sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Em busca de harmonia

                Foi na crônica Era uma Vez o Parque da Menina Má de Moisés Mendes que tomei conhecimento do desparecimento do Parque Salazar em Lima no ano de 1998 para dar lugar a um centro comercial a céu aberto. Por sua vez, Mendes tomou conhecimento do acontecido por um artigo de Vargas Llosa, no qual lamentava que o lugar mágico frequentado por ele nos anos 1950 tivesse sido transformado em lugar de consumo. A falésia que abrigara palmeiras e canteiros de gerânios havia sido escavada com um buraco enorme e o empreendimento ficou encravado no paredão. Tudo isso mereceu comparações de Mendes com as possibilidades de empreendimentos na orla no nosso rio Guaíba (alinho-me com os estudiosos que defendem essa nomenclatura).
            Relembro, então, as manifestações que têm ocorrido em Porto Alegre para que projetos insanos não progridam, para que não prevaleçam interesse imobiliários, e para que a revitalização da orla mereça ser feita à base dos interesses de toda a cidade com o cuidado de não lhe levar ordas de veículos e concentração de massa construída num lugar com uma já grande densidade populacional. Isto, além de tudo, alteraria o microclima do centro e dos entornos, com todas as consequências para uma pior qualidade de vida, direta ou indiretamente, de toda população.
            Não é por falta de estudos que Porto Alegre deve aceitar um projeto com centro comercial, hotéis, prédios de dezenas de andares a fazer cortina para a brisa que suaviza o calor nas ruas já emparedadas de grandes edifícios e onde circulam milhares de pessoas todos os dias. Quem se beneficiaria com isso? Esta é a pergunta a ser respondida com honestidade.
            Não é por falta de conhecimento e de exemplos pelo mundo afora que não possamos escolher um projeto que harmonize um menor impacto nas margens de nosso rio com a sua modernização para que mais e mais pessoas usufruam do que ali for feito.
        Sem entrar no mérito do quanto cada império destruiu e saqueou o território conquistado ao longo da história, ficou-me a lembrança especial de um lugar na Sicília, o teatro greco-romano de Taormina. Foi erguido pelos gregos possivelmente no século III a.C. e, posteriormente, recebeu intervenções dos romanos no século II d.C. É possível ainda hoje, ver as marcas dos dois povos, a degradação do tempo e a conservação feita nos dias de hoje. Um testemunho da história milenar que por ali se desenrolou e sobre ele, a partir dos anos 1950, a recuperação do indispensável para a realização de espetáculo teatrais ao aberto, concertos, cerimônias de premiação do David di Donatello, concertos sinfônicos, óperas e balé. Estes são alguns dos exemplos do que ocorre ali.
            Não temos aqui testemunhos da grandeza de uma estrutura greco-romana, mas temos as instalações do cais, a usina do gasômetro,  a beleza das margens, das águas, das cores e da brisa de um lugar que pode e deve ser apreciado e usufruído por todos. Sem escavações e centro comercial é possível remodelar e preservar nossa história.

Então o que se fizer ali não pode se render à lógica dos negócios e dos rendimentos que dizem respeito a apenas uma parte dos habitantes da cidade e à custa de alguma perda para todos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Respingos

