quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Infância negada

 

        Nós estamos em guerra, não uma guerra com bombas e drones assassinos. Vivemos a guerra da indiferença e da cegueira diante dos problemas sociais, do sofrimento das pessoas que apesar de trabalharem durante todo o dia não conseguem chegar ao fim do mês com seu dinheiro. Para quem tem seu sustento garantido, sua casa confortável, seu plano de saúde e seus filhos num bom colégio não imaginam o quer dizer faltar dinheiro até para comer. Tudo isso me vem à cabeça ao ler o recente levantamento do Observatório de Políticas Públicas com a População de Rua.

            Existem atualmente, agosto de 2026, 36 crianças em situação de rua em Porto Alegre e sua idade varia de zero a 17 anos.

Não consigo imaginar como possam sobreviver na rua, muito menos nesta época de inverno na nossa cidade. A primeira coisa que me vem à mente é que alguma criança com um pouco mais idade esteja cuidando daquela que nem completou seu primeiro ano de vida. Será levada no colo quase caindo, porque os pequenos braços que a amparam mal conseguem suportar seu peso, como já tive a tristeza de testemunhar. O primeiro pensamento é que uma criança tenha escapado arrastando seu irmão ou irmã menor, para fugir de maus tratos por parte dos quem deveria protegê-los. É sempre o lar tóxico que a expulsa de casa. Mas não consigo julgar nem os adultos que não conseguem cumprir sua primária obrigação de prover e proteger, a miséria humana (não apenas a física, mas a psicológica e a moral) tem múltiplas causas geradas pelo modo de vida da sociedade capitalista, semente cancerígena da exclusão, da injustiça, do individualismo e do egoísmo autofágicos. Uns são atacados já ao nascer, na raiz da própria sobrevivência, outros desenvolvem outras doenças mesmo na abundância.

A indignação por saber que há crianças desamparadas na rua aperta minha garganta, ainda mais quando vejo políticos de direita serem contra a eliminação da escala 6X1, uma migalha para melhorar a situação de enormidade dos trabalhadores, os que ainda estão tendo um lugar protegido por lei para trabalhar. Muitos nem fazem parte desta rede. São indecentes aqueles que esbravejam contra o aumento do salário mínimo, valor que nem consegue prover as necessidades mínimas de um só pessoa, quanto menos de uma família como diz a nossa Constituição. Quantas crianças estão dependendo destes trabalhadores para que sejam minimamente protegidos das ruas? Nem falo no direito a uma boa alimentação, a uma boa escola, a divertimentos, enfim, a serem crianças em condições necessárias para que se desenvolvam plenamente.

Que sociedade é esta que defende a família, mas nega direitos para que as famílias de trabalhadores tenham o suficiente para cuidar de seus filhos e convive com crianças sobrevivendo na rua. Como a visão destas crianças não gera indignação coletiva, não provoca uma reação imediata do poder público para tirá-las de imediato daquela situação!

Como crescer como cidadão, quando os direitos básicos de sobrevivência lhe são negados, como evitar que uma criança desamparada na rua não morra ou não acabe fazendo algum delito e seja trancafiada numa instituição para delinquentes juvenis antes que alguma providência ande nos caminhos da burocracia?

E ainda há quem diga que só é pobre quem quer, quem não quer trabalhar e quem só quer viver dos programas sociais. As estatísticas mostram que o bolsa-família, cuja exigência é a manutenção dos filhos na escola, salva-os da rua e lhes possibilita outro caminho, respeita o direito de serem crianças. As da rua não sabem o que é ser criança.

No entanto, um programa social é um paliativo a uma sociedade que necessita ser transformada, onde os direitos de todo cidadão fossem respeitados e cada um pudesse prover com dignidade a sua subsistência.

terça-feira, 16 de junho de 2026

As sementes foram preservadas


 

Ler o livro M – La fine e il Principio de Antonio Scurati é ter uma tela aberta para ampliar o entendimento sobre o tempo presente vivido no Brasil enraizado no papel e privilégios das Forças Armadas, na existência de forças políticas de direita e extrema-direita durante a ditadura civil militar.

Ao final da guerra, com a vitória das forças antifascistas, a morte do fascismo e o estabelecimento de um estado democrático através de um governo com representantes das grandes forças que lutaram na resistência, o comunismo, o socialismo e a democracia cristã, a sociedade italiana acreditou que o passado fora vencido e o futuro era uma estrada a ser percorrida com sua capacidade de trabalho e sem obstáculos. Mesmo assim, muitos italianos emigraram por medo de nova guerra mundial, quando eclodiu a guerra na Coréia poucos anos depois e boatos de novo perigo para a Europa.

No entanto, o fascismo na Itália não fora exterminado, mesmo com a morte de Mussolini e de alguns de seus comparsas, porque muitas sementes sobreviveram. Alguns dos fascistas mais próximos a Mussolini fugiram para a Argentina, Brasil e outros países. E outros não foram devidamente responsabilizados e punidos pelo novo governo. Foi o grande erro na história do país. E eles frutificaram e se infiltraram nas instituições do país e reapareceram legalmente em partidos, alguns se elegeram e hoje governam o país. É o que nos conta Scurati em cinco volumes sobre o fascismo, mas mais especificamente os últimos meses da República de Salò, no livro citado, com governo fantoche de Mussolini no norte do país e mantido pelos nazistas em retirada. Este foi o período menos descrito pelos historiadores, segundo o escritor, mas o mais cruel, onde atrocidades foram cometidas pelos sequazes do ditador, que culminaram com o seu justiçamento numa praça de Milão.

No Brasil, o fim da ditadura ocorreu com atos do próprio governo Figueiredo, que aprovou a Lei da Anistia em 1979, concedendo relativo perdão político a opositores do regime entre 1961 até aquele mesmo ano, mas, em contrapartida, a medida também protegia militares envolvidos em assassinatos e torturas. Este perdão aos torturadores foi a preservação das sementes que frutificam até hoje dentro de uma ordem institucional continuamente solapada. Foi o nosso erro, ou apenas o que foi possível na época.

Nem uma nova Constituição em 1988 conseguiu livrar o país do ressurgimento das mesmas forças autoritárias vencedoras em 1964, com o agravante de se apresentarem com novas roupagens, com novas formas de poder, mas com o mesmo apoio da imprensa tradicional que sustentou o golpe naquele ano, e num contexto mundial de reorganização da extrema-direita.

O livro de Scurati conecta-se com as análises sobre a história brasileira e amplia as lentes para compreender o que se passou e o que precisa ser feito para enfrentar o que ocorre em nossos dias. É ainda necessário falar sobre o que aconteceu, não podemos esquecer.

Obs. - Este quinto volume ainda não foi traduzido para o português, mas acredito que logo o será.

segunda-feira, 2 de março de 2026

Stella Stellina

 

Tomo café enquanto vejo as notícias que seleciono no youtube. É sábado, e não tenho compromissos, uma boa manhã para escrever, fui dormir pensando nisso.

Tempo de rever o passado, fazer um balanço, ser grata à caminhada que me trouxe até aqui. Grata pelos filhos e netos. Tempo de desacelerar, de espera.

Primeira notícia que aparece no meu celular “os EUA atacam o Irã”.

Perdi as esperanças cultivadas ao longo da vida, mas ando procurando-as com teimosia, com obsessão, em toda forma de resistência que existe para que o mundo não se autodestrua. E as notícias que me chegam são um choque.

Antes de dormir eu havia escutado uma linda entrevista de Ermal Meta sobre a música Stella Stellina em Sanremo. Escutei-a não só com os ouvidos, mas principalmente para o coração. O cantor disse que era uma música distópica, porque convida a mover o corpo, mas a letra fala do horror do assassinato das crianças em Gaza. Dançar sobre a tragédia seria impossível. Ele tinha optado por usar sua arte para falar do que tinha que ser falado. Suas palavras foram uma carícia.

Este ano eu decidi não assistir Sanremo como fiz nos últimos anos. Cansei-me das futilidades, da censura imposta aos discursos políticos, ao cinismo que o atual governo italiano impõe à RAI, que é instrumento do estado e transmite o festival. Desde o início deste governo, diferentes profissionais foram demitidos, programas foram reestruturados e censura foi imposta a qualquer discurso de esquerda. O jornalismo foi o mais decepado. Sanremo não poderia escapar a esta poda.

Eis que escuto Stella Stellina no youtube. E a entrevista com o autor. Ajudou-me a encontrar o sono e dormir razoavelmente bem. Ele furou o bloqueio com sua arte.

