segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Retornos


Retornos

A imagem permanece. Guardada? Adormecida? Cuidada? Preservada? Quiçá embalsamada? Que nome devo dar-lhe? Ela reaparece como se tudo tivesse acontecido há pouco tempo.  O certo é que ela continua a reaparecer e a me emocionar.      
Hoje, são os riscos brancos num céu totalmente azul que a trazem de volta. Uma imagem fixada poucos anos atrás no pátio da casa de minha prima, numa das viagens de retorno. Mas na minha lembrança não há riscos no céu, é uma sirene que avisa a chegada dos aviões. Era preciso correr para o abrigo enquanto cobria a cabeça com o casacão vermelho arrancado detrás da porta da cozinha. Naquela foto os riscos eram inofensivos, vinham de aviões que decolavam próximo dali, sem sirenes, nem rumores.  
Esta lembrança juntou-se à conversa com alguém da região que vim a conhecer em meu último retorno. Tenho retornado ciclicamente. Ele contou que durante a guerra havia um campo de aviação militar do outro lado do rio. Informação que preencheu um vácuo. Então, fora ali que meu pai servira como militar, só sabia que ele fora mecânico de aviões. Com esta pincelada no quadro daquele período compreendi a perseguição dos nazistas em sua retirada pelo norte do país. O enfrentamento de minha mãe com os fuzis apontados para ela. Sua coragem em negar o conhecido esconderijo do marido. Ouvi esta e outras histórias inúmeras vezes. A guerra estava ao redor de nós naqueles anos em meio aos quais nasci. A sirene, o rumor dos aviões e o abrigo são tatuagens em minha memória. Outras guerras se sucederam. Mesmo longínquas são sempre próximas.  O perto e o longe se avizinharam fatidicamente.
            A emigração da família ocorreu poucos anos após o fim da guerra. Primeiros tempos no Brasil, eu não suportava os fragores da Esquadrilha da Fumaça, não entendia as comemorações. Era insuportável, eu tapava os ouvidos e ia me esconder sob as cobertas. Os anos foram passando e me convenceram que aquele perigo havia passado. Outros rumores perigosos nos acompanham hoje.
            Nem sei se ainda existe a Esquadrilha da Fumaça. Recentemente vi um espetáculo de jatos que desenhavam a bandeira italiana: La tricolore. Minha admiração ficou turvada pela memória. Não há mais temor, mas a lembrança da tenra infância cola-se obsessivamente e reaviva sentimentos.
            Viajei diversas vezes próximo às faixas brancas que se dissolvem aos poucos. Voos, rumores e riscos no céu já não me ameaçam. Não temo mais a sirene. No entanto, aquela lembrança cola-se ao mundo atual que não aprendeu a abominar a guerra. O sofrimento dos outros, hoje, é o mesmo de todas as outras guerras e eu continuo a fazer parte da tragédia, mesmo num outro papel.
            Não existem mais sirenes, os aviões foram aprimorados, chegam rápidos e de surpresa. E matam muito mais.

2 comentários:

  1. Quanta sensibilidade ao encadear as palavras. Lembrança dura, de um tempo que não vivi, mas isso jamais deve ser desculpa para não entendermos a dor do outro. Ês especial por toda alteridade que carregas contigo.

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  2. Obrigada pela solidariedade e compreensão do texto.

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