sábado, 14 de março de 2020

Botar o pé na porta



            Fui para o encontro com algumas expectativas: Mulheres artistas: questões atuais – Interseccionalidade. Não conhecia as palestrantes.
Os feminicídios continuam nas notícias diárias, acusando uma situação que nenhum progresso científico conseguiu mudar. É muito duro presenciar tudo isso, não apenas por ser mulher, mas por ser parte da humanidade, neste momento tremendamente insana e cruel.
Mulheres artistas, um chamamento duplo, porque associo mulher e artista a uma abertura maior à criatividade e às questões do mundo. Quando governos ditatoriais se instalam, a classe artística é uma das primeiras a serem reprimidas. As mulheres têm sido sempre reprimidas e em primeiro lugar.
Questões atuais, isto me anuncia encontrar fontes para alimentar as esperanças que ainda tenho. Sinto-me num liquidificador a cada vez que acesso as últimas notícias. Rodopio em giros de palavras grotescas e em ideias vergonhosas. Sofro num labirinto do qual não consigo sair. Busco brechas nos muros que incessantemente são levantados.
Por fim, Intersccionalidade, palavra que não circula desenvolta nas conversas diárias, mas sugere novas conexões. Principalmente novas. Misturo desejo e especulações sobre o tema enquanto aguardo as falas.
            Pouco a pouco  as três palestrantes me oferecem percursos de mulheres e rede de proteção, mulheres e sexualidade, mulheres e gênero, mulheres e escrita, mulheres e formação intelectual, mulheres e angústia, mulheres e submissão, mulheres e esperança, mulheres e protagonismo. Histórias de mulheres. Algumas das incontáveis que constroem a história. A expansão do espaço e tempo em que as mulheres se mostram, se afirmam, se dizem mulheres, se protegem. Lutam.
            Há, no entanto, uma bifurcação nas narrativas.
Duas mulheres falam de experiências fortes dentro de um mundo predominantemente de pele branca. Suas lutas e desafios soam conhecidos, ampliam histórias, criam empatia, mas não sacodem o já sabido.
As outras duas mulheres, que falam por último, no entanto, funcionam como um ímã para onde minha atenção se expande. Suas histórias têm a ver com o que foi dito pelas antecessoras, mas há nelas um tempo e um espaço que não se regem pelas mesmas medidas. Contam-nos de lutas por cotas nas universidades, por um lugar social ainda não conquistado, por um redobrado esforço por qualquer direito. Um poema, declamado com a emoção saindo de cada poro, uma poeta nos escancarou tantas coisas, mas resumo na frase: “Eu sou uma mulher negra vinte e quatro horas por dia”.
Estas mulheres, todas artistas, mostraram interseccionalidade entre as várias questões. Mas ser negra marca seu lugar primevo, mesmo que a escravidão tenha sido abolida há mais de cem anos. Sua origem marca-a antes de qualquer reivindicação.
As lutas destas mulheres, que é minha, precisa incorporar todas as lutas diferenciadas dentro delas. Há diferenças que exigem voz para se juntar a uma voz mais potente. As mulheres negras ali representadas escancararam que, para se fazer ouvir, têm que botar o pé na porta antes de tudo. Haverá um “botar o pé na porta antes de tudo” também para outras vozes.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Estarei aqui