Acordei mais cedo que o costume. O primeiro pensamento que abriu caminho foi o de incredulidade com o que havia sido feito com o Estado no dia anterior.  Mas era verdade. Milhares de famílias jogadas na insegurança pela injusta perda de seu emprego. Uma tragédia cujo sentido só é mais profundo quando se pensa na insensibilidade dos que a provocaram e continuam a usufruir dos benefícios do Estado como se tudo estivesse no lugar certo. Como se os que estão no poder fossem diferentes e melhores, como se não fossem responsáveis pelas suas decisões, como se não houvesse outro caminho, como se apenas os que os antecederam tivessem provocado a situação.
Mas há outras consequências tão perversas quanto a primeira. A morte dos meios de produção e veiculação da cultura local como responsabilidade de um Estado democrático. A morte de espaços de pesquisa, a morte de espaços que deveriam ser ampliados para dar maior qualidade de vida à população do estado, a morte das fontes de construção de conhecimento necessários ao melhor funcionamento dos espaços sociais. De quem é essa responsabilidade senão de quem foi eleito sob a égide que O Rio Grande é Meu Partido?  E o que é tudo isso senão o enfraquecimento do tecido social, das relações sociais e a consequente piora nas já deterioradas condições de vida das pessoas, processo desencadeado por um violento desmonte da economia nacional . O mais perverso disto tudo é movimentar um mecanismo cruel sob o manto da mentira, porque em nome de contas mal feitas, de uma economia ínfima com o fechamento das instituições, de uma desqualificação dos serviços prestados pelas FZB, CIENTEC, FEE, TVE, FM Cultura, FDRH.
 O atual (Des)governo assumiu sem ter um Plano mínimo e demorou cerca de um ano e meio para propor algo para a segurança. Aliás, ao assumir, sua primeira medida para a área foi anular concurso feito pelo Governo anterior. Não foram pensadas as responsabilidades do Estado e a falta de medidas contra a sonegação, contra privilégios a poucos e poderosos. Joga-se com a desinformação da maior parte do povo que é abastecido cotidianamente pelo pensamento único da grande imprensa. Povo, que tem que trabalhar cada vez mais para sobreviver e que não participa das instâncias de discussão e análise do que acontece. Povo, cuja escola para seus filhos vem sendo paulatinamente deteriorada. Povo, cujo acesso à cultura sempre foi um privilégio de uma minoria. Da incompetência - termo que pode englobar outras incapacidades da equipe que está no poder - em tomar medidas que ampliem as receitas dos cofres públicos, do descompromisso com o gerenciamento do bem público, da despreocupação com a qualificação dos Serviços à população, da crítica rasteira ao Governo anterior, surgiu o descalabro.
Uma receita prevista pelos que acompanham as artimanhas e as bandalheiras do poder com o beneplácito de boa parte da população.

Tomara que do lamento e da indignação surjam forças para mudar tudo isso. No entanto, o caminho se mostra longo e muito sofrimento continuará a acontecer. Os respingos atingirão a todos independente de nossa vontade.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Caos e beleza



O trânsito um caos, atravessar uma rua é aventura certa. No entanto, as línguas de carros que deslizam pelas ruas cruzam-se, cortam-se, misturam-se numa dança ininterrupta, não são ameaçadoras, não são agressivas. Num primeiro momento há o medo de enfrentá-las, há o desejo de encontrar uma alternativa que não percorrer aquele vazio que deve ser ultrapassado para chegar à outra calçada. Na inexistência de outra opção, os passos levam e não acontece nada, a salvação é alcançada sem problemas. Apenas a incerteza da decisão dos carros que se aproximam sobre ti, mas eles param, sempre param, mesmo que joguem contigo o jogo prepotente da máquina contra um corpo humano e te constranjam com sua proximidade. Difícil é aceitar o ritmo do piscar dos semáforos, da conversão livre à direita enquanto os pedestres exigem seu direito de preferência. Os romanos se divertem ressaltando a diferença deles com o resto do mundo. Em qualquer cidade, a visão de uma faixa de listras brancas avisa para diminuir a velocidade. Em Roma, aceleram e, talvez, consigam alcançar o pedestre até em cima da calçada. Em vários dias na cidade, porém, não vimos um acidente sequer e nenhum atropelamento. Pelo contrário, as pessoas atravessam as ruas nos lugares os mais diversos, como vingança e exercício de sua vontade apesar de tudo. E tudo funciona, tudo anda, como se aquela (des)ordem fosse introjetada de tal forma que todos se desculpassem por uma desobediência causada pela beleza da cidade que não se poupa em oferecer-se. A arquitetura de diferentes épocas, bordada por ruas ondem pinheiros mediterrâneos centenários olham para o céu em pose de modelo. As ruínas romanas integradas a igrejas que deram sua última palavra contra os deuses antigos. Outras ruínas a testemunhar um império que teima em se vangloriar século após século e nos provoca interrogações sobre o que somos nós nos dias de hoje. Uma cidade que, também ela, não escapou à invasão das pequenas lojas de produtos chineses, denunciada por algum cartaz orgulhoso com os dizeres “aqui tudo é feito na Itália”. O café maravilhoso, o cornetto ou brioche – vuoto ou com marmellata, o panino com a mozzarella verdadeira, com a mesma qualidade em qualquer pequeno bar. Tudo isso entremeado com a visão de obeliscos roubados aos egípcios, obras de Bernini e outros grandes a enfeitar praças espalhadas por toda a cidade. Sinais de um mundo maravilhoso de artes resguardadas nos tantos museus a serem explorados pouco a pouco, porque é inominável a criação artística de séculos de mãos e olhos a serviço da cristianidade que se assentou pelas terras itálicas.