Mas a manhã não me poupou. Como viver o cotidiano, sabendo que os EUA estão lançando bombas sobre mais um país? Não basta o que está acontecendo na região, para falar somente numa parte do mundo? Genocídio na Palestina, começado há setenta anos. Líbano, Iraque, Cisjordânia, Síria. EUA e Israel lançando o horror ao redor no Oriente Médio, e o mundo cúmplice, não apenas indiferente. A parte do mundo horrorizada está impotente.  

Nunca imaginei ser testemunha de um tempo tão terrível. No século passado demonizaram a URSS, mas boa parte da humanidade tinha esperança de um mundo melhor, restava-nos a promessa do bem viver ocidental. Vivemos na obscuridade, a União Soviética foi uma barreira ao imperialismo americano, apesar de seus fracassos internos. Os EUA nos venderam a ilusão de um bem estar que nunca chegou para a maioria do ocidente, mas nos ofereceram guerras intermináveis.

 

Segunda-feira. A guerra que EUA e Israel começaram contra o Irã recrudesceu. Aqueles países sempre usaram a morte para continuar a existir.

Leio as notícias rapidamente, porque meu coração disparou. Passo para a entrevista do filósofo Franco Berardi, nem ele me poupa, fala sobre a juventude que desistiu e vive a solidão: “Agora, a verdadeira novidade é que a nova geração está consciente do fato de que o genocídio é a regra do mundo em que vivemos hoje”.  Diante de todas as guerras que estão em curso e da cooptação da mente da geração que nasceu no mundo digital e não conhece outra forma de ser, Berardi não vê possibilidade de esperança para a humanidade: “E o que compreendo é isto: a espécie humana não sobreviverá a este século. Temos de criar as condições para a alegria e a solidariedade durante a agonia.

Apesar de tudo, volto a Stella, Stellina e as todas as vozes que dizem ao mundo que ainda há tempo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Meu cotidiano diante do belicismo de Trump

 

Os EUA atacaram a Venezuela e sequestraram Maduro.
O que significa este fato para mim individualmente? Se eu vivesse parcialmente informada, poderia espantar-me com a agressão perpetrada contra um país sul-americano; ou, ficaria indignada, porque não compactuo com a arrogância dos governos norte-americanos?; ou ficaria perplexa, sem entender tanta ousadia por parte daquele país?; ou, ficaria chocada com a audácia de Trump, considerado um maluco por parte de alguns noticiários?; ou aplaudiria?
Só quem vive em bolhas de fakenews pode festejar.
Acompanho o que acontece no mundo cada vez mais assiduamente. Conheço as invasões realizadas pelos EUA ao longo da história e as consequências catastróficas para os países onde ocorreram. Todas elas por motivos diferentes dos invocados, ou seja, por interesses ocultos (nem tanto), econômicos e estratégicos deles próprios.
Não me cabe analisar a situação para a qual há jornalistas e pesquisadores excelentes e com conhecimentos para isso. A minha indignação e temores são de uma cidadã comum que está atenta aos acontecimentos do mundo, que viveu a história desde a segunda guerra mundial, que sonhou com um mundo melhor, quando havia narrativas para esta utopia no século passado. Infelizmente, o século atual mostrou-se desde o início um desastre e, ano após ano, as ameaças à própria sobrevivência da humanidade aumentam e não nos deixam viver o cotidiano com tranquilidade.
Tenho consciência de que, no Brasil, fomos salvos com a eleição de Lula. Éramos governados por um bando que promoveu o saque do país, e nem quis imaginar o que teria acontecido se o governo anterior tivesse continuado. A sensação é de viver num oásis, apesar de todas as ameaças e perigos que continuam ativos, um deles dentro das nossas trincheiras e se mostra através do regozijo de políticos brasileiros.
Neste contexto, vejo os perigos desta ação dos EUA representa para o meu cotidiano, como o veem todos os brasileiros que acompanham os acontecimentos dentro do nosso país. O que aconteceu na Venezuela não é problema apenas daquele país. Porque sempre tivemos intervenções americanas, que reverberaram no cotidiano através do estrangulamento dos nossos movimentos socias e da nossa imprensa com posteriores mudanças nas nossas diretrizes educacionais, na nossa cultura e na construção de nosso imaginário, ou seja, na produção de nossa subjetividade. Tudo através de ações gradativas e ignoradas pelo grande público. Um saldo, sempre atualizado, sinalizado com a reverência que boa parte da população tem pela língua, pela cultura e pelo modo de viver daquele país, a ponto de se sentir inferior e desprezar o lugar onde vive. Isto chama-se colonialismo, do qual nunca nos libertamos.
Acompanho analistas com diferentes formas de ver os acontecimentos, eles são unânimes em sentir o perigo para o Brasil neste ano de eleições. Não há limites para os EUA com Trump, não há leis internacionais que eles respeitem, mostraram que estão pondo em prática o plano de recompor seu império nas Américas. O Brasil e as posições do Governo Lula são um empecilho, e eles estão se mostrando vorazes sem qualquer barreira que os limite. Um dos analistas mais bem informados e lúcidos reconheceu que não foi capaz de prever a ousadia de um sequestro do presidente venezuelano.
O ataque à Venezuela reforça a certeza e o tom de um cotidiano muito conturbado com guerra de informações e todas as consequências. Meus votos são de que algum acontecimento esteja em gestação e possa mudar os rumos previstos neste início de ano.

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

As palavras têm peso

 

As palavras têm peso, cor e tamanho. Algumas caem mais fundo em nós

            “A dor da mãe do policial é a mesma dor que a minha”. Estas foram as palavras de uma mulher jovem negra diante das câmeras no complexo da Penha. Ela disse mais, não apoiava o que seu filho de vinte anos fazia, mas ela era mãe e não podia dar-lhe as costas, mas que o Estado tinha que ver o modo em que eles viviam, ela trabalhava duro para sustentar o filho morto e mais uma menina, ela era solteira, e o que mais via era falta de oportunidades para trabalhar e viver melhor, era isto que precisava ter, oportunidades. Não adiantava sair matando como fizeram.

            Eu ouvi as palavras desta mulher e me emocionei pela sua dor, mas também pela dignidade com que as pronunciava. O que ela expressou em primeiro lugar foi sua empatia por outra mãe do lado oposto ao seu na escala social. Não reivindicava pena pela sua situação, nem ódio, mas indignação sobre as causas da situação em que ela se encontrava. Na dor da perda, ela conseguia extrair o que deveria ser pensado para o dia seguinte, para a vida que continuava ali, no mesmo lugar da irrupção policial que havia se retirado. Ela e a população do lugar não teriam para onde ir, não podiam sair dali como havia feito a polícia. Ela apontou para o dever do Estado de se tornar presente para que as ações policiais daquela natureza sejam repensadas.

            Como mãe pude rever os meus esforços para criar meus filhos da melhor forma que eu podia. E não pude deixar de fazer comparações. A distância enorme entre o lugar em que eu nasci e o dela, ponto de partida para nossas caminhadas. Ponto de partida para nossas escolhas, se é que podemos falar em escolhas. Desde a própria presença desde o nascimento, com direito a licença maternidade, o acompanhamento do pediatra, a orientação para alimentação, os amigos, a escola (os livros para gostar de ler), aula extra para o inglês, o clube para fazer um esporte, tudo com enormes dificuldades, mas foi possível. O que não teve aquela mãe? E tantas outras na mesma situação? Eu sei através da literatura, de reportagens da imprensa que se interessa em dar voz a quem é invisível socialmente, ao depoimento de mães em meus contatos com movimentos sociais. Há um fosso muito grande em “ouvir” e “viver” uma realidade, embora a dor seja a mesma como disse aquela mãe. Há, no entanto, diferença também em como cada mãe pode receber amparo na sua dor.

            A empatia que todas as mulheres merecem, ao perder um filho daquela maneira, necessita continuar. Uma forma é cobrar a presença do Estado nas periferias das cidades, não só daquelas em evidência agora, através de participação popular em qualquer lugar do país. A primeira, no entanto, é não esquecer.

sábado, 6 de setembro de 2025

Prêmio em dinheiro


Olho a foto que mostra o governador no palco com microfone na mão, diante de mil e cem gestores no Teatro da Feevale em Novo Hamburgo. Só depois, leio a notícia de que o Governo do Estado lança um Programa de Reconhecimento da Educação Gaúcha. Vou ao texto, leio e releio. Confiro que está se tratando mesmo do Governo do Estado do Rio Grande do Sul. Deveria estar no mínimo curiosa e entusiasmada, tenho a escola estadual no meu coração. O Governo do Estado está preocupado com a Educação. Não consigo, acompanho a lenta e degradante depauperização do sistema estadual de educação há muitos anos, especialmente na última década, especialmente no governo dele. Eu fui professora na escola pública, aposentei-me como professora estadual.