            Não tive vontade de escapar deste mundo até pouco tempo atrás. Não é questão de idade. Não é questão de depressão. Encaro bem os anos vividos, vejo-me até privilegiada dadas as condições em que me encontro. Muitas vezes fiquei triste e encolhida diante do presencio e ouço. É o preço que pago por continuar vivendo, digo a mim mesma. Alegro-me com o que tenho, com um prato de massa al dente ou um aroma de flores (coisa rara numa cidade grande) ou uma gentileza na fila do supermercado ou no ônibus. Sou profundamente agradecida por isso, e por todas as pequenas manifestações cordiais testemunhadas em minhas andanças pela cidade no dia a dia.
No entanto, a profusão de acontecimentos ignóbeis no meu entorno e no país – sem falar na situação mundial –, nos últimos tempos, estão se apresentando em tal volume que conseguiram sacudir e rachar minha confiança na humanidade. A vida se encarregou de destruir a certeza de que o bem vence o mal, construída através da leitura das histórias em quadrinhos de minha infância. Troquei a certeza pela esperança, mas hoje, ela está tão desnutrida que, se pudesse, voltaria àquele tempo dos heróis que vencem sempre. Bobagem, digo-me, não tem retorno. Naquela época eu tinha medos e ansiedade por outros motivos. Eu sei.
            Junto às questões sem resposta que me tenho colocado, emerge um sentimento de impotência que me faz estrangeira por onde ando. Momentos de suspensão deste sentimento corrosivo são os que convivo com meus netos. É onde me sinto útil enquanto ajudo os pais a protegê-los e a amá-los. Dois atos fundamentais para que cresçam da melhor forma possível. Eis que, um dia, no espaço de uma conversa da qual nem lembro, meu neto de oito anos perguntou: “Tu vai tá aqui quando eu tiver um filho, vó?” Ele me pegou tão de surpresa que só respondi: “Acho que não”.
Só depois que ele foi embora é que a pergunta voltou. Feitas as contas, há possibilidades matemáticas, mas minha longevidade não é só uma questão de números. Minha negativa talvez estivesse associada a uma questão de resistir ao esfacelamento do mundo globalizado que testemunho. A minha geração apostou na interferência política, mas esta foi tragada pelo poder econômico. O mundo que vejo e no qual já vivi a maior parte do meu tempo mostra progresso geométrico incrível. A medicina cura, a engenharia constrói obras fantásticas, a indústria lança novos produtos em tempo recorde, máquinas cada vez mais sofisticadas oferecem mais e mais conforto, estamos a um passo da comercialização de robôs para afazeres domésticos, a astronomia desvenda os segredos do universo. Tudo isso, no entanto, para uma minoria. Como a história nos mostra, as beiradas estão sempre distantes apesar de próximas. Inatingidas, desprezadas. Apesar de todo avanço científico, milhões de seres humanos continuam a não ter acesso sequer à agua potável, quando temos casas inteligentes onde o chuveiro lança seu jato por um simples gesto de erguer a mão. Milhões não sabem o que é uma rede de esgotos, enquanto outros nem precisam mais premer o botão da descarga do seu vaso sanitário.
 Lutei de diferentes maneiras para que o mundo fosse melhor. E não vejo que isso esteja acontecendo. Não sei o que faltou para a minha geração fazer, foi feito o possível e não foi suficiente.  Hoje, aposto nas lutas das mulheres, dos trabalhadores, dos intelectuais, de todos os considerados diferentes pelos que se acham a referência do bem. Aposto também que encontrarão novas formas de fazê-lo. O que mais tenho feito é apostar. É minha maneira de seguir a vida.
Então, mesmo com a perspectiva de um mundo instável, com temor pelos meus netos e por todos os netos do mundo, admito o desejo de receber e abraçar um bisneto. No equilíbrio instável de querer abandonar este mundo que se desagrega, e a aposta na renovação da vida com todas as suas possibilidades, respondo a meu neto: se depender de mim, estarei aqui.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Bombas ou fogos de artifício


Vejo um pai que ri com sua filha, uma menina de poucos anos. No fundo ouve-se a explosão de bombas?  Pai e filha falam uma língua diversa da minha, mas pode-se compreender a cumplicidade entre eles e sua alegria. A explicação vem em off: o pai diz à menina que ouvem fogos de artifício, antecipa-lhe a chegada dos sons e, quando chegam, riem. O pai sabe que há uma guerra lá fora e o que ocorre próximo a eles. Aquele pai faz sua filhinha brincar despreocupadamente como tem direito de o fazer. Distancia a criança da tragédia que os está engolindo. Talvez, por poucos instantes.
            Esta cena me acompanha durante dias e me deixa desacomodada, incrédula, admirada. Vejo aquele pai protegendo sua filha como pode. O pouco que pode é tudo, brinca com ela, deixa-a alegre. A cena tira-me da zona de desesperança em que me encontro, me faz pensar. Como é possível descolar-se de um perigo tão grande como a morte próxima, e criar uma fantasia de vida?
            Todas as manhãs, caio em meio à explosão de bombas. Notícias locais e nacionais me atingem como petardos. Não são paredes que caem, nem veículos estraçalhados ou crateras nas vizinhanças, mas trazem mortes, muitas mortes, encobertas com um  manto de legalidade e de justiça, e geradas por uma guerra de ódio e de indiferença. Elas destroem esperanças, resistências, energias de quem se importa e não finge ignorância. Um estrago mental e psíquico menos visível a olho nu. Quem sabe?
            Não sei o que aconteceu àquele pai com sua filha. Gostaria de saber que foram salvos. No entanto, se tiverem sucumbido, eles permanecem na lembrança como um ato de amor embrionário, primeiro, originário. Sei que não é o único ato de amor no meio da guerra, desta e de tantas outras. Lembro as palavras do personagem de Hatoum “A imaginação não seria uma realidade possível em qualquer lugar do mundo?” Recapturo  minha crença na possibilidade do imprevisível e a esperança de construção de um mundo melhor.
Que as bombas se transformem em fogos de artifício!