            Inútil procurar uma frase única que englobe o que é Roma. Ela é simplesmente linda e convida a caminhar para ser admirada com vagar aceitando as surpresas que oferece a todo o instante. Merece procurar o caminho que leva até ela.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Pesadelo

Acordei de um sonho que fugiu sem que lhe alcançasse o rastro. Madrugada ainda, permaneci estendida prestando atenção ao que sentia. Na quietude da cidade, o quarto era sossego, mas meu corpo acusava um alvoroço, solicitava atenção. Não conseguia mais dormir, mas não queria levantar, uma sensação que acabei definindo como saudade acabou se impondo. De quê? De algo ao qual queria retornar, mas não identificava. No esforço de concentrar-me, acabou saltando uma lasca do sonho no qual eu buscava um documento, meu registro de professor, aquele que me dava direito a lecionar as disciplinas ali escritas, havia a assinatura do funcionário do MEC, minha foto, data, um lugar conquistado, orgulho de minha identificação,  informações de um lugar que eu ocupava, resultado de anos de estudos, de certificação das instituições onde eu havia passado anos de minha vida. Eram as  décadas de 1970 e 1980. Apesar de todos os retrocessos, começávamos a recuperar perdas anteriores e nos organizávamos nas escolas; os sindicatos de escolas públicas e privadas eram símbolo de luta, as quais deveriam se dar no local de trabalho como em qualquer ramo; em greve, atuávamos junto aos nossos alunos, embora fôssemos para a rua na necessidade de tornar visível o movimento. Havia uma formação para cada disciplina, não era questão que alguém ocupasse o lugar que não fosse o professor específico. O registro de professor acabou relegado, mas os concursos legitimavam a entrada dos profissionais na rede estadual e municipal e, apesar de um tempo de medos, os mesmos que nos impulsionavam a ir adiante, e a certeza de nossa importância e reconhecimento.
 Desde o tempo da ditadura a desvalorização da profissão com o aviltamento dos salários e descaso com a escola pública acenavam para tempos piores, mas não imaginávamos que chegaríamos ao descalabro atual. Apesar de tudo, não imaginávamos o que está ocorrendo agora.
Conquistas pisoteadas, projetos sem consistência estão sendo levados adiante, o ministro da educação recebe um ator pornô com um programa de educação, e veicula-se a proposta de que qualquer pessoa com “notório saber” poderá ser professor. O  MEC despreza todo um conhecimento que envolve o que seja o ato de educar e desmantela o que existe. Nenhuma narrativa fantástica daria conta do que está acontecendo com a educação no Brasil. O ato pedagógico é completamente ignorado e as últimas propostas mostram um conceito rasteiro de ensinar que faria enrubescer qualquer cidadão minimamente comprometido com as gerações que vão para a escola. A escola particular também ficará mais pobre, apesar de seus mecanismos de ir além da lei, mas é a pública que se ressentirá em demasia.

O Congresso Nacional já mostrou a que veio. Se há ainda alguma esperança, ela está nos atuais movimentos contra a MP 746 e PEC 241, através das ocupações estudantis que tomaram a dianteira em todo o país e têm o apoio de amplos setores da sociedade.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Presenças

Minhas palavras foram escassas quando minha amiga foi embora porque compactuo com ONDJAKI:

"Não gosto de despedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que se transformam em recordações molhadas com bué de lágrimas. Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança"