            Ano de 1965, eu chamaria o ano da virada na minha vida. Fiz concurso para o Magistério Estadual, para lecionar Geografia no 1º e 2º Graus.

            Lembro dos primeiros meses em que comecei a lecionar como professora de Geografia e me perguntavam o que eu fazia, eu adorava que me perguntassem, e eu respondia com orgulho “sou professora do Estado”. Revendo aquele tempo, vejo que não era um status privilegiado, com salário extraordinário (embora bem melhor do que eu recebia no emprego anterior), mas minha resposta estava ancorada no sentimento de respeito e valorização que eu recebia pelo cargo exercido.

            Hoje, as notícias veiculadas pelo sindicato de professores e outras fontes dão conta da precariedade estrutural de numerosas escolas, tanto físicas como de salários e ausência de incentivos ao aprimoramento profissional. Este governo conseguiu extinguir um plano de carreira que protegia minimamente os professores de políticas arbitrárias. Por outro lado, as notícias veiculadas nos sites governamentais são de realização de centenas de obras e com um atendimento fantástico à rede. Há uma guerra de informações que não mascara a grande percentagem de professores que adoecem, outros que abandonam a profissão, e mesmo o movimento de diminuição de alunos da rede estadual e o acréscimo na rede particular.

            Se não bastasse, os problemas estão também nos ataques à questão curricular e as tentativas do governo de colocar sob a orientação de grupos empresariais a condução do trabalho pedagógico. É a privatização da educação subsidiada por dinheiro público. Uma trama de consequências nefastas para a formação dos alunos.

            Vejo tudo isto e lembro quantas lutas fez a minha geração por uma escola pública e de qualidade. Esta expressão me soa tão atávica, de um passado tão remoto que soa inverossímil.

            Por Outro lado, o governo se arvora de sucesso com o tratamento dado à educação, utilizando os dados do ENEM, onde o Rio Grande do Sul teria se saído bem. Segundo a deputada estadual Sofia Cavedon, o Estado sempre foi bem no ENEM, e os resultados de agora se sustentam a partir de escolas de municípios pequenos onde as condições de vida e de cuidados da escola são melhores. O ENEM não avalia a aprendizagem do Ensino Médio. O indicador oficial para isso é o IDEB. Em 2023, o Estado perdeu posições e ficou em 10° lugar no ranking nacional. E o RS tem um dos maiores índices de jovens fora da escola no Brasil. 44% dos jovens de 15 a 29 anos trabalham sem estudar.

            Por último, a grande alternativa oferecida pelo governo para melhorar a qualidade do ensino é um prêmio em dinheiro para os professores e escolas que forem mais eficientes. Um incentivo à disputa e à meritocracia num quadro como o descrito acima. O que podemos esperar disto tudo???

 

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Sem palavras

 

A notícia de hoje (11.08.2025), sob o título Está Encerrada a Cobertura,  é a morte dos cinco jornalistas da Al Jazeera que ainda estavam em Gaza. A tenda para os jornalistas foi bombardeada por Israel.

Quantas vezes escrevi “sem palavras” sob cada imagem terrível dos corpos e edifícios destroçados em Gaza veiculada nas redes sociais? Minha impossibilidade fez eco ao texto de Agualusa onde está sua afirmação de que nossa língua não tem palavras para nomear os horrores que testemunhamos em tempo real em várias partes do mundo, mas especialmente em Gaza. As palavras que conhecemos não mais dão conta dos sentimentos que aqueles horrores nos provocam. Igualmente para descrever o que vemos já não há palavras.

Há muito tempo já não consigo nomear o que sinto quando vou verificar as notícias. Alguma coisa trancada no peito quer sair, mas fica lá dificultando a respiração, ou fazendo o coração acelerar. Pergunto-me se são o pudor e o medo que não a deixam sair, aqui também faltam as palavras para nomear o que não vejo, apenas sinto o que nunca senti.

Precede-me uma teimosa e incontrolável esperança de que a manhã seguinte traga a notícia do término do genocídio. E toda manhã esmoreço. Não neste dia. Ainda não. Ainda estão lá mais destroços, mais rostos desesperados, mais crianças que choram, mais gente amontoada com panelas estendidas, mais corpos espalhados ou amontoados. Ainda está lá a máquina destruidora de um país que se tornou o exportador de inferno para uma população indefesa que está sendo estraçalhada ou morta de fome aos poucos. Tudo isso passa por meus olhos em instantes toda manhã. E só consigo deixar de olhar, quando meu mal estar está tão forte que me obriga a saltar umas horas sem acessar as notícias daquele pedaço de mundo.

Eu, testemunha disto tudo e continuo a comprar na feira semanal de orgânicos, a limpar a casa a cada semana, a regar minhas plantas, a ir um show musical, a ver minhas séries na tv, a tomar um café com minhas amigas, a fazer exercícios de musculação três vezes por semana. Sei que não pode ser diferente, mas isto não me consola. A recomendação que recebemos antes de iniciar um voo é de que, em caso de despressurização, cai uma máscara e devo colocá-la em mim antes de ajudar quem precisa. Este pensamento vem em minha ajuda para lidar com o sofrimento que presencio como se estivesse ao alcance de minha mão ajudar alguém. E vivo meus dias, esqueço. Não consigo alcançar a máscara a quem precisa.

Fico me perguntando se sinto raiva e não sei responder. É algo diferente que não sei nomear. Sinto raiva daqueles rostos que pronunciam atrocidades, daqueles rostos que sei terem mandado matar, daquelas bocas que mentem, daqueles olhos de gente corrupta? Sinto raiva de toda esta maldade? Não sei responder. Talvez, porque sei que o que vejo é apenas a ponta do mal que está disseminado não só neste grupo que nestes últimos meses tem disseminado o horror do inferno. Sei que a origem está difusa pelo mundo que alimenta o que está acontecendo por lá. Uma máquina cujos tentáculos são os do sistema financeiro, da produção de armas, de agrotóxicos, de pedófilos, de ilusões disseminadas pelas redes sociais e conquistam as mentes dos próprios escravizados.

Quando vejo o que está acontecendo em Gaza, vejo o restante do mundo responsável pelo que está acontecendo lá. E continua a acontecer, apesar das multidões que estão saindo às ruas pra protestar. Milhões de pessoas desejam e gritam para que este genocídio termine, que a Palestina seja livre e reconstruída. No entanto, as instituições que poderiam fazê-lo estão contaminadas e são surdas a esses gritos.

Então, para onde dirigir minha raiva? Ou, ódio?

No século passado tínhamos inimigos visíveis, nazismo e fascismo.

            Lembro da segunda guerra mundial do século passado, volto a ela constantemente, mas nada se compara àquilo que testemunho hoje. Embora a maior parte dos que estão ainda vivos da minha geração não imaginassem testemunhar o genocídio em Gaza, existiram vozes que anunciaram um futuro de permanente conflito na região. No entanto, aquelas vozes não anteciparam os mesmos horrores sobre os palestinos, pelos próprios judeus.




 



sábado, 5 de abril de 2025

Figos-da-índia, pardais e castores

 


    A viagem a Ushuaia e a El Calfate foi tão impactante que já se passaram alguns dias, continuo a olhar as fotos e a sentir as emoções que aqueles lugares me provocaram. Ali mergulhei em verdades apenas imaginadas.

            O que vi e vivi fez-me voltar a ler o livro Nação das Plantas de Stefano Mancuso. Ele expõe a relação entre diferentes plantas, insetos e animais, formando sistemas. Por sua vez, há a existência de íntima relação entre os diferentes sistemas, formando uma única rede de relações que recobre o planeta. Quando um dos elementos é eliminado, toda a rede sofre alterações, como numa rede de pesca. Se ali é feito um furo a alteração é pequena, mas à medida que mais furos possam ocorrer, inviabilizaria a pesca. Assim é com a camada de águas, terras, vegetação, insetos e animais que recobre a Terra. O que havia entendido lendo, meus olhos, ouvidos e arrepios pelo corpo compreenderam ao testemunhar a queda de blocos de gelo a poucos metros à nossa frente na proa do barco. Num jato, vieram-se as imagens da poluição na cidade onde vivo. E as de muitas partes do mundo. Cenas distantes e, ao mesmo tempo, conectadas. Tudo está conectado.

            Mancuso, o neurobiólogo vegetal, ilumina a experiência física e emocional que ali experienciei. Rico em exemplos de ações desastradas do homem ao longo do tempo, desde a importação do figo-da-índia com a cochonilha (inseto ali incrustado e que produz a cor) na Austrália no século XVII – para a produção de pigmento vermelho necessário aos uniformes dos militares da Inglaterra –, à eliminação dos pardais que devastavam os arrozais na década de 1950 na China. Ambos os experimentos alteraram os sistemas existentes com consequências desastrosas. Darwin já escrevia a respeito da existência de sistemas naturais no séc. XIX na sua teoria da evolução das espécies. Disseram-nos que ele teria navegado pelo Canal de Beagle.