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Imunidade




            De tempo em tempo somos confrontados e ameaçados por novo vírus. E acumulamos medo. Ou achamos que é mais um e passará. Mas a imprensa continuará sua função de informar. Pena que haja tanta exploração interesseira nestes eventos. Nem sempre é a verdade o foco real. Reaparecem litígios políticos antigos entre nações, disputas de vaidades entre intelectuais e cientistas e muitas fakenews nestes tempos de moralidade estropiada. Por detrás de tudo, interesses econômicos. Sempre eles.
Lembrando os acontecimentos mais recentes, em 2000, KPC (Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase), a “superbactéria”, foi identificada pela primeira vez nos Estados Unidos.  A KPC podia causar pneumonia e várias outras enfermidades que podiam evoluir para um quadro de infecção generalizada, muitas vezes, mortal. Um quadro mais perigoso para quem tem imunidade baixa.
Em 2002 surgiu a SARS em inglês “Severe Acute Respiratory Syndrome” causada pelo coronavírus associado à SARS (SARS-CoV). O SARS-CoV se disseminou rapidamente causando em torno de 800 mortes, antes da epidemia global de SARS ser controlada em 2003. De novo, a baixa imunidade  associada às mortes.
Em 2012, foi isolado outro novo coronavírus, distinto daquele que causou a SARS no começo da década passada. Pela localização dos casos, a doença passou a ser designada como síndrome respiratória do Oriente Médio, cuja sigla é MERS, do inglês “Middle East Respiratory Syndrome” e o novo vírus nomeado coronavírus associado à MERS (MERS-CoV). Aqui também parece que a imunidade baixa deu sua contribuição aos casos de morte.
E chegamos a 2020, com o coronarívus chamado Covid-19. Repete-se a tragédia.
Nesta história, são exibidos números, baixas das bolsas, negócios suspensos, voos cancelados, diminuição de turistas, mortes, curas, perdas na economia, empresas atingidas. Muito pouco sobre o sofrimento e a angústia que podem ter tomado conta de cada pessoa. Alguma conjetura sobre ações preventivas deste tipo de epidemia? Não tomou lugar de destaque. Alguma especulação, sim, sobre a responsabilidade no retardo para a tomada de decisões sobre o caso. Uma rápida notícia sobre o falecimento do médico que não foi ouvido acerca do perigo do vírus. E o rápido surgimento do preconceito sobre os chineses. O vírus é deles e eles que fiquem ou voltem para a sua terra. É o que foi ouvido em diversas partes do planeta.
O mundo sempre elege um culpado para seus medos. Não importa a distância que exista entre o temor e a mentira eleita para servir de alvo.
Os medos e as anomalias no comportamento humano diante de uma ameaça - atualmente têm ocorrido muitas, além do atual coronavírus -, têm mostrado uma relação entre a baixa imunidade do indivíduo e sua derrota diante da doença em geral. Assim parecem se mostrar os grupos humanos. Geram preconceitos com mais rapidez e em abundância aqueles que mais se deixam amedrontar. E aqueles que se deixam mais rapidamente amedrontar são os mais ignorantes. Ou, com baixa imunidade diante das fakenews, das arbitrariedades, das agressões, das afrontas, das crueldades. O sujeito torna-se um indivíduo abatido.
Vejo que a imunidade física ou psíquica individual pode assemelhar-se à de um grupo social. Vejo a imunidade “social” ligada às reservas acumuladas de conhecimento em todas as suas manifestações, científicas, históricas ou artísticas.
Assim, quando olhamos o que acontece hoje no nosso país, não só diante do último coronavírus, enxergamos um corpo doente. Ele não tinha reservas.  Ele havia adoecido há muito tempo e não percebíamos ou não queríamos ver. Ao longo da história, não fortalecemos laços identitários de nossas lutas por uma sociedade mais justa, de nossas criações artísticas, de nossas pesquisas científicas, enfim de um povo orgulhoso de seus feitos e com uma vontade tenaz de corrigir os erros do passado. Esta seria a garantia de nossa imunidade. Hoje, ela está tão baixa que, de todos os lados de nosso corpo social, ressurgem vírus que julgávamos extintos. O fanatismo agigantou-se diante da razão e faz aparecer o que de pior o ser humano é capaz. Todo um arcabouço de conquistas sociais não se alavancou em reservas imunitárias, está soçobrando, e as manifestações de resistência parecem mais fracas. A solidariedade, a compaixão, o respeito pelo outro, a generosidade surgem espalhadas por todo o território. No entanto, parecem insuficientes.
Minha aposta é que as forças emocionais e racionais que ainda resistem na nossa sociedade sejam o substrato imunitário capaz de se multiplicar e colocar de pé esta terra tão maltratada. Deixemos o atual coronavírus de lado, nosso maior inimigo sempre esteve entre nós e passa pela ignorância e pela indiferença. Estas é que se constituem nos vírus que solapam nossa imunidade.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Retornos


