sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Águas limpas


A água fria desce abundante sobre meu corpo. O calor se esvai. Posso repetir quantos banhos quiser, é só abrir a torneira. Milagre do progresso, ao menos para alguns. Mas interrompo a delícia de imaginar-me numa cascata. Serei parcimoniosa. Agradeço à vida este prazer negado para muitos, um privilégio esquecido no banal ato de todo o dia. Nossos antepassados deixaram vestígios de valorização da água. Há as moradias árabes, há os aquedutos romanos, há divindades protetoras das águas. O que a humanidade fez para chegarmos onde estamos? Nós a desperdiçamos como bem inesgotável. Nós a poluímos sem pudor. De que valem os testemunhos da história? Nós a negamos a grande parte dos seres humanos. No verão sufocante, alguns se refrescam em piscinas particulares. Um direito que não põe questões. Outros reclamam na rua empoeirada da periferia a torneira seca a um poder público indiferente. Na escassez sentida onde nunca antes foi imaginável, a ganância cresce, procura-se privatizar o bem fundamental de onde surgiu a vida. Apossar-se de algo que tende a desparecer é a suprema insensatez. E depois? A visão deturpada por aquilo que há de pior no ser humano não permite questionar. A ciência nos mostrou que somos uma ilha a voar por uma das bilhões de  galáxias, embora redonda e não plana como alguns voltam a afirmar.  Quanto tempo durará para que até as piscinas sejam privilégio de muito poucos e não haja mais fuga possível para ninguém? Há quem negue esse futuro. A literatura é ampla no anunciar o que pode acontecer. A surdez e a cegueira imperam sobre quem tem o poder do dinheiro. Há quem projete a compra de um terreno na lua ou em Marte. Recorro à fantasia. Dizem que nossos pensamentos podem se realizar um dia. Se eu fosse uma divindade, neste ano que recém começou, voaria sobre a superfície dos continentes e limparia todas as águas que restam e as distribuiria igualmente para cada ser humano. Imagino o rebuliço que causaria. Imagino um caos na ordem estabelecida. Que sujeito emergiria dali? Antes, correria o risco de cair em desgraça, ser apedrejada como comunista e destituída de minha divindade.

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