            O que a ciência nos mostra há muito tempo continua sendo ignorado e pudemos vê-lo nos abrigos dos castores no Parque Nacional Tierra del Fuego, foram indevidamente introduzidos do Canadá, sem a existência de um predador natural (o urso), por isso reproduzem-se incontroladamente, criando um sério problema na cadeia alimentar.

            Testemunhamos o desprendimento de blocos dos Glaciares de Upsala e Spegazzini, belíssimo espetáculo, apesar de tristes as suas causas. O Glaciar Perito Moreno, sem a ponte de gelo que o unia à terra, caído em 2018. Sua imponência provocou múltiplos e profundos sentimentos, inclusive o de alegria por saber que se mantém estável desde aquele ano. Sabemos, no entanto, que os perigos continuam com a insanidade de quem exerce poder no mundo e nega os efeitos da elevação da temperatura global por nosso modo de viver.

            Para quem faz esta viagem e mora numa cidade, pequena ou grande, é entrar noutro mundo mesmo que tenha acessado suas imagens. Vimos um território limpo (cada um leva consigo o que precisa descartar), o ar é puro, o silêncio nos permite ouvir a queda de um bloco de gelo a centenas de metros de distância (mesmo o rumor das águas depois que o bloco mergulhou). A cor das águas é intensa (o azul turquesa nos faz duvidar do que vemos), a vegetação é de tonalidades opacas nas zonas muito secas, mas explode em amarelo, dourado, marrom no outono onde as chuvas ocorrem. Enfim, vivemos as relações entre plantas, insetos, animais, temperatura, água, ações do ser humano que Mancuso explica de modo exaustivo e apaixonadamente.

            Finalmente, a experiência vivida durante uma semana propiciou-me outra grata relação. Para mim, esta viagem só foi possível, porque em grupo. As sensações foram únicas para cada pessoa, mas houve trocas e elas ampliaram o sentido da experiência. Tudo transcorreu com tranquilidade e segurança, porque alguém havia organizado os roteiros com o acompanhamento da guia que nos informava, nos orientava e nos seguia. A convivência foi maior entre algumas pessoas, como é previsível num grupo de dezenas de pessoas, mas foi um grupo harmônico e empático. Enfim, foi uma experiência humana prazerosa, trago lembranças de um tempo especial onde muito boas energias circularam. Um exemplo de sistema harmônico entre humanos, circulando através de vários outros sistemas. Poderia não ter ocorrido.

            Encerro com a questão: se todos pudessem sair de seus lugares e para viver uma experiência como essa, o mundo poderia ser melhor?

 

quarta-feira, 12 de março de 2025

O mundo é uma mineira

 

Leio um livro e encontro uma frase que me faz parar como no vermelho de uma sinaleira. Ela me chama para escrever, não diretamente sobre o tema lido, mas sobre algo que foi despertado a partir daquelas palavras. A personagem fala sobre seu sentimento diante do enterro da mãe e surge-me a ideia de escrever um conto sobre a morte recente de uma amiga querida.

Depois, o pensamento pula sobre possíveis pontos de partida. Começar pela tristeza e vazio que substituíram a presença da amiga? Pelas recordações que permaneceram? Pela gratidão pelos anos de convivência? Pelo desejo de escrever sobre ela?

Os pontos de partida são os atletas à espera do sinal para iniciar a corrida. Uma ideia será a primeira. As outras não são descartadas necessariamente, disputam também espaço para serem registradas, a vencedora é o começo, mas outras que nem existiam no início juntam-se na trajetória, são aquelas enraizadas em sentimentos mais fortes, em histórias que se juntaram à sua própria história, como os nutrientes da terra que fazem germinar as flores do campo. As flores colhidas são as palavras, as frases, formam o texto que preenche linhas e laudas, como os ramos de flores juntam-se dentro de um vaso.

Flores, palavras, nutrientes, pensamentos, terra, emoções, ventos, tensões, luz, decisões em resposta ao desafio no jogo do escritor de criar uma história, uma poesia, uma narrativa, uma memória, tudo o que constrói o ser humano, ou seja, os movimentos ininterruptos constitutivos da própria maneira de viver de cada um de nós.

A escrita alavancada na palavra de outro, na página que não a própria, num livro que gostaria de ter escrito. Ler é fonte contínua de inspiração, de ligar a chave da corrente de onde brotarão as próprias ideias e palavras. No entanto, existem outras fontes, elas estão por toda a parte cutucando a sensibilidade de quem escreve. O mundo ao redor é uma mineira com inesgotáveis filões. O que acontece é que, às vezes, os olhos estão embaçados ou os sentidos anestesiados, e não os reconhecem.

O conto sobre minha amiga poderia ter um início a partir do momento em que passei de táxi pelo cruzamento com a rua onde ela morava. “Ela já não está mais aí, a rua deixou de ter importância.”

Um colar recebido no aniversário de muitos anos atrás, e encontrado na arrumação do armário, trouxe a cena de um tempo com esperanças, embora turbulento na política do país. O conto poderia iniciar ali, com contraponto do que se realizou e do que se perdeu.

Um telefonema de uma amiga comum desencadeou sentimentos ligados a um carnaval junto a grupo de amigos e alguns segredos compartilhados, um tributo à amizade de tantas décadas. Poderia ser outro começo.

Tenho que escolher o início, sem o primeiro passo não haverá história. Este é um dos momentos cruciais, a abertura de um caminho, ou caminhos. É preciso decidir. Escolhas para continuar se apresentarão ao longo da narrativa, um espectro de ideias, combinações possíveis.

Vou deixar o que escrevi em banho-maria, um tempo de espera também faz parte da escrita. Talvez escreva algo completamente diferente do que pensei até agora.

 

 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

Tempo de recordar


O mês de janeiro colocou-me muito perto da morte.

Não ouvirei mais a voz de uma amiga de mais de quarenta anos e da prima com quem mais convivi na infância.  Estas perdas vêm somar-se a outras anteriores, mesmo que com sentimentos de outra cor e intensidade, a de figuras importantes da cenografia nacional, mulheres e homens das artes, do jornalismo e das ciências. Um a um estão indo, como pedras de um jogo de damas. Permanece o tabuleiro e outras disputas.

T. era sincera, amiga fiel, tomava partido de quem gostava, a neutralidade não lhe era próxima, suas falas eram afirmações, tinha certeza do que dizia, não discutia, podia-se ouvir seus pensamentos além de suas palavras, ela sempre foi transparente, mesmo ao esconder suas dores.

E. era a prima que reencontrei quarenta e sete anos depois de emigrar para o Brasil. Eu a achava delicada quando ainda éramos meninas, achava-a mais bonita do que eu nas fotos que trocávamos, quando já distantes. Ao retornar pela primeira vez à pequena cidade natal, muito elegante, e continuava mais bonita.

T. separou-se há cerca de 30 anos.

E. reencontrei-a já separada, quando retornei à Itália depois de quase cinquenta anos.

Nenhuma de nós três voltou a casar-se.

Expusemos o motivo de nossa separação, ele se encaixou como peça única de um quebra-cabeça, nossos maridos resolveram iniciar nova relação. Nenhum drama, nenhum segredo horrível, apenas a repetição conhecida no cotidiano ao redor. Merecíamos uma história marcante, não um clichê, é o pensamento que me ocorre.

Todas atingimos os oitenta anos.

Conheci T. através do marido que foi meu professor na Faculdade, quando nos mudamos do interior para P. Alegre. Foram padrinhos de um dos meus filhos. Eu admirava a inteligência dele, e contava sem reservas com a amizade dela. Ela me ajudou a cuidar do afilhado, quando precisei atender minha mãe que estava morrendo. Conheci seus temores e dificuldades dos primeiros anos da ditadura de 1964, quando foi atingida diretamente.

Eu e E. passávamos tempos uma na casa da outra, ela vivia numa cidade maior que meu pequeno comune. Foi numa das visitas a ela que vimos Branca de Neve e os Sete Anões (sem intervalos, como achava que eram os cortes nas projeções do pequeno cinema ao lado de minha casa). Fiquei fascinada pelo filme colorido, em 1948 ou 1949. Meu pai era irmão da mãe dela, uma costureira que imagino fosse habilidosa ao lembrar o vestido de primeira comunhão, confeccionado por ela, lindo, me foi emprestado, era na época pós-guerra.

