Não
tive vontade de escapar deste mundo até pouco tempo atrás. Não é questão de
idade. Não é questão de depressão. Encaro bem os anos vividos, vejo-me até
privilegiada dadas as condições em que me encontro. Muitas vezes fiquei triste
e encolhida diante do presencio e ouço. É o preço que pago por continuar
vivendo, digo a mim mesma. Alegro-me com o que tenho, com um prato de massa al dente ou um aroma de flores (coisa
rara numa cidade grande) ou uma gentileza na fila do supermercado ou no ônibus.
Sou profundamente agradecida por isso, e por todas as pequenas manifestações cordiais
testemunhadas em minhas andanças pela cidade no dia a dia.
No entanto, a
profusão de acontecimentos ignóbeis no meu entorno e no país – sem falar na
situação mundial –, nos últimos tempos, estão se apresentando em tal volume que
conseguiram sacudir e rachar minha confiança na humanidade. A vida se
encarregou de destruir a certeza de que o bem vence o mal, construída através
da leitura das histórias em quadrinhos de minha infância. Troquei a certeza
pela esperança, mas hoje, ela está tão desnutrida que, se pudesse, voltaria
àquele tempo dos heróis que vencem sempre. Bobagem, digo-me, não tem retorno.
Naquela época eu tinha medos e ansiedade por outros motivos. Eu sei.
Junto
às questões sem resposta que me tenho colocado, emerge um sentimento de
impotência que me faz estrangeira por onde ando. Momentos de suspensão deste
sentimento corrosivo são os que convivo com meus netos. É onde me sinto útil
enquanto ajudo os pais a protegê-los e a amá-los. Dois atos fundamentais para
que cresçam da melhor forma possível. Eis que, um dia, no espaço de uma
conversa da qual nem lembro, meu neto de oito anos perguntou: “Tu vai tá aqui
quando eu tiver um filho, vó?” Ele me pegou tão de surpresa que só respondi:
“Acho que não”.
Só depois que
ele foi embora é que a pergunta voltou. Feitas as contas, há possibilidades
matemáticas, mas minha longevidade não é só uma questão de números. Minha
negativa talvez estivesse associada a uma questão de resistir ao esfacelamento
do mundo globalizado que testemunho. A minha geração apostou na interferência
política, mas esta foi tragada pelo poder econômico. O mundo que vejo e no qual
já vivi a maior parte do meu tempo mostra progresso geométrico incrível. A
medicina cura, a engenharia constrói obras fantásticas, a indústria lança novos
produtos em tempo recorde, máquinas cada vez mais sofisticadas oferecem mais e
mais conforto, estamos a um passo da comercialização de robôs para afazeres
domésticos, a astronomia desvenda os segredos do universo. Tudo isso, no
entanto, para uma minoria. Como a história nos mostra, as beiradas estão sempre
distantes apesar de próximas. Inatingidas, desprezadas. Apesar de todo avanço
científico, milhões de seres humanos continuam a não ter acesso sequer à agua
potável, quando temos casas inteligentes onde o chuveiro lança seu jato por um
simples gesto de erguer a mão. Milhões não sabem o que é uma rede de esgotos,
enquanto outros nem precisam mais premer o botão da descarga do seu vaso
sanitário.
Lutei de diferentes maneiras para que o mundo
fosse melhor. E não vejo que isso esteja acontecendo. Não sei o que faltou para
a minha geração fazer, foi feito o possível e não foi suficiente. Hoje, aposto nas lutas das mulheres, dos
trabalhadores, dos intelectuais, de todos os considerados diferentes pelos que
se acham a referência do bem. Aposto também que encontrarão novas formas de
fazê-lo. O que mais tenho feito é apostar. É minha maneira de seguir a vida.
Então, mesmo com
a perspectiva de um mundo instável, com temor pelos meus netos e por todos os
netos do mundo, admito o desejo de receber e abraçar um bisneto. No equilíbrio
instável de querer abandonar este mundo que se desagrega, e a aposta na
renovação da vida com todas as suas possibilidades, respondo a meu neto: se
depender de mim, estarei aqui.
Lindo texto, Rosa!
ResponderExcluirEstaremos aqui!
Rosa querida,teu texto, eu poderia dizer, fala por mim. Um misto de desilusão e teimosia em acreditar que tudo passa. Passa o desânimo e que ainda poderemos ver um lugar melhor para nossos netos. Não creio que seja uma questão de idade(até pode também ser), mas é mais uma questão de consciência. A lucidez por vezes nos entristece. Gostei muito das tuas palavras. Beijo grande!
ResponderExcluirMaravilhoso texto..sinto é visualizo cada frase...parabéns
ResponderExcluirPrecisamos que estejas aqui, mostrando a todos nós como ser tão coerente e íntegra. Lindo texto.
ResponderExcluirA aposta é a esperança... Mas quão difícil está apostar nela. Nestes últimos dias, TB pensei várias vezes nestas diferenças entre ter muito e não ter o básico; entre estar vivo e viver de fato. O equilíbrio instável, que a idade TB traz. Admiro teu desejo de apostar, mesmo não mais acreditando que o bem não vence o mal. Um abraço ❤️
ResponderExcluirRetrata bem a realidade tão difícil, a preocupação com o futuro. Sao questões de todos nós. És admirável!!! Muito obrigado!
ResponderExcluirSe depender de mim, estarei aqui
ResponderExcluirAchei demais de lindo ..🌹