texto que mostra, com poesia e sensibilidade, a fragilidade humana quando nas mãos do poder. Quando "lembranças substituem o acaso", quando nosso tempo não conta mais, está parado. A metáfora do soldado com os profissionais da saúde é emocionante: vestidos não de verde-oliva, mas de branco "sem armas apropriadas". E as perguntas finais. Serão respondidas? Lamento, mas acho que não. Um grande e amoroso abraço
ResponderExcluirOnde serão enterrados seus mortos ?
ResponderExcluirNossos mortos ?
Forte.😢
As papoulas sempre presentes, aqui as margaridas... triste e bonita imagem.
ResponderExcluirCarinho querida amiga.
TB vejo um imenso e desolador campo de batalha dos profissionais da saúde tentando salvar vidas! Nesta guerra pela vida faltam as armas adequadas. Faltam as armas! Onde estão os equipamentos necessarios? Onde esta o capitão para dar as boas notícias? Te parabenizo querida professora e escritora por transcrever de maneira corajosa seus sentimentos! Bjs
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