            Houve um tempo em que planejamos, T. e eu, viajarmos para a Itália. Se tivesse acontecido, T. teria conhecido E. Elas não se conheceram, mas não impediu de sermos três mulheres que viveram oito décadas de história com a aceleração das mudanças difíceis de acompanhar e compreender nos últimos tempos. Vivemos proximidades afetivas, sociais e intelectuais, em países diversos. A distância física não nos separou de uma mesma visão de mundo e do mesmo desejo de uma sociedade justa e solidária, o que marcou escolhas políticas de mesma direção, aqui e lá.

            Fomos muito próximas, mesmo distantes.

            Enquanto registro um arco de lembranças, recupero o pensamento de Fernanda Montenegro quando afirmou que o difícil da velhice era ir perdendo os amigos. Ao escrever, faço-as permanecer comigo mais um pouco, enquanto vou incorporando a sua falta no tempo que me cabe.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Faíscas e escrita


     Quando me disponho a escrever no primeiro tempo da manhã – sempre foi o mais produtivo – e venho para o computador, minha mente mostra-se vazia. Branco da tela, olhos fixos, um espaço milimétrico entre ponta dos dedos e letras do teclado que retornam mudas ao meu olhar, poucos segundos, às vezes uma centelha, e os toques acontecem, se consigo recuperar sentimentos do dia anterior e gostaria de ter registrado, mas acreditei ter deixado escapar. Então as imagens surgem e se transformam em palavras.

 Isto é uma recorrência. Já pensei em usar escrita à mão para prender aquelas que chamo de faíscas do cérebro, ideias emersas por causa de uma imagem, um cheiro ou um toque de mãos. Colher o instante. Não é a mesma coisa que recuperá-las algum tempo depois, ou no dia posterior.  Muitas se perdem. Espalhar cadernos pela sala, cozinha, quarto, seria um artifício para retê-las, como faço com copos de água para me lembrar de tomá-la, porque quase nunca sinto sede. No caso das faíscas, é ter sede, mas não ter o copo de água ao alcance. A escrita não rende quando me disponho a começá-la sem ter sido movida por algum sentimento urgente que necessita mostrar-se, sair de dentro de mim, expor-se para continuar a existir. É não ter sede naquele momento.

Por outro lado, gosto da imagem de contrações que fazem surgir estas faíscas, pensamentos emersos no meio das mais diversas tarefas cotidianas, lavar pratos, fechar uma porta que range, ouvir um carro que passa pela rua, cometer lapsos nas falas, elas cortam os afazeres na corrida do dia a dia. Contrações geram nascimentos. Imagino nascimentos perdidos por não haver o seu registro. Vale agarrar o que contrações e faíscas produzem constantemente, sinal de potência, de que algo está nelas querendo se manifestar.

Lembrar a recorrência de ignorar muitos dos pensamentos ou sensações que surgem de repente, e que poderiam frutificar em escritos, me leva à fala de Pepe Mujica ao expressar seu conceito de liberdade “sou livre quando faço as coisas que gosto de fazer”. O que tem a ver liberdade com a escrita? Só posso exercer a liberdade quando posso prestar atenção às minhas necessidades e não àquelas criadas pelo modo de viver em busca interminável do último modelo de qualquer objeto que possuo, fonte de insatisfação contínua porque sempre haverá um novo modelo. Sou livre quando largo qualquer necessidade que o mundo me impõe e escrevo.

Quando consigo começar a escrever, seja lá o que for, entro num mundo que me afasta de atribulações, mesmo que as palavras falem sobre elas, porque as encaro e as uso como quero, queixo-me, xingo, amo, odeio, desabafo sem censura, estou no comando. É isto, escrever é estar no comando, pode ser um tema prazeroso ou angustiante, mas sempre será algo sobre o qual decido, ao menos o começo do caminho. Num segundo momento a própria escrita me leva a seguir, a me aventurar em caminhos desconhecidos que não sei onde vão me levar. Este é um poder que fortalece e empurra para seguir. Não é um plano, é cheio de obstáculos, mas grávido de promessas de superação. Algumas promessas podem não se concretizar, mas vale seguir e criar. Este é o sentido que dou às palavras de Pepe Mujica sobre fazer o que se gosta. Gosto não é uma questão de leveza e de satisfação superficial, mas conexão com a capacidade de fazer algo que dá sentido ao que se faz e ao estar no mundo.

Escrever é uma forma de estar enraizado no mundo, produzindo diferentes mundos.

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Quando o corpo fala

 

A história começou com um resfriado sem febre, de apenas dois ou três dias.  O resfriado emendou uma tosse que me fez penar durante cerca de três semanas, resistindo a xarope, chás e antialérgico. Esta é uma recorrência ao longo da vida. Tratada devidamente por acupuntura muito tempo atrás, ela sumiu por anos e voltou a se manifestar em épocas recentes de instabilidade política. Eu não me dava conta do quanto me atingiam aquelas situações, do quanto a tristeza havia se entranhado e me paralisava. A tosse veio me dizer. De lá para cá, aprendi que alergias e a persistente tosse vêm me avisar alguma coisa que não quero ou não consigo olhar.

Nos últimos meses, a trégua vivida com a eleição de um Presidente que procura defender os interesses da população mais excluída é ameaçada, e a tosse, depois de quase um mês, transformou-se em infecção das vias respiratórias. Depois de tomar antibiótico, coisa que não fazia há tantos anos que nem lembro, veio uma virose que me derrubou em uma noite e um dia. A recuperação foi lenta, meu corpo custou a se reerguer. Tudo somado, passaram-se cerca de dois meses. A tosse persistiu, a tristeza também, e eu voltei à acupuntura, paralela ao antialérgico. Ao final de três meses, larguei o antialérgico. Continuo com a acupuntura.

Ao mesmo tempo, vivi o período trágico na cidade. A enchente devastadora, cujos danos poderiam ter sido numa escala bem menor se o poder público tivesse tratado do sistema de prevenção. Os terríveis acontecimentos povoaram meu cotidiano de uma forma muito dura ao ver as imagens de destruição pelas águas e o desespero das pessoas. Nada me atingiu fisicamente. Nada faltou na minha rua. A luz não foi cortada, a água não faltou, nem sequer a internet. No meu micro mundo, tudo continuou igual. Tudo acontecia à distância, algumas zonas poderiam ser atingidas por uma caminhada, outras longínquas, no entanto, todas próximas pelas notícias cotidianas.

A natureza mostrou sua força e respondeu aos maus tratos sofridos pela ação do homem, mas pior foi a população negar as causas e os responsáveis. Um mundo distópico foi se desenhando com o correr dos dias. Os culpados, fazendo-se de vítimas. Os donativos chegando de pessoas e organizações do país e do mundo, sendo vistos como a única fonte de ajuda. Pontes e estradas sendo reconstruídas, helicópteros salvando vidas, verbas emergenciais para as famílias, débitos municipais e estaduais sendo revistos, verbas federais para a reconstrução de estados e municípios ignoradas. E tantos outros acontecimentos foram negados. Pelo contrário, acusações mentirosas. Enfim, uma teia pegajosa de falsidades indiferente ao sofrimento de centenas de milhares de pessoas. Não adiantaram denúncias da má administração municipal e de suas responsabilidades. Durante a campanha eleitoral para prefeito e vereadores, que mostrava desde o início como as mentiras eram aceitas, uma sensação de impotência foi se instalando. Eu sem energia para qualquer atividade. O mesmo prefeito foi reeleito. Seguimos nas mãos de quem causou males à cidade, seguiremos nos mesmos rumos nos próximos quatro anos. O negativismo e as mentiras nas redes sociais venceram.  Tudo me atingiu de tal forma, que meu corpo falou. Foi outro fator que me levou aos dois meses de doença.

Paralisei junto com minha tristeza. A conversa que ouvi hoje me reavivou as razões. A entrevista com a Fernanda Torre sobre a sua atuação no filme Ainda estou aqui foi daquelas que abrem respiradouros, que ajudam a entender sentimentos adormecidos em algum canto dentro de ti, que te cutucam, mas que não consegues conversar com eles, olhar para eles e assumir sua enormidade. Ou são olhados de esguelha com medo deles. Ou é o próprio medo que lhes joga sombras. Das diferentes falas acerca de sua atuação no filme e sobre a personagem que ela representou – Eunice Paiva, esposa do Deputado Rubens Paiva –, sobre a história do terror do Estado naquela época, sobre a necessidade de continuar a falar sobre o que ocorreu, porque os responsáveis diretos foram identificados, mas não punidos, Fernanda fez a distinção entre tristeza e dor. Traduzi sua fala com minhas palavras. A tristeza é egoísta, sozinha, chora a si mesma, ela está dentro de corpo e o faz adoecer, nem sempre com uma doença grave, mas com resfriado, alergia, virose. Um adoecer em etapas. A tristeza manifesta-se na solidão, introspectiva, represa sentimentos, não leva à ação. Por isso ela adoece o corpo. Enquanto a dor olha para fora, empurra a agir diante do acontecimento que maltrata, há empatia pelo outro. O filme mostra a dor de Eunice Paiva e de seus filhos, mostra sua luta pela verdade e pela justiça durante décadas sem nunca desistir. Entendi que a diferença está na ação, na busca por caminhos para enfrentá-la apesar dos obstáculos encontrados. Seguir lutando.

