quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Imunidade




            De tempo em tempo somos confrontados e ameaçados por novo vírus. E acumulamos medo. Ou achamos que é mais um e passará. Mas a imprensa continuará sua função de informar. Pena que haja tanta exploração interesseira nestes eventos. Nem sempre é a verdade o foco real. Reaparecem litígios políticos antigos entre nações, disputas de vaidades entre intelectuais e cientistas e muitas fakenews nestes tempos de moralidade estropiada. Por detrás de tudo, interesses econômicos. Sempre eles.
Lembrando os acontecimentos mais recentes, em 2000, KPC (Klebsiella Pneumoniae Carbapenemase), a “superbactéria”, foi identificada pela primeira vez nos Estados Unidos.  A KPC podia causar pneumonia e várias outras enfermidades que podiam evoluir para um quadro de infecção generalizada, muitas vezes, mortal. Um quadro mais perigoso para quem tem imunidade baixa.
Em 2002 surgiu a SARS em inglês “Severe Acute Respiratory Syndrome” causada pelo coronavírus associado à SARS (SARS-CoV). O SARS-CoV se disseminou rapidamente causando em torno de 800 mortes, antes da epidemia global de SARS ser controlada em 2003. De novo, a baixa imunidade  associada às mortes.
Em 2012, foi isolado outro novo coronavírus, distinto daquele que causou a SARS no começo da década passada. Pela localização dos casos, a doença passou a ser designada como síndrome respiratória do Oriente Médio, cuja sigla é MERS, do inglês “Middle East Respiratory Syndrome” e o novo vírus nomeado coronavírus associado à MERS (MERS-CoV). Aqui também parece que a imunidade baixa deu sua contribuição aos casos de morte.
E chegamos a 2020, com o coronarívus chamado Covid-19. Repete-se a tragédia.
Nesta história, são exibidos números, baixas das bolsas, negócios suspensos, voos cancelados, diminuição de turistas, mortes, curas, perdas na economia, empresas atingidas. Muito pouco sobre o sofrimento e a angústia que podem ter tomado conta de cada pessoa. Alguma conjetura sobre ações preventivas deste tipo de epidemia? Não tomou lugar de destaque. Alguma especulação, sim, sobre a responsabilidade no retardo para a tomada de decisões sobre o caso. Uma rápida notícia sobre o falecimento do médico que não foi ouvido acerca do perigo do vírus. E o rápido surgimento do preconceito sobre os chineses. O vírus é deles e eles que fiquem ou voltem para a sua terra. É o que foi ouvido em diversas partes do planeta.
O mundo sempre elege um culpado para seus medos. Não importa a distância que exista entre o temor e a mentira eleita para servir de alvo.
Os medos e as anomalias no comportamento humano diante de uma ameaça - atualmente têm ocorrido muitas, além do atual coronavírus -, têm mostrado uma relação entre a baixa imunidade do indivíduo e sua derrota diante da doença em geral. Assim parecem se mostrar os grupos humanos. Geram preconceitos com mais rapidez e em abundância aqueles que mais se deixam amedrontar. E aqueles que se deixam mais rapidamente amedrontar são os mais ignorantes. Ou, com baixa imunidade diante das fakenews, das arbitrariedades, das agressões, das afrontas, das crueldades. O sujeito torna-se um indivíduo abatido.
Vejo que a imunidade física ou psíquica individual pode assemelhar-se à de um grupo social. Vejo a imunidade “social” ligada às reservas acumuladas de conhecimento em todas as suas manifestações, científicas, históricas ou artísticas.
Assim, quando olhamos o que acontece hoje no nosso país, não só diante do último coronavírus, enxergamos um corpo doente. Ele não tinha reservas.  Ele havia adoecido há muito tempo e não percebíamos ou não queríamos ver. Ao longo da história, não fortalecemos laços identitários de nossas lutas por uma sociedade mais justa, de nossas criações artísticas, de nossas pesquisas científicas, enfim de um povo orgulhoso de seus feitos e com uma vontade tenaz de corrigir os erros do passado. Esta seria a garantia de nossa imunidade. Hoje, ela está tão baixa que, de todos os lados de nosso corpo social, ressurgem vírus que julgávamos extintos. O fanatismo agigantou-se diante da razão e faz aparecer o que de pior o ser humano é capaz. Todo um arcabouço de conquistas sociais não se alavancou em reservas imunitárias, está soçobrando, e as manifestações de resistência parecem mais fracas. A solidariedade, a compaixão, o respeito pelo outro, a generosidade surgem espalhadas por todo o território. No entanto, parecem insuficientes.
Minha aposta é que as forças emocionais e racionais que ainda resistem na nossa sociedade sejam o substrato imunitário capaz de se multiplicar e colocar de pé esta terra tão maltratada. Deixemos o atual coronavírus de lado, nosso maior inimigo sempre esteve entre nós e passa pela ignorância e pela indiferença. Estas é que se constituem nos vírus que solapam nossa imunidade.

4 comentários:

  1. Concordo, Maria Rosa. O medo ajuda a baixar ainda mais nossa imunidade. O medo corrói as entranhas, penso como você, e "o mundo sempre elege um culpado para seus medos", um bode expiatório que externaliza e projeta sobre outros as nossas responsabilidades pelo mundo que estamos ajudando a construir. Parabéns pelo texto.

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  2. E o medo do bode na sala e o alívio quando ele vai embora, e tudo continua no mesmo lugar.

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