Retornos

A imagem permanece. Guardada? Adormecida? Cuidada? Preservada? Quiçá embalsamada? Que nome devo dar-lhe? Ela reaparece como se tudo tivesse acontecido há pouco tempo.  O certo é que ela continua a reaparecer e a me emocionar.      
Hoje, são os riscos brancos num céu totalmente azul que a trazem de volta. Uma imagem fixada poucos anos atrás no pátio da casa de minha prima, numa das viagens de retorno. Mas na minha lembrança não há riscos no céu, é uma sirene que avisa a chegada dos aviões. Era preciso correr para o abrigo enquanto cobria a cabeça com o casacão vermelho arrancado detrás da porta da cozinha. Naquela foto os riscos eram inofensivos, vinham de aviões que decolavam próximo dali, sem sirenes, nem rumores.  
Esta lembrança juntou-se à conversa com alguém da região que vim a conhecer em meu último retorno. Tenho retornado ciclicamente. Ele contou que durante a guerra havia um campo de aviação militar do outro lado do rio. Informação que preencheu um vácuo. Então, fora ali que meu pai servira como militar, só sabia que ele fora mecânico de aviões. Com esta pincelada no quadro daquele período compreendi a perseguição dos nazistas em sua retirada pelo norte do país. O enfrentamento de minha mãe com os fuzis apontados para ela. Sua coragem em negar o conhecido esconderijo do marido. Ouvi esta e outras histórias inúmeras vezes. A guerra estava ao redor de nós naqueles anos em meio aos quais nasci. A sirene, o rumor dos aviões e o abrigo são tatuagens em minha memória. Outras guerras se sucederam. Mesmo longínquas são sempre próximas.  O perto e o longe se avizinharam fatidicamente.
            A emigração da família ocorreu poucos anos após o fim da guerra. Primeiros tempos no Brasil, eu não suportava os fragores da Esquadrilha da Fumaça, não entendia as comemorações. Era insuportável, eu tapava os ouvidos e ia me esconder sob as cobertas. Os anos foram passando e me convenceram que aquele perigo havia passado. Outros rumores perigosos nos acompanham hoje.
            Nem sei se ainda existe a Esquadrilha da Fumaça. Recentemente vi um espetáculo de jatos que desenhavam a bandeira italiana: La tricolore. Minha admiração ficou turvada pela memória. Não há mais temor, mas a lembrança da tenra infância cola-se obsessivamente e reaviva sentimentos.
            Viajei diversas vezes próximo às faixas brancas que se dissolvem aos poucos. Voos, rumores e riscos no céu já não me ameaçam. Não temo mais a sirene. No entanto, aquela lembrança cola-se ao mundo atual que não aprendeu a abominar a guerra. O sofrimento dos outros, hoje, é o mesmo de todas as outras guerras e eu continuo a fazer parte da tragédia, mesmo num outro papel.
            Não existem mais sirenes, os aviões foram aprimorados, chegam rápidos e de surpresa. E matam muito mais.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Águas limpas