Por um período, desisti. Nenhuma ação que me fizesse sentir estar lutando como sempre fiz ao longo da vida. Uma tristeza sem fim acompanhou-me ininterruptamente e me isolou. Nenhuma palavra publicada. E veio a entrevista que sacudiu meu estado de torpor.

Ainda não sei como posso agir, além do que estou conseguindo fazer. No entanto, a compreensão dos meus sentimentos implodiu a inércia. Assistir à entrevista foi tão valioso quanto uma sessão de terapia. A arte e a escuta da palavra fizeram-me voltar novamente ao auxílio da escrita.

 

 

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Gangorra

 

Balanço na gangorra de acreditar que ainda podemos enfrentar os horrores do mundo através da palavra e, em seguida, cair no desânimo de ver tantas palavras serem gritadas sem serem ouvidas. Estamos no movimento de descida na gangorra.

Lembro seguidamente de uma afirmação de Marx (ao menos é o que guardei como se fosse dele) que se a observação da realidade fosse suficiente para compreendê-la, não haveria necessidade da ciência. A ciência precisa da palavra.

No entanto, hoje, estou tão impregnada de palavras nas teorias sobre os horrores que vejo acontecer perto e longe de mim que preciso ausentar-me para respirar.

Preciso distanciar-me para poder acessar o mundo da criação, da imaginação, da liberdade de exploração de outros mundos possíveis. Outro mundo de palavras. Coisas fantásticas foram imaginadas e registradas na literatura antes que pudessem ser materializadas. Não foi assim ao longo da história? Não foi Leonardo da Vinci que imaginou protótipo de avião séculos antes que o homem pudesse construí-lo? Infelizmente ele projetou também artefatos de guerra. Não foi Júlio Verne que viajou ao fundo do mar com a sua história, muito antes que alguém acreditasse ser possível a construção do primeiro submarino?

A trégua é pequena. A literatura me traz outras palavras em Admirável Mundo Novo onde Huxley antecipou experiências para domínio de cérebro humano. E Mary Shelley que nos presenteou com a construção da figura disforme de Frankenstein? George Orwell com 1984, alertava para o perigo que rondava o mundo livre, inspirado nas sociedades dominadas pelo então “comunismo”. Tantos outros. Mais recente é o Conto de Aia de Margaret Atwood a nos mostrar um mundo terrível com suas raízes plantadas no nosso cotidiano capitalista, quando o “comunismo” já deixou de existir. E volto à crueldade que certos países exercem sobre outros, e não existem palavras e argumentos que os bloqueiem. São emitidos discursos horrorosos em sua defesa. A realidade supera qualquer narrativa literária.

A palavra cooptada e vulgarizada de tal forma a serviço de grandes conglomerados econômicos, que temos cada vez mais dificuldade em discernir a realidade dos fatos das narrativas mentirosas e distorcidas. Sempre a palavra. Sem ELA como podemos buscar caminhos para enfrentar o poder de morte que está se mostrando tão potente hoje no mundo? É ela que continua a constituir-se em núcleos de resistência dos mais diversos cantos do planeta.

No livro Ecologia de Joana Bértholo, o caminho para a subjugação do ser humano será através da mercantilização de sua fala. Numa narrativa densa sobre a construção do último patamar de uma sociedade distópica, ela nos apresenta as diferentes etapas em que o ser humano vai aceitando comprar a quantidade de palavras que vai usar, ao final, a opção estará em diferentes pacotes mensais tal como uma assinatura de celular ou de internet. Quem tem mais dinheiro pode falar mais, a requalificação eterna das classes sociais. Para tanto foi necessário eliminar todas as milhares linguagens do mundo, porque o ser humano tentou escapar utilizando outras palavras não conhecidas do sistema, mas identificadas e absorvidas paulatinamente. A diversidade foi transformada em unicidade, sem vias de escape.

Parece que o tempo que estamos vivendo oferece considerável número de sinais a dar razão a esta narrativa de Bértholo. Tomo apenas o exemplo das redes sociais. A redução das palavras em siglas, a criação e simplificação de termos, a substituição cada vez maior de palavras por emojis, o aumento da incapacidade de utilizar argumentos na defesa de um ponto de vista, a dificuldade cada vez maior de interpretar um texto, ou seja, uma disfunção cognitiva assustadora. Tudo parece ser um terreno adubado e fértil para a produção da sociedade de linguagem e pensamento único de Bértholo.

A narrativa termina com uma das personagens escolhendo uma palavra para título de um livro resgatado de um tempo quando ela era criança e sabia ter sido escrito por uma tia já falecida. Todas as palavras que ela escolhia eram muito caras, a encarregada do acervo sugeriu-lhe a palavra Ecologia por ser a mais barata, em desuso há muito tempo. Curiosa como sempre foi, a personagem busca saber o que representa aquele termo recolocado no Território de Significação Fertilizado. Lá ela encontra, dentre outros significados completamente diversos do qual conhecemos hoje, Ecologia = o Estudo dos Ecos.

Busquei ajuda para me erguer na gangorra, não encontrei. A diversidade de linguagens ainda existe.

 

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

Do vermelho ao verde


Meu quase sonho foi colorido na noite que passou. Sabia estar deitada sobre meu braço esquerdo como sempre, mas só meu corpo estava lá. Bolas vermelhas pulavam sem parar em meio a outras cores que apareciam e despareciam em redemoinhos ao redor e centro de meu corpo. Aquele movimento embalava-me, dava-me prazer. Muito prazer. Falava-me alguma coisa, e eu prometia lembrar o que estava vendo e sentindo para que pudesse escrever quando acordasse. Não sei quanto durou aquele estado. Eu tinha certeza de que desta vez eu conseguiria lembrar, tal era a sensação de domínio sobre o que estava vendo e sentindo. Acordada, não soube se fora sonho, ou imaginação, naquele limiar entre dormir e acordar. Um falso domínio. Certo é lembrar-me das bolas vermelhas e que elas queriam me dizer alguma coisa. Certo é que ainda tinha resquícios daquela tremura poderosa e inominável no meu peito e na minha barriga, e a certeza da policromia que se perdeu, com o convite para lembrar e decifrar sua mensagem. Não sabia por onde começar. Ainda mais num tempo de muitos sobressaltos com os acontecimentos políticos no país. Pensei em buscar informações sobre cores e seus significados, mas temi distanciar-me daqueles momentos, certamente ligados a meu inconsciente. Estaria negando os horrores que vejo todo o dia e produzindo um mundo paralelo para sobreviver? Concentrei-me no pedaço de lembrança. Bolas vermelhas. Vermelho, é um símbolo com o qual me sinto ligada hoje em dia, principalmente político, esquerda, luta de classes, guerras, resistências, empatia pelos marginalizados, luta pela vida. Não traz prazer, antes, um desafio, um apelo a agir.  Nem sempre foi assim, raramente vesti uma camiseta vermelha, certamente nenhum vestido, nenhuma saia. Nunca me perguntei os motivos, mesmo sabendo que o vermelho dava cor ao meu rosto, como me diziam. Lembro da combinação do roxo com o cinza claro, tive um conjunto de saia e casaco na minha juventude, chamava-se tailleur, hoje não ouço mais esta palavra, hoje fala-se conjunto, ou uma denominação mais atual, e o comprimento da saia justa não mais cobria o joelho, a nova moda merecia fofocas, críticas – o joelho era uma parte menos bonita do corpo feminino – e aplausos pela liberação da mulher, conceito possível naquela época, sem antever as microssaias atuais. O verde também, em outro tailleur. Aquelas roupas me deixavam elegante. É isto, relaciono essas cores com elegância e com um futuro e sonhos a se realizarem. Hoje eu não tenho qualquer peça roxa. Mas possuo sempre roupas verdes com tonalidades diversas. Lamento o confisco que parte da sociedade fez da associação verde/amarelo. Além das roupas, o verde me é fundamental, ligado à Amazônia, à Mata Atlântica, às araucárias, às árvores decepadas na cidade nos últimos tempos, todas ameaçadas, necessidade de preservá-las, cobertura de vegetação a risco nos cinco continentes e próximo a um ponto de não retorno. Sinto necessidade de uma caminhada em meio ao frescor e cheiro de mato. Fico perguntando se meus netos terão esta experiência no futuro. Amo o rosa do ipê roxo – sei que não havia rosa no sonho –, ele se destaca no meio das matas, vejo um exemplar da minha área de serviço e temo por ele, a cada ano está com sua copa reduzida, deve ser pelo confinamento entre três edifícios, livre apenas em frente à calçada, o que me permite vê-lo. Antes havia somente pequenos sobrados naquela rua. Gosto das flores vermelhas do flamboyant em dezembro, no pátio do edifício no lado sul do meu, no meio das folhas que lhe servem de moldura verde, uma copa exuberante que vem diminuindo depois de contínuas podas radicais. Amo a pitangueira que se cobre de pequenas flores brancas e deixa a calçada atapetada quando elas caem, faz-me sentir num jardim mesmo numa rua completamente tomada por edifícios. Encanta-me olhar a buganvília que se curva com elegância sobre a grade na frente do nosso edifício, oferecendo suas flores fúcsia. Branco e fúcsia serão cores desaparecidas do meu sonho?