            Ficou um vazio em minha casa e o preencho com o pensamento pelo caminho por onde ela vai no interior do país. Eu sei que ela está em solo brasileiro, mas quase tão longe quanto seria já na sua terra. Na nossa terra. O que são as distâncias? Estamos perto ou longe quanto nossa capacidade de partilhar pensamentos, gostos e esperanças. Esta é a rede que se construiu imediatamente quando nos reencontramos dois anos atrás depois de dezenas de anos de afastamento. Lá onde mora ela. E a vida nos propiciou repetir a aproximação aqui onde moro eu. A gratidão por revê-la e partilharmos um tempo longínquo da infância e da adolescência me conecta com o que há de melhor para viver.
            Seu retorno ao país em que viveu, na Serra, e depois, aqui na capital onde eu vivo, trouxe-lhe apreensões e tristezas pela situação político-social existente. Não havia compreendido as reais perspectivas de retrocesso, compartilhamos análises e comparações com outros tempos. Nos solidarizamos, enquanto andamos juntas pelas ruas da cidade cuja natureza a encantou. Os ipês, cuja florada estava desaparecendo, e os jacarandás iniciando a colorir as calçadas e praças. Encantou-se com os testemunhos arquitetônicos do centro histórico, da Independência e de outros lugares. Ela que convive com uma história milenar. Lamentou a substituição de outros prédios por edificações de estética duvidosa. Enfim, sentiu Porto Alegre com algumas de suas contradições.
            A partir de agora, o afastamento físico nos dará a dimensão do quanto podemos estar juntas em nossa amizade, por isso a reafirmação da desnecessidade de despedida. E, quando a rede de confidências se esgarçar pelas distâncias e ausência do olhar, deixando escorrer nossa cumplicidade diante da visão de mundo e da vida, olharei o camafeu. Ela se restabelecerá como se nos encontrássemos a meio caminho sobre o oceano, com a mágica da imaginação e da confiança na amiga onde estiver.

Ondjki tem razão.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Andantes

A palavra está me servindo de antídoto à rendição.
Resistir é preciso, então compartilho alguns redemoinhos de meu pensamento. 


Andante

Corri uma corrida desesperada.
Quase alcançada,
Uma força estranha me alçou
No topo de uma ramada.
Pausa negada,
Ouvi a serra e balancei,
Na queda  voei
Para a próxima retomada.
..............................

Sempre andante

Uma primavera sorriu
E eu esqueci o rolar do tempo
Como a cigarra me lambuzei de canto.
Direito teu, o grilo assoprou,
Preguiçosa a formiga acusou.
Desmemoriada, não teci com o canto
O manto
Da alegria e do pranto
Que veste os humanos
Em qualquer canto.
Vejo-me à cata dos esquecidos
Para remendar os rasgados,
Colorir os esmaecidos,
Juntar os retalhos largados
Para cobrir o inverno
Com novo canto
Até a primavera recomeçar.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016


Toalha

Um dia, uma amiga afirmou que a humanidade tinha evoluído, as coisas tinham ficado melhores, éramos uma sociedade melhor. Eu lhe respondi que realmente as mulheres não eram mais queimadas em praça pública, mas os estupros existiam em todas as camadas sociais, as mulheres eram vítimas da violência de forma assustadora, mas a maior parte dos casos sequer era denunciada, por medo, o que mudara era que agora havia o silêncio, a agressão era oculta.
De lá para cá, volta e meia esta conversa me vem à mente, e busco algum exemplo que dê razão à minha amiga, mas não encontro, apesar dos meus esforços.
Um dia, olhando pela janela, vagando com meus pensamentos, imaginei a humanidade como uma grande toalha bordada e colorida, mas com muitas falhas, buracos e rasgos. Mãos invisíveis a vão consertando e aumentando, e ela se expande para todos os lados como uma galáxia. E as tramas, e os buracos, e os rasgos também. Só que mudam de lugar e de contornos, e surgem coloridos nunca antes vistos em texturas novas que parecem mais fortes, deixando a perspectiva de que a toalha vai aumentar sem se estragar. Mas, pouco a pouco, também o tecido novo é tomado por estranhas deformações, nunca antes vistas. E a cada pedaço que se estende, o que era novo e resplandecente se transforma igualmente em tecido danificado.
Mas tudo continua a se estender, e os pedaços exteriores e distantes do início têm suas semelhanças esmaecidas, os padrões mudaram, mas continuam presos ao mesmo tecido que se expande indefinidamente.
Então lembrei no que dizia Deleuze sobre a diferença, vinda em relação a si mesmo num infinito processo de duração da vida no complexo entremear de ações individuais, próximas ou distantes, mas todas em relação umas com as outras.

Construímos juntos e sempre o mesmo tecido.