A água fria desce abundante sobre meu corpo. O calor se esvai. Posso repetir quantos banhos quiser, é só abrir a torneira. Milagre do progresso, ao menos para alguns. Mas interrompo a delícia de imaginar-me numa cascata. Serei parcimoniosa. Agradeço à vida este prazer negado para muitos, um privilégio esquecido no banal ato de todo o dia. Nossos antepassados deixaram vestígios de valorização da água. Há as moradias árabes, há os aquedutos romanos, há divindades protetoras das águas. O que a humanidade fez para chegarmos onde estamos? Nós a desperdiçamos como bem inesgotável. Nós a poluímos sem pudor. De que valem os testemunhos da história? Nós a negamos a grande parte dos seres humanos. No verão sufocante, alguns se refrescam em piscinas particulares. Um direito que não põe questões. Outros reclamam na rua empoeirada da periferia a torneira seca a um poder público indiferente. Na escassez sentida onde nunca antes foi imaginável, a ganância cresce, procura-se privatizar o bem fundamental de onde surgiu a vida. Apossar-se de algo que tende a desparecer é a suprema insensatez. E depois? A visão deturpada por aquilo que há de pior no ser humano não permite questionar. A ciência nos mostrou que somos uma ilha a voar por uma das bilhões de  galáxias, embora redonda e não plana como alguns voltam a afirmar.  Quanto tempo durará para que até as piscinas sejam privilégio de muito poucos e não haja mais fuga possível para ninguém? Há quem negue esse futuro. A literatura é ampla no anunciar o que pode acontecer. A surdez e a cegueira imperam sobre quem tem o poder do dinheiro. Há quem projete a compra de um terreno na lua ou em Marte. Recorro à fantasia. Dizem que nossos pensamentos podem se realizar um dia. Se eu fosse uma divindade, neste ano que recém começou, voaria sobre a superfície dos continentes e limparia todas as águas que restam e as distribuiria igualmente para cada ser humano. Imagino o rebuliço que causaria. Imagino um caos na ordem estabelecida. Que sujeito emergiria dali? Antes, correria o risco de cair em desgraça, ser apedrejada como comunista e destituída de minha divindade.

domingo, 19 de janeiro de 2020

As cores da história


Já o observei inúmeras vezes e sempre me causa novas impressões. Lembro-o em imagens cinza, não sei qual é sua cor verdadeira. Verdadeira não é exatamente a melhor palavra, mas é a que me ocorre agora. Talvez seja porque é a cor da argamassa, mas naquela época não havia argamassa.  Ou será que a memória me oferece uma fakenew. De qualquer modo sua cor não é sempre a mesma, depende de como se apresenta o céu. Depende da estação do ano. Depende da hora do dia. Depende do meu olhar mais ou menos atento. Hoje ele se apresenta dourado. Hoje, estou diante dele ao vivo, não é uma imagem em papel ou no computador. E parei para contemplá-lo sem pressa. Não é um dourado uniforme, no alto há uma faixa de cor mais intensa e, à medida que o olhar escorre para baixo, o dourado suaviza até se tornar opaco, quando a sombra o recobre. Nem a sombra, no entanto, o desmancha. No fundo de seus arcos vazados vê-se o céu de um azul claro, esmaecido, próprio daqueles momentos que anunciam o entardecer. A sombra vai subindo.
            Lembro de ter lido que originalmente fora recoberto de mármore. Durante séculos foi despido dele para recobrir outras construções em diferentes partes do país. As marcas que ficaram em toda a sua superfície parecem buracos de projéteis e testemunham a depredação. Em algum momento da história foi dito um basta. Ele começou a ser preservado, cuidado, reparado para estancar a ação do tempo. Nas imediações, vestígios do que foi o império que o construiu. Milhões de pessoas o visitam todo o ano. Dizem que é o lugar mais procurado no mundo. Pode ser. Mais de dois mil anos de história se espalharam pelo planeta sob sua influência.
            No entanto, o vivido nos dias de hoje com seus modos atualizados de fazer as guerras, suas contradições, seu retorno a formas arcaicas de pensar e de se relacionar, alimenta  o desânimo. Tudo o que o império representado neste Coliseu que resiste ao tempo parece não ter sido capaz de ensinar às gerações que se sucederam. A história e a memória não atingem igualmente os seres humanos. A ciência e o progresso não foram capazes de disseminar igualmente as experiências do passado. Sem isso, a história se mostrará sempre em fragmentos e o caminho de muitos será sempre a partir do zero.
            É como se perguntar qual a cor do Coliseu a cada vez que o contemplamos.