Em todo esse passeio por onde o olhar alcança de minhas janelas, é o verde com suas incontáveis tonalidades e brilhos que se oferece todo o dia. Não há qualquer vermelho. Alguns juncos ainda sobraram no fundo da casa lindeira, junto a um abacateiro e a uma alta e frondosa árvore, cujo nome desconheço, amaldiçoada por alguns moradores, porque foi pouso de morcegos robustos vindos de outras paragens depois da última enchente. Pequenos  aparelhos com emissão de som insuportável àqueles seres voláteis foram colocados no muro, eles sumiram e a árvore foi salva.

Junto aos outros terrenos vizinhos ainda sobram espécies variadas que receberam a companhia de palmeiras ornamentais do novo edifício, uma moda dos últimos tempos na cidade. A imagem desta ilha de vegetação próxima, no meio do bairro, faz-me agradecer viver ali. Abasteço-me diariamente destas imagens-trégua entre paredões de prédios cada vez mais altos. Poderia fazer um álbum de copas varridas e dobradas pelo vento, lavadas por chuvas calmas ou agressivas, dizendo-me como está o tempo lá fora. E nos dias de sol, reflexos de luminosidade em mosaico de folhas lembram sua proteção fiel contra o calor que se anuncia mais forte ano após ano.

Volto ao meu quase sonho e vejo como o vermelho me levou ao verde. Um passeio em livre associação. Ocorre-me que o vermelho conseguiu escapulir à censura da vigília, mas é o verde que me chamou e me acalmou.  Ainda não estou satisfeita com meu percurso, sinto que faltou alguma coisa. Esta falta talvez seja preenchida no próximo sono. Ou não. Talvez, esta falta seja aquela que me faz sonhar e escrever apesar de tudo, um caminho com a palavra escrita a me ajudar na produção de sentidos, onde mora a minha singularidade. O que diriam Freud ou Lacan? Encerrado o tempo de hoje, continuamos na próxima sessão.

sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Calçadas

 

Eu os via juntos nos últimos tempos e cheguei a me perguntar como se conheceram. O certo é que viviam como um casal, com seus momentos de gentileza e outros em discussões ferozes. Nunca, porém, os vi rindo. Eu continuo a passar seguidamente pelo ponto onde ficavam, um lugar próximo de onde moro. Estranhava quando não os encontrava um dia ou outro.

            A mulher estava ali desde sempre, não lembro daquele lugar sem a presença dela, era parte da rua como as árvores, o muro do clube, o poste de luz da calçada. O homem surgiu um dia e ficou com ela.  Comiam e dormiam na companhia um do outro, nem olhavam para os transeuntes. Raramente falavam com alguém. Ou melhor, raramente alguém falava com eles. Eu nunca tentei falar com eles, embora tenha pensado nisso várias vezes, eu não sabia o que lhe dizer.

            Tinham horários para chegar naquele espaço que inicialmente fora somente dela. Sempre na manhã tardia. Ficava a pergunta de onde viriam. À noite também não eram vistos por ali.

Ela, gorda, cabelos pretos, poucos dentes, voz esganiçada. Ele, também, cabelo escuro, mas branqueando, barba cortada de tempos em tempos, como os cabelos. Apesar dos trapos podia-se ver uma boa estrutura do corpo, braços bem feitos, feições regulares, até bonitas. Ela acusava uma deterioração maior nos traços e no corpo. Poderia também ter sido uma mulher atraente, se tivesse acesso ao uso de uma das estéticas do bairro em vez do trato nas ruas. Ambos, com pele clara sob as camadas de sujeira, exalavam um cheiro denso e insuportável que se derramava ao redor deles. Talvez, por isso, raros eram os que se acercavam ou cruzavam o próprio olhar com os pares de olhos que riscavam o espaço sem destino, quando cessavam as conversas ou brigas. Os pedestres costumavam se afastar para a beirada da calçada ou junto ao meio fio, quando se aproximavam de onde eles estavam. Eu também, apesar de sentir culpa por contrariar minha empatia pelos desafortunados das ruas e conhecer o que produz sua existência.

Por um breve tempo não foram vistos.

Um dia, ele voltou, mas não mais no mesmo canto com ela. Junto às grades que ladeavam o espaço ajardinado em frente ao edifício, grande quantidade de trouxas, restos de tecidos, plásticos e objetos que saíam de um carrinho de supermercado e se espalhavam pela calçada. Ele no meio, desgrenhado e imundo, deitado sobre um pedaço de colchão e coberto por trapos. Ao fundo do espaço gradeado, na fachada do prédio os dizeres Banco 24 Horas.

Ela retornou ao lugar de sempre no mesmo dia. Sentada, pernas encolhidas e cobertas por saia longa e de cor próxima ao cinza, apenas um dos braços cobertos pela blusa rota. Voltou a ficar ali, junto ao muro que lhe servia de encosto. Ela e suas trouxas encardidas, com o olhar vazio e a boca desdentada, enquanto carros e pedestres passavam à sua frente. Acima de sua cabeça, palavras que se sobressaíam a desenhos indecifráveis e esmaecidos: Jesus te libertará.

Depois de algum tempo, ambos desapareceram. Quando passo por ali sempre lembro deles e de minhas contradições.

 

Observação: Esta crônica incorporou sugestões do grupo de escrita sob a coordenação de Caroline Joanello e Júlia Dantas nas quintas feiras pela manhã.

segunda-feira, 15 de julho de 2024

Por onde recomeçar?


Estou recebendo jatos de informações sobre o atual momento no nosso Estado, dominada por um sentimento duplo de atração e repulsa, vence a atração, como numa relação tóxica. E minha mente pulula sobre o que ouço, e não consigo me concentrar para escrever. Não encontro um foco, como foi o caso da enchente. Escrevi crônicas sobre o horror que nos assaltou, em tudo podia encontrar motivo para esperar uma mudança de rumo, para uma aprendizagem com o que estava acontecendo. Parece que isso esgotou minha vontade de palavras, porque esta realidade continua a preocupar, ela está longe de estar resolvida, sequer bem encaminhada. Pelas notícias veiculadas, o governo municipal e o estadual mostram a mesma direção, não mudaram sua visão, nem suas decisões, ou seja, não incorporaram qualquer aprendizagem. Todo cidadão consciente teme pelo futuro de nossa cidade e de nosso Estado. Desanimo. Talvez seja este sentimento que barre minha vontade de escrever. A indignação me faz agir. O desamino me encolhe, os pensamentos não se organizam e ocupo o lugar de espera. Lembro da espera de Godot, uma espera interminável. Triste, muito triste. Prefiro-me indignada, mas a indignação não canalizada para realizar alguma coisa já me fez adoecer. Desculpo-me, mas não acredito em minhas desculpas. Coloco-me dúvidas sobre a validade de escrever sobre um tema ou outro, sobre o que interessaria para o leitor o que vai na minha cabeça. Salta-me a lembrança de um trecho do livro de Amós Oz onde escreve sobre a diferença entre origem e começo que Edward A. Said distingue. Para este, origem é da ordem do divino, enquanto começo está ligado ao retroceder para começar de novo, é conexão entre o familiar e algo novo. Justamente aí está o ponto, o familiar que está no poder não aponta para um recomeço? Não vejo o poder público olhar para o que foi feito até aqui, o que nos é familiar, para recomeçar e corrigir para um novo futuro. A situação que continuamos a viver em nossa cidade e no Estado é termos certas zonas, como sempre as mais desfavorecidas, ainda sem seus problemas sequer terem sido encaminhados. Desabrigados são expulsos de ocupações. Para dar o salto para o novo precisa retroceder, como diz Said, e é justamente isso que muitos denunciam não acontecer por parte de quem nos governa. O familiar para esses, não são as causas apontadas pela ciência e pelos ambientalistas, mas seus interesses, o que impede de criar um novo caminho, um recomeço. Os orçamentos continuam os mesmos, as leis contra a preservação da natureza permanecem, as propostas que contemplam mudanças de rumos são recusadas. Oferecem paliativos, remendos.

