segunda-feira, 20 de abril de 2020

Papoulas e margaridas (na redoma 1)




Testemunho a história sob a redoma do meu confinamento. Ela é trespassada pelas notícias que chegam via web. Não é a mesma coisa que estar circulando pela cidade sob a direção dos meus interesses ou do acaso. Dizem que o acaso não existe, só se mostra se temos olhos e ouvidos para encontrá-lo. Talvez. De qualquer forma, ele oferece muitas vezes visões singulares do cotidiano que teimamos em consumir com pressa.
                Na ausência de contato com o mundo físico, o tempo muda o ritmo, as lembranças substituem o acaso e a música toma lugar cada vez mais no espaço reduzido do confinamento.
Hoje ouvi várias vezes a mesma, de De André: “Dormi sepolto in un campo di grano / Non è la rosa non è il tulipano”, A  imagem do soldado lembrado pelo cantor produz uma dor que atrai lembrança de tantos outros jovens mandados ao sacrifício numa Europa devastada. Sempre eles, na primeira leva. A juventude que teria toda a vida pela frente, mas alguém decide o contrário. O soldado imortalizado pelo cantor simboliza todos os jovens esquecidos e sepultados nos campos de batalha: “Che ti fan veglia dall'ombra dei fossi / Ma sono mille papaveri rossi”. A imagem das papoulas vermelhas das brincadeiras de infância é entristecida pela tragédia das mortes inúteis para as quais aquelas flores são o único sinal de companhia.
Eis que somos atingidos por outra guerra. Uma guerra identificada com outras em séculos anteriores. Relativizada e menosprezada, já sabíamos como enfrentá-la. O progresso no atual estágio, com sua potência na medicina e nas tecnologias, enfrentaria o novo vírus com rapidez e eficiência. Mas ele se fez mais veloz em desmontar as certezas existentes. A ciência teve que se curvar e admitir que não o conhece suficientemente. É um novo inimigo, há que se estudar, pesquisar, experimentar. Com o que existe não se consegue derrotá-lo.
A música continua e mimetiza o que o mundo vive agora. “Sparagli Piero, sparagli ora / E dopo un colpo sparagli ancora / Fino a che tu non lo vedrai exangue / Cadere in terra a coprire il suo sangue.” É preciso atingir o inimigo de hoje, quantas vezes for necessário, aniquilá-lo em cada corpo humano, isolá-lo para abatê-lo. Foram convocados os soldados. E eles responderam prontamente como nas outras guerras. Mas, seu fardamento é outro, não mais verde oliva, mas branco. Logo se viu que não existiam as armas apropriadas e necessárias. Logo, muitos foram abatidos nas trincheiras dos hospitais junto a seus pacientes. Como Piero, muitos caíram sem pensar que poderiam sucumbir e sem lamentar-se “Cadesti in terra senza un lamento”. E outros mais o serão. Outros soldados, os mais necessitados, colhidos nas suas fragilidades, sem defesas, serão outra presa fácil.
Logo se viu que esta guerra será longa. E não será igual para todos, embora atinja a todos. As reações dos governos dos países atingidos são diversas. Uns foram atacados primeiro, tardaram a se equipar, tiveram perdas maiores. Outros beiraram a loucura da negação do que estava acontecendo, mas renderam-se e mudaram o roteiro.
No Brasil, no entanto, o caminho é lamentavelmente inusitado. Temos um presidente inclassificável na sua teimosia em ignorar as leis, a ciência, as informações de todos os cantos do mundo; de fazer do seu mandato uma chacrinha de quintal com seus três filhos; de tratar os que dele divergem com crueldade perversa; e de arregimentar apoiadores na base de mentiras e parvoíces que fazem eco em parte de semelhantes espalhados pelo país. Não parece haver lucidez em algum ponto de sua equipe. O único colaborador, que ousou de algum modo encarar de modo profissional a pandemia no país, foi descartado. Sem surpresa.
Qual música será composta quando tudo isso terminar? Será um dos nossos grandes compositores ou um dos talentosos rappers de periferia a criá-la? Quais palavras lamentarão a estupidez desta guerra? Onde serão enterrados os seus mortos? Serão extensos os campos sem ninguém a lhe fazer vigília. De novo, serão as flores a testemunhar sua morte. Mas não serão papoulas. No nosso clima, talvez sejam margaridas. Brancas. Amarelas. Mas as dores serão iguais, apenas multiplicadas.







5 comentários:

  1. Vivemos um tempo muito difícil no mundo e em especial no nosso país.
    Mas não nos roubarão a esperança, nem a nossa mente.

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  2. Um texto que mostra, com poesia e sensibilidade, a fragilidade humana quando nas mãos do poder. Quando "lembranças substituem o acaso", quando nosso tempo não conta mais, está parado. A metáfora do soldado com os profissionais da saúde é emocionante: vestidos não de verde-oliva, mas de branco "sem armas apropriadas". E as perguntas finais. Serão respondidas? Lamento, mas acho que não. Um grande e amoroso abraço

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  3. Onde serão enterrados seus mortos ?
    Nossos mortos ?
    Forte.😢

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  4. As papoulas sempre presentes, aqui as margaridas... triste e bonita imagem.
    Carinho querida amiga.

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  5. TB vejo um imenso e desolador campo de batalha dos profissionais da saúde tentando salvar vidas! Nesta guerra pela vida faltam as armas adequadas. Faltam as armas! Onde estão os equipamentos necessarios? Onde esta o capitão para dar as boas notícias? Te parabenizo querida professora e escritora por transcrever de maneira corajosa seus sentimentos! Bjs

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