Ao olhar o que está acontecendo em Porto Alegre e no Rio Grande do Sul, não consigo escrever sobre algo novo, sobre um recomeço, só posso desejar e apostar na força de quem batalha nos legislativos – embora minorias – e na sociedade civil, de quem denuncia e não se rende. Ali podem estar as sementes de algo que ainda não se vislumbra. Por isso, é urgente que as próximas eleições sejam levados nos representar os que defendem uma agenda de novos rumos de governança.

segunda-feira, 3 de junho de 2024

Águas de maio


Na noite que passou coletei uma bacia de água da chuva no terraço do edifício. Não queria que minhas plantas secassem, mas usar a água da torneira não era uma opção. De jeito nenhum. Enquanto despejo água nos vasos, ouço a chuva que não para, o gotejar é intenso, sei que novas ruas estão sendo invadidas pelas águas. A estação de tratamento de água à qual pertence meu bairro foi também tomada pela enchente, temos que racionar a que está na caixa do condomínio, não se sabe quando voltaremos a ser reabastecidos. Isto eu escrevi há cerca de um mês atrás.

As águas foram enchendo os rios, ultrapassaram as margens, encheram as ruas, inundaram as casas, grande parte do Estado ficou submerso. A enchente superou todas as já ocorridas, inclusive a de 1941 na capital. Centenas de milhares de pessoas foram desalojadas, muitas sem saber para onde ir.   

Ouvir a chuva sempre me deu prazer. Este prazer foi sumindo pelos estragos que ela está causando, o medo foi ocupando seu lugar. O som da chuva nas janelas era música, agora é anúncio de dor, e passo a desejar que se acalme e se vá logo.

Quando eu era jovem, os temporais eram esporádicos, um descontrole eventual da natureza. Mais tarde, como professora de geografia, eu explicava que temporal e granizo na primavera no nosso Estado tinham repercussão na colheita da uva no verão, porque era época de  surgimento e de crescimento dos seus cachos. O grau de açúcar da uva, dependia da insolação e da quantidade de chuva, quando os cachos estavam amadurecendo. O que eu falaria hoje? Como enfrentam tudo isso os agricultores? Há muito tempo somos avisados de que chegaríamos a isso, a essa normalidade de excessos de chuva. Eu explicava como se originavam os ventos alísio e contra-alísios, o mecanismo de seus movimentos. Um mecanismo que funcionava regularmente nas zonas tropicais e subtropicais, o avanço ou estacionamento de massas de ar de alta ou baixa pressão poderiam alterar o funcionamento do sistema com diferenças bruscas de temperatura, ocorrência de vendavais, de temporais, de granizo. Eram ocasionais em determinadas épocas. Agora os desajustes tornaram-se a normalidade.

Quantas vezes tomamos banho de chuva em brincadeiras gostosas. E a cena em Cantando na Chuva? E a delícia de Chuvas de Março na voz de Tom e Elis?  E em Rain da Madonna? Em quantas outras letras de músicas e poemas a chuva nos remete a caminhos criativos e a sensações. Quantas narrativas existem sendo a chuva moldura de sentimentos.

No festival de Sanremo em 2023, Mr. Rain chega a finalista com sua música Super-herói, que não fala de chuva, mas o cantor declara só conseguir escrever quando chove. Imagino o clima pródigo de criações que envolve o cantor tendo a chuva como estúdio.

Há muito tempo nos chegaram os avisos da natureza, agora ela cansou de avisar e, a cada previsão de chuva, os perigos se concretizam. Infelizmente, prevalecerão os sobressaltos para alguns e os sofrimentos para outros as fontes de criação, enquanto não produzirmos formas de consertar o que estragamos. Outra moldura para nossos escritos.

Maio é um mês de outono, ficará na história de Porto Alegre e da maior parte do nosso Estado como mês trágico. Já não há estações, nem épocas de chuva e de estiagem, mas períodos de enchentes e de secas. Até agora o negacionismo prevaleceu, tomara que ele seja enfrentado sem mais protelações, e que ouçamos as vozes mais sofridas com o último colapso para começarmos um novo modo de viver, não apenas mudarmos algo aqui e ali para ficar tudo como está.

Enquanto isso nos embalamos e nos inspiramos nos versos: É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma / É um belo horizonte, é uma febre terçã / São as águas de março fechando o verão / É a promessa de vida no teu coração.

 

terça-feira, 14 de maio de 2024

A medida da água


A palavra se escondeu de mim nestes últimos longos dias. Ela voltou há pouco e está me ajudando a elaborar o que está acontecendo e a dor imensa que causa.

Há quem se cerque de um ou mais animais de estimação dentro do apartamento. Há quem prefira se cercar de plantas. Estou no segundo caso.

Gosto de olhá-las todo o dia, tirar as folhas secas, ver quando aparece alguma flor, no caso das violetas e orquídeas, ou quando aparecem as folhas novas e o verde muda de tonalidade à medida que cresce. E vejo elas se virarem para a luz da janela. Nem todas eu sei o nome, nem todas querem a mesma quantidade de água, o que fiz antigamente e perdi algumas delas. As violetas precisam de umidade, mas menos que outra planta parecida com elas, com ramos que se esparramam e descem do vaso. Tenho uma folhagem com desenhos lindos que parecem feitos por um artista, disseram-me que é planta do mato, quer a terra sempre úmida, suas folhas se juntam num feixe vertical à noite e se abrem com a luz do dia. Lindo de ver o movimento das plantas. E as espadas de são Jorge (tenho outras parecidas, com outro nome), também precisam de bastante água, elas seguem sempre na vertical independente do lugar onde estejam. Precisa dar bem menos água para as orquídeas. E para os cactos nem se fala (ainda não consegui acertar, já afoguei alguns deles). Depois de ter dado água demais para minha zamioculca, e depois de ver mais de um broto definhar, aprendi que ela precisa de pouca água, até menos que as orquídeas. Custei a dosar a água necessária para cada espécie.

Nos dias que estamos vivendo, a água está presente em cada momento, diante dos olhos, nas preocupações, na falta, nos pesadelos. Ela nos faz repensar o passado e nos empurra a planejar o futuro. Vivemos um presente que joga a conta dos nossos erros. Quando muitos de nós ficaram sem água potável e, alguns como nós, só precisaram racionar, recolhi água da chuva para as minhas plantas. A ironia de termos água por todo o lado, chuva forte e incessante, rios transbordando e sem ou pouca água na torneira.

Aprendi no ensaio e erro. Deveria ter buscado informações para aguar corretamente minhas plantas. Por descuido, por achar que sabia, por ignorar informações (algumas não lhes dei importância), enfim, negligência com algo que sempre afirmei gostar muito. Depois de bastante tempo, talvez meses, vejo dois brotos no vaso da zamioculca. Um deles no mesmo lugar do outro que não deixei crescer. Fui acariciá-los de leve, com cuidado, senti sua superfície lisa e fria de folha. Agradeci sua vinda. Lembrei os que foram atingidos e lhes desejei também renascer mais fortes.

Estes instantes em que escrevo, os primeiros durante os quais consigo chegar ao teclado, são um bálsamo à dor pelos amigos atingidos e à de todos os que tiveram a perda de alguém ou de coisas materiais. Um mundo de horror diante de olhos impotentes que sequer podiam transformá-lo em palavras.

Estou na torcida para que os que estão no poder tratem do sofrimento de todos com o cuidado de seres delicados e frágeis que precisam de alguma forma renascer como brotos no terreno social. Ressalto “no poder”, porque há milhares de voluntários que fazem o que podem, desde os primeiros momentos, para ajudar os que precisam independente de erros dos outros. Trabalham movidos pela sensibilidade diante da dor do outro.

Há uma chuva de narrativas, não só de gotas de água, sobre a ação humana desastrosa com nossas matas e rios. E não é de agora. Não foi por falta de aviso de cientistas e estudiosos da natureza próxima e distante. A palavra foi teimosa e  circulou por inúmeros espaços e ao longo do tempo e não lhe deram ouvidos.

Por tudo isso, agora o perigo está na falta de seriedade e transparência de quem foi surdo aos apelos da ciência. Como farão a aplicação dos recursos que estão chegando de todos os lados? Não há mais lugar para a surdez e cegueira diante da realidade, nem para ensaio e erro, nem para